Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, novembro 06, 2026

DESINFLAÇÃO EM ANGOLA: ENTRE A DISCIPLINA MACROECONÓMICA ACTUAL E AS LIÇÕES DO PERÍODO DO "CÂMBIO DE DEZ"

Autor: Soberano Kanyanga

Suporte técnico e tratamento de dados: Data Management
Data: 06 de Novembro de 2026

Resumo Executivo
A redução da inflação homóloga para 8,16% em Outubro de 2026, conforme divulgado pelo Jornal de Angola, constitui um dos indicadores macroeconómicos mais relevantes da última década. O resultado insere-se num contexto de desaceleração progressiva dos preços, associada à combinação de políticas monetárias restritivas, maior flexibilidade cambial, disciplina fiscal e gestão prudente das reservas internacionais.

Esta evolução contrasta significativamente com o período que diversos analistas designam informalmente por "câmbio de dez", caracterizado pela manutenção de uma taxa de câmbio fortemente administrada durante os anos de elevada receita petrolífera. Embora esse modelo tenha contribuído para moderar os preços das importações e aumentar o poder de compra urbano, revelou-se vulnerável à queda das receitas externas, conduzindo ao esgotamento progressivo das Reservas Internacionais Líquidas (RIL) e ao agravamento das distorções cambiais.

O presente documento analisa os factores que explicam a actual trajectória de desinflação e estabelece uma comparação com as opções de política económica observadas durante a fase final da governação do Presidente José Eduardo dos Santos.

1. A desinflação em curso: uma mudança estrutural?
A inflação constitui um dos principais indicadores da saúde económica de um país. Em Angola, os seus movimentos têm estado historicamente ligados a três variáveis fundamentais: taxa de câmbio; preço internacional do petróleo; disponibilidade de divisas.

A actual desaceleração da inflação ocorre num contexto em que o país procura consolidar uma arquitectura macroeconómica mais sustentável, diminuindo a dependência de mecanismos artificiais de controlo dos preços.

2. Medidas que estão a impulsionar a desinflação
2.1. Flexibilização cambial e estabilização do Kwanza

O Banco Nacional de Angola passou a privilegiar um regime cambial mais flexível, permitindo uma maior aproximação entre o valor oficial da moeda e as condições efectivas do mercado. Segundo o estudo "A Política Cambial de Angola: Uma Observação Científica das Estratégias, Impactos e Desafios em Angola", Angola evoluiu de um modelo essencialmente fixo para um sistema progressivamente mais flexível, procurando preservar reservas e reduzir distorções cambiais. (Fonte: Revista Tópicos, artigo publicado em 26.10.2025; consulta em 06.11.2026).
Entre os principais efeitos dessa política destacam-se: redução da especulação cambial; maior previsibilidade para os importadores; diminuição da inflação importada; melhoria das expectativas dos agentes económicos.

2.2. Política monetária prudente
A contenção da liquidez constitui um dos pilares da estratégia de combate à inflação.
Dados económicos recentes mostram que o Banco Nacional de Angola tem mantido instrumentos de política monetária destinados a controlar a criação excessiva de moeda e a moderar a procura agregada. (Fonte: Trading Economics, Reservas Cambiais de Angola, actualização de Setembro de 2026; consulta em 06.11.2026).
Tal opção reduz: pressões inflacionistas; procura excessiva de divisas; riscos de desvalorização abrupta da moeda nacional.

2.3. Consolidação fiscal
A estratégia orçamental do Executivo tem privilegiado o equilíbrio das contas públicas e a sustentabilidade fiscal.
Os documentos macroeconómicos de suporte ao OGE 2026 enfatizam: robustez das finanças públicas;
Sustentabilidade da dívida; estímulo à actividade económica sem comprometer a estabilidade financeira.
(Fonte: Ministério das Finanças, Cenário Macroeconómico para 2026, Outubro de 2025; consulta em 06.11.2026).

Uma política fiscal mais rigorosa reduz a necessidade de financiamento monetário do défice e contribui para a estabilidade dos preços.

2.4. Gestão das reservas internacionais
As reservas internacionais permanecem um elemento essencial de credibilidade macroeconómica.
Dados recentes indicam que Angola mantém reservas superiores a 15 mil milhões de dólares, suficientes para cobrir vários meses de importações. (Fonte: Trading Economics, Reservas Cambiais de Angola, Setembro de 2026; consulta em 06.11.2026).
Embora inferiores aos níveis registados na primeira metade da década de 2010, continuam a representar um importante amortecedor face a choques externos.

3. O período do "câmbio de dez"
Na memória colectiva de muitos angolanos permanece o denominado período do "câmbio de dez", caracterizado por uma taxa de câmbio fortemente valorizada em relação ao dólar norte-americano.
Esse sistema foi viabilizado pelo elevado volume de receitas petrolíferas obtidas durante o superciclo das commodities.
Durante esse período verificaram-se simultaneamente: forte crescimento das importações; elevada disponibilidade de divisas; expansão do consumo interno; estabilidade aparente dos preços.
4. O custo oculto da estabilidade cambial
Em termos económicos, a valorização artificial da moeda gerou benefícios imediatos mas produziu vulnerabilidades estruturais.
Para sustentar um kwanza valorizado era necessário: disponibilizar divisas ao mercado; atender a procura crescente por importações; defender administrativamente a taxa de câmbio.
Quando as receitas petrolíferas começaram a diminuir após 2014, o sistema mostrou limitações significativas.
Segundo dados históricos compilados pelo Trading Economics, as reservas internacionais de Angola atingiram cerca de 34 mil milhões de dólares em Setembro de 2013, o valor mais elevado da série disponível. (Fonte: Trading Economics, Reservas Cambiais de Angola; consulta em 06.11.2026). Posteriormente observou-se um declínio gradual dessas reservas.

5. O alegado proteccionismo cambial e a drenagem das RIL
Diversos economistas defendem que uma parcela importante da erosão das Reservas Internacionais Líquidas decorreu da tentativa de sustentar uma taxa de câmbio desconectada dos fundamentos económicos.

Num contexto de: menor entrada de dólares; procura persistente de importações; elevada dependência externa; o Banco Central era frequentemente obrigado a intervir para defender a moeda.
O resultado foi a redução continuada das reservas externas ao longo dos anos seguintes. (Fonte: Diário dos Negócios, "Reservas internacionais de Angola reduzem-se ligeiramente, mas mantêm níveis confortáveis", publicado em 10.07.2025; consulta em 06.11.2026).

