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domingo, março 08, 2020

DÚVIDAS E RECURSO À ORALIDADE PARA DATIZAÇÃO

O meu primo (irmão de todos os momentos) Sabalu-a-Soba e eu sempre tivemos dúvida em relação ao ano de nascimento do outro.

Ele, meu mais velho de 7 anos, pensava que fui trazido à luz em 1973.
- Dizes coisas que aconteceram há muito tempo quando, feitas as contas, ainda não devias ter atitude racional. - Costuma afirmar, quando em meio a conversas regadas falámos sobre o passado e as memórias.
- Não podes ter nascido em setenta e quatro, lembrando-se de coisas de setenta e cinco e setenta e seis. - Argumenta.
    

Por outro lado, a minha mãe sempre dizia que a progenitora dele (Sabalu-a-Soba) estabelecia um largo intervalo entre um filho e outro. Sabendo eu que a irmã mais nova dele é de 1968, pois foi minha colega de escola e turma, sempre inculquei na minha mente que o mano Sabalu-a-Soba só podia ser de 1966.
- Ó mano, vê ainda a diferença de idade entre o mano Kakonda e mano Ngunza; mano Ngunza e você e repara agora no intervalo entre o mano e a mana Kakulu. Um ano só? Temos de rever essas datas. - Tenho atirado.


Dúvidas por lá, que nunca chegamos a debater até à exaustão, e grande amizade e companheirismo que nos acompanham desde que ele me viu nascer. Já fui seu aluno, em 1984, na Escola Grande da Terra Nova,  em Luanda (sala 18).

Aproveitando a folga que permite o Estado de Emergência, decretado em Angola desde o dia 26 de Março 2020, devido à pandemia da Covid-19, fui revisitando a memória e rebuscando outros nomes por que éramos chamados e que coincidem com os dias de semana em que cada um de nós nasceu.

Ele, Sabalu-a-Soba, nasceu num sábado. Por isso é Sabalu. O sufixo "a-Soba" significa filho do Soba.

Fui aos calendários dos anos de 1966, 1967 procurar qual dos anos tinha o 7 de Janeiro a coincidir com o Sábado. É o de 1967. Dúvida resolvida. 
- O mano/professor teve sempre razão. - Falei para mim mesmo. 

Busquei, depois, por aquilo que seria o meu verdadeiro ano de nascimento. Apesar de gerados por mães iletradas, os nossos pais eram letrados e avisados. Jamais se esqueceriam do dia e mês de nascimento, mas questões académicas e militares (retardamento da chamada para o serviço militar obrigatório) podia tê-los impelido a recuar ou avançar o ano registado como o de nascimento.
Ora, lembrei-me então que tenho uma prima, a Fátima, que é minha mais velha de apenas uma semana. Sempre brigámos e brincámos até hoje sobre "quem é mais velho de quem". Ela nasceu num Domingo anterior ao meu nascimento. Fui procurar os domingos de 1973 e não coincidiam com 18 nem 19 de Maio (pois sou de 25 de Maio). 

Busquei o ano de 1974 (que sempre defendi) e verifiquei que 25 de Maio era exactamente sábado, sendo que no domingo anterior, dia 19, nasceu a Fátima (minha mais velha de apenas uma semana).

Pronto está explicado. Haverá muita gente ainda com data de nascimento calculada. Felizmente, nem o mano Sabalu-a-Soba nem eu Phande-a-Umba estamos nessa situação. Quem tenha ainda dúvidas sobre o ano exacto em que nasceu pode perguntar aos progenitores ou aos mais velhos da aldeia o dia de semana em que foi trazido à luz. Com o uso do telefone ou computador consulte os calendários e desfaça eventuais enigmas.


quarta-feira, janeiro 01, 2020

OS INÚMEROS SIGNIFICADOS DE MORTE NO KIMBUNDU DO LUBOLU E CERCANIAS


ÚHA=morte

Em línguas europeias, a morte (do latino mors) refere-se ao processo irreversível de cessamento das actividades biológicas necessárias à caracterização e manutenção da vida em um sistema outrora classificado como vivo. Ao que, após o processo de morte, o sistema não mais vive. Os processos que seguem-se à morte (post mortem) geralmente são os que levam à decomposição dos sistemas.
Já as línguas bantu e concretamente o Kimbudu (variante do Lubolu e cercanias), a expressão morte (úha) tem outras conotações parciais que podem ser somente falências de órgãos parciais e/ou metaforização de objectos sem vida.
Wahi meso = morreram-lhe os olhos (é cego)
Inama kyamuhi = morreu-lhe a perna (contraiu deficiência no pé/perna)
Wahi ilenji = tem a sombra morta (metáfora: perdeu a elevação peniana)
Okalu/dikalu lya muhila munjila = morreu-lhe o carro pelo caminho (avariou-se-lhe o carro pelo caminho).
Mungaj'ê, uwaba kuha! = a beleza da mulher dele é como a “morte” (a beleza dela é infinita)!

