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quinta-feira, novembro 03, 2022

CAUSAS DO BI-LINGUISMO ENTRE OS AMBUNDU DO KWANZA-SUL

 (Constructo

Nota prévia: a expressão bilinguismo, aqui utilizada, exclui da abordagem a língua portuguesa que é hoje falada e compreendida por mais de 71% dos angolanos¹. A análise cinge-se a línguas locais de origem bantu.

Um inquérito feito por Tomé Grosso entre os povos do norte e centro do Kwanza-Sul, para aferir que língua falam, indica a existência de bilinguismo, havendo habitantes de zonas predominantemente ambundu que também falam Umbundu e, eventualmente, pequenas bolsas ovimbundu, em território de maioria ambundu, que também se comuniquem alternativamente em Kimbundu. 

Do latim bilinguis, bilíngue é um adjectivo que se utiliza em referência a quem fala duas línguas. O termo bilinguismo, aplicado ao indivíduo, significa a capacidade de expressar-se em duas línguas. Numa comunidade, é a situação em que os falantes usam duas ou mais línguas alternadamente (WEINREICH, 1953). 

Espreitando o censo de 2014, verificamos que a língua portuguesa é falada por mais de 71% (média), sendo que nas áreas rurais a percentagem média de falantes baixa para 49% (Censo 2014). Por outro lado, o Censo 2014 aponta as províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Sul, Kwanza-Norte e Malanje como a região de predominância ambundu, constituindo-se em 7,82% do total da população angolana (pg. 51), não afastando a existência, nesse espaço geográfico de Angola, de falantes de outros idiomas de origem bantu, com predominância aos ovimbundu. 

No seu conjunto, os ovimbundu constituem 22,96% da população angolana, sendo o Umbundu o idioma mais falado e dos povos que, pelas razões que elencaremos abaixo, mais emigraram para outras regiões, mantendo, entretanto, quase imaculada a sua cultura. 

- Por que haverá bilinguismo entre as populações do Kwanza-Sul? 
No inquérito efectuado para a sua monografia (licenciatura) que visou esclarecer a designação do idioma dos povos do norte e centro do Kwanza-Sul, Tomé Grosso identificou respostas duplas quando questionava "eye hoji lyahi wondola?" (que língua você fala), num quarteto de escolha entre ngoya, Kimbundu do KS, Kibala e Mbalundu (Grosso 2019, pg. 69). 

Seis respostas, dos 50 inquiridos, apontavam duplamente Kimbundu e Umbundu ou Kibala (variante de Kimbundu) e Umbundu, correspondendo a 12% dos respondentes, o que desperta a nossa atenção. No auge das monoculturas, início do sec. XX, os fazendeiros instalados no Kwanza-Sul, quer fossem portugueses ou alemães de origem judia, procuraram intensamente por mão-de-obra ovimbundu por, alegadamente, se mostrar mais apta ao trabalho manual e a viver acampada, o que não acontecia com os nativos locais, propensos à rebeldia e fuga, visto que, "na visão de Heimer (1980), o período colonial conjugou lógicas capitalistas e não capitalistas, conjugação através da qual se gerava o excedente da produção agrícola e se reproduzia uma mão-de-obra barata" (Quitari, 2010). 

José Capela (1978), citado por Quitari, descreve a forma «compulsória» como os povos do sul de Angola foram introduzidos na economia monetária para o pagamentos de impostos, recorrendo à venda da força de trabalho e/ou da produção agrícola aos colonos. Quer nos acampamentos, quer nas aldeias a que se juntaram ou constituíram, depois da desintegração das fazendas, esses antigos trabalhadores braçais ovimbundu conservaram sua língua, seus ritos de iniciação e festas e demais marcas de sua cultura, transmitindo-as a seus filhos e netos. 

As necessidades fisiológicas e de integração levaram-nos, por outro lado, a encetar processos integrativos, o que os levou a aprenderem o Kimbundu local. Tal processo levou a que, embora cada unidade linguística conservasse intacta a sua língua (Kimbundu para a maioria autóctone e Umbundu para as minorias emigrantes), se desenvolvesse um bilinguismo, na medida em que procuravam comunicar e compreender-se simultânea e indistintamente em cada uma das línguas. Outros processos integrativos e de fusão como os casamentos entre Ambundu e Ovimbundu, a frequência de catequeses, igrejas, escolas e instrução militar são também apontados como elementos que propiciaram o bilinguismo entre os ambundu e ovimbundu do Kwanza-Sul. 

S.K., 48 anos, natural de Mbangu de Kuteka, Libolo, entrevistado a proposito do bilinguismo entre os Ambundu do Kwanza-Sul, afirma que aprendeu Umbundu nos momentos de recreio escolar, numa altura em que, enquanto neto de um antigo detentor da categoria de assimilado² era impedido de falar Kimbundu, ao passo que os seus coetâneos e colegas Ovimbundu glosavam Umbundu nos intervalos entre aulas e durante toda a vida quotidiana longe da escola único recinto em que o professor os obrigava a falar a Língua Veicular. 

Katumbu K'Etinu, 75 anos, natural da margem libolense do rio Longa, afirma que sempre falou Kimbundu, porém, "por causa dos mbalundu da fazenda" e por, numa fase de sua vida, se ter juntado a um Ngangela que falava Umbundu aprendeu a perceber e falar Umbundu, tendo um filho que é meio Ambund e meio Ngangela/Ovimbundu. A anciã acrescenta que na última aldeia em que viveu (Pedra Escrita), que é um "ajuntamento de povos de várias origens", com destaque para os Ambundu e ouvimbundu que trabalhavam nas fazendas coloniais, "todos falam Kimbundu, Umbundu e Português", sendo a última a "língua da escola, do contacto com a administração e visitantes". 