6. A principal diferença entre os dois modelos
Modelo do câmbio administrado - Modelo actual
Taxa de câmbio fortemente controlada - Maior flexibilidade cambial
Utilização intensiva de reservas - Preservação das reservas
Importações favorecidas - Procura de equilíbrio externo
Estabilidade dependente do petróleo - Estabilidade dependente de fundamentos macroeconómicos
Controlo indirecto dos preços - Política monetária e fiscal activa

7. Considerações finais
A inflação de 8,16% representa um marco importante para a economia angolana. Os dados actualmente disponíveis sugerem que a desaceleração dos preços resulta menos da utilização massiva de reservas para sustentar o kwanza e mais de uma combinação de: política monetária disciplinada; flexibilidade cambial; consolidação fiscal; maior prudência na gestão das reservas internacionais.
Todavia, a sustentabilidade destes ganhos dependerá da capacidade de Angola avançar para uma transformação estrutural da economia.
Sem um crescimento robusto da produção nacional, da agricultura, da indústria transformadora e das exportações não petrolíferas, a inflação continuará vulnerável a choques externos, especialmente num país ainda fortemente dependente das receitas petrolíferas.
A principal lição do período do "câmbio de dez" parece ser a de que nenhuma moeda pode permanecer valorizada por tempo indeterminado sem correspondência com a produtividade e a capacidade de geração de divisas da economia que a suporta. O actual processo de desinflação será tanto mais sólido quanto maior for o alinhamento entre estabilidade macroeconómica, produção interna e competitividade externa.

Referências

Ministério das Finanças de Angola. Cenário Macroeconómico e Estratégia Fiscal para 2026. Outubro de 2025. Consulta: 06.11.2026.
Isaac Tchifica Eliote. A Política Cambial de Angola: Uma Observação Científica das Estratégias, Impactos e Desafios em Angola. Revista Tópicos, 26.10.2025. Consulta: 06.11.2026.
Trading Economics. Reservas Cambiais de Angola. Dados actualizados em Setembro de 2026. Consulta: 06.11.2026.
Diário dos Negócios. Reservas internacionais de Angola reduzem-se ligeiramente, mas mantêm níveis confortáveis. Publicado em 10.07.2025. Consulta: 06.11.2026.
Jornal de Angola. Inflação segue a desacelerar e é já de 8,16% em Outubro. Consulta: 06.11.2026. (Referência contextual da análise).

sexta-feira, outubro 30, 2026

JUVENTUDE, OCUPAÇÃO SOCIAL E COMBATE À OCIOSIDADE

A juventude é entendida, em termos científicos, como uma fase de transição entre a infância e a idade adulta, marcada por transformações biológicas, psicológicas e sociais. Segundo Mannheim (1928), cada geração constrói a sua identidade em função das condições históricas e sociais que enfrenta. A estratificação etária, conforme Parsons (1951), organiza os indivíduos em grupos de idade, atribuindo papéis e expectativas sociais distintos.

Neste contexto, a juventude constitui uma etapa crítica do desenvolvimento humano, em que se definem valores, projectos de vida e inserção social. É também uma fase marcada pela força física, ousadia e energia criativa, que podem ser canalizadas para a construção de uma sociedade mais dinâmica e inovadora.

Em Angola, tanto no período colonial como na contemporaneidade, a questão da ociosidade juvenil tem sido um desafio. Se outrora o regime colonial impunha mecanismos de enquadramento forçado, hoje o problema manifesta‑se na forma de desocupação, marginalidade e tendência para o crime. A reflexão sobre este tema exige uma abordagem científica que articule história, sociologia e políticas públicas.

Segundo Erikson (1968), a juventude é marcada pela busca de identidade e pelo risco de difusão de papéis sociais. A ausência de ocupação produtiva pode gerar sentimentos de vazio e predispor ao desvio social. 

No tempo colonial, o combate à ociosidade era feito por meio de enquadramento compulsório em organizações como a Mocidade Portuguesa, ou através do trabalho forçado em fazendas e obras públicas (estradas e pontes), práticas que visavam disciplinar e controlar os jovens.

Durkheim (1897) já alertava que a falta de integração social aumenta a propensão ao comportamento desviante. 

No contexto actual, milhares de jovens angolanos encontram‑se desocupados, sem acesso a emprego ou educação de qualidade, o que os torna vulneráveis ao crime e ao ócio improdutivo.

Bourdieu (1979) acrescenta que o capital cultural e social são determinantes para a inserção dos jovens na sociedade. A ausência de políticas que promovam esse capital contribui para a reprodução da marginalidade. Assim, é necessário pensar em alternativas que não sejam repressivas, mas inclusivas e emancipadoras.

A juventude, pela sua força e ousadia, pode ser protagonista de mudanças sociais significativas. Como afirma Sen (1999), o desenvolvimento humano passa pela expansão das capacidades. É precisamente essa energia juvenil que deve ser canalizada para projectos produtivos e criativos.

Entre as soluções possíveis destacam‑se:

1. Formação técnica e profissional: cursos práticos que transformem jovens em agentes produtivos e inovadores.

2. Programas culturais e desportivos: ocupam o tempo livre, fortalecem valores comunitários e canalizam a força e ousadia para actividades positivas.

3. Empreendedorismo juvenil: apoiado por microcrédito e incubadoras, gera autonomia económica e sentido de pertença.

4. Serviço comunitário voluntário: promove cidadania e responsabilidade social, criando vínculos positivos entre jovens e comunidade.

