No coração do município do Ebo, província do Cuanza-Sul, repousa um dos testemunhos mais silenciosos e eloquentes da ancestralidade angolana: as pinturas rupestres de Ndalamiri. Gravadas sobre rochas que resistem ao tempo e às intempéries, estas expressões gráficas são mais do que arte primitiva — são narrativas visuais de um povo que, mesmo sem escrita formal, soube eternizar a sua cosmovisão, os seus rituais e a sua relação com o território.
Comunicação, Etnografia, Linguística e História
Aqui deposito algumas reflexões fruto de Vivências e Pesquisas.
Pequenos CONTRIBUTOS para um conhecimento que se constrói com outras contribuições.
Discorde e contribua.
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segunda-feira, setembro 28, 2026
PINTURAS RUPESTRES DE NDALAMIRI: ACESSO E FUTURO
segunda-feira, setembro 14, 2026
"Bolso do cidadão mais aliviado”?
|Uma leitura crítica da inflação de 8,78%|
O título do noticiário da RNA das 13h00 de 13 de Setembro de 2026, “Bolso do cidadão mais aliviado, inflação situa-se em 8,78%”, suscita uma reflexão sobre a forma como os indicadores económicos são comunicados ao público. Embora a desaceleração da inflação constitua um sinal positivo para a estabilidade macroeconómica, a associação imediata entre uma taxa de inflação mais baixa e um alegado alívio do bolso do cidadão merece ser examinada com rigor conceptual e científico.
À primeira vista, a mensagem sugere que a redução da inflação representa um benefício directo para as famílias. Todavia, a inflação de 8,78% continua a significar aumento dos preços. Em termos simples, os bens e serviços custam hoje mais do que custavam há um ano. O que mudou não foi a direcção do movimento dos preços, mas a velocidade a que estes crescem.
A literatura económica é clara a este respeito. Conforme explica o economista norte-americano Gregory Mankiw (2021), a inflação corresponde ao aumento generalizado do nível de preços numa economia e implica uma redução do poder de compra da moeda. Quando a taxa de inflação diminui, ocorre uma desaceleração da subida dos preços, não a sua redução. De modo semelhante, Paul Krugman e Robin Wells (2018) observam que a desaceleração da inflação não significa que os cidadãos recuperem imediatamente o poder de compra anteriormente perdido; significa apenas que essa perda passa a ocorrer a um ritmo mais lento.
É precisamente aqui que surge a fragilidade conceptual da expressão “bolso do cidadão mais aliviado”. Do ponto de vista económico, o bolso só se encontra efectivamente mais aliviado quando os rendimentos crescem acima da inflação ou quando os preços diminuem. Enquanto a inflação permanecer positiva, continua a existir erosão do poder de compra, ainda que menos intensa.
A economia comportamental também ajuda a compreender esta questão. Os investigadores Daniel Kahneman e Amos Tversky, pioneiros da economia psicológica, demonstraram que as pessoas avaliam o seu bem-estar económico não com base em indicadores macroeconómicos, mas na experiência concreta do dia-a-dia. O consumidor comum não mede a inflação através de percentagens; mede-a através do preço do pão, do arroz, do táxi, da propina escolar ou da factura da electricidade. Se estes custos continuam a aumentar, a percepção dominante dificilmente será a de alívio.
O economista prémio Nobel Robert Shiller (2019) argumenta igualmente que as narrativas económicas influenciam a percepção colectiva mais do que os próprios indicadores. Uma narrativa optimista pode criar a impressão de melhoria antes que os seus efeitos sejam efectivamente sentidos pela população. Neste caso, o título da notícia parece privilegiar a narrativa do alívio económico, mesmo quando a realidade estatística indica apenas uma desaceleração da pressão inflacionista.
Há ainda uma distinção importante entre a economia dos números e a economia da vida. Os números podem revelar uma trajectória positiva da política monetária e da estabilidade financeira. Contudo, como observam Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi (2009), o progresso económico não deve ser avaliado apenas por indicadores agregados, mas também pela capacidade de as pessoas melhorarem efectivamente as suas condições de vida. Uma inflação mais baixa, por si só, não garante bem-estar. É necessário analisar simultaneamente os salários, o emprego, a produtividade e o custo da cesta básica.
