A “avó Mariana”, também conhecida por Kyoko Ky’Eteta, foi prima-irmã da minha mãe. De tanta simpatia e longevidade, tornou-se matriarca da aldeia de Mbango Yo’Teka, assumindo espontaneamente o cuidado das crianças menores cujas mães, por razões diversas, não podiam levá-las às lavras. A sua casa transformou-se num verdadeiro infantário comunitário e ela passou a dedicar-se exclusivamente à infância, isenta das tarefas de busca de lenha, água ou alimentos — bens que lhe eram providenciados pelas mamãs da aldeia em gesto de gratidão.
O funcionamento do infantário era simples e solidário: cada mãe deixava com a avó Kyoko uma pequena panela com funji e conduto, ou ainda jinguba, batata assada, banana e outros alimentos.
À hora do almoço, a avó reunia as crianças e distribuía os manjares deixados, enquanto as mães trabalhavam despreocupadas, regressando alegres pelos cuidados recebidos pelos seus petizes.
Mas a avó Kyoko não se limitava a alimentar. Ela ensinava: cantavam juntas, ouviam estórias e fábulas e realizavam pequenos trabalhos adaptados à idade — juntar pratos, lavá-los, acender a fogueira, trançar o cabelo, entre outras actividades de pequena monta.
À noite, tornava-se professora das pubertárias, que se reuniam na sua “Kandumba” para receberem lições sobre a vida afectiva, prevenção de gravidez precoce e convivência conjugal. Essas adolescentes, por sua vez, garantiam o sustento da casa: lenha, água e iguarias e ingredientes para a confecção da "wala" [garupa].
A casa da avó Kyoko era também o ponto de encontros e reencontros entre as jovens e os galanteadores da aldeia e outros vindos de aldeias distantes em busca de um amor — recomendado ou tentando a sorte.
Esse ambiente, embora simples, era permeado por códigos de respeito e encantamento, onde os olhares se cruzavam sob o olhar atento da matriarca, que sabia distinguir entre o afecto genuíno e a frivolidade passageira.
A casa da avó Kyoko tinha tudo de um pouco para se viver. E tudo acontecia com naturalidade, espontaneidade e afecto. Hoje, faltam casas assim — nas cidades e até nas aldeias. A solidariedade esfumou-se e com ela a busca por amparo e conhecimento.
É possível resgatar essas práticas?
Talvez sim. Mas as comunidades precisam de conhecer o passado e reconhecer a eficácia dos bons costumes que o egoísmo, as crendices e o oportunismo estão a matar.

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