À guisa de conclusão, o combate à ociosidade juvenil, outrora imposto de forma autoritária no período colonial, deve hoje ser pensado como um processo democrático e inclusivo. A juventude precisa de oportunidades que ampliem as suas capacidades e fortaleçam a sua integração social.Como afirma Sen (1999), o verdadeiro desenvolvimento é aquele que expande liberdades. Portanto, enfrentar a desocupação juvenil em Angola exige políticas públicas que combinem educação, cultura, desporto e empreendedorismo, transformando o tempo livre em tempo produtivo. Mais do que isso, é necessário reconhecer que a força e ousadia da juventude são recursos estratégicos para o futuro do país, devendo ser orientados para a inovação, a solidariedade e a construção de uma sociedade mais justa e próspera.

segunda-feira, outubro 05, 2026

A REPRESENTAÇÃO DE MALANJI NA ESCRITA DE SOBERANO KANYANGA

[Breve ensaio baseado na análise de textos publicados no blogue www.mesumajikuka.blogspot.com]


Por: Mona-a-Chico
A primeira característica que sobressai na escrita de Soberano Kanyanga é a recusa de uma observação superficial da cidade. O autor rejeita o olhar apressado do visitante ocasional e propõe uma experiência urbana baseada na caminhada, na observação atenta e na interacção com os espaços e as pessoas. Por isso, Soberano Kanyanga (1.) tem Malanji como cidade para ser vivida e não apenas observada. A este propósito, afirma:
"Há cidades que se conhecem de automóvel e há cidades que exigem os pés. Malanji pertence a estas últimas." (Malanji: a cidade que se deixa caminhar, Agosto de 2026).
Esta passagem contém praticamente um programa metodológico de leitura urbana. Para Kanyanga, compreender Malanji exige caminhar, observar, dialogar e experimentar o espaço urbano. A cidade é apresentada como um texto complexo que precisa de ser lido lentamente, para além da fotografia oficial e da percepção imediata.

2. Malanji como organismo histórico
Ao contrário de muitas abordagens urbanas centradas exclusivamente no presente, o autor inscreve constantemente Malanji numa longa duração histórica. A propósito, afirma:
"Malanji possui uma identidade que se construiu muito antes da Angola independente." (Malanji: a cidade que se deixa caminhar, Agosto de 2026).
A referência ao histórico Reino da Matamba e à figura de Njinga Mbandi demonstra que a cidade não é vista apenas como espaço administrativo contemporâneo, mas como herdeira de processos históricos seculares.
Para Kanyanga, a identidade urbana de Malanji nasce muito antes da modernidade colonial e pós-colonial. A cidade é resultado de camadas históricas sucessivas que continuam presentes na configuração do território e na consciência colectiva dos seus habitantes.

3. Malanji como cidade da memória colectiva
No texto "Explorando as Margens do rio que dá nome a Malanji", a memória assume uma função estruturante, e ele escreve:
"A memória deles serviu de bússola, afinando a minha intimidade com esta terra." (Explorando as margens do rio que dá nome a Malanji, Agosto de 2026).
A cidade é descoberta através das recordações dos seus habitantes. As narrativas dos amigos tornam-se instrumentos de leitura territorial e permitem aceder a uma Malanji que não aparece nos mapas.
Mais adiante acrescenta:
"A cidade desenhada a régua é apenas a capa do livro." (Explorando as margens do rio que dá nome a Malanji, Agosto de 2026).
Para o autor, a verdadeira cidade não reside apenas nos edifícios, nas ruas ou nas avenidas. Ela encontra-se nas experiências humanas que lhes atribuem significado. O espaço urbano é inseparável das recordações, dos afectos e das narrativas dos seus habitantes.

4. Malanji como património em risco
A questão patrimonial constitui um dos temas mais recorrentes da sua escrita sobre Malanji.
No texto "Raízes urbanas", observa:
"São património sem dono, ou talvez património esquecido?" (Raízes urbanas, Setembro de 2026).
A pergunta revela uma preocupação evidente com o abandono de edifícios históricos e com a falta de estratégias de valorização do património urbano.
Noutra passagem, Kanyanga escreve:
"A borracheira impõe-se, abraçando as paredes frágeis e ameaçando o que resta da estrutura." (Raízes urbanas, Setembro de 2026).
A natureza funciona como metáfora do tempo. As ruínas simbolizam a incapacidade colectiva de preservar determinadas memórias urbanas e constituem um alerta para a necessidade de reabilitação patrimonial.

5. Malanji como cidade de potencial inacabado
No texto "O Gigante adormecido de Malanji", o autor escolhe um imponente edifício abandonado como símbolo da cidade e anota:
"Mesmo esquecido, continua a dominar a paisagem urbana e a despertar a curiosidade de quem passa." (O gigante adormecido de Malanji, Agosto de 2026).
A construção inacabada transforma-se numa metáfora de oportunidades interrompidas e de projectos que nunca atingiram plenamente os objectivos inicialmente previstos.
O edifício representa expectativas económicas, urbanísticas e sociais que ficaram suspensas no tempo. Ao recuperar a sua história, o autor procura também recuperar uma parte da memória colectiva da cidade.

6. Malanji como exemplo de boa governação urbana
Apesar das críticas pontuais, a visão de Kanyanga sobre Malanji é globalmente positiva. A esse respeito, afirma:
"Malanji é, sem exagero, uma cidade invejosamente limpa." (Malanji: a cidade que se deixa caminhar, Agosto de 2026).
Relaciona essa realidade com práticas de acompanhamento da gestão pública:
"As conhecidas visitas relâmpago do governador às obras parecem ter criado uma cultura permanente de fiscalização e exigência." (Malanji: a cidade que se deixa caminhar, Agosto de 2026).
O autor identifica em Malanji um exemplo de organização urbana e de cuidado com o espaço público que pode servir de referência para outras cidades angolanas.

7. Malanji como geografia periférica
Os bairros periféricos surgem repetidamente como lugares privilegiados de observação da realidade urbana.
Ao descrever o bairro Kangambu, escreve:
"Imperam ainda as ruelas desenhadas sem a destreza do arquitecto." (Explorando as margens do rio que dá nome a Malanji, Agosto de 2026).
E acrescenta:
"A terra vermelha domina." (Explorando as margens do rio que dá nome a Malanji, Agosto de 2026).
As periferias são retratadas sem romantização, mas também sem preconceito. O autor procura compreender a lógica própria destes territórios e o seu papel na construção da identidade urbana malanjina.

8. Malanji como metáfora nacional
Talvez o aspecto mais profundo da obra seja a capacidade de transformar a realidade urbana numa reflexão de alcance nacional.
Em "Raízes urbanas", afirma:
"Cada raiz que se estende é um lembrete de que o abandono abre caminho à natureza e que o tempo, paciente, transforma ruínas em paisagens vivas." (Raízes urbanas, Setembro de 2026).
Esta frase ultrapassa claramente o caso específico de Malanji. Constitui uma reflexão sobre memória, preservação patrimonial, desenvolvimento e responsabilidade colectiva. A cidade converte-se numa representação condensada dos desafios e das potencialidades de Angola.

