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domingo, setembro 01, 2019

RAMAIS FERROVIÁRIOS "SEM PISTAS"

A caminho da sede do Sporting de Luanda, que já foram Leões no Girabola, há uma amostra da antiga ferrovia que saia do Mbungu, espraiava-se pela Marginal e rasgava a cidade baixa até à Mayanga. Outro ramal, saído do Porto, ia "visitar" a Ilha de Luanda. São tempos que apenas a idade avançada dos que o viram descreve ou os livros quase já sem cor.
Outra rota, não menos importante, passava pela Boa Vista e rumava à Funda. Pelas bandas da Petrofina ainda conheci, nas traquinices dos anos oitenta, os carris que, aos poucos, foram sendo recolhidos para suportar as coberturas de casas precárias.
Da Estação do Museke, entre Rangel e Kazenga, partia um outro ramal que seguia ao Kikolo, sendo o seu término a moagem de trigo. Nesse comboio, com suas carruagens de madeira, ainda viajei variadas vezes em busca de "sabão cocó", restos da Induve que os aldeões (à data) recolhiam, fundiam e acrescentavam um pouco de água para conferir-lhe uma forma mais aquosa. Chegou a ter vedação até à cervejeira do " cuco". Porém invadido pelos deslocados , em 1992 e anos subsequentes, foi completamente desmantelado, dando lugar à casebres e edifícios no seu traçado. Não resta sequer história para contar aos filhos de hoje.
Entre o nó rodoviário Ndalatandu-Ngulungu partia outro ramal. Tinha como vocação o transporte, essencialmente, de café que se colhia a toneladas vastas por aquelas paragens.
À semelhança do homólogo Caminho-de-ferro do Amboim, que partia do Porto Amboim à Gabela, o ramal do Ngulungu vai desaparecendo do mapa visual. Hoje, os carris e travessas são, semanas sim meses também, roubados para suportar os tectos das mabatas e ou vendidos aos sucateiros de Luanda. Daqui a nada, se nada mais se fizer, para impedir que a história se apague, nada sobrará, à semelhança dos ramais do Kikolo, Mayanga, Ilha de Luanda e Funda.
Uma atenção é reclamada ao oficialmente extinto Caminho-de-ferro do Amboim (ainda constava dos manuais do ensino primário da década de oitenta), cuja visita e retrato me estão na vontade e pela garganta.

Texto publicado pelo Jornal de Angola, Agosto/2018

quinta-feira, agosto 01, 2019

KASIMBU DA MINH'INFÂNCIA

Setembro era o mês do retorno à escola. Por isso, Maio, mês do início do Kasimbu (cacimbo ou estação seca) que se estende até Agosto, era o mês das provas de conhecimento e exames finais.

Os que atingissem a idade da circuncisão (no Libolo, era normal dos cinco aos dez anos, podendo acontecer, excepcionalmente, antes ou depois desse intervalo) estariam a contar os dias (se cônscio disso) ou à espera de serem surpreendidos pela chegada do "mestre da faca afiada". Os mais crescidinhos, já talhados para a caça, começavam a preparar os instrumentos de caça por queimada de capim, a alimentar os cães e a consertar as alparcatas.

Os que se tenham dado bem na escola, alguns eram presenteados com viagem a Luanda ou outra capital qualquer: a sede comunal, a sede municipal, a capital provincial e se os pais mais pudessem e quisessem, a capital do país. E quando voltasse à aldeia natal, era recorrente dos viajantes a expressão:
- Ewo, mu Luanda Uwabeee! (quão linda é Luanda!)
E contavam-se cenas de roer as unhas para quem nunca tinha deixado a aldeia nativa, umas verdadeiras e outras de enfeitar a línguas e os ouvidos da audiência.
- Quão linda é a cidade!Com a realização da picadas e depois das queimadas, iniciava-se a preparação do ano agrícola. Preparar o "kibembe" (terreno que esteve em sistema de pousio) para o milho, a batata-doce, o feijão e a jinguba. Ainda durante o kasimbu (cacimbo) os deltas dos rios e outras partes mais baixas (sem que haja rios) chamadas "kitaka ou naka" ganhavam o verde da rega. O cultivo de hortaliças acontece com maior intensidade no período de estiagem para os campos altos e rega nas zonas ribeirinhas. E o milho, a jinguba, a batata, o tomate, a cebola e alho, enfim... tudo volta, mesmo sem chuva!