Semelhantes estórias foram ouvidas no Hebo (Ebo) e no Kisongo (Quissongo), contadas respectivamente por Sabalu Lumbu, 60 anos, e Kambambi Mulalu, 55 anos, que vivenciaram a passagem ao Estado, por força da Lei nº 37/6 de 3 de Março (nacionalizações e confiscos) de fazendas antes detidas por colonos, a desintegração dos acampamentos de trabalhadores de origem Ovimbundu, recrutados no centro de Angola, e sua integração nas aldeias locais, próximas das antigas fazendas. Tal contexto político, histórico e sociológico, narraram, fez com que a necessidade de comunicação permanente, interação e integração das minorias propiciasse, quando possível, o surgimento do bilinguismo entre os Ambundu do Kwanza-Sul (regiões em que existiram acampamentos de trabalhadores Ovimbundu em fazendas agrícolas). 
... 
¹- Censo 2014 
²- Os assimilados eram os indivíduos que conseguiram demonstrar à administração colonial portuguesa que tinham alcançado um nível de evolução social que lhes permitia transitar de indígena para a categoria superior dos que tinham interiorizado e viviam segundo os preceitos da civilização europeia (adaptado de Nuno Domingos, 2020)

quinta-feira, setembro 01, 2022

A LÍNGUA PORTUGUESA E OS ANGOLANOS DAS GERAÇÕES X E Y

Geração X é uma expressão que se refere, segundo alguns teóricos da sociologia do trabalho, aos indivíduos nascidos entre meados da década de 1960 e início da década de 1980, ou seja, durante os anos que se seguiram ao baby boom do pós-IIGM, verificado entre 1946 e 1964. Depois deles, surge a geração Y que abrange os nascidos entre os anos 80 e 90 (sec. XX), quando o mundo se tornou essencialmente tecnológico. São tidos como tendo crescido com amplo acesso à informação e ao conhecimento e foram moldados por essa realidade, tornando-se pessoas mais curiosas, inquietas e movidas por desafios. Será que em países como Angola dominam tudo?

Há muito tomei conhecimento que faço parte de uma geração que não domina língua nenhuma. Nasci ao tempo em que era Presidente da República o General Spínola (durante o governo de transição). Em Angola, os tempos eram de expurgar tudo o que havia sido "imposto" aos nativos, até as coisas de validade eterna como a Língua que se tornou primeira para muitos de gerações posteriores. Levou-se ao "caixote de lixo" a língua do esclavagista, mas não se deu ao "homem novo" instrumentos científicos para a aprendizagem de línguas que hibernaram, ficando na oralidade. Com professores que diziam ensinar numa língua que desprezavam e não dominavam, eis-nos, aqui chegados, com canudos e petulantes, sem língua nenhuma para nos orgulharmos, comunicando eficazmente nas suas diversas formas de manifestação (gráfica e oral).
Que língua domina as gerações X e Y?
Os mais velhos têm a vantagem de terem aprendido, de modo seguro e eficiente, uma língua que nunca desaprenderam.
A nós, vieram dos maquis "professores" que não dominavam a língua portuguesa, mutilando-nos. Com eles, veio um suposto "nacionalismo linguístico" que nos levou a não aprender o que devíamos, como também não aprendemos língua africana nenhuma.
E andamos feitos morcegos: nem português sabemos, nem línguas africanas (bantu ou pré-bantu) dominamos (sobretudo na sua forma de representação gráfica).
Quando alguns despertavam do sono e do ópio em que estavam mergulhados, veio a implementação, por parte de Portugal e Brasil, do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa de 1990, do qual Angola não aderiu (ainda), deixando-nos cada vez mais perdidos, muito confusos e confundidos.
- Que caminho/versão seguir?
Estávamos ainda a despertar de um sono e etilismo profundos.
Não aprendemos o que devíamos ter aprendido e surge uma maneira diferente de grafar e, sobretudo, de acentuar. É quilómetro ou quilômetro? Estômago ou estómago. Feiura ou feiura? Quota ou cota? Esclavagista ou esclavagista? Certo que disso há consequências!
- Que nos resta?
Humildade, atenção à forma de grafia e uso correcto, leitura permanente dos que conhecem e usam correctamente a língua portuguesa e baixar as orelhas às críticas de quem nos aponte os erros.

terça-feira, agosto 09, 2022

CRONISTA DESCONHECEDOR DA LÍNGUA MINA HISTÓRIA DOS IMBANGALA

Num relato de Thomas and Desch-Obi, M and J (2008), in Fighting for Honor: The History of African Martial Art Traditions in the Atlantic World. University of South Carolina, os imbangala (subgrupo ambundu) são tidos como "uma sociedade completamente militarizada, baseada inteiramente em ritos de iniciação".

Até aqui, foi mera observação que não demanda conhecimento profundo da língua alheia. Prossegue o cronista que "...Para impedir que o parentesco tomasse o lugar da iniciação, todas as crianças nascidas numa aldeia eram assassinadas".
Não terá confundido a convocação para a iniciação dos rapazes, que começa pela circuncisão? Não terá confundido os gritos motivados pela dor da cirurgia (a sangue frio) e o correr do sangue, por morte? É que, se nos século XX, quando já íamos à escola de formato europeu, a circuncisão demorava um mínimo de três meses, estou a pensar que, sendo ela uma instituição, podia demorar muito mais tempo no séc. XVII.
Quanto à iniciação, quase que se contrariando, Thomas diz ainda que "Durante o treinamento, se usava um colar que só poderia ser retirado depois que o praticante matasse um homem durante uma batalha. Os imbangalas se cobriam com um unguento chamado maji a samba, o qual eles acreditavam lhes conferir imunidade nas batalhas, desde que o guerreiro seguisse um código de conduta chamado yijila."
Toda a aprendizagem demanda o conhecimento e cumprimento de normas (ijila) rígidas. Os imbangala não estariam longe de Esparta e de outras sociedades clássicas e medievais da Europa.
Porém, e a entornar o caldo que levou tempo e paciência a preparar, o cronista seiscentista remata que "...esse código (kijila) incluía infanticídio, antropofagia e absoluta ausência de covardia".¹
Se Thomas acerta na "absoluta ausência de cobardia", pois os imbangala eram e seus descendentes continuam sendo guerreiros destemidos e disciplinados, o homem, que nem sequer tempo suficiente teve para aprender e embrenhar-se na língua dos povos que descreve, fez traduções e compreendeu ao pé da letra algumas coisas que lhe chegaram ao ouvido pela forma metonímica e metafórica.
Infanticídio e antropofagia não fazem parte de nossos relatos orais, ainda fontes importantes para a compreensão e construção da história dos imbangala. Veja esse trecho:
- Kaxinda wahi (Kaxinda morreu).
- Ki kyamwande (que foi que o comeu/que foi que o levou à morte?)
Aqui, kwanda=comer tem o sentido de levar à morte/à inexistência. É sentido figurado ou expressão metafórica que compara a desaparição ou transformação pela via da morte ao que se passa com o alimento que, por via da deglutição, deixa de ser uma coisa e passa a ser outra.
Certa vez, ainda eu criança, ouvi minha mãe que saíra de Luanda a contar às suas parentes sobre os atributos da mulher que o irmão dele "amigara". E dizia: omukaji aMbetu, uwaba kalunga samba!
Literalmente, kalunga é morte. A expressão kalunga é usada metaforicamente com o valor de infinito. O que ela transmitiu é que a beleza da cunhada dela (tal como a morte) era infinita!
Certa vez, andando pelo Rocha Pinto, eu e o Kitembo ouvimos duas manas de origem kibalense conversando nos seguintes termos:
- Axinda wakivita?
- Ohi?
- Kandonika wahi.
- Wahi? Kumbi bê?
- Samana yapiti.
- Ki kyamunzipi?
- Ngostu!
Veja a tradução literal: - Kaxinda, ouviste (tomaste conhecimento)? - De quê? - Antonica morreu. - Quando? - O que a matou? (Podia ser: ki kyamwande=o que a comeu) - Gosto (prazer)!
Note bem a expressão "ngostu!" ou seja gosto/prazer.
Na verdade, o que a senhora transmitiu foi que "Antonica morreu de SIDA ou efeito da busca desmensurada de prazer sexual".
Para um desconhecedor da língua, jamais chegaria à percepção do que levou a cidadã à morte.
Cusse Ndala, 55 anos, natural de Kisongo, diz que "o Kimbundu (língua matriz dos imbangala) deve ser interpretado e não traduzido literalmente, como o fizeram alguns cronistas seiscentistas, dada a elevada carga metafórica" (e parabólica) de suas expressões inacessíveis a não nativos.
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¹-Adaptado de: Imbangalas – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org(08.04.2022)