Conclusão (a poética urbana de Malanji)
Da análise dos textos emerge uma imagem coerente, rica e multifacetada da cidade.
Para Soberano Kanyanga, Malanji é simultaneamente: uma cidade que se percorre a pé; um repositório de memória histórica; um património ameaçado pelo abandono; uma referência de organização urbana; um laboratório de reflexão sobre o desenvolvimento; uma metáfora da própria nação angolana.
As frases mais emblemáticas condensam essa visão:
"Há cidades que se conhecem de automóvel e há cidades que exigem os pés. Malanji pertence a estas últimas." (Malanji: a cidade que se deixa caminhar, Agosto de 2026).
"A cidade desenhada a régua é apenas a capa do livro." (Explorando as margens do rio que dá nome a Malanji, Agosto de 2026).
"São património sem dono, ou talvez património esquecido?" (Raízes urbanas, Setembro de 2026).
Estas passagens revelam que Malanji não é apenas um cenário na escrita de Kanyanga. É uma personagem literária, um espaço de memória e um território de reflexão sobre o passado, o presente e o futuro de Angola.

“PIÔ-PIÔ” DE BONGA: ENTRELAÇAMENTO LINGUÍSTICO, NEOLOGISMOS E MEMÓRIA INFANTIL NA RÁDIO NACIONAL DE ANGOLA

O programa “Piô-Piô”, da Rádio Nacional de Angola (RNA), foi um dos mais emblemáticos espaços dedicados à infância angolana nas décadas de 1970 e 1980. Com forte componente comunitária e educativa, era realizado em diferentes zonas do país, envolvendo os miúdos locais em concursos como dança das cadeiras, lançamento de bola ao cesto, música, anedotas e outras actividades lúdicas. Em cada edição, as crianças cantavam, brincavam e aprendiam, tornando o programa um verdadeiro palco de expressão cultural e formação cívica.

O indicativo oficial do programa — com a letra “Piô-Piô, da Rádio Nacional, é para aprender e para brincar. Ordem, educação, disciplina na nossa diversão...” — foi escrito por Rui de Carvalho, musicado por Henrique, professor de música, e interpretado por Dionísio Rocha. Esta composição tornou-se o hino da infância radiofónica angolana, ecoando nos lares e nas ruas com entusiasmo e afecto.

Mais tarde, Barcelô de Carvalho “Bonga” foi convidado pela RNA a compor uma música dedicada ao programa e às crianças de Angola. Surge então “Kyalumingu Kimenemene”, uma canção que celebra a infância, a oralidade e os afectos comunitários. Bonga lançou a música no Largo do Kinaxixi e voltou a cantá-la no show realizado na Mutamba, reforçando o vínculo entre arte, infância e memória colectiva.

ENTRE ONOMATOPEIA E IDEOLOGIA

O termo “Piô-Piô” carrega múltiplas camadas de significado:

- Por onomatopeia, representa o som dos pintainhos — uma imagem doce e infantil.

- Por referência histórica, “Piô” era também o diminutivo de “pioneiros”, nome dado às crianças no tempo de partido único em Angola, quando a educação e os meios de comunicação tinham forte orientação ideológica.

A escolha da música como indicativo reforça essa ligação entre infância, formação cívica e identidade nacional. Num tempo em que havia apenas uma rádio — a nacional — os programas etários eram seguidos com atenção quase religiosa pelos seus destinatários. Foi o caso de muitos, eu incluído.

ENTRELAÇAMENTO LINGUÍSTICO: PORTUGUÊS E KIMBUNDU

A letra da canção de Bonga é um exemplo vibrante de entrelaçamento entre o português e o Kimbundu, revelando uma Angola urbana, viva e multilingue. Bonga canta:

“Sukula depressa o kisuku / pregozinho no pescoço / matabicho não kanjonja / piô-piô stá te chamar.”  

“Kyalumingu kimenemene! Piô-piô. Dondim tem mabute / Mãe foi no Piô-piô...”

Esses versos misturam línguas e códigos culturais, criando uma linguagem híbrida que ressoa com o quotidiano dos ouvintes.

NEOLOGISMOS E GÍRIAS: ORALIDADE CRIATIVA

A canção é rica em termos que emergem da oralidade popular, revelando práticas e hábitos locais:

Palavra/Expressão| Significado em português                              

Kusukula    | Lavar, arrumar  Kisuku          | Cozinha              Matabicho | Pequeno-almoço (neologismo: “matar o bicho”)

Kanjonjar  | Comer aos bocados, lentamente                Kifwa kya iba   | Mau hábito

Kyalumingu kimenemene     | Aos domingos, de manhã ou manhã cedo               

Mabute  | Ferida crónica                                        

Essas expressões não apenas enriquecem o vocabulário, mas também funcionam como marcadores culturais e afectivos. São termos que circulam entre gerações, carregando significados que vão além da tradução literal.

MÚSICA COMO DOCUMENTO GERACIONAL

Para quem viveu a infância nos anos 1980, “Piô-Piô” não é apenas uma canção — é um documento sonoro da memória colectiva. A música, ao ser usada como indicativo pela RNA, tornou-se parte da rotina emocional de milhares de crianças, que se reconheciam na linguagem, no ritmo e na melodia.

Mais tarde, para alguns, essa escuta atenta evoluiu para uma relação profissional com a rádio, como foi o meu caso, tornando-me radialista na LAC. A música, portanto, não apenas marca uma época — ela forma e transforma.

segunda-feira, setembro 28, 2026

PINTURAS RUPESTRES DE NDALAMBIRI: ACESSO E FUTURO

No coração do município do Ebo, província do Cuanza-Sul, repousa um dos testemunhos mais silenciosos e eloquentes da ancestralidade angolana: as pinturas rupestres de Ndalambiri. Gravadas sobre rochas que resistem ao tempo e às intempéries, estas expressões gráficas são mais do que arte primitiva — são narrativas visuais de um povo que, mesmo sem escrita formal, soube eternizar a sua cosmovisão, os seus rituais e a sua relação com o território.