sexta-feira, dezembro 27, 2019

ILUKE


(Pseudo-sepultura ou réplica)

Iluke é uma alegoria. Uma imitação do sepulcro real onde repousam os restos do finado. É uma réplica.
Uluka=atribuir nome/pseudônimo
Iluke=réplica

Nas comunidades rurais do Libolo (e zonas adjacentes), quando alguém morre distante e não é transladado seu corpo para a origem, é feito um pseudo-funeral (iluke) em que se colocam em uma pequena urna pertences do de cujus (pode ser vestuário, resto de cabelo, unhas etc.) que são sepultados como se de um corpo cadavérico se tratasse.

O costume explica que tal visa "acalmar os espíritos do defunto" e servir de memória para a comunidade, podendo merecer tratamento igual a outras campas na época da limpeza e pintura (normalmente com cal branca).

Por cima da campa, à semelhança dos sepultamentos reais, é anotado o tempo de vida do "homenageado.
Iluke é também uma espécie de túmulo de soldado desconhecido.

domingo, setembro 01, 2019

RAMAIS FERROVIÁRIOS "SEM PISTAS"

A caminho da sede do Sporting de Luanda, que já foram Leões no Girabola, há uma amostra da antiga ferrovia que saia do Mbungu, espraiava-se pela Marginal e rasgava a cidade baixa até à Mayanga. Outro ramal, saído do Porto, ia "visitar" a Ilha de Luanda. São tempos que apenas a idade avançada dos que o viram descreve ou os livros quase já sem cor.
Outra rota, não menos importante, passava pela Boa Vista e rumava à Funda. Pelas bandas da Petrofina ainda conheci, nas traquinices dos anos oitenta, os carris que, aos poucos, foram sendo recolhidos para suportar as coberturas de casas precárias.
Da Estação do Museke, entre Rangel e Kazenga, partia um outro ramal que seguia ao Kikolo, sendo o seu término a moagem de trigo. Nesse comboio, com suas carruagens de madeira, ainda viajei variadas vezes em busca de "sabão cocó", restos da Induve que os aldeões (à data) recolhiam, fundiam e acrescentavam um pouco de água para conferir-lhe uma forma mais aquosa. Chegou a ter vedação até à cervejeira do " cuco". Porém invadido pelos deslocados , em 1992 e anos subsequentes, foi completamente desmantelado, dando lugar à casebres e edifícios no seu traçado. Não resta sequer história para contar aos filhos de hoje.
Entre o nó rodoviário Ndalatandu-Ngulungu partia outro ramal. Tinha como vocação o transporte, essencialmente, de café que se colhia a toneladas vastas por aquelas paragens.
À semelhança do homólogo Caminho-de-ferro do Amboim, que partia do Porto Amboim à Gabela, o ramal do Ngulungu vai desaparecendo do mapa visual. Hoje, os carris e travessas são, semanas sim meses também, roubados para suportar os tectos das mabatas e ou vendidos aos sucateiros de Luanda. Daqui a nada, se nada mais se fizer, para impedir que a história se apague, nada sobrará, à semelhança dos ramais do Kikolo, Mayanga, Ilha de Luanda e Funda.
Uma atenção é reclamada ao oficialmente extinto Caminho-de-ferro do Amboim (ainda constava dos manuais do ensino primário da década de oitenta), cuja visita e retrato me estão na vontade e pela garganta.

Texto publicado pelo Jornal de Angola, Agosto/2018

quinta-feira, agosto 01, 2019

KASIMBU DA MINH'INFÂNCIA

Setembro era o mês do retorno à escola. Por isso, Maio, mês do início do Kasimbu (cacimbo ou estação seca) que se estende até Agosto, era o mês das provas de conhecimento e exames finais.

Os que atingissem a idade da circuncisão (no Libolo, era normal dos cinco aos dez anos, podendo acontecer, excepcionalmente, antes ou depois desse intervalo) estariam a contar os dias (se cônscio disso) ou à espera de serem surpreendidos pela chegada do "mestre da faca afiada". Os mais crescidinhos, já talhados para a caça, começavam a preparar os instrumentos de caça por queimada de capim, a alimentar os cães e a consertar as alparcatas.