segunda-feira, julho 01, 2019

À CAÇA DE LUZ E MAKEZU

Em 1978, "Ano da agricultura", já António  Fernando e Manuel Carlos "Xika Yangu ou Raimundo" (primo dele) haviam abandonado a região  de Kuteka, nas margens do Longa, para se fixarem na Fazenda Israel, próximo da Estrada Nacional Luanda-Huambo, gerida na altura por João dos Santos "João Kitumbulu" (tio de minha mãe).
O meu mano Arnaldo Carlos, filho de Xika Yangu, diz que "os dois papás desde a independência que juntavam ideias para se fixarem O mais próximo possível da estrada", sinónimo  de luz e avanço económico.
 
A rodovia asfaltada, concluímos hoje, permite proximidade com os grandes centros. Permite produção autossuficiente, com excedentes colocados à venda, renda, poupança e aquisição de bens industriais. Nesse quesito, o soba Xika Yangu já tinha bicicleta e o filho mais velho, Jorge Kakonda, uma mota Suzuki.
A aldeia de Mbangu-de-Kuteka (perto de 30 km de picada) ou a fazenda nas matas de  Kitumbulu, onde meu pai vivia junto do seu progenitor, nada davam senão a mesmice da mandioca e derivados, pesca e caça abundantes e o café que foi, aos poucos, perdendo peso e valor.
Instalados na fazenda Israel, António Fernando empregou-se como braçal, juntando-se aos contratados ovimbundu, e Xika Yangu tratorista, uma profissão respeitável no trabalho agrícola.
O passo seguinte, conta ainda o mano Arnaldo, seria abandonarem a fazenda e constituírem uma aldeola familiar, no Limbe, perto de quatro quilómetros da fazenda, onde reconstituiriam suas vidas. E assim fizeram em 1980.
A viver no acampamento, privei com outros meninos, filhos de ex-contratados ovimbundu, e com eles aprendi a língua e os hábitos de seus papás, pois em nossa pequena comunidade ambundu o Português era exigido a todo o tempo, já que estava à espreita a entrada para a pré-kabunga.
Assim, conheci a Pedra Escrita da Munenga (que nada tem a ver com a de Ndala Uzu que visitei uma década mais tarde) como suporte que continha/contém um anúncio publicitário da "Estalagem Boa Viagem", que fica no Lussusso, pertença  da família Olímpio, descendentes de São Tomé e Príncipe (conheci um dos donos em 1990, vivendo no Prenda, junto à Clinica/Hospital com o mesmo nome).
Certa vez, estávamos ainda no ano de 1979, "Ano da Formação de Quadros" (e eu ainda não frequentava a escola do povo), Arnaldo Carlos, Sabalo Kambota (primo Zito), Augusto João "Kapayu" mais tarde conhecido como "Gasolina" (filho do gerente da fazenda) e talvez o tio Beto Santos ou Zé Borracha (sobrinho da avó Emília, a mãe do tio Gasolina) decidiram ir à caça de "makezu" ou canta-pedras (uns animais roedores com três  dedos, do tamanho de um gato bem nutrido) no gigante paleolítico conhecido como pedra escrita. Era tempo de capim de altura intermédia,  Fevereiro talvez.
Munidos de cães de caça,  zagaias e flechas e outros utensílios para desalojar os animais de suas tocas, conseguiram uma boa caçada. Ao mais novo, no caso eu, cabia levar alguma das peças abatidas.
De regresso à casa (Fazenda Israel), perto de dois ou três quilómetros, o passo apressado e faminto de adolescentes descompassava com o lento, faminto, sedento e cansado do infante que, aos poucos, os foi perdendo de vista e na distância.
Como perigo não havia, pois sobre guerra nem na rádio ouvíamos ainda falar, eles foram na galhofa andando e pensando que o rapaz os seguia e cedo a eles se juntaria.
Postos no acampamento, Arnaldo e Sabalo (sobrinho da minha mãe), Kapayu e o primo Beto na casa particular de seu pai (havia a vivenda da fazenda que só se abria para trabalho) terão  notado a minha ausência prolongada.
Até hoje, nem o meu mano e amigo de todos os tempos Arnaldo, nem Kapayu que era um tio-amigo, nem o primo Zito (os dois últimos  já não vivem), ninguém me confidenciou se terão  levado alguma reprimenda dos mais velhos. Só sei que fizeram caminho inverso, procurando por mim, encontrando-me dormitando à sombra de um arbusto que crescera no então "campo aviação", meio-caminho entre a "pedra escrita" e a Fazenda Israel (rebaptizada no pós-independência por Fazenda Hoji-ya-Henda). A sede, a fome e o cansaço foram tão fortes que força não sobrara nas pernas e pés descalços sobre areia quente e movediça da tarde ensolarada.