A visita ao sítio, como relatado por Bernardete e familiares, "exige preparo físico mínimo. A subida e descida ao local são desafiadoras", o que, paradoxalmente, protege e afasta. Protege, porque o difícil acesso limita a degradação humana; afasta, porque impede que mais angolanos e estrangeiros conheçam e valorizem esse património.
A reflexão impõe-se: que futuro queremos para Ndalambiri? A memória colectiva não se preserva apenas com reverência simbólica, mas com acção concreta. O sítio carece de infra-estrutura básica — trilhos seguros, sinalização, retretes, lavabos, abrigo mínimo para visitantes, barracas de conveniência e, sobretudo, guias locais que dominem a história e a cultura da região. Sem isso, o turismo cultural não se consolida, e a narrativa ancestral corre o risco de se apagar.

Mais grave ainda é o silêncio institucional. A ausência de campanhas mediáticas, de inclusão curricular e de roteiros turísticos estruturados revela uma negligência que fere a dignidade histórica do povo angolano. As pinturas de Ndalambiri não são apenas traços sobre pedra — são testemunhos de uma Angola que existia antes da Angola moderna. Ignorá-las é amputar parte da nossa identidade.
A urgência é dupla: proteger e divulgar. Proteger, com medidas técnicas e legais que garantam a integridade do sítio. Divulgar, com acções educativas, culturais e turísticas que o insiram no imaginário nacional. Porque quando a história morre, como bem alerta Soberano Kanyanga, nós morremos com ela — não fisicamente, mas espiritualmente, culturalmente, colectivamente.
Ndalambiri é mais do que um destino. É um chamado à consciência patrimonial. Que saibamos escutá-lo antes que o tempo o silencie.

segunda-feira, setembro 14, 2026

BOLSO DO CIDADÃO "MAIS ALIVIADO”?

 |Uma leitura crítica da inflação de 8,78%|

O título do noticiário da RNA das 13h00 de 13 de Setembro de 2026, “Bolso do cidadão mais aliviado, inflação situa-se em 8,78%”, suscita uma reflexão sobre a forma como os indicadores económicos são comunicados ao público. Embora a desaceleração da inflação constitua um sinal positivo para a estabilidade macroeconómica, a associação imediata entre uma taxa de inflação mais baixa e um alegado alívio do bolso do cidadão merece ser examinada com rigor conceptual e científico.

À primeira vista, a mensagem sugere que a redução da inflação representa um benefício directo para as famílias. Todavia, a inflação de 8,78% continua a significar aumento dos preços. Em termos simples, os bens e serviços custam hoje mais do que custavam há um ano. O que mudou não foi a direcção do movimento dos preços, mas a velocidade a que estes crescem.

A literatura económica é clara a este respeito. Conforme explica o economista norte-americano Gregory Mankiw (2021), a inflação corresponde ao aumento generalizado do nível de preços numa economia e implica uma redução do poder de compra da moeda. Quando a taxa de inflação diminui, ocorre uma desaceleração da subida dos preços, não a sua redução. De modo semelhante, Paul Krugman e Robin Wells (2018) observam que a desaceleração da inflação não significa que os cidadãos recuperem imediatamente o poder de compra anteriormente perdido; significa apenas que essa perda passa a ocorrer a um ritmo mais lento.

É precisamente aqui que surge a fragilidade conceptual da expressão “bolso do cidadão mais aliviado”. Do ponto de vista económico, o bolso só se encontra efectivamente mais aliviado quando os rendimentos crescem acima da inflação ou quando os preços diminuem. Enquanto a inflação permanecer positiva, continua a existir erosão do poder de compra, ainda que menos intensa.

A economia comportamental também ajuda a compreender esta questão. Os investigadores Daniel Kahneman e Amos Tversky, pioneiros da economia psicológica, demonstraram que as pessoas avaliam o seu bem-estar económico não com base em indicadores macroeconómicos, mas na experiência concreta do dia-a-dia. O consumidor comum não mede a inflação através de percentagens; mede-a através do preço do pão, do arroz, do táxi, da propina escolar ou da factura da electricidade. Se estes custos continuam a aumentar, a percepção dominante dificilmente será a de alívio.

O economista prémio Nobel Robert Shiller (2019) argumenta igualmente que as narrativas económicas influenciam a percepção colectiva mais do que os próprios indicadores. Uma narrativa optimista pode criar a impressão de melhoria antes que os seus efeitos sejam efectivamente sentidos pela população. Neste caso, o título da notícia parece privilegiar a narrativa do alívio económico, mesmo quando a realidade estatística indica apenas uma desaceleração da pressão inflacionista.

Há ainda uma distinção importante entre a economia dos números e a economia da vida. Os números podem revelar uma trajectória positiva da política monetária e da estabilidade financeira. Contudo, como observam Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi (2009), o progresso económico não deve ser avaliado apenas por indicadores agregados, mas também pela capacidade de as pessoas melhorarem efectivamente as suas condições de vida. Uma inflação mais baixa, por si só, não garante bem-estar. É necessário analisar simultaneamente os salários, o emprego, a produtividade e o custo da cesta básica.

Uma analogia simples ajuda a ilustrar esta realidade. Se alguém transporta um saco de cinquenta quilogramas e reduz o peso para quarenta, a carga torna-se menos pesada, mas continua pesada. Do mesmo modo, uma inflação de 8,78% é menos gravosa do que uma inflação de 20% ou 30%, mas continua a representar aumento do custo de vida. O fardo diminuiu, mas não desapareceu.

Do ponto de vista técnico, talvez fosse mais adequado afirmar que:

“A inflação desacelerou para 8,78%, reduzindo a pressão sobre o orçamento das famílias.”

Ou ainda:

“A subida dos preços abrandou para 8,78%, embora persistam desafios ao poder de compra.”

Estas formulações preservam o rigor económico e evitam induzir a interpretação de que o problema inflacionário foi resolvido.

Em síntese, o título da RNA evidencia uma leitura optimista da evolução dos indicadores económicos. Todavia, a análise científica recomenda cautela. A inflação de 8,78% constitui um sinal de melhoria relativamente a períodos de inflação mais elevada, mas continua a significar aumento dos preços e perda de poder de compra. Por isso, seria mais rigoroso afirmar que a pressão inflacionista diminuiu do que concluir que o bolso do cidadão está mais aliviado. Entre a estatística e a experiência quotidiana das famílias existe uma distância que a comunicação económica deve procurar reduzir, e não ampliar.