Os que se tenham dado bem na escola, alguns eram presenteados com viagem a Luanda ou outra capital qualquer: a sede comunal, a sede municipal, a capital provincial e se os pais mais pudessem e quisessem, a capital do país. E quando voltasse à aldeia natal, era recorrente dos viajantes a expressão:
- Ewo, mu Luanda Uwabeee! (quão linda é Luanda!)
E contavam-se cenas de roer as unhas para quem nunca tinha deixado a aldeia nativa, umas verdadeiras e outras de enfeitar a línguas e os ouvidos da audiência.
- Quão linda é a cidade!Com a realização da picadas e depois das queimadas, iniciava-se a preparação do ano agrícola. Preparar o "kibembe" (terreno que esteve em sistema de pousio) para o milho, a batata-doce, o feijão e a jinguba. Ainda durante o kasimbu (cacimbo) os deltas dos rios e outras partes mais baixas (sem que haja rios) chamadas "kitaka ou naka" ganhavam o verde da rega. O cultivo de hortaliças acontece com maior intensidade no período de estiagem para os campos altos e rega nas zonas ribeirinhas. E o milho, a jinguba, a batata, o tomate, a cebola e alho, enfim... tudo volta, mesmo sem chuva!

segunda-feira, julho 01, 2019

À CAÇA DE LUZ E MAKEZU

Em 1978, "Ano da agricultura", já António  Fernando e Manuel Carlos "Xika Yangu ou Raimundo" (primo dele) haviam abandonado a região  de Kuteka, nas margens do Longa, para se fixarem na Fazenda Israel, próximo da Estrada Nacional Luanda-Huambo, gerida na altura por João dos Santos "João Kitumbulu" (tio de minha mãe).
O meu mano Arnaldo Carlos, filho de Xika Yangu, diz que "os dois papás desde a independência que juntavam ideias para se fixarem O mais próximo possível da estrada", sinónimo  de luz e avanço económico.
 
A rodovia asfaltada, concluímos hoje, permite proximidade com os grandes centros. Permite produção autossuficiente, com excedentes colocados à venda, renda, poupança e aquisição de bens industriais. Nesse quesito, o soba Xika Yangu já tinha bicicleta e o filho mais velho, Jorge Kakonda, uma mota Suzuki.
A aldeia de Mbangu-de-Kuteka (perto de 30 km de picada) ou a fazenda nas matas de  Kitumbulu, onde meu pai vivia junto do seu progenitor, nada davam senão a mesmice da mandioca e derivados, pesca e caça abundantes e o café que foi, aos poucos, perdendo peso e valor.
Instalados na fazenda Israel, António Fernando empregou-se como braçal, juntando-se aos contratados ovimbundu, e Xika Yangu tratorista, uma profissão respeitável no trabalho agrícola.
O passo seguinte, conta ainda o mano Arnaldo, seria abandonarem a fazenda e constituírem uma aldeola familiar, no Limbe, perto de quatro quilómetros da fazenda, onde reconstituiriam suas vidas. E assim fizeram em 1980.
A viver no acampamento, privei com outros meninos, filhos de ex-contratados ovimbundu, e com eles aprendi a língua e os hábitos de seus papás, pois em nossa pequena comunidade ambundu o Português era exigido a todo o tempo, já que estava à espreita a entrada para a pré-kabunga.
Assim, conheci a Pedra Escrita da Munenga (que nada tem a ver com a de Ndala Uzu que visitei uma década mais tarde) como suporte que continha/contém um anúncio publicitário da "Estalagem Boa Viagem", que fica no Lussusso, pertença  da família Olímpio, descendentes de São Tomé e Príncipe (conheci um dos donos em 1990, vivendo no Prenda, junto à Clinica/Hospital com o mesmo nome).
Certa vez, estávamos ainda no ano de 1979, "Ano da Formação de Quadros" (e eu ainda não frequentava a escola do povo), Arnaldo Carlos, Sabalo Kambota (primo Zito), Augusto João "Kapayu" mais tarde conhecido como "Gasolina" (filho do gerente da fazenda) e talvez o tio Beto Santos ou Zé Borracha (sobrinho da avó Emília, a mãe do tio Gasolina) decidiram ir à caça de "makezu" ou canta-pedras (uns animais roedores com três  dedos, do tamanho de um gato bem nutrido) no gigante paleolítico conhecido como pedra escrita. Era tempo de capim de altura intermédia,  Fevereiro talvez.
Munidos de cães de caça,  zagaias e flechas e outros utensílios para desalojar os animais de suas tocas, conseguiram uma boa caçada. Ao mais novo, no caso eu, cabia levar alguma das peças abatidas.
De regresso à casa (Fazenda Israel), perto de dois ou três quilómetros, o passo apressado e faminto de adolescentes descompassava com o lento, faminto, sedento e cansado do infante que, aos poucos, os foi perdendo de vista e na distância.
Como perigo não havia, pois sobre guerra nem na rádio ouvíamos ainda falar, eles foram na galhofa andando e pensando que o rapaz os seguia e cedo a eles se juntaria.
Postos no acampamento, Arnaldo e Sabalo (sobrinho da minha mãe), Kapayu e o primo Beto na casa particular de seu pai (havia a vivenda da fazenda que só se abria para trabalho) terão  notado a minha ausência prolongada.
Até hoje, nem o meu mano e amigo de todos os tempos Arnaldo, nem Kapayu que era um tio-amigo, nem o primo Zito (os dois últimos  já não vivem), ninguém me confidenciou se terão  levado alguma reprimenda dos mais velhos. Só sei que fizeram caminho inverso, procurando por mim, encontrando-me dormitando à sombra de um arbusto que crescera no então "campo aviação", meio-caminho entre a "pedra escrita" e a Fazenda Israel (rebaptizada no pós-independência por Fazenda Hoji-ya-Henda). A sede, a fome e o cansaço foram tão fortes que força não sobrara nas pernas e pés descalços sobre areia quente e movediça da tarde ensolarada.