Uma analogia simples ajuda a ilustrar esta realidade. Se alguém transporta um saco de cinquenta quilogramas e reduz o peso para quarenta, a carga torna-se menos pesada, mas continua pesada. Do mesmo modo, uma inflação de 8,78% é menos gravosa do que uma inflação de 20% ou 30%, mas continua a representar aumento do custo de vida. O fardo diminuiu, mas não desapareceu.
Do ponto de vista técnico, talvez fosse mais adequado afirmar que:
“A inflação desacelerou para 8,78%, reduzindo a pressão sobre o orçamento das famílias.”
Ou ainda:
“A subida dos preços abrandou para 8,78%, embora persistam desafios ao poder de compra.”
Estas formulações preservam o rigor económico e evitam induzir a interpretação de que o problema inflacionário foi resolvido.
Em síntese, o título da RNA evidencia uma leitura optimista da evolução dos indicadores económicos. Todavia, a análise científica recomenda cautela. A inflação de 8,78% constitui um sinal de melhoria relativamente a períodos de inflação mais elevada, mas continua a significar aumento dos preços e perda de poder de compra. Por isso, seria mais rigoroso afirmar que a pressão inflacionista diminuiu do que concluir que o bolso do cidadão está mais aliviado. Entre a estatística e a experiência quotidiana das famílias existe uma distância que a comunicação económica deve procurar reduzir, e não ampliar.
Referências bibliográficas
- Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
- Krugman, P., & Wells, R. (2018). Economics (5th ed.). New York: Worth Publishers.
- Mankiw, N. G. (2021). Principles of Economics (9th ed.). Boston: Cengage Learning.
- Shiller, R. J. (2019). Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events. Princeton: Princeton University Press.
- Stiglitz, J. E., Sen, A., & Fitoussi, J.-P. (2009). Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress. Paris.
- Tversky, A., & Kahneman, D. (1974). “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”. Science, Vol. 185, No. 4157, pp. 1124-1131.
sábado, setembro 12, 2026
INOVAÇÃO POPULAR NO COMÉRCIO AMBULANTE
Por: Luciano Canhanga*
Em Luanda, capital da República de Angola, as zungueiras — termo da língua ambundu que designa vendedeiras ambulantes — têm revelado engenho e capacidade de adaptação ao mercado, mesmo sem formação académica especializada.
Tradicionalmente, estas senhoras percorriam as ruas em grupo, em silêncio ou com pregões ocasionais, repartindo os clientes em vez de os disputar com arte e astúcia. Tal prática, embora solidária, mostrava-se pouco eficaz em termos de venda.
Reconhecendo a necessidade de mudança, algumas zungueiras decidiram gravar mensagens promocionais que são difundidas por meio de megafones. Esta solução evita o cansaço da voz e permite maior alcance auditivo. Em acto contínuo, passaram a caminhar sozinhas ou acompanhadas de colegas que vendem produtos distintos, evitando concorrência directa e promovendo complementaridade comercial.
Trata-se de uma verdadeira inovação marketista fora dos muros da academia, nascida da observação empírica e da inteligência prática. O fenómeno pode ser compreendido à luz do pensamento de Philip Kotler, que defende que o marketing não se limita à publicidade, mas envolve a criação de valor e adaptação ao consumidor. Também Seth Godin, ao abordar o marketing de permissão e a autenticidade, valoriza práticas que emergem da realidade concreta e da escuta activa do público.
Eis o pregão da mamã zungueira que vende gelado, refrescando os petizes em dias solarentos de Luanda, enquanto percorre as ruas, de aduela em aduela e de esquina em esquina:
_ O gelado kuya
_ De laranja kuya
_ De banana kuya
_ De morango kuya
_ Papá me mima só, gelado está a passar
_ Mamã me mima só, gelado está a passar
_ Avó me mima só, gelado está a passar!
Este exemplo revela que a ausência de escolaridade formal não equivale à ausência de inteligência ou de capacidade inventiva. As zungueiras, com criatividade e sentido prático, reinventam o comércio popular urbano e contribuem para a economia local com soluções originais e eficazes.
Autores como Guy Kawasaki, ao falar sobre o espírito empreendedor, e Alvin Toffler, que em A Terceira Onda valoriza o saber prático como motor de transformação social, ajudam a compreender que a inovação não é monopólio das instituições formais. Também Carolina Schmitt Nunes e Gertrudes Dandolini, ao estudarem práticas de marketing em contextos não convencionais, reforçam a legitimidade destas estratégias emergentes.