sexta-feira, julho 01, 2022

ALGUMAS NOTAS AO PROJECTO DE LBFP

Após consensos entre o Executivo e os parceiros sociais sobre o Projecto de Lei de Bases da Função Pública (adiante LBFP), obtido a 4 de Março de 2022 (J.A, 05.03), o Governo, em sede do Conselho de Ministros, aprovou, a 23.06.2022, e deverá levar à Assembleia Nacional (para exercício da função legislativa) o projecto de LBFP, que “estabelece os princípios e normas respeitantes ao regime laboral da Função Pública. 2. O regime referido no número anterior compreende, entre outros, o seguinte: a) Deveres, direitos e garantias dos funcionários públicos; b) Regime de constituição, modificação e extinção da relação jurídica laboral; c) Princípios sobre o recrutamento e selecção de candidatos; d) Princípios sobre a estruturação de carreiras; e) Princípios sobre o exercício de cargos de direcção e chefia; f) Regime da prestação de trabalho; g) Princípios sobre a gestão de desempenho; h) Regime das faltas, férias e licenças; i) Princípios sobre o sistema retributivo; j) Regime disciplinar dos funcionários públicos”, cuja primeira leitura leva-me aos seguintes comentários: 

1.  O artigo 3º retoma a Pauta deontológica da função pública (Resolução 27/94 de 26 de Agosto). 

2. O artigo 7º debruça-se sobre a constituição do vínculo: (nomeação que é regra de ingresso na Função Pública, após resultado positivo num concurso público e o contrato a termo certo, não extensivo a 24 meses). Vide também artigo 10º. 

3. O artigo 8º regula os limites de ingresso à Função Pública, sendo novidade a proposta para alargamento a 45 anos. O proponente deixa espaço para debate em sede própria do Parlamento. 

4. O destacamento de capital humano também mereceu a atenção do proponente (artigo 16º) passando de um período de 2 anos renováveis para “um período não superior a 3 (três) anos, sendo prorrogável por uma única vez”. 

5. Os sete pontos do artigo 17º também merecem revisita dos interessados no tema da interinidade que deve recair, “apenas a funcionários do quadro da função pública”. 

6. O artigo 24º aborda a extinção do vínculo laboral na administração pública e traz a figura da “exoneração por iniciativa da entidade pública” quando, dentre outros, se note inadequação do funcionário em relação ao trabalho ou às exigências próprias do desenvolvimento das actividades administrativas, comprovada em processo de avaliação” … Ver ainda artigo 27º sobre rescisão. A nova proposta de LBFP deixa por terra a falácia de que “não se desemprega na função pública”. 

7. Olhando para o artigo 38º ressalta-me o facto de o proponente ter demarcado para debates mais acalorados duas categorias da carreira de Técnico Superior, abrindo a possibilidade de se puder resumir para 4 escalões. Já a carreira técnica (bacharéis) fica reduzida a 3 escalões (Técnico Especialista Principal; Técnico de 1.ª Classe; Técnico de 2.ª Classe), segundo o artigo 39º, ao passo que a carreira de técnico médio passa a 4 categorias (Técnico Médio Principal; Técnico Médio de 1.ª Classe; Técnico Médio de 2.ª Classe; Técnico Médio de 3.ª Classe), segundo artigo 40º. Tal permite, a meu ver, um crescimento mais rápido na organização. 

8. O artigo 53º aborda o período semanal e diário de trabalho que pode passar a 35 horas semanais e 7 horas diárias. 

9. O teletrabalho e a premiação pelo desempenho são algumas das principais inovações do projecto de LBFP (ARTIGO 56.º, Teletrabalh) e ARTIGO 59.º (Prémios de desempenho aos funcionários públicos e as equipas de trabalho que se destaquem obtendo classificações mais elevadas na avaliação de desempenho). 

10. Veja agora o que diz o ponto 3 do 62ª: sempre que a ausência seja de duração inferior ao período normal de trabalho diário a que o funcionário está sujeito, os tempos de ausência são adicionados para determinação dos dias de falta. 

11. Artistas e desportistas retenham: as faltas para participação em actividades culturais ou desportivas de carácter oficial, bem como nos respectivos actos preparatórios, nos casos em que essa participação deva verificar-se dentro do período normal de trabalho, são remuneradas (ARTIGO 69.º). 

12. Sobre licenças, veja o que diz o 3 ponto do artigo 88º:  em caso de falecimento da funcionária parturiente, o funcionário pai goza do restante período da licença de maternidade que ainda não tenha decorrido, com direito a remuneração devida. Já o artigo 90º concede ao pai um período de licença de paternidade mais alargado. “…o funcionário pai tem direito a ausentar-se por 5 (cinco) dias de calendário”. Veja também artigo 95º sobre licença ilimitada para funcionários do quadro da função pública com mais de cinco anos. 

13. Uma das vantagens da proposta é trazer em documento único REGIME DISCIPLINAR DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS (o CAPITULO XI) cujo artigo 102° reza que “s funcionários públicos respondem disciplinarmente perante os superiores hierárquicos a que estejam subordinados, pelas infracções que cometam…”. 