 Quanto à aldeia de Pedra Escrita, que hoje se mostra  junto ao gigante paleolítico, foi obra do comandante António Infeliz João (filho de João dos Santos ou João Kitumbulu) que perante a dispersão pelas lavras dos antigos trabalhadores das fazendas da região e face às incursões dos militares rebeldes (Unita) que entre os ovimbundu encontravam fonte de abastecimento logístico e informações sobre a movimentação das forças armadas angolanas (FAA), decidiu, à força, juntar todos os povos dispersos em um conglomerado no território da fazenda que mais tarde passou a ser sua. Assim nasceu, no início da década de noventa, Séc XX, a aldeia que é das maiores da comuna da Munenga, juntando, para além de povos recuados há muito do Ki(s)songo, Kis(s)ala, Longolo e outras regiões distantes, aldeões de Kalombo, Tumba Grande, Kipela, Kototo e Kuteka.

sábado, junho 01, 2019

SONGO NA ESTRUTURA DA ALDEIA RURAL TRADICIONALISTA

(tentativa de descrição da divisão político-administrativa da aldeia rural tradicionalista)

A vertente "positiva" da divisão político-administrativa do Estado angolano, apresenta-nos o país subdividido em regiões (norte, sul, centro e leste e costeira/oeste), províncias, municípios, comunas/distritos urbanos, cidades, sectores/zonas, quarteirões, aldeias, etc.
Olhando para a organização do que foi/é o potentado de Kuteka, nas margens do Longa, abrangendo territórios adstritos à comuna de Munenga (Libolo) e comuna de Dala Cachibo (Ndala-ya-Xipo, município da Quibala), noto que o soberano (designado rei) exerce poder sobre as aldeias de Hombo, Mbango, Kabombo, Kipela(?) e Mbanze (a capital), podendo cada aldeia ter outras aldeolas (unidades dependentes e de menor aglomeração populacional), podendo ainda subdividir-se em sectores residenciais ou zonas, também designadas (no caso de Mbango) por "songo" (comunidade afectiva).
 
Sendo "songo" a menor unidade de organização territorial nas comunidades rurais tradicionais, pode equivaler, quando comparada com a comunidade urbana, a bloco ou quarteirão.
 
Na antiga aldeia de Mbangu-yo-'Teka (Mbangu-de-Kuteka), Kinhendu, Kitinu, Kabota e Zawlena Kilombo, todos parentes próximos eram do "songo/quarteirão" de Ketele, enquanto outros aldeões como Kyuma Albano eram do Nguya.
 
O "songo" é/era fundado na base de um parentesco mais intrínseco (consanguinidade e/ou amizade pura), credo (religioso ou animístico), origem migratória, ocupação socio-profissional (pescador, caçador, etc.), entre outros quesitos, não estando dissociado de um todo que é a aldeia, unidade administrativa do potentado (reino).
Nessa reflexão/busca, trago à colação um extracto do cancioneiro popular que cita:
"Bu songo yeto twoso twatata, kabwete otuxitila, so tulizek'ayo" (no nosso sector/comunidade todos somos homens, não há quem moa fuba, por isso passaremos noite com fome).
 