As zungueiras de Luanda, com megafone em punho e criatividade em marcha, são exemplo vivo de como o pensamento estratégico pode florescer nas margens da academia, com impacto directo na vida urbana e no consumo quotidiano.
=
*Graduado em Comunicação Social e MSc em Ciências Empresariais pela UFP, Porto.
sexta-feira, agosto 28, 2026
DATAS QUE FAZEM HISTÓRIA
(Contributos para Datas de Celebração Local a Sul do Kwanza)
O conhecimento rigoroso das datas de criação, elevação e reorganização das localidades angolanas constitui um instrumento essencial para as Administrações Municipais, Comunais e Distritais, bem como para as comunidades locais.
A identificação correta dos marcos
fundacionais de cada povoação — criação de concelhos, instalação de postos
administrativos, elevação a vila ou cidade, delimitações e reorganizações —
permite:
- Definir com precisão os dias festivos locais
(aniversários de fundação, elevação ou reorganização);
- Uniformizar calendários celebrativos municipais;
- Fortalecer a identidade histórica das comunidades;
- Apoiar a planificação sociocultural para fins de
turismo, cidadania e preservação do património imaterial.
O Índice Histórico‑Corográfico de
Angola, de Mário Milheiros (1972), é o último documento sistemático produzido
antes da independência que reúne, com método e rigor, a legislação
administrativa relativa à criação de postos, circunscrições, concelhos e
povoações em todo o território angolano.
Por isso, continua a ser fonte indispensável para reconstrução da memória local e para fundamentar, de modo seguro, a definição dos Dias da Localidade, elemento identitário hoje valorizado em todo o país.
Localidades em
ordem alfabética
AMBOIVA / AMBUÍVA
- Posto
Militar: 22/04/1919
- Posto
Civil: 01/01/1923
- Caienge
(povoação): 29/12/1954
BALAIA (Ebo)
·
Povoação criada a 02/03/1955
CABUTA
- Posto
administrativo criado: 28/08/1923
- Anexação
do sobado Quituma: 1923
CALULO (Libolo)
- Delegado
do Governo: 1895
- Comando
Militar: 1899
- Posto
Militar do Lumbe: 1900
- Criação
do Concelho do Libolo (sede: Calulo): 31/01/1901
- Circunscrição
do Libolo: 06/02/1909
- Actualizações
de limites: 10/10/1913 e 12/01/1954
- Transformação
em Circ. Civil: 1922 (Dec. 325, publicado em 28/08/1923)
- Concelho
reorganizado: 07/08/1940
CARIANGO (Quibala)
- Posto
criado: 29/02/1904 (“Ramada Curto”)
- Recebe
área do Haco: 1935
- Povoação
comercial: 22/07/1957
CASSONGUE (localidades)
- Lombulua:
28/04/1954
- Menga:
28/04/1954
CONDA
- Concelho
criado: 13/12/1965
- Formado
pela fusão de Engelo e Tari (após 1923)
CONDÉ (Ebo)
- Cambula
(povoação): 02/03/1955
DALA CACHIBO
- Posto
Militar: 15/05/1903
- Renomeado
Posto Lopes Pereira: 08/08/1903
- Delimitação:
28/08/1923
EBO
- Concelho
criado: 13/12/1965
- Condé
(povoação): 18/08/1954
GABELA
- Sede
do Concelho do Amboim (1911–1934)
- Cidade:
06/06/1962
GANGULA
- Povoação
comercial: 27/01/1954
- Posto
administrativo: 01/09/1971
GUNGO (Quibala)
- Antigo
posto de Cariango reorganizado: 10/09/1923
- Sede
do Posto de Lonhe (D.L. 4153): 01/09/1971
GUNGO (Novo Redondo/Sumbe)
- Povoação
comercial: 27/01/1954
LONHE (Quibala)
- Posto
administrativo criado: 01/09/1971
- Associado
a Cariango (povoação de 1957)
LONGOLO (Libolo)
- Povoação
comercial: 10/09/1952
LUSSUSSO (Libolo/Munenga)
- Povoação
criada: 13/05/1959
MUNENGA (Libolo)
- Posto
Militar: 25/01/1919
- Posto
Civil: 28/08/1923
MUSSENDE
- Posto
criado: 07/08/1912
- Concelho:
13/12/1965
- Confirmado:
23/02/1971
NOVO REDONDO (Sumbe)
- Elevado
a Vila: 10/09/1923
PAMBANGALA
- Povoação
comercial: 28/04/1954
- Posto
administrativo: 16/05/1964
PORTO AMBOIM
- Elevado
a vila: 10/09/1923
- Renomeado
concelho: 19/05/1925
QUIRIMBO
- Posto
civil: 30/05/1922
- Posto
administrativo reorganizado: 13/12/1965
QUIBALA
- Circunscrição
Civil: 17/09/1921
- Concelho
(3.ª classe): 01/03/1944
QUILENDA
- Passagem
a posto civil: 12/09/1921
- Concelho
criado: 13/12/1965
QUISSONGO
- Posto
administrativo criado: 28/08/1923
SELES
- Capitania‑mor:
1914
- Circunscrição
Civil: 28/07/1921
- Concelho:
01/03/1944
- Caiba‑Iba:
28/04/1954
- Cainja:
28/04/1954
quinta-feira, agosto 13, 2026
"Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em Angola (1974-1978) - Contributos"
Apresentação do Livro
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Todo o protocolo observado!