Luciano Canhanga
Mestre (MSc) em Ciências Empresariais, Universidade Fernando Pessoa (Porto)

Referências bibliográficas

  • Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
  • Krugman, P., & Wells, R. (2018). Economics (5th ed.). New York: Worth Publishers.
  • Mankiw, N. G. (2021). Principles of Economics (9th ed.). Boston: Cengage Learning.
  • Shiller, R. J. (2019). Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events. Princeton: Princeton University Press.
  • Stiglitz, J. E., Sen, A., & Fitoussi, J.-P. (2009). Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress. Paris.
  • Tversky, A., & Kahneman, D. (1974). “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”. Science, Vol. 185, No. 4157, pp. 1124-1131.

sábado, setembro 12, 2026

INOVAÇÃO POPULAR NO COMÉRCIO AMBULANTE

Por: Luciano Canhanga*

Em Luanda, capital da República de Angola, as zungueiras — termo da língua ambundu que designa vendedeiras ambulantes — têm revelado engenho e capacidade de adaptação ao mercado, mesmo sem formação académica especializada.

Tradicionalmente, estas senhoras percorriam as ruas em grupo, em silêncio ou com pregões ocasionais, repartindo os clientes em vez de os disputar com arte e astúcia. Tal prática, embora solidária, mostrava-se pouco eficaz em termos de venda.

Reconhecendo a necessidade de mudança, algumas zungueiras decidiram gravar mensagens promocionais que são difundidas por meio de megafones. Esta solução evita o cansaço da voz e permite maior alcance auditivo. Em acto contínuo, passaram a caminhar sozinhas ou acompanhadas de colegas que vendem produtos distintos, evitando concorrência directa e promovendo complementaridade comercial.

Trata-se de uma verdadeira inovação marketista fora dos muros da academia, nascida da observação empírica e da inteligência prática. O fenómeno pode ser compreendido à luz do pensamento de Philip Kotler, que defende que o marketing não se limita à publicidade, mas envolve a criação de valor e adaptação ao consumidor. Também Seth Godin, ao abordar o marketing de permissão e a autenticidade, valoriza práticas que emergem da realidade concreta e da escuta activa do público.

Eis o pregão da mamã zungueira que vende gelado, refrescando os petizes em dias solarentos de Luanda, enquanto percorre as ruas, de aduela em aduela e de esquina em esquina:

_ O gelado kuya  

_ De laranja kuya  

_ De banana kuya  

_ De morango kuya  

_ Papá me mima só, gelado está a passar  

_ Mamã me mima só, gelado está a passar  

_ Avó me mima só, gelado está a passar!

Este exemplo revela que a ausência de escolaridade formal não equivale à ausência de inteligência ou de capacidade inventiva. As zungueiras, com criatividade e sentido prático, reinventam o comércio popular urbano e contribuem para a economia local com soluções originais e eficazes.

Autores como Guy Kawasaki, ao falar sobre o espírito empreendedor, e Alvin Toffler, que em A Terceira Onda valoriza o saber prático como motor de transformação social, ajudam a compreender que a inovação não é monopólio das instituições formais. Também Carolina Schmitt Nunes e Gertrudes Dandolini, ao estudarem práticas de marketing em contextos não convencionais, reforçam a legitimidade destas estratégias emergentes.

As zungueiras de Luanda, com megafone em punho e criatividade em marcha, são exemplo vivo de como o pensamento estratégico pode florescer nas margens da academia, com impacto directo na vida urbana e no consumo quotidiano.

=

*Graduado em Comunicação Social e MSc em Ciências Empresariais pela UFP, Porto.


sexta-feira, agosto 28, 2026

DATAS QUE FAZEM HISTÓRIA

(Contributos para Datas de Celebração Local a Sul do Kwanza)

O conhecimento rigoroso das datas de criação, elevação e reorganização das localidades angolanas constitui um instrumento essencial para as Administrações Municipais, Comunais e Distritais, bem como para as comunidades locais.

A identificação correta dos marcos fundacionais de cada povoação — criação de concelhos, instalação de postos administrativos, elevação a vila ou cidade, delimitações e reorganizações — permite:

  • Definir com precisão os dias festivos locais (aniversários de fundação, elevação ou reorganização);
  • Uniformizar calendários celebrativos municipais;
  • Fortalecer a identidade histórica das comunidades;
  • Apoiar a planificação sociocultural para fins de turismo, cidadania e preservação do património imaterial.

O Índice Histórico‑Corográfico de Angola, de Mário Milheiros (1972), é o último documento sistemático produzido antes da independência que reúne, com método e rigor, a legislação administrativa relativa à criação de postos, circunscrições, concelhos e povoações em todo o território angolano.

Por isso, continua a ser fonte indispensável para reconstrução da memória local e para fundamentar, de modo seguro, a definição dos Dias da Localidade, elemento identitário hoje valorizado em todo o país.

Localidades em ordem alfabética

AMBOIVA / AMBUÍVA

  • Posto Militar: 22/04/1919
  • Posto Civil: 01/01/1923
  • Caienge (povoação): 29/12/1954

BALAIA (Ebo)

·         Povoação criada a 02/03/1955

CABUTA

  • Posto administrativo criado: 28/08/1923
  • Anexação do sobado Quituma: 1923

CALULO (Libolo)

  • Delegado do Governo: 1895
  • Comando Militar: 1899
  • Posto Militar do Lumbe: 1900
  • Criação do Concelho do Libolo (sede: Calulo): 31/01/1901
  • Circunscrição do Libolo: 06/02/1909
  • Actualizações de limites: 10/10/1913 e 12/01/1954
  • Transformação em Circ. Civil: 1922 (Dec. 325, publicado em 28/08/1923)
  • Concelho reorganizado: 07/08/1940

CARIANGO (Quibala)

  • Posto criado: 29/02/1904 (“Ramada Curto”)
  • Recebe área do Haco: 1935
  • Povoação comercial: 22/07/1957

CASSONGUE (localidades)

  • Lombulua: 28/04/1954
  • Menga: 28/04/1954

CONDA

  • Concelho criado: 13/12/1965
  • Formado pela fusão de Engelo e Tari (após 1923)

CONDÉ (Ebo)

  • Cambula (povoação): 02/03/1955

DALA CACHIBO

  • Posto Militar: 15/05/1903
  • Renomeado Posto Lopes Pereira: 08/08/1903
  • Delimitação: 28/08/1923

EBO

  • Concelho criado: 13/12/1965
  • Condé (povoação): 18/08/1954

GABELA

  • Sede do Concelho do Amboim (1911–1934)
  • Cidade: 06/06/1962

GANGULA

  • Povoação comercial: 27/01/1954
  • Posto administrativo: 01/09/1971

GUNGO (Quibala)