14. Salvo alterações ao texto, em sede da Assembleia Nacional, após debates em plenário e comissões de especialidade, a LBFP acabará por revogara Lei n.º 17/90, de 20 de Outubro, e demais legislação que contrarie a presente lei, nomeadamente: a) Lei n. º 20/90, de 15 de Dezembro – sobre o Estatuto do Trabalhador Estudante; b) Decreto n.º 24/91, de 29 de Junho – sobre o regime Jurídico das carreiras na Função Pública. c) Decreto n.º 25/91, de 29 de Junho - sobre a relação jurídica de Emprego na Função Pública; d) Decreto n.º 33/91, de 26 de Junho – sobre o regime jurídico disciplinar dos Funcionários Públicos e Administrativos; e) Decreto-Lei n.º 10/94, de 26 de Julho- sobre o regime jurídico das férias, faltas e licenças; f) Decreto-Lei n.º 21-A/94, de 16 de Dezembro - sobre o regime remuneratório da Função Pública; g) Decreto n.º 66/02, de 25 de Outubro – sobre a regulamentação da prestação do trabalho extraordinário e sua remuneração; h) Decreto-Lei n.º 8/02, de 18 de Junho – sobre o agravamento das faltas injustificadas do pessoal da Função Pública; i) Decreto n.º 122/03, de 21 de Novembro – sobre a interpretação da alínea e) do artigo 11.º do Decreto n.º 33/91, de 26 de Junho; j) Lei n.º 8/02, de 19 de Julho - sobre o período de funcionamento e o horário de trabalho na Administração Pública; k) Decreto n.º 6/08, de 10 de Abril, sobre a admissão excepcional de candidatos com idade superior a 35 anos nos concursos de ingresso à Função Pública, o que a torna num instrumento de fácil consulta e aplicação/cumprimento pelos funcionários e distintos órgãos da administração pública, como é o caso do GRH. 


Por: Luciano Canhanga, MSC em Ciência empresarial. Foi Dir. GRH no ex-MGM. 



quarta-feira, junho 01, 2022

EVENTUAIS CAUSAS DO BILINGUISMO ENTRE OS AMBUNDU DO KWANZA-SUL

(Constructo)
Nota prévia: a expressão bilinguismo, aqui utilizada, exclui da abordagem a Língua Portuguesa que é hoje falada e compreendida por mais de 71% dos angolanos¹. A análise cinge-se a línguas locais de origem bantu. 

Um inquérito feito por Tomé Grosso entre os povos do norte e centro do Kwanza-Sul, para aferir que língua falam, indica a existência de bilinguismo, havendo habitantes de zonas predominantemente ambundu que também falam Umbundu e, eventualmente, pequenas bolsas ovimbundu, em território de maioria ambundu, que também se comuniquem alternativamente em Kimbundu. Do latim bilinguis, bilíngue é um adjectivo que se utiliza em referência a quem fala duas línguas. 

O termo bilinguismo, aplicado ao indivíduo, significa a capacidade de expressar-se em duas línguas. Numa comunidade, é a situação em que os falantes usam duas ou mais línguas alternadamente (WEINREICH, 1953). 

Espreitando o censo de 2014, verificamos que a Língua Portuguesa é falada por mais de 71% (média), sendo que nas áreas rurais a percentagem média de falantes baixa para 49% (Censo 2014). Por outro lado, o Censo 2014 aponta as províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Sul, Kwanza-Norte e Malanje como a região de predominância ambundu, constituindo-se em 7,82% do total da população angolana (pg. 51), não afastando a existência, nesse espaço geográfico de Angola, de falantes de outros idiomas de origem bantu, com predominância aos ovimbundu. 

No seu conjunto, os ovimbundu constituem 22,96% da população angolana, sendo o Umbundo o idioma mais falado e dos povos que, pelas razões que elencaremos abaixo, mais emigraram para outras regiões, mantendo, entretanto, quase imaculada a sua cultura. 

 - Por que haverá bilinguismo entre as populações do Kwanza-Sul? 
No inquérito efectuado para a sua monografia (licenciatura) que visou esclarecer a designação do idioma dos povos do norte e centro do Kwanza-Sul, Tomé Grosso identificou respostas duplas quando questionava "eye hoji lyahi wondola?" (que língua você fala), num quarteto de escolha entre ngoya, Kimbundu do KS, Kibala e Mbalundu (Grosso, 2019, pg. 69). 

Seis respostas, dos 50 inquiridos, apontavam duplamente Kimbundu e Umbundu ou Kibala (variante de Kimbundu) e Umbundu, correspondendo a 12% dos respondentes, o que desperta a nossa atenção. No auge das monoculturas, início do sec. XX, os fazendeiros instalados no Kwanza-Sul, quer fossem portugueses ou alemães de origem judia, procuraram intensamente por mão-de-obra ovimbundu por, alegadamente, se mostrar mais apta ao trabalho manual e a viver acampada, o que não acontecia com os nativos locais, propensos à rebeldia e fuga, visto que, "na visão de Heimer (1980), o período colonial conjugou lógicas capitalistas e não capitalistas, conjugação através da qual se gerava o excedente da produção agrícola e se reproduzia uma mão-de-obra barata" (Quitari, 2010). 

 José Capela (1978), citado por Quitari, descreve a forma «compulsória» como os povos do sul de Angola foram introduzidos na economia monetária para o pagamento de impostos, recorrendo à venda da força de trabalho e/ou da produção agrícola aos colonos. Quer nos acampamentos, quer nas aldeias a que se juntaram ou constituíram, depois da desintegração das fazendas, esses antigos trabalhadores braçais ovimbundu conservaram sua língua, seus ritos de iniciação e festas e demais marcas de sua cultura, transmitindo-as a seus filhos e netos. 

As necessidades fisiológicas e de integração levaram-nos, por outro lado, a encetar processos integrativos, o que os levou a aprenderem o Kimbundu local. Tal processo levou a que, embora cada unidade linguística conservasse intacta a sua língua (Kimbundu para a maioria autóctone e Umbundu para as minorias emigrantes), se desenvolvesse um bilinguismo, na medida em que procuravam comunicar e compreender-se simultânea e indistintamente em cada uma das línguas. Outros processos integrativos e de fusão como os casamentos entre ambundu e ovimbundu, a frequência de catequeses, igrejas, escolas e instrução militar são também apontados como elementos que propiciaram o bilinguismo entre os ambundu e ovimbundu do Kwanza-Sul. 

S.K., 48 anos, natural de Mbangu de Kuteka, Libolo, entrevistado a propósito do bilinguismo entre os ambundu do Kwanza-Sul, afirma que aprendeu Umbundu nos momentos de recreio escolar, numa altura em que, enquanto neto de um antigo detentor da categoria de assimilado² era impedido de falar Kimbundu, ao passo que os seus coetâneos e colegas ovimbundu glosavam Umbundu nos intervalos entre aulas e durante toda a vida quotidiana longe da escola único recinto em que o professor os obrigava a falar a Língua Veicular. 

