PAI RAIMUNDO
Era assim que eu o tratava. Era irmão mais velho (primo nos dias deturpados de hoje) do meu pai António Fernando. Tinham o mesmo bisavô. Desde muito cedo que estavam juntos. Para além do parentesco, eram amigos, sendo o mais velho conselheiro do mais novo.
Já em finais da década de setenta do séc XX, decidiram abandonar a região de Kuteka. O pai Raimundo era soba da aldeia de Mbango yo'Teka e o meu pai vivia com o seu progenitor na fazenda, em Kitumbulu.
Mudaram-se, inicialmente, para a Fazenda Israel (perto da actual aldeia de Pedra Escrita). O pai Raimundo era tractorista e o António Fernando um trabalhador braçal como os demais que encontrou (maioritariamente ovimbundu).
Dois anos depois, foram fixar-se no Limbe (dois quilómetros a oeste de Pedra Escrita, EN 120), onde fizeram suas lavras, à medida que se foram desligando da fazenda que entrou em decadência. Depois da morte do meu pai, em 1982, o pai Raimundo cuidou de nós até ao nosso recuo para Luanda, em 1984.
Aprendi com ele a arte de produzir armadilhas de caça, manejar o fole, destilar kapuka, distinguir os sons, ler o comportamento do tempo, ser homem (embora fosse ainda criança).
O seu nome completo era Raimundo Manuel Carlos. Os eus outros cognomes eram Kambondondo (baixo), Xika Yangu, Soba Xika.
Em Luanda, o destino "entregou-me" a seu filho Arnaldo Carlos como meu mentor, tendo, desde o Limbe, minha mãe lhe encarregada a missão de "me endireitar e me educar".

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