O autor José Rodrigues apresentam-nos a
obra "Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em
Angola (1974-1978) - Contributos", um livro de 266 páginas que constitui
um importante contributo para a preservação da memória histórica do sector
petrolífero angolano.
Ao folhear esta obra, encontramos uma estrutura organizada em
dois grandes cadernos. O primeiro integra os elementos pré-textuais, como a
dedicatória, os agradecimentos e a apresentação, seguindo-se uma secção
composta por dezasseis entrevistas, antecedidas por citações seleccionadas dos
respectivos entrevistados.
O segundo caderno reúne um vasto conjunto documental,
incluindo relatórios, actas, ofícios, exposições, pareceres e outros documentos
de relevante interesse histórico.
Tal como o título sugere, o livro resulta de uma feliz
conjugação entre entrevistas jornalísticas e documentação histórica. O conteúdo
das entrevistas e os documentos que sustentam muitos dos factos narrados
permitem delimitar, em termos cronológicos, um período que se estende
essencialmente de 1975 a 1985.
Poderá alguém questionar: por que razão considerar o período
até 1985 quando o título destaca os anos de 1974 a 1978?
A resposta encontra-se na própria narrativa construída pelo
autor. Um dos entrevistados, embora tenha beneficiado de uma bolsa de estudos
em 1979, apenas iniciou a sua actividade profissional em 1985. Assim, para uma
compreensão mais ampla da formação dos quadros e da consolidação institucional
da indústria petrolífera nacional, parece legítimo considerar esse horizonte
temporal mais alargado.
Estamos, portanto, perante uma obra que recolhe fragmentos da
história oral, preservando-os através da palavra escrita. José Rodrigues
desempenha aqui um papel fundamental. O jornalista surge como uma ponte entre
gerações: de um lado, os jovens sedentos de conhecimento; do outro, homens e
mulheres que viveram momentos decisivos da construção da indústria petrolífera
angolana.
Muitos dos entrevistados eram extremamente jovens nos anos de
1975 e 1976. Tinham pouca ou nenhuma experiência numa actividade altamente
especializada. Contudo, perante as exigências do momento histórico, tiveram de
"pegar o touro pelos cornos", aprender fazendo e crescer
profissionalmente à medida que o país se afirmava. Com o passar do tempo,
tornaram-se alguns dos maiores depositários de conhecimento e experiência sobre
o sector petrolífero nacional.
Ao longo das entrevistas e dos documentos reunidos, alguns
nomes surgem de forma recorrente. O autor teve o cuidado de organizar os
testemunhos segundo as responsabilidades desempenhadas pelos seus
protagonistas.
Destaco, desde logo, Lopo do Nascimento, então
Primeiro-Ministro da República Popular de Angola, a quem coube exarar o diploma
que transferiu para a esfera do Estado angolano a empresa portuguesa ANGOL,
conduzindo à criação da SONANGOL.
Encontramos igualmente Percy Freudenthal, coordenador da
Comissão Nacional de Reestruturação da Indústria Petrolífera e primeiro
Director-Geral da SONANGOL.
Surge também Desidério Costa, frequentemente referido como o
homem do partido ou o político entre aqueles que desempenhavam funções
eminentemente técnicas numa indústria extremamente sensível, que exigia
equilíbrio, tacto e visão estratégica.