  • Antigo posto de Cariango reorganizado: 10/09/1923
  • Sede do Posto de Lonhe (D.L. 4153): 01/09/1971

GUNGO (Novo Redondo/Sumbe)

  • Povoação comercial: 27/01/1954

LONHE (Quibala)

  • Posto administrativo criado: 01/09/1971
  • Associado a Cariango (povoação de 1957)

LONGOLO (Libolo)

  • Povoação comercial: 10/09/1952

LUSSUSSO (Libolo/Munenga)

  • Povoação criada: 13/05/1959

MUNENGA (Libolo)

  • Posto Militar: 25/01/1919
  • Posto Civil: 28/08/1923

MUSSENDE

  • Posto criado: 07/08/1912
  • Concelho: 13/12/1965
  • Confirmado: 23/02/1971

NOVO REDONDO (Sumbe)

  • Elevado a Vila: 10/09/1923

PAMBANGALA

  • Povoação comercial: 28/04/1954
  • Posto administrativo: 16/05/1964

PORTO AMBOIM

  • Elevado a vila: 10/09/1923
  • Renomeado concelho: 19/05/1925

QUIRIMBO

  • Posto civil: 30/05/1922
  • Posto administrativo reorganizado: 13/12/1965

QUIBALA

  • Circunscrição Civil: 17/09/1921
  • Concelho (3.ª classe): 01/03/1944

QUILENDA

  • Passagem a posto civil: 12/09/1921
  • Concelho criado: 13/12/1965

QUISSONGO

  • Posto administrativo criado: 28/08/1923

SELES

  • Capitania‑mor: 1914
  • Circunscrição Civil: 28/07/1921
  • Concelho: 01/03/1944
  • Caiba‑Iba: 28/04/1954
  • Cainja: 28/04/1954

quinta-feira, agosto 13, 2026

"Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em Angola (1974-1978) - Contributos"

Apresentação do Livro 

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Todo o protocolo observado!

O autor José Rodrigues apresentam-nos a obra "Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em Angola (1974-1978) - Contributos", um livro de 266 páginas que constitui um importante contributo para a preservação da memória histórica do sector petrolífero angolano.

Ao folhear esta obra, encontramos uma estrutura organizada em dois grandes cadernos. O primeiro integra os elementos pré-textuais, como a dedicatória, os agradecimentos e a apresentação, seguindo-se uma secção composta por dezasseis entrevistas, antecedidas por citações seleccionadas dos respectivos entrevistados.

O segundo caderno reúne um vasto conjunto documental, incluindo relatórios, actas, ofícios, exposições, pareceres e outros documentos de relevante interesse histórico.

Tal como o título sugere, o livro resulta de uma feliz conjugação entre entrevistas jornalísticas e documentação histórica. O conteúdo das entrevistas e os documentos que sustentam muitos dos factos narrados permitem delimitar, em termos cronológicos, um período que se estende essencialmente de 1975 a 1985.

Poderá alguém questionar: por que razão considerar o período até 1985 quando o título destaca os anos de 1974 a 1978?

A resposta encontra-se na própria narrativa construída pelo autor. Um dos entrevistados, embora tenha beneficiado de uma bolsa de estudos em 1979, apenas iniciou a sua actividade profissional em 1985. Assim, para uma compreensão mais ampla da formação dos quadros e da consolidação institucional da indústria petrolífera nacional, parece legítimo considerar esse horizonte temporal mais alargado.

Estamos, portanto, perante uma obra que recolhe fragmentos da história oral, preservando-os através da palavra escrita. José Rodrigues desempenha aqui um papel fundamental. O jornalista surge como uma ponte entre gerações: de um lado, os jovens sedentos de conhecimento; do outro, homens e mulheres que viveram momentos decisivos da construção da indústria petrolífera angolana.

Muitos dos entrevistados eram extremamente jovens nos anos de 1975 e 1976. Tinham pouca ou nenhuma experiência numa actividade altamente especializada. Contudo, perante as exigências do momento histórico, tiveram de "pegar o touro pelos cornos", aprender fazendo e crescer profissionalmente à medida que o país se afirmava. Com o passar do tempo, tornaram-se alguns dos maiores depositários de conhecimento e experiência sobre o sector petrolífero nacional.

Ao longo das entrevistas e dos documentos reunidos, alguns nomes surgem de forma recorrente. O autor teve o cuidado de organizar os testemunhos segundo as responsabilidades desempenhadas pelos seus protagonistas.

Destaco, desde logo, Lopo do Nascimento, então Primeiro-Ministro da República Popular de Angola, a quem coube exarar o diploma que transferiu para a esfera do Estado angolano a empresa portuguesa ANGOL, conduzindo à criação da SONANGOL.

Encontramos igualmente Percy Freudenthal, coordenador da Comissão Nacional de Reestruturação da Indústria Petrolífera e primeiro Director-Geral da SONANGOL.

Surge também Desidério Costa, frequentemente referido como o homem do partido ou o político entre aqueles que desempenhavam funções eminentemente técnicas numa indústria extremamente sensível, que exigia equilíbrio, tacto e visão estratégica.

Ao longo da leitura, deparamo-nos com episódios particularmente interessantes. Um deles demonstra como a indústria petrolífera angolana soube construir pontes mesmo em contextos geopolíticos extremamente complexos. No auge da Guerra Fria e num período de elevada tensão entre os Estados Unidos da América e Cuba, instalações de uma empresa petrolífera norte-americana em Angola chegaram a ser protegidas por militares cubanos. Eis um exemplo eloquente da singularidade da nossa história petrolífera.

Além destes protagonistas, a obra preserva os testemunhos e os contributos de figuras como Hermínio Escórcio, Carlos Viegas de Abreu, José Jaime Freitas, Arnaldo Lago de Carvalho, Joaquim David, Albina Assis Africano, José Maria Botelho de Vasconcelos, Abílio Sianga, Sebastião Martins, Paulino Jerónimo e Filomena Costa Rosa, entre outros.

Há ainda uma personalidade internacional cujo nome é referido com particular reverência pelos entrevistados: o Presidente Murtala Ramat Muhammed, antigo Chefe de Estado da Nigéria, cuja liderança e apoio à retomada das operações em Angola por parte da petrolífera americana Chevron foi crucial.