Katumbu K'Etinu, 75 anos, natural da margem libolense do rio Longa, afirma que sempre falou Kimbundu, porém, "por causa dos mbalundu da fazenda" e por, numa fase de sua vida, se ter juntado a um ngangela que falava Umbundu aprendeu a perceber e falar Umbundu, tendo um filho que é meio ambundu e meio ngangela/ovimbundu. A anciã acrescenta que na última aldeia em que viveu (Pedra Escrita), que é um "ajuntamento de povos de varias origens", com destaque para os ambundu e ouvimbundu que trabalhavam nas fazendas coloniais, "todos falam Kimbundu, Umbundu e Português", sendo a última a "língua da escola, do contacto com a administração e visitantes". 

Semelhante estórias foram ouvidas no Hebo (Ebo) e no Kisongo (Quissongo), contadas, respectivamente, por Sabalu Lumbu, 60 anos, e Kambambi Mulalu, 52 anos que vivenciaram a passagem ao Estado, por força da Lei nº 37/6 de 3 de Março (nacionalizações e confiscos) de fazendas antes detidas por colonos, a desintegração dos acampamentos de trabalhadores de origem ovimbundu, recrutados no centro de Angola, e sua integração nas aldeias locais, próximas das antigas fazendas. Tal contexto político, histórico e sociológico, narraram, fez com que a necessidade de comunicação permanente, interação e integração das minorias propiciasse, quando possível, o surgimento do bilinguismo entre os ambundu do Kwanza-Sul (regiões em que existiram acampamentos de trabalhadores ovimbundu em fazendas agrícolas). 

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¹- Censo 2014 
²- Os assimilados eram os indivíduos que conseguiram demonstrar à administração colonial portuguesa que tinham alcançado um nível de evolução social que lhes permitia transitar de indígena para a categoria superior dos que tinham interiorizado e viviam segundo os preceitos da civilização europeia (adaptado de Nuno Domingos, 2020).

quarta-feira, maio 25, 2022

KAJILA K'ELOMBO (tentativa autobiográfica)

I. Contexto Histórico e Origem Familiar

No plano internacional, o governo de Marcelo Caetano acabara de ruir, derrubado pelos Capitães de Abril, enquanto António de Spínola assumia o comando político em Portugal. Internamente, os Movimentos de Libertação Nacional ajustavam estratégias e mediam forças para proclamarem, em separado, a independência de Angola, cujo anúncio se previa para dali a seis meses.

Foi neste quadro que o Kuteka entrou em luto com a morte de Ñana Ñunji Kitinu, o rei da região.

Kilombo Ki’Etinu, também conhecida por Maria Canhanga, vivia a primeira gestação da sua relação com o filho do forasteiro Ñana Muryangu, depois de sucessivos abortos ocorridos na vigência do casamento anterior, extinto pela morte de Kafanda.

No dia consagrado à África, nasceu Kajila k’Elombo, mais tarde registado como Luciano Canhanga, homónimo do irmão mais novo de António Fernando Ndambi. Recebeu o apelido materno por ter nascido no óbito do progenitor e por o registo ter sido efectuado já com o pai falecido.

Luciano nasceu “acidentalmente” na aldeia de Mbangu yo’Teka (Mbango‑de‑Kuteka), comunidade natal do rei Ñana Ñunji Kitinu Mungongo, entronizado em Mbaze yo’Teka. Corria o ano de 1974, segundo dados compulsados.

Até aos quatro anos, viveu em Kitumbulu, encosta que separa o Kuteka do Lussusso, onde o avô paterno cultivava café‑banana e outros produtos.


II. Primeiros Anos de Vida e Mobilidade Forçada

Em 1978, Ano da Agricultura — marcado por severa seca — António Ndambi decidiu deixar o pai e procurar melhores condições junto do asfalto e das escolas. Acompanhado do primo Xika Yangu, então soba de Mbangu‑Kuteka, iniciou a migração. Nesse mesmo ano faleceu o avô Ñana Muryangu.

Em 1979, Ano da Formação de Quadros, Luciano foi matriculado na iniciação (pré‑kabunga), percorrendo a pé o caminho entre a antiga Fazenda Israel e a aldeia de Kalombo, distância superior a 5 km por viagem.

O crescimento do número de alunos levou à transferência da escola de Kalombo para a antiga instalação pecuária da Fazenda Israel (rebaptizada Hoji‑ya‑Henda) no ano lectivo 1980/81. Foi nesse período que viveu a primeira experiência na OPA, participando na recepção ao Comissário Provincial Armando Dembo, em visita à Fazenda Tabango.

A 2.ª classe decorreu numa sala construída entre as aldeolas de João Salomão e Azevedo Kambundu. A 3.ª classe foi frequentada no antigo acampamento junto ao campo de aviação, sob orientação do professor Jorge Manuel Carlos (Kakonda).

Este período revelou-se o mais fértil em aprendizagem social e cultural, incluindo práticas ancestrais: pesca (isca, cesto e envenenamento), caça (armadilhas diversas), agricultura e fundição de ferro com fole, sob orientação do mestre Xika Yangu.

Em 1982, faleceu António Ndambi, quando Luciano frequentava o onzo‑i‑mema (circuncisão), afastado temporariamente do convívio familiar e comunitário.


III. Guerra, Recuos e Mudanças de Terra

Os anos 1983–1984 foram marcados pela presença intensa da guerrilha (UNITA): ataques a viaturas, implantação de minas pessoais e anti-carros nas estradas, pilhagens, raptos e deslocações forçadas. Luciano recorda noites inteiras nas matas e as caminhadas de recuo para Fuke, Katoto, Kandemba, culminando no ataque à Munenga (Fevereiro de 1984) e no subsequente refúgio temporário em Samba Karinje.

A primeira experiência religiosa ocorreu no final de 1983, quando o primo e professor Jorge Carlos o levou à Igreja Cheia da Palavra de Deus, experiência interrompida pela guerra.

Agricultura, pesca e caça permanentes deixaram de ser viáveis. A região adjacente à antiga Fazenda Israel — hoje Pedra Escrita — começou a ser abandonada.

Em 1984, Kilombo Ki’Etinu deixou a aldeola de Limbe e seguiu para Luanda, onde permaneceu três anos, acolhido pelo irmão Ferreira Ganga.


IV. Primeira Estadia em Luanda (1984–1987)

Kuteka, Israel, Kalombo e Limbe eram agrupamentos rurais sem energia eléctrica, onde o brilho dos pirilampos alegrava as noites. Já Fuke e Munenga — iluminadas e com trânsito frequente — surgiam aos olhos de Luciano como autênticas cidades.

