As línguas são frequentemente entendidas como corpos vivos, uma metáfora consagrada por vários linguistas. Ferdinand de Saussure observa que “a língua é uma realidade viva e mutável”, sublinhando o carácter dinâmico do sistema linguístico. Edward Sapir, na mesma linha, afirma que “toda a língua está em constante transformação”, nunca permanecendo igual a si própria.
Assim, quando se diz que uma língua vive, significa que ela: adapta-se às necessidades dos seus falantes;
renova continuamente o léxico; perde termos que caem em desuso; cria novos vocábulos; absorve influências externas.
Esta plasticidade é o que permite às línguas acompanhar o ritmo das sociedades que as falam.
Neologismos, empréstimos e mudanças naturais
Os neologismos ou novas palavras criadas ou adoptadas surgem para nomear realidades novas. Segundo Alves (1990), o neologismo responde à “necessidade de preencher lacunas ou ampliar possibilidades expressivas”.
Quando falantes de diferentes línguas entram em contacto, ocorrem estrangeirismos. Haugen lembra que “nenhuma língua vive isolada; a influência mútua é inevitável”.
O empréstimo lexical é, portanto, um processo natural e inevitável.
*Importância dos falantes para sobrevivência da língua*
Tal como qualquer corpo vivo, uma língua precisa de ser alimentada, sendo seu alimento essencial o uso quotidiano.
Joshua Fishman, referência maior da revitalização linguística, sintetiza de forma categórica:
“Nenhuma língua sobrevive sem transmissão intergeracional.”
Assim, para que uma língua se mantenha viva, tem de ser falada em casa; tem de estar presente na infância; tem de ser valorizada pelos adultos; tem de circular entre gerações.
Sem isso, o processo de erosão torna‑se inevitável.
Realidade urbana angolana
Nas zonas urbanas de Angola, e de forma mais acentuada em Luanda, observa‑se uma diminuição do uso das línguas nacionais.
A capital é hoje o maior espaço de encontro inter-étnico do país, reunindo povos Ovimbundu, Ambundu, Bakongo, Tucokwe, Nyaneka‑Nkhumbi e outros grupos.
Esta diversidade, embora culturalmente rica, cria também um ambiente onde o português assume predominância esmagadora, sendo a língua comum entre comunidades distintas.
O resultado é visível:
. Menos crianças aprendem as línguas dos pais;
. A comunicação familiar faz‑se sobretudo em português;
. A transmissão intergeracional fragiliza‑se.
O corpo vivo da língua enfraquece quando deixa de ser exercitado.
As línguas nas redes sociais: uma resistência contemporânea
De algum tempo a esta parte vêem-se sinais encorajadores. O surgimento de várias páginas no Facebook dedicadas à divulgação e ensino (informal) de línguas como Ucokwe, Kikongo e Umbundu mostra que novas gerações procuram reconstruir laços linguísticos.
David Crystal (2000) afirma que “as tecnologias digitais são hoje essenciais para a sobrevivência das línguas minoritárias”, porque tornam visível o que antes se confinava ao espaço familiar ou comunitário.
As páginas digitais cumprem, assim, funções decisivas, pois difundem vocabulário e expressões; despertam interesse entre jovens; criam comunidades virtuais de aprendizagem; reforçam o orgulho identitário.
São formas modernas de manter acesa a chama das línguas nacionais.
Um desafio para os Ambundu
Enquanto os Ovimbundu, Tucokwe e Bakongo têm demonstrado maior dinamismo digital, os Ambundu, falantes de Kimbundu, apresentam menor presença em iniciativas semelhantes.
A revitalização do conhecimwnto e uso das línguas bantu e pre-bantu faladas em Angola exige criação de conteúdos digitais; estímulo ao uso quotidiano; projectos educativos comunitários; envolvimento activo da juventude.
O escritor Ngũgĩ wa Thiong’o sintetiza o papel do falante na preservação cultural e atesta que “Uma língua vive enquanto vive a sua comunidade”.
Se os falantes se afastam, a língua perde terreno. Se regressam, a língua renasce.
O destino das línguas
Sem preservação activa, as línguas nacionais podem transformar‑se em meras referências históricas.
O perigo é real: línguas pouco faladas podem tornar‑se apenas notas de rodapé — “línguas que existiram no território angolano”.
A preservação exige vontade comunitária. Ela
começa em casa, passa pela escola, continua nas redes sociais e fortalece‑se pelo orgulho identitário.
As línguas angolanas, também designadas nacionais, são um cartão de visita cultural, por assim dizer, que deve ser continuamente mostrado, partilhado e valorizado, pois as línguas vivem quando nós as deixamos viver.
Pense nisso!
Sem comentários:
Enviar um comentário