Peço a todos os presentes uma salva de palmas em reconhecimento a todos quantos facilitaram a produção deste livro, assim como ao Presidente Murtala Muhammed, que empresta o seu nome a uma das mais conhecidas avenidas da cidade de Luanda.

(Pausa para aplausos)

Como disse anteriormente, José Rodrigues, na qualidade de jornalista, entrevistador e guardião de documentos históricos, desempenha o papel de uma verdadeira ponte entre gerações.

Uma ponte que aproxima os jovens da história; uma ponte que liga a curiosidade ao conhecimento; uma ponte que permite que a experiência dos mais velhos continue a iluminar o caminho daqueles que hoje assumem responsabilidades na construção do futuro.

Quanto a mim, foi uma enorme honra receber o convite daquele que considero um dos meus mestres no jornalismo radiofónico e ter a oportunidade de percorrer as páginas desta obra, rica em testemunhos, documentos e lições para as gerações presentes e futuras.

Com estas breves palavras, deixo-vos o convite para mergulharem na leitura deste importante trabalho de memória e de cidadania, que ajuda a compreender não apenas a história da indústria petrolífera angolana, mas também a história dos homens e mulheres que a construíram.

 

Muito obrigado!

terça-feira, agosto 04, 2026

GADO ECONÓMICO E GADO ECOLÓGICO: PROSPERIDADE POTENCIAL E POBREZA ESTRUTURAL

A distinção entre gado económico e gado ecológico, em Angola, reflecte não apenas duas formas de organização pecuária, mas também duas concepções de riqueza, valor e desenvolvimento, tal como demonstrado por E.E. Evans‑Pritchard (1940) quando afirmava que “para os povos pastoris, o gado é a medida universal de valor”.


Esta dicotomia permite compreender tensões profundas entre tradição e modernidade, bem como paradoxos socioeconómicos que caracterizam várias comunidades rurais do sul do país, onde o gado não é apenas um recurso económico, mas um elemento de estrutura social, como já observara Isaac Schapera (1955) ao referir que “a organização social não pode ser separada da organização pecuária”.

O gado económico representa uma forma de pecuária orientada para a produtividade e racionalidade, aproximando‑se do que Theodore Schultz (1964) descreve como “a transformação do agricultor tradicional num pequeno empresário racional”. Este tipo de gado constitui património animal gerido com vista à geração de rendimento monetário, segurança alimentar, integração nas cadeias de valor e melhoramento genético.

Nesta lógica, o gado funciona como capital económico, alinhado com a tese de Hernando de Soto (2000), segundo a qual “a riqueza só liberta quando é convertida em capital formal, capaz de circular e produzir mais valor”. Assim, a mobilização activa do rebanho como activo financeiro (vendendo, reinvestindo, diversificando) está em consonância com as propostas de Michael Lipton (1988) sobre o papel da agricultura eficiente na redução da pobreza rural.

Em contraste, o gado ecológico, característico de grupos herero, kuvale e mucubal, mantém funções culturais, rituais, patrimoniais e de coesão comunitária. Este papel é descrito por Marshall Sahlins (1972), ao afirmar que “as economias tradicionais não são economias de escassez, mas de significados”. Aqui, o gado é sobretudo um marcador identitário e simbólico, funcionando como extensão do corpo social, tal como explica Pierre Bourdieu (1979) ao definir capital simbólico como “o reconhecimento social que confere valor independente da utilidade económica”. O gado, nestas sociedades, não se destina prioritariamente ao mercado: é um activo existencial, depositário da continuidade ancestral, dos ritos de passagem, das alianças matrimoniais e do prestígio comunitário.

É neste cruzamento que emerge o paradoxo dos “ricos pobres”: famílias consideradas ricas pelo número de cabeças de gado, mas pobres em condições materiais. Amartya Sen (1999) ajuda a interpretar este fenómeno ao afirmar que “a posse de bens não implica capacidade real de transformar esses bens em liberdade efectiva”.

Assim, a riqueza acumulada sob a forma de rebanho, mas não convertida em liquidez, educação ou saúde, resulta numa prosperidade apenas aparente. James Ferguson (1990), nos seus estudos sobre economias africanas, descreve esse desfasamento como “o colapso entre a presença de recursos e a ausência de desenvolvimento”, destacando como a centralidade simbólica do gado pode bloquear a sua função económica.

A introdução e expansão do conceito de gado económico entre os criadores angolanos permite compreender como a transição para uma pecuária mais produtiva pode gerar liquidez, dinamização local, aumento da resiliência familiar, redução da pobreza multidimensional, criação de mercados regionais sustentáveis e impulso agroindustrial. Contudo, como alertam Caroline Ensminger (1962) e Elliot Fratkin (1997), transformações apressadas nos sistemas pastorais podem desestabilizar estruturas culturais delicadas, provocar resistência comunitária ou mesmo erosão identitária.

Dada a sensibilidade cultural deve-se alterar a função económica do gado sem violar ao seu papel simbólico cujo valor constitui-se na base social que sustenta a própria criação.

Do ponto de vista académico e das políticas públicas, o dilema entre gado económico e gado ecológico constitui um desafio estrutural para o desenvolvimento rural angolano. A dificuldade consiste em introduzir práticas de gestão económica sem destruir tradições; promover mercados pecuários sem desarticular identidades comunitárias; e demonstrar que o gado pode continuar a ser símbolo cultural e, simultaneamente, instrumento de emancipação económica. Esta perspectiva encontra respaldo nas abordagens de Robert Chambers (1983), Frank Ellis (2000) e Ian Scoones (1994), que defendem políticas integradas e participativas, conjugando saberes locais e inovação tecnológica.

O debate entre gado económico e gado ecológico ultrapassa, portanto, a dicotomia “ricos e pobres”, revelando modos diferenciados de relação com a riqueza, conflitos entre tradição e inovação, tensões entre valor simbólico e valor económico e aspirações de modernização que preservam a identidade. Por isso, qualquer abordagem, académica ou política, deve ser interdisciplinar, integrando Antropologia, Economia Rural, Sociologia Comunitária, Gestão Agropecuária, Ecologia, Estudos do Desenvolvimento e Ciências Ambientais.

Em Angola, o gado, seja económico ou ecológico, é um marcador de história, cultura, riqueza e sobrevivência, cuja compreensão exige atenção à sua complexidade integral.

Publicado a 27 de Março/2026 no jornal Pungo a Ngongo