Antes de alcançar Luanda, visitou Kalulu, em busca de guia de marcha. Kalulu pareceu-lhe gigantesca, apesar de devastada pelos ataques da UNITA, em Setembro de 1983.

Em Maio de 1984, chegou à capital. A viagem durou três dias e o desembarque ocorreu nas imediações do Jumbo, onde duas amplas ruas, com postes imponentes de iluminação, se destacavam. Numa parede, um desenho de um camião Scania “cabeça-burra” chamou-lhe a atenção.

Seguindo com embrulho à cabeça, Emília às costas e dois filhos pelas mãos, Kilombo Ki’Etinu encontrou o caminho para o Hospital “São Paulo", e daí para o Rangel, onde vivia o irmão Ferreira.

No Kaputu, Luciano descobriu que a “brincadeira” local consistia em abandonar recém-chegados em becos para que se perdessem — provocando o grito “nanyi wangibongela kambonga kadyalaeeê”. Mas ele já sabia ler e memorizava nomes e números das ruas e suas ligações.

As aulas recomeçaram em Setembro, mas faltava-lhe a cédula pessoal. Para que não ficasse fora da escola, o irmão Arnaldo Carlos — então professor e hoje Comissário‑Chefe reformado da Polícia Nacional — colocou-o na sua turma da Escola Grande da Terra Nova. Repetiu assim a 2.ª e a 3.ª classes.

Nos anos da RPA, o ingresso simultâneo na escola e na OPA era obrigatório. O uniforme azul‑celeste substituíra as antigas batas. Luciano foi sempre chefe de brigada, sendo o Chefe de Estrela o professor Ki‑Ngibanza.

Responsável pelas compras familiares, percorria lojas, talhos, depósitos de pão e gás, numa época marcada por longas bichas. Vendia restos de sabão descartados pela Induve — o “sabão cocó” — e transportava o milho e massambala da mãe para a moagem, frequentemente enfrentando bullying resolvido “a músculos, kafrikes e basulas”.

Em 1987, perdeu o recibo do Bilhete de Identidade e a cédula, impossibilitando-o de fazer o exame da quarta classe. Os tutores viram nisso propósito e decidiram enviá-lo para Kalulu, onde frequentou o 4.º semestre de adultos, acolhido pelo primo Gonçalves Manuel Carlos, e depois o II Nível (concluído em Junho de 1990).

Em Dezembro de 1989, Kalulu voltou a ser atacada pela UNITA. Luciano recuou para Mbangu‑Kuteka, passando por Munenga e Pedra Escrita. Regressou três meses depois, mas o seu nome desaparecera das listas de turmas e do internato, tendo sido reinserido.

Com a fome instalada e ataques constantes às viaturas de abastecimento, recorreu aos conhecimentos de corte e costura, utilizando a máquina da esposa do director Avelino Gangala para garantir pequenas refeições ou moedas.

Terminou o ano lectivo e pediu transferência para o Ngola Mbandi, onde estudou entre 1990 e 1992.

V. Formação Secundária e Vocacional (1990–1994)

Em 1990, já em Luanda, Luciano apresentou no Ngola Mbandi o certificado da 6.ª classe (Escola Kwame Nkrumah, Kalulu) e a guia de transferência. A adaptação à 7.ª classe foi exigente: aparência modesta, mas rápida assimilação, vocabulário cuidado e gosto pelos livros — trazia consigo um Dicionário Prático Ilustrado e a Gramática de José Maria Relvas. Os primeiros tempos foram marcados por bullying e aproximações interessadas em momentos de prova.

O professor de Língua Portuguesa Cristóvão Major (Man Cristo) — também jornalista da ANGOP — aplicou‑lhe, por falta a uma prova, um teste da 8.ª classe. O desempenho surpreendente (nota vinte, resolvido em menos de vinte minutos) deu‑lhe visibilidade na escola, o convite para integrar a célula da JMPLA e a inscrição antecipada na Associação dos Alunos do Ensino Médio.

Na 8.ª classe, participou nas olimpíadas escolar e municipal de Matemática e identificou um erro num conjunto‑solução de um polinómio do manual, ganhando a alcunha de “o rapaz que corrigiu o livro de Matemática”. Apesar disso, a classificação final foi modesta — reflexo de práticas pouco éticas então correntes (“gasosa”), às quais se recusou a ceder.

Em 1991–1992, o ano lectivo foi abreviado pelas primeiras eleições em Angola (Setembro de 1992). Sem grande orientação, escolheu Geologia e Minas (Sumbe) num teste de aptidão que não chegou a consolidar. Em 1993, frequentou um curso de operação de microcomputadores (ENCO), adquiriu noções de electricidade de baixa tensão e expandiu a sua Sala de Reforço Escolar iniciada em 1990.

Em finais de 1993, concorreu ao curso sugerido por Man Cristo e, em 1994, ingressou no IMEL, onde recebeu a alcunha “Star” pelo aproveitamento acima da média. Colegas do grupo MUSSUND’AMIGOS chamavam‑no “galo” por ter concluído sem exames de recurso nem reprovações. Em 1996, defendeu o trabalho final do curso médio de jornalismo: “Criminalidade em Luanda (1990–1995)”.


VI. Primeiras Experiências Profissionais (1990–2006)

Iniciou-se como explicador em 1990. Entre 1997 e 1998, leccionou no ensino primário público e iniciou carreira como repórter‑redactor na Luanda Antena Comercial (LAC), onde viria a ser editor até 2006. Candidatou‑se também à docência na Escola Pica‑Pau, à Secretaria de Estado para a Promoção e Desenvolvimento da Mulher (SEPDM) e à própria LAC — tendo abdicado da vaga na SEPDM em benefício de um colega.

No campo académico, em 2000 ingressou, por prova de aptidão, na licenciatura em Didáctica de História (ISCED‑Luanda). Em 2003, frequentou simultaneamente o 4.º ano de História (ISCED) e o 1.º ano de Comunicação Social (ISPRA). Entre 2001–2002, colaborou na Orion, no programa radiofónico “Nação Coragem”, amealhando o suficiente para adquirir o primeiro Toyota Starlet (terceira mão).

Em 1998, frequentou, em Bamako (Mali), um curso de Jornalismo de Investigação do Centro WANAD (patrocínio do Banco Mundial). Em Abril de 2005, foi seleccionado para o Curso de Jornalismo para os PALOP (Fundação Calouste Gulbenkian / Universidade Católica Portuguesa, Lisboa). Da cadeira de jornalismo digital nasceu o blogue Mesu Majikuka (www.mesumajikuka.blogspot.com).