 Quanto à aldeia de Pedra Escrita, que hoje se mostra  junto ao gigante paleolítico, foi obra do comandante António Infeliz João (filho de João dos Santos ou João Kitumbulu) que perante a dispersão pelas lavras dos antigos trabalhadores das fazendas da região e face às incursões dos militares rebeldes (Unita) que entre os ovimbundu encontravam fonte de abastecimento logístico e informações sobre a movimentação das forças armadas angolanas (FAA), decidiu, à força, juntar todos os povos dispersos em um conglomerado no território da fazenda que mais tarde passou a ser sua. Assim nasceu, no início da década de noventa, Séc XX, a aldeia que é das maiores da comuna da Munenga, juntando, para além de povos recuados há muito do Ki(s)songo, Kis(s)ala, Longolo e outras regiões distantes, aldeões de Kalombo, Tumba Grande, Kipela, Kototo e Kuteka.

sábado, junho 01, 2019

SONGO NA ESTRUTURA DA ALDEIA RURAL TRADICIONALISTA

(tentativa de descrição da divisão político-administrativa da aldeia rural tradicionalista)

A vertente "positiva" da divisão político-administrativa do Estado angolano, apresenta-nos o país subdividido em regiões (norte, sul, centro e leste e costeira/oeste), províncias, municípios, comunas/distritos urbanos, cidades, sectores/zonas, quarteirões, aldeias, etc.
Olhando para a organização do que foi/é o potentado de Kuteka, nas margens do Longa, abrangendo territórios adstritos à comuna de Munenga (Libolo) e comuna de Dala Cachibo (Ndala-ya-Xipo, município da Quibala), noto que o soberano (designado rei) exerce poder sobre as aldeias de Hombo, Mbango, Kabombo, Kipela(?) e Mbanze (a capital), podendo cada aldeia ter outras aldeolas (unidades dependentes e de menor aglomeração populacional), podendo ainda subdividir-se em sectores residenciais ou zonas, também designadas (no caso de Mbango) por "songo" (comunidade afectiva).
 
Sendo "songo" a menor unidade de organização territorial nas comunidades rurais tradicionais, pode equivaler, quando comparada com a comunidade urbana, a bloco ou quarteirão.
 
Na antiga aldeia de Mbangu-yo-'Teka (Mbangu-de-Kuteka), Kinhendu, Kitinu, Kabota e Zawlena Kilombo, todos parentes próximos eram do "songo/quarteirão" de Ketele, enquanto outros aldeões como Kyuma Albano eram do Nguya.
 
O "songo" é/era fundado na base de um parentesco mais intrínseco (consanguinidade e/ou amizade pura), credo (religioso ou animístico), origem migratória, ocupação socio-profissional (pescador, caçador, etc.), entre outros quesitos, não estando dissociado de um todo que é a aldeia, unidade administrativa do potentado (reino).
Nessa reflexão/busca, trago à colação um extracto do cancioneiro popular que cita:
"Bu songo yeto twoso twatata, kabwete otuxitila, so tulizek'ayo" (no nosso sector/comunidade todos somos homens, não há quem moa fuba, por isso passaremos noite com fome).
 
Um exemplo da ex(pers)istência de "songo" é encontrado na aldeia de Pedra Escrita, no Libolo, que cresce por via da migração de povos de aldeias afastadas da via asfaltada para essa, com destaque para os povos de Kuteka que, regra geral, erguem as suas habitações ao lado dos primeiros emigrantes da mesma procedência. Assim, quem se dirige à Pedra Escrita e procure por alguém que tenha nome redundante é questionado sobre a origem do procurado.
 