Ao longo da leitura, deparamo-nos com episódios
particularmente interessantes. Um deles demonstra como a indústria petrolífera
angolana soube construir pontes mesmo em contextos geopolíticos extremamente
complexos. No auge da Guerra Fria e num período de elevada tensão entre os
Estados Unidos da América e Cuba, instalações de uma empresa petrolífera
norte-americana em Angola chegaram a ser protegidas por militares cubanos. Eis
um exemplo eloquente da singularidade da nossa história petrolífera.
Além destes protagonistas, a obra preserva os testemunhos e
os contributos de figuras como Hermínio Escórcio, Carlos Viegas de Abreu, José
Jaime Freitas, Arnaldo Lago de Carvalho, Joaquim David, Albina Assis Africano,
José Maria Botelho de Vasconcelos, Abílio Sianga, Sebastião Martins, Paulino
Jerónimo e Filomena Costa Rosa, entre outros.
Há ainda uma personalidade internacional cujo nome é referido
com particular reverência pelos entrevistados: o Presidente Murtala Ramat
Muhammed, antigo Chefe de Estado da Nigéria, cuja liderança e apoio à retomada
das operações em Angola por parte da petrolífera americana Chevron foi crucial.
Peço a todos os presentes uma salva de palmas em reconhecimento a todos quantos facilitaram a produção deste livro, assim como ao Presidente Murtala Muhammed, que empresta o seu nome a uma das mais conhecidas avenidas da cidade de Luanda.
(Pausa para aplausos)
Como disse anteriormente, José Rodrigues, na qualidade de jornalista, entrevistador e guardião de documentos históricos, desempenha o papel de uma verdadeira ponte entre gerações.
Uma ponte que aproxima os jovens da história; uma ponte que liga a curiosidade ao conhecimento; uma ponte que permite que a experiência dos mais velhos continue a iluminar o caminho daqueles que hoje assumem responsabilidades na construção do futuro.
Quanto a mim, foi uma enorme honra receber o convite daquele
que considero um dos meus mestres no jornalismo radiofónico e ter a
oportunidade de percorrer as páginas desta obra, rica em testemunhos,
documentos e lições para as gerações presentes e futuras.
Com estas breves palavras, deixo-vos o convite para
mergulharem na leitura deste importante trabalho de memória e de cidadania, que
ajuda a compreender não apenas a história da indústria petrolífera angolana,
mas também a história dos homens e mulheres que a construíram.
Muito obrigado!
terça-feira, agosto 04, 2026
GADO ECONÓMICO E GADO ECOLÓGICO: PROSPERIDADE POTENCIAL E POBREZA ESTRUTURAL
quinta-feira, julho 16, 2026
OS DILEMAS DO ASSESSOR DE COMUNICAÇÃO
Por Soberano Kanyanga*
Este fenómeno, longe de ser um mero descuido, revela uma dinâmica de poder bem identificada por Max Weber, já no início do século XX, quando alertou para o poder dos aparatos burocráticos que, ao controlarem o fluxo de informação, moldam as decisões dos líderes sem que estes muitas vezes se apercebam, pois quem retém a informação detém, de facto, o poder.
Nesse cenário, o staff restrito, ao privar o assessor de documentos, convocatórias e informações cruciais, não apenas o enfraquece, mas cria um poder paralelo que distorce a própria capacidade de governação do líder, que, por seu turno, muitas vezes desconhece este cerco informacional tecido à sua volta. O mais grave é que, numa altura de aflição, quando uma crise eclode ou uma declaração infeliz ganha protagonismo, o líder recorre instintivamente ao assessor, julgando-o possuidor de todas as respostas e solicitando-lhe uma "solução urgente", mas é precisamente neste instante que a casa cai, pois, o assessor, que nunca viu o documento em questão e não participou nas reuniões preparatórias, vê-se confrontado com perguntas para as quais não tem resposta.
Como adivinhar o conteúdo concreto de um documento que não passou pelas suas mãos? Como ser assertivo em respostas que lhe são exigidas em segundos, num ambiente de pressão onde o líder, desprovido de paciência, nem sequer dá tempo para que o profissional se explique?