A 01.06.2005, sofreu um acidente de viação ao regressar a Luanda: o condutor e uma colega morreram; Luciano sobreviveu com lesões graves, passando por cadeira de rodas e canadianas. A experiência motivou uma reflexão profunda sobre carreira e sustentabilidade, levando‑o a candidatar‑se à Sociedade Mineira de Catoca.


VII. Comunicação Corporativa na Catoca (2006–2015)

Em 2006, ingressou na Sociedade Mineira de Catoca para fundar e dirigir a Secção de Comunicação, elevada a Sector no ano seguinte. O período na Lunda Sul foi de intensa profissionalização e formação contínua, ao mesmo tempo que manteve actividade cívica e académica e lietrária.

Entre 2012–2015, leccionou língua portuguesa na Escola Superior Politécnica da Universidade Lueji A’Nkonde (Lunda‑Sul) e, entre 2013–2015, no Instituto Superior Politécnico Lusíadas – Luanda Sul.

Paralelamente, manteve militância cívica e político‑juvenil: foi Segundo Secretário do Comité de Especialidade de Ciências Sociais e Humanas na Lunda‑Sul; no plano religioso, assumiu responsabilidades na Igreja Metodista Unida, com intervenções regulares no púlpito da Igreja Central e funções de vice‑director da Sociedade de Homens.


VIII. Regresso a Luanda e Funções de Direcção (2015–2022)

Em 2014, matriculou‑se em Pós‑Graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (FAAG) e no Mestrado em Ciência Empresarial (UFP), concluído em 2020 com 16 valores, defendendo a dissertação “A motivação dos funcionários do Ministério da Geologia e Minas”.

Em 2015, por convite do Ministro Francisco Queiroz, foi requisitado de Catoca para o então Ministério de Geologia e Minas, onde assumiu funções de Director de Recursos Humanos.

Entre 2016–2020, leccionou História do Jornalismo Angolano e Produção Radiofónica no Instituto Superior Técnico de Angola (ISTA).

As eleições de 2017 conduziram à fusão dos Ministérios de Geologia e Minas e dos Petróleos, criando o MIREMPET. Luciano foi convidado a dirigir o Gabinete de Comunicação do novo organismo. Na reforma dos Órgãos de Apoio de 01.04.2020, resultante da fusão de direcções, tornou‑se o primeiro Director de um Gabinete de Tecnologias de Informação e Comunicação Institucional de um Ministério (Junho de 2020), tendo sido reconduzido para a mesma função em 2022.


IX. Formação Contínua e Palestras (2002–2026)

Além de cursos curtos ao longo da década, em 2002 concluiu o Curso Propedêutico de Língua Portuguesa (Universidade Católica de Angola / Sindicato de Jornalistas Angolanos), ferramenta valiosa para o exercício do jornalismo, assessoria de imprensa, escrita artística e docência.

Com a agenda institucional mais densa, abdicou da docência regular e passou a dedicar‑se à aprendizagem da Língua Inglesa, na África do Sul, a realizar palestras e conferências sobre comunicação e motivação no trabalho.


X. Vida Pessoal

É pai de Mohamed Mociano dos Santos Canhanga (1997), Fernando Etessa Canhanga (2000), Luciano Delfim Francisco Canhanga (2007), Argemara Princesa Salongue Canhanga (2007), Arlindo Renato Salongue Canhanga (2009) e Lúcia Joelle Salongue Canhanga (2018). É casado com Irlanda Salongue Canhanga.


XI. Obra Literária e Colaborações

Estreou‑se na literatura em 2010 com o romance O Sonho de Kaúia. Seguiram‑se:

  • 10encantos (poesia)
  • Manongo‑nongo (contos)
  • O Relógio do Velho Trinta (romance)
  • O Coleccionador de Pirilampos (contos)
  • Canções ao Vento (poesia)
  • As Travessuras de Jack (novela)
  • Amor sem Pudor (poesia)
  • Kitotas :recuos e avanços (relatos)
  • A falta de motivação e o impacto nos colaboradores: estudo de caso no Ministério de Geologia e Minas (ensaio científico-académico)
  • Amores de Mel'aço (novela)
  • Contos para Lúcia 

Participou em antologias publicadas em Angola, Roménia, Portugal, Brasil, África do Sul e Chile. Como cronista, colaborou com Cruzeiro do Sul, Semanário Angolense, Jornal de Angola, Jornal Cultura, Nova Gazeta, Jornal de Economia & Finanças, O Litoral, Jornal Metropolitano, entre outros.


XII. Linha Cronológica Essencial (síntese)

  • 1974 — Nascimento em Mbangu yo’Teka (Mbango‑de‑Kuteka).
  • 1978–1982 — Primeiras classes; iniciação; falecimento de António Ndambi.
  • 1983–1984 — Guerra intensa; recuos; chegada a Luanda (Maio de 1984).
  • 1987–1990 — Transferência para Kalulu; II Nível concluído (Junho de 1990).
  • 1990–1992 — Ngola Mbandi; olimpíadas de Matemática; ascensão estudantil; III nível concluído.
  • 1993–1996 — ENCO; reforço escolar; ingresso no IMEL; Técnico Médio em jornalismo.
  • 1997–2006 — Docência; LAC (repórter, depois editor); curso Gulbenkian (2005); acidente (01.06.2005).
  • 2002 — Curso Propedêutico de Língua Portuguesa (UCAN/SJA).
  • 2006–2015 — Catoca: fundação e direcção da Comunicação; docência superior (Lueji A’Nkonde, Lusíadas).
  • 2014–2020 — Pós‑graduação e mestrado (dissertação 16 valores).
  • 2015–2020 — Director de RH (Geologia e Minas); ISTA (docência).
  • 2017–2020 — MIREMPET: Gabinete de Comunicação; 1.º Director do Gabinete de TIC Institucional (Junho 2020).
  • 2010–… — Produção literária contínua; crónicas e antologias.

sexta-feira, maio 13, 2022

KILOMBO KI'ETINU

Originalmente Kilombo ki'Etinu, Maria Canhanga, como é conhecida, nasceu na região deKuteka, Munenga, Libolo, a 13 de Maio de 1947 (ofic).

Filha do soberano local Kitinu Mungongo e Maluvu Ndonga, cedo foi forjada para as lides de casa, cuidando de sua mãe, cuja saúde era, desde cedo, precária, e de seu irmão mais novo.

Desposada com António Ndambi (em segundas núpcias), gerou Luciano, Júlia, Elisa e Emília, tornando-se viúva em 1982.