Explicando, por exemplo, que "procura pelo domingos do Mbangu" torna-se fácil ao "cicerone" percorrer mental e visualmente o "mapa da aldeia e suas sub-unidades/comunidades" e passar uma informação assertiva.
Voltando ao "Estado" tradicional de Kuteka, verifica-se que o soberano (Kañane ou Phela) exerce poder sobre a população das aldeias acima citadas, e estas possuem jurisdição sobre as terras (cultiváveis e não agricultáveis, montanhas, florestas/muxitu), rios, coutadas para caça, etc. Os limotes do potentado são físicos (acidentes naturais) mas conhecidos por toda a comunidade, sendo sua invasão por estranhos (sobretudo em termos de caça) passível de multas.
O povo desse potentado internaliza aspectos comuns como língua, credos e um sistema de jurídico-administrativo próprio.
Importa aos historiadores contemporâneos resgatarem esses relatos histórico-sociais e político-administrativos das nossas comunidades para que se possa compreender a genesis da estrutura e organização das comunidades rurais tradicionalistas do nosso país.

sexta-feira, maio 03, 2019

A CATANA E O HOMEM DO CAMPO


Na cidade tornou-se raro ver um homem, mesmo idoso, sem o seu celular. Até a bíblia, inseparável dos homens de idade nos dias de culto e missa,  vai ficando para trás pois o pequeno e inteligente aparelho consegue incorporar o velho telefone de discagem, o rádio receptor, o leitor de música,  a bíblia, o hinário e a harpa, a máquina calculadora, o medidor de passos e da tensão ou ainda a bússola, o termómetro, a balança e o relógio. A máquina de escrever e as de fazer fotos e filmes também estão dentro do celular. E é isso que confere alegria ao homem da cidade que fica doente se, por distração alguma, se vir distante do seu brinquedo facilitador em quase tudo.

No campo é outra coisa. Os capinzais altos nos atalhos, as árvores derrubadas pelo vento e pela chuva, as cobras procurando sol nos descampados por onde o homem passa, as feras que procuram no homem o seu mata-fome,  o cultivo, a poda, a colheita, a auto-defesa e outras valias para a vida campestre remetem à catana a importância transcendental e inquestionável do dia-a-dia.

No campo, um homem sem catana não é Homem. É amador, desprevenido e vulnerável. Todo o perigo é com ele e de tudo quase se pavoneia.

Em mãos de homens do campo, encontramos catanas de diferentes figurinos: com extremidade dianteira curva (semelhante à usada no 4 de fevereiro/61 e por isso assim designada), a rectilíneas, umas mais largas do que outras diminuídas pelo afiar permanente da lima ou pedra, sendo transportadas na mão firme ou à cintura.

A catana para o homem campestre é como a tradicional caneta e bloco de notas no bolso do colete de um bom jornalista que, mesmo usando gravador de som, nunca põe de parte a memória cerebral (ouvir, interpretar e reter) e o seu bloco de notas, coisas que pouco se vão ensinando ou que a nova geração despreza, correndo, com isso, riscos desnecessários.


segunda-feira, abril 01, 2019

PUMBA: ARTEFACTO DE CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

É à volta da lavra, para impedir a invasão de pacas, coelhos e semelhantes, que se coloca(va) uma cerca, normalmente galhos de árvores. As pumbas eram (são) colocadas em aberturas deixadas a propósito como portas de entrada, transpondo a cerca. Essas armadilhas também pod(iam)em ser montadas em caminhos habituais dos animais. São construídos com pedaços de troncos de árvores dispostos paralelamente, suportando uma carga que é detonada pela piscadela dos animais num gatilho colocado à superfície. O kabolo entre os ambundu do Libolo e Kibala (pumba) não escolhe alvo. Basta exercer pressão sobre o gatilho. O cão pode ser vítima. A cobra também. O termo "unyuna" significa ir visitar as armadilhas, de manhã cedo. É uma tarefa diária percorre a fronteira sertaneja da lavra para visitar os artefactos. E havia dias excelentes em que a kizaka ficava aposentada.
Para além da pumba, existe outro artefacto maior, a "kindamba". É quadriculado, mais largo e com mais peso. Colocado onde normalmente os animais vão roer terra por alegadamente conter NaCl (sal). O artefacto quadriculado suportado por uma baliza (dois paus verticais e um transversal com duas varas que se estendem da "baliza" ao gatilho, na parte inferior traseira. Para que a frequência dos animais não cesse, normalmente os mais velhos costumam deitar água salgada ou mesmo sal nos locais onde os animais vão roer terra, alegadamente por conter sal. O engatilhamento é semelhante ao da pumba.