As consequências para o assessor são devastadoras e quase sempre injustas, pois ele passa a ser catalogado como desorganizado, por supostamente não saber conservar informações, ou como lento na decisão, enquanto corre atrás do prejuízo tentando obter dados junto dos "poderosos paralelos", ou, pior ainda, como incompetente, uma pecha pesada e difícil de remover que não reflete a verdadeira origem do problema. É precisamente neste ponto que a realidade angolana revela a sua armadilha mais perversa: se o assessor ousa queixar-se permanentemente da ocultação de documentos, o preço a pagar é ainda mais alto, pois a denúncia, em vez de corrigir o problema, agrava a sua situação, fazendo com que os seus documentos nunca cheguem a despacho, as convocatórias para reuniões desapareçam e ele seja sistematicamente excluído, chegando tarde ou perdendo encontros cruciais, num ciclo vicioso onde o silêncio se torna a única estratégia de sobrevivência, mas o silêncio perpetua a exclusão, e a exclusão garante o fracasso que confirma a sua (injusta) reputação.
Chegamos, assim, ao paradoxo final: o líder, ao permitir, ainda que por omissão, este cerco informacional ao seu assessor, acaba por prejudicar-se a si próprio, pois nos momentos de maior necessidade confronta-se com um profissional desarmado, desinformado e desautorizado, precisamente quando mais precisaria de um conselheiro de confiança, munido de todos os dados e preparado para defender a "sua dama", como bem sublinha Osvaldo Manuel ao descrever a importância de divulgar factos benéficos para manter uma imagem positiva.
Tal desiderato é inviável sem acesso fluido à informação gerencial, tanto a boa como a má, e, como observa Olívio dos Santos, consultor de comunicação integrada, o assessor necessita de planeamento estratégico e gestão de reputação que dependem intrinsecamente de um fluxo contínuo de dados que lhe são sonegados. Embora a Lei n.º 5/17, de 23 de Janeiro, estabeleça as incompatibilidades entre o jornalismo e a assessoria, ela não regula a relação de confiança e o fluxo de informação entre o líder e o seu assessor, uma lacuna que, no contexto angolano, se revela particularmente custosa e que exige, para além da profissionalização técnica defendida pelo Ministério que tutela a Comunicação Social, uma urgente profissionalização das relações internas, que coloque a informação ao serviço da instituição e não dos interesses paralelos de quem a retém, pois enquanto o líder não compreender que o seu assessor é um prolongamento estratégico da sua própria capacidade de governação, o ciclo de incompreensão, frustração e fracasso continuará a minar a eficácia da comunicação e a credibilidade de quem, por vocação e ofício, deveria ser o seu mais valioso aliado na construção da confiança pública.
=
*A propósito do dia internacional dos profissionais de Relações Públicas, Comunicação Corporativa, Assessoria de Imprensa e Comunicação Institucional, 16 de Julho.
segunda-feira, julho 06, 2026
HANDA E MWIXI - REGIONALISMOS DE MESMA LÍNGUA
Atenção: não confundir "mwixi" que é pilão com "mwixi" que é assobio. São palavras homógrafas, mas com pronúncia e significados diferentes. O assobio mais estridente, usado para chamar ou alertar quem esteja distante, tem o nome de "sengu".
quinta-feira, junho 18, 2026
MARQUÊS DE POMBAL: POLÍTICA LINGUÍSTICA COLONIAL E OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DAS LÍNGUAS EM ANGOLA
O presente artigo analisa o papel histórico de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, na construção de uma política linguística assimilacionista no Império Português, destacando a imposição da língua portuguesa como instrumento de dominação colonial. Examina-se a influência dessa política em Angola, com a consequente marginalização das línguas nacionais, e discutem-se as medidas adoptadas pelo Estado angolano no período pós-independência para a valorização, preservação e ensino dessas línguas no quadro de uma política linguística inclusiva.
quarta-feira, junho 10, 2026
PORTA-VOZ E COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL NO SÉC. XXI
Introdução
O tema "Não procurem o porta-voz: desafios da comunicação no século XXI", abordado por Nestor Goubel (2026), suscita reflexões profundas sobre o papel da comunicação institucional e a função dos porta-vozes nas organizações modernas. A experiência acumulada em mais de vinte anos de assessoria de imprensa, dividida entre o sector empresarial privado (2006–2015) e a administração central do Estado (2018–presente), antecedida por nove anos de prática jornalística na LAC e outras colaborações em media angolanos e estrangeiros (1996–2006), permite analisar criticamente os benefícios e riscos associados à figura do porta-voz.