Com a chegada e acentuação do conflito militar teve de abandonar a terra natal, em 1984, recuando, com os filhos, para Luanda onde os sustentou de pequenos negócios e agricultura nas imediações do antigo Hospital Sanatório de Luanda.

Entre 1987-93 esteve a fazer agricultura na aldeia de Pedra Escrita, gerando o seu quinto filho, Cruz.

De novo, a guerra pós-eleitoral a forçaria a seguir para Luanda, permaneceu na capital do país de 1993 até 1998.

Nessa altura, já ela avó, surgiu-lhe a preocupação de manter o campo como recta-guarda para alimentar os filhos e netos na grande cidade (Luanda), regressando à aldeia de Pedra Escrita e entregando-se, apesar da idade crescente, à lavoura.

Em 2015 é atingida por uma severa e irreversível cegueira, o que obrigou o filho mais velho a levá-la para Luanda, para tratamento e acompanhamento médico, dando-lhe uma pequena moradia adaptada às condições de mobilidade condicionada. Vive no Zango 4-B, (Vila Chicala).


* Bio em construção

sábado, abril 02, 2022

ARTE RUPESTRE NO KWANZA-SUL

São poucas as "estações", no nosso país, onde os homens de "há muito tempo" (pré-história) deixaram suas marcas de forma artística e representando a sociedade do seu tempo.

As pinturas rupestres contam, por si sós, a História do "homoangolensis", sendo de capital importância o conhecimento dos locais em que nos deixaram esses testemunhos e a sua divulgação a novas gerações.

Temos pinturas rupestres em Citundu Hulu, e Kaningiri (Huambo); Undolila e Tchicotowe (Namibe) e no Ndalambiri (Ebo, Kwanza-Sul) que é bem próximo de cidades como Cela, Gabela, Dondo, Ndalatandu, Malanji, Luanda, Sumbe e Benguela.

Os que superintendem a Cultura, nos mais diversos escalões da administração do Estado, devem promover o conhecimento e visitas a essas estações, incentivando o turismo rural-cultural.

Todos devemos cuidar e preservar o nosso património histórico.
Visite você também Ndalambiri!

quinta-feira, março 03, 2022

O JORNALISTA, O ASSESSOR E O ADIDO DE IMPRENSA

Conceitos básicos:

1- Jornalista é quem exerce Jornalismo, profissão (para mim, também arte e vício controlável) que consiste na recolha, tratamento e divulgação (através de um media convencional ou virtual) de informações actuais e de interesse público.
2- Assessor de imprensa é um profissional de comunicação cuja tarefa é "documentar-se" (através da recolha), quando possível tratar (em função das características usuais do receptor) e fornecer informação à media que, por sua vez, a (processará de acordo ao formato e) divulgará ao público.
3- O Adido de Imprensa é, igualmente, um Assessor de Imprensa colocado junto de uma representação diplomática.
Quer o Jornalista quanto o Assessor de Imprensa e o Adido de Imprensa recolhem dados, processam-nos e os distribuem/divulgam.
O Assessor e o Adido têm como destinatários da sua informação os media (salvaguardada a veiculação nos canais institucionais), ao passo que o Jornalista tem como destinatário do seu "produto" o público.
Esse esboço (passível de melhoria) vem responder a uma colocação de cariz ética feita por um compatriota, afirmando ser "um belisco à ética" um Assessor colocar perguntas ao seu assessorado (recolha em formato vídeo) e ter partilhado o conteúdo aos jornalistas.
A recolha (entrevista, observação e descrição, consulta documental, etc.) e a valorização/edição são inerentes à função de informar que assiste quer ao Jornalista quer aos Assessores de Imprensa.
A divulgação noticiosa, através da media, é que continua "monopólio do Jornalista".
O Assessor e o Adido de Imprensa estão vectados de fazer jornalismo, isto é, recolher, tratar e divulgar através da media. Devem, porém, produzir conteúdos para os meios internos de comunicação e para os jornalistas, não devendo eles trabalhar em um média convencional.
Acresce-se o facto de ser DEVER DOS JORNALISTAS analisar, tomar decisão editorial e hierarquizar, do ponto de vista noticioso, os dados ou informações recebidas dos Assessores e Adidos de Imprensa.
Um Assessor ou Adido de Imprensa que, no processo de recolha de de dados, tenha interpelado o seu Assessorado, pedindo-lhe que procedesse ao resumo do evento realizado pela instituição e tenha, depois, remetido aos Jornalistas o dado bruto (sem tratamento que fica ao critério editorial de cada Jornalista e ou media) não violou o artigo 5° do Decreto Presidencial n° 3/18 de 11 de Janeiro.
Logo, não é correcto questionar "por que o Assessor ou o Adido de Imprensa entrevistou o seu assessorado e forneceu o dado bruto aos jornalistas"?
Já agora, aproveita-se, nesta nota (apressada), assinalar o trabalho árduo dos Diplomatas e seus Assessores de Imprensa que, muitas vezes, perdem repetidamente sono ou ausentam-se dias seguidos de suas casas para acolher e despedir-se de delegações oficiais do país de origem.
É preciso vivenciar o trabalho destes insignes servidores para melhor compreender que não há pera doce na Diplomacia e na Assessoria de imprensa em que as jornadas só têm principio e, muitas vezes, não têm fim previsto, ao contrário daqueles que (ainda) trabalham por turno e por "tarefa única diária".
26.02.2022.

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A LÍNGUA DOS POVOS DO NORTE DO KWANZA-SUL

Estive de 10 a 13.02 no Libolo, Kibala e Ebo. Uma das estórias que registei foi a seguinte: 

Em Dalambiri, Ebo, no início dos anos 80, o catequista, que também era professor, tinha esculpido uma estatueta que designou por "burro". 

Essa peça de madeira circulava de mão em mão dos meninos e meninas que fossem ouvidos a falar Kimbundu. Aquele que passasse a noite com o "burro" era castigado com palmatórias. 

Tal visava, segundo os narradores, incutir entre os rapazes e raparigas o uso constante da Língua Portuguesa, instrumento de ensino e aprendizagem na escola. 

Todos os oradores, maiores de 40 anos, referiam-se, nas suas narrações, ao termo Kimbundu e não usavam outra expressão para designar a língua local. 

Pergunto: isso acrescenta alguma coisa ao debate? 

- Para mim, fortalece o que tenho pesquisado e defendido: os povos do norte do Kwanza-Sul falam uma variante do Kimbundu.

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Leia mais em: http://olhoensaios.blogspot.com/2019/03/quatro-notas-sobre-lingua-dos-kibala.html?m=1

e tb em: http://www.kalulo.com/index.php/cultura/antropologia/254-a-lingua-dos-kibala-kimbundu-ou-ngoya