sexta-feira, março 01, 2019

QUATRO NOTAS SOBRE A LÍNGUA DOS KIBALA

Quando a 9 de junho de 2012 o político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à Ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para proceder a troca da designação erroneamente atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola Yetu, não o fez sem razão. Havia sido realizados, sob sua governação, dois encontros em que se discutiu a problemática linguística na província.
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu"(nosso Kimbundu) ou Kimbundu do Kwanza-sul, indo de encontro àquilo que a população autóctene responde quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala...(FALO KIMBUNDU, FALO O NOSSO KIMBUNDU, KIMBUNDU DA KIBALA).

Na senda do debate que vimos provocando nas redes sociais e nos jornais convencionais (Cruzeiro do Sul, 3-10 Maio 2008, Jornal Cultura, 2016, www.olhoensaios.blogspot.com, etc),  o meu conterrâneo Tony Mora, avisado por um outro "conterra" e amigo comum, reagiu com hombridade aplausível, por me ter notificado, a que retiro e partilho 4 pontos para uma nova reflexão. Diz, o Tony Mora, no texto que me remeteu que:
1- O termo ngoya, como designativo da língua falada em grande de parte do KS, foi introduzido na rádio provincial em 1993.
2- As tentativas para gravar o programa com a designação Kimbundu não surtiram efeito.
3- Sob a governação de Serafim do Prado, realizaram-se dois encontros para analisar as línguas faladas no Kwanza-Sul.
4- ... Kanyanga (um intruso no debate?) surgiu apenas em 2018...
Perguntas:
1- a) Por que omite a primeira rádio a emitir um programa com esse nome que foi a VORGAN em finais dos anos 80 do século XX?
b) Que estudos fizeram na altura do lançamento do programa para concluir que a língua não era Kimbundu mas sim ngoya?
c) O Ministério que atende pelas questões linguísticas foi ouvido em 1993?
2- a) Por que não conseguiram, em 1993, lançar o programa com a designação Kimbundu?
b) É a rádio quem determina a autonomização das línguas em Angola?
3- a) Sabia que Serafim do Prado escreveu, a 9 de Junho de 2012, à Ministra da Comunicação Social (a mesma pessoa que atende hoje pelo pelouro da Cultura), pedindo a troca da designação do Programa, retirando a expressão ngoya, por considerara que ela não era aceite?
4-a) É a idade que determina o conhecimento?
b) A discussão sobre a designação da língua que se fala no Kwanza-Sul é matéria exclusiva dos que surgiram em 1993?
5- Não estaremos perante um caso de "investigar" para justificar o nome (ngoya) quando a investigação devia ser prévia à criação do programa?

Sem demérito àquilo que os signatários do “anguoia que significa vai por aqui”(?), publicam no Jornal de Angola e retomado pelo Portal de Angola a 15/07/2011, uma melhor compreensão do assunto passaria por fazer um levantamento com metodologia aplicável à ciência social nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul, como o fizeram Héli Chatelain, Maia, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.

O dinamismo das línguas pode levar algumas variantes à emancipação, aí onde as correntes forem mais heterodoxas do que ortodoxas. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes do ngoya para a designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul. Há, por isso, que separara as águas e definir o que se pretende: autonomização ou redesignação?

Como nota final, convido o (a) leitor (a) a colocar aos Kwanza-sulinos (norte e centro) maiores de quarenta anos as seguintes indagações:
1- Ouve rádio com frequência?
2- Ouve a rádio Kwanza-Sul e a rádio Ngola Yetu?
3- Quando começou a ouvir o termo ngoya como língua que se fala no Kwanza-Sul?
4- Antes disso que língua falava?
5- A língua que se fala no Kwanza-Sul (com excepção do Seles, Kassongue e Sumbe) é Kimbundu, Umbundu ou Ngoya?
 