Nos dias actuais, comunicar deixou de ser uma opção e tornou-se uma obrigação para as organizações públicas e privadas. A comunicação institucional deve alinhar-se à estratégia organizacional — missão, visão, valores e perfil — e exige serviços especializados na recolha, tratamento e divulgação de informações. Como sublinha Manuel Castells (2009), _vivemos numa sociedade em rede, onde a informação circula em tempo real e a reputação depende da transparência e da capacidade de resposta. _
Porta-voz: necessidade ou opção?
O grau de exposição pública e a frequência dos actos comunicacionais definem a necessidade de possuir porta-vozes permanentes. A Polícia Nacional, por exemplo, interage diariamente com a sociedade, sendo imperioso ter representantes oficiais que transmitam mensagens claras e consistentes. Já uma empresa mineira ou um ministério, cuja comunicação externa é sazonal (excepto em situações de crise), pode optar por porta-vozes ocasionais.
Os benefícios reputacionais de um porta-voz frequente são dentre outros os seguintes:
Credibilidade: a presença constante reforça a confiança do público.
Consistência: garante uniformidade na mensagem institucional.
Proximidade: cria vínculo com os media e a sociedade.
Visibilidade: aumenta o reconhecimento da instituição.
Por seu turno, também são apontadas algumas desvantagens associadas à depreciação da imagem.
Exposição excessiva: o porta-voz pode tornar-se alvo de críticas pessoais.
Associação directa: erros individuais repercutem-se na reputação da instituição.
Rigidez comunicacional: a centralização pode limitar a diversidade de vozes.
Vulnerabilidade: em crises, a imagem do porta-voz pode agravar a percepção negativa.
Autores como Grunig e Hunt (1984) destacam que a comunicação estratégica deve equilibrar visibilidade e prudência, evitando que a figura do porta-voz se confunda com a própria instituição.
Experiência pessoal
Durante nove anos e meio de actividade como assessor de comunicação em Catoca, evitei assumir o papel de porta-voz de uma empresa complexa do ponto de vista técnico. Concluiu-se que o porta-voz principal deveria ser o Diretor-Geral, enquanto os gestores dos distintos negócios actuariam como porta-vozes especializados. Essa estratégia permitiu maior precisão técnica e credibilidade junto aos públicos.
Ao integrar o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás (MIREMPET), optou-se por capitalizar uma relação de proximidade com os media e opinion makers, servindo como ponte entre estes e a direcção do Ministério. A função de porta-voz foi assumida apenas em situações pontuais, por orientação superior. Tal prática reforça a ideia de que ser ou não porta-voz é uma questão estratégica, mas comunicar com clareza e eficiência é um dever permanente.
Comunicação institucional no século XXI
A comunicação contemporânea enfrenta desafios como: Velocidade da informação (Castells, 2009);
Exigência de transparência (Cornelissen, 2017); Gestão de crises (Coombs, 2014) e Multiplicidade de canais digitais (Kaplan & Haenlein, 2010).
Esses fatores tornam a comunicação institucional uma função estratégica, que deve ser integrada à gestão organizacional. O porta-voz, quando existente, deve ser preparado para lidar com cenários complexos e imprevisíveis.
Conclusão
Ser ou não porta-voz é uma decisão estratégica que depende da natureza da organização, da frequência de sua interação com a sociedade e da pertinência de comunicar para fora. Contudo, comunicar com clareza e eficiência é uma obrigação inescapável das organizações modernas. Como afirma Habermas (1989), a esfera pública exige transparência e responsabilidade e a comunicação institucional é o elo que conecta organizações e sociedade.
Procurem, portanto, pelo serviço de comunicação instituição pois, "podem não encontrar o porta-voz".
=====
Referências
Castells, M. (2009). Communication Power. Oxford University Press.
Cornelissen, J. (2017). Corporate Communication: A Guide to Theory and Practice. Sage.
Coombs, W. T. (2014). Ongoing Crisis Communication: Planning, Managing, and Responding. Sage.
Goubel, N. (2021). Não procurem o porta-voz: desafios da comunicação no século XXI. Luanda.
Grunig, J. E., & Hunt, T. (1984). Managing Public Relations. Holt, Rinehart and Winston.
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Luciano Canhanga: graduado em Ciências da Comunicação (UPRA) e MSc em Ciência Empresarial (UFP)