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

PESCAS FLUVIAIS NO LUBOLU E KIBALA

Os ambundu do Kwanza-Sul, província angolana cercada por Luanda , Benguela, Huambo, Bié, Malanje, KWanza-Norte e Oceano Atlântico, são tanto agro-pecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta alimentar, de si já rica, visto serem povos há muito sedentarizados.
A pesca é feita, normalmente, em rios, visto inexistirem grandes chanas e lagoas na região. Rios como o Kwanza, Longa, Ñya, Phumbwiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O ngwingui/phonde (bagre grande), olundu (bagre pequeno) ikusu/ikele (tilápia), otimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hala (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.
Os povos Lubolu e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior captura. Mudam os meios ou instrumentos, em função do caudal e da estação.
Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha, quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolu e Kibala também usam as nassas (munjya/muzwa), cestos (kwalu) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas à água (kwimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos do rio isolados pela seca. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (wanda) e armadilhas de redes.
Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas. A garotada aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo um exercício prazeroso e relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas (matalhi/matadi) confeccionadas à base de argila cozida. As nassas e cestos são feitos à base de fibras de junco ou de palmeira.
Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolu e Kibala jogam também com a posição da lua, pois acreditam que "enquanto mais luz houver, menor serão os resultado da fainas".
Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma equitativa entre as famílias participantes, compensando-se os menos afortunados.
A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.
  

terça-feira, janeiro 15, 2019

A CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

           
Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolu e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de trinta e cinco , mas que se mantêm intactos fruto de idas constantes á região e recomposição dos traços e factos culturais dos povos em descrição.
Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolu (Libolo) e  Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

No Lubolu e Kabala, tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (nvula) que é mais longa (9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) cacimbo. É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (uximika mwízo).
As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, em teoria, "pertença" do soba/rei. O direito consuetudinário impõe limites geográficos não muito tangíveis, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do soba/rei, deve atear fogo ao capim para a prática da caça.
É o soba ou são os mais velhos da comunidade, competentemente autorizados, a quem cabe delinear o programa de caças durante os três meses de tempo seco.
Antes de se fazerem ao mato para a caça colectiva, são preparados minuciosamente os instrumentos: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombwa (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais de pequeno porte e carne limpa), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungwa (cone feito de malha metálica), mbwety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só, perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.
Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço a arder tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas e outras armadilhas e artefactos, passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.
Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a limpeza e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que seja o seu porte, um pedaço de carne era/é destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Utona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.
Ao (mwen'axi) "dono da terra" (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.
Existe entre os Lubolu e Kibala outras formas de caçar. No período chuvoso ou impróprio para queimadas, usam-se armadilhas metálicos (otwela), rudimentares como a pumba (obolo/indamba), laços (nzomba) e ainda armas de caça. Aqui, sendo actos individuais, o produto da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o mwen'axi e familiares directos.
As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.
Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras-de-leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras mangustos e outras espécies são abundantes e, por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos, jacarés  e onças também habitam a região.
As carnes de moma (jibóia) e de nguvo (hipopótamo) são igualmente apreciadas pelos ambundu do Kwanza-Sul. A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.
Soberano Kanyangta


sábado, dezembro 15, 2018

A CIRCUNCISÃO ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

Tenho-me apoiado na coragem do Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que tenho como guia espiritual neste “reencontrar origens” e procuro dedicar-me à causa que é "trazer a verdade sobre os Ambundu do Kwanza Sul".
 Tento, nesta edição, abordar de forma vivencial a circuncisão entre os Ambundu do Kwanza-Sul (Lubolu, Kipala, Kisama, Hako, Hepo, Kilenda, Sende e outros).
Ao contrário dos Bakongo que, por norma, efectuam a circuncisão à nascença, os povos do Lubolu e circunvizinhos mandam os rapazes para a "casa de água" (onzo-y-mema) na adolescência ou na segunda infância, aí entre os seis ou sete aos catorze anos de idade.
 Ao acto de circuncidar (extração do prepúcio) designam "utina". Se nas sociedades modernas tal cirurgia é efectuada por um médico ou paramédico, nas comunidades tradicionalistas é chamado um "mestre" (mesene) para o fazer. Normalmente, o "mestre" fá-lo a sangue-frio (aconteceu comigo em 1982) e ainda se assiste em determinadas localidades onde faltam enfermeiros.
Aos olhos dos garotos, o "mestre" é tido como um "individuo de olhos ensanguentados", talvez devido à enorme quantidade de sangue que fez derramar e que seus olhos já viram. É um individuo muito temido pelos rapazes incircuncisos que se apavoram à sua passagem, sendo igualmente respeitado pelos pais. A enfrentá-lo ficam apenas aqueles que não possuam outra saída senão o "desafio de vida ou morte" e que lhes dará um novo estatuto social na comunidade.
A operação acontece, normalmente, junto a um ribeiro e isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os circuncidados, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e os cadetes. O "kaporroto de primeira" serve de esterilizante da navalha do "mestre", depois de cada operação cirúrgica.
Um ajudante ou um parente próximo dos mancebos ajuda o mestre, agarrando as mãos e prendendo igualmente as pernas do “paciente”, imobilizando-o.
Terminada a operação, o cadete senta-se numa pedra ou num tronco onde deixa escorrer o sangue da cirurgia e lhe são ministrados alguns “milongos” à base de folhas medicinais. Durante os curativos são ainda usados medicamentos como o mercúrio-cromo, tintura de iodo e a penicilina previamente adquiridos pelos pais dos petizes.
O período que demora a cicatrização é também de aprendizagem de várias artes e ofícios, como: caçar e pescar e são também transmitidas aos noviços noções sobre a sexualidade, vida familiar e social, bem como a fabricação de armadilhas e utensílios diversos.
Njine é a designação atribuída ao pénis circuncidado, ao contrário de Kifutu (incircunciso). Um homem que tenha “passado pela faca” ganha na sociedade um novo estatuto. Torna-se um homem maduro. Por isso, a própria sociedade condena determinadas acções como: tomar banho desnudado e em público, pois o individuo circuncidado é tido como um homem que deve ser respeitado e diferente dos outros rapazes, ainda que da sua idade, mas que não tenham passado pela “casa de água”.
A alimentação dos cadetes é feita de forma cuidada e selectiva. Não se alimentam de ervas e só pessoas que não mantenham relações sexuais durante o “aquartelamento” podem cuidar quer da alimentação, quer da guarda, dos circuncidados. Ovos e sal (por excesso) estão fora da dieta. Dizia-se e ainda se diz que "não se come tão bem e do melhor do que no acampamento dos circuncidados".
Só depois de curado o último dos mancebos é que o grupo regressa à aldeia, mas antes, os "novos homens" da comunidade procuram encontrar uma bananeira, em cujo caule fazem uma perfuração em que enfiam a "pontinha" do membro (diz/ia-se que era para escurecer a cicatriz). Em zonas com existência de imbondeiros o orifício é/era feito no caule desta árvore (a lenda atesta que tal acto dá grandeza ao órgão reprodutor.)
No fim de tudo, quando cumpridos todos os passos e rituais, uma zagaia (arco) e uma flecha (honji li musongo) são entregues a cada um dos cadetes que perfilam e caminham até à aldeia... Cada mancebo exercita disparando a flecha contra a porta de casa (podem ser várias casas indicadas) e são-lhe dadas algumas oferendas.
É ponto assente que ao longo dos anos muitos cadetes não resistiram a hemorragias e sucumbiram, o que tem levado as comunidades a encontrar um meio-termo entre o moderno e o tradicional. Um enfermeiro, em vez de um artesão; lâminas individuais em vez de uma faca colectiva; anestesia em vez de a sangue-frio; entre outras inovações de que sou apologista, mas sem que desvirtue a vertente social e educativa da circuncisão.
Não há, nesta região, registos orais sobre a ocorrência, mesmo em períodos muito recuados, de incisão genital feminina, tão pouco de acampamentos de iniciação de raparigas que, entretanto, se casam muito cedo, comparativamente às meninas dos centros urbanos. A sociedade rural Libolense e aparentada é permissiva à poligamia, condenando, porém, veementemente o adultério feminino e a poliandria que são sancionados com avultadas multas pecuniárias ao homem infractor.
O Soba, entidade administrativa da aldeia, também administra a aplicação da justiça comunitária com base no direito consuetudinário.
Os tempos modernos são de busca de combinação entre o moderno e o tradicional, encontrando-se já os sobas a trabalhar lado a lado com os secretários de aldeias, os administradores comunais e os chefes das esquadras policiais mais próximas, buscando um equilíbrio entre o direito positivo e o costumeiro.

Suporte:
VINTE E CINCO, Gabriel: Jornal de Angola, 28/12/2008