Um exemplo da ex(pers)istência de "songo" é encontrado na aldeia de Pedra Escrita, no Libolo, que cresce por via da migração de povos de aldeias afastadas da via asfaltada para essa, com destaque para os povos de Kuteka que, regra geral, erguem as suas habitações ao lado dos primeiros emigrantes da mesma procedência. Assim, quem se dirige à Pedra Escrita e procure por alguém que tenha nome redundante é questionado sobre a origem do procurado.
 
Explicando, por exemplo, que "procura pelo domingos do Mbangu" torna-se fácil ao "cicerone" percorrer mental e visualmente o "mapa da aldeia e suas sub-unidades/comunidades" e passar uma informação assertiva.
Voltando ao "Estado" tradicional de Kuteka, verifica-se que o soberano (Kañane ou Phela) exerce poder sobre a população das aldeias acima citadas, e estas possuem jurisdição sobre as terras (cultiváveis e não agricultáveis, montanhas, florestas/muxitu), rios, coutadas para caça, etc. Os limotes do potentado são físicos (acidentes naturais) mas conhecidos por toda a comunidade, sendo sua invasão por estranhos (sobretudo em termos de caça) passível de multas.
O povo desse potentado internaliza aspectos comuns como língua, credos e um sistema de jurídico-administrativo próprio.
Importa aos historiadores contemporâneos resgatarem esses relatos histórico-sociais e político-administrativos das nossas comunidades para que se possa compreender a genesis da estrutura e organização das comunidades rurais tradicionalistas do nosso país.

sexta-feira, maio 03, 2019

A CATANA E O HOMEM DO CAMPO


Na cidade tornou-se raro ver um homem, mesmo idoso, sem o seu celular. Até a bíblia, inseparável dos homens de idade nos dias de culto e missa,  vai ficando para trás pois o pequeno e inteligente aparelho consegue incorporar o velho telefone de discagem, o rádio receptor, o leitor de música,  a bíblia, o hinário e a harpa, a máquina calculadora, o medidor de passos e da tensão ou ainda a bússola, o termómetro, a balança e o relógio. A máquina de escrever e as de fazer fotos e filmes também estão dentro do celular. E é isso que confere alegria ao homem da cidade que fica doente se, por distração alguma, se vir distante do seu brinquedo facilitador em quase tudo.

No campo é outra coisa. Os capinzais altos nos atalhos, as árvores derrubadas pelo vento e pela chuva, as cobras procurando sol nos descampados por onde o homem passa, as feras que procuram no homem o seu mata-fome,  o cultivo, a poda, a colheita, a auto-defesa e outras valias para a vida campestre remetem à catana a importância transcendental e inquestionável do dia-a-dia.

No campo, um homem sem catana não é Homem. É amador, desprevenido e vulnerável. Todo o perigo é com ele e de tudo quase se pavoneia.

Em mãos de homens do campo, encontramos catanas de diferentes figurinos: com extremidade dianteira curva (semelhante à usada no 4 de fevereiro/61 e por isso assim designada), a rectilíneas, umas mais largas do que outras diminuídas pelo afiar permanente da lima ou pedra, sendo transportadas na mão firme ou à cintura.

A catana para o homem campestre é como a tradicional caneta e bloco de notas no bolso do colete de um bom jornalista que, mesmo usando gravador de som, nunca põe de parte a memória cerebral (ouvir, interpretar e reter) e o seu bloco de notas, coisas que pouco se vão ensinando ou que a nova geração despreza, correndo, com isso, riscos desnecessários.


segunda-feira, abril 01, 2019

PUMBA: ARTEFACTO DE CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

É à volta da lavra, para impedir a invasão de pacas, coelhos e semelhantes, que se coloca(va) uma cerca, normalmente galhos de árvores. As pumbas eram (são) colocadas em aberturas deixadas a propósito como portas de entrada, transpondo a cerca. Essas armadilhas também pod(iam)em ser montadas em caminhos habituais dos animais. São construídos com pedaços de troncos de árvores dispostos paralelamente, suportando uma carga que é detonada pela piscadela dos animais num gatilho colocado à superfície. O kabolo entre os ambundu do Libolo e Kibala (pumba) não escolhe alvo. Basta exercer pressão sobre o gatilho. O cão pode ser vítima. A cobra também. O termo "unyuna" significa ir visitar as armadilhas, de manhã cedo. É uma tarefa diária percorre a fronteira sertaneja da lavra para visitar os artefactos. E havia dias excelentes em que a kizaka ficava aposentada.
Para além da pumba, existe outro artefacto maior, a "kindamba". É quadriculado, mais largo e com mais peso. Colocado onde normalmente os animais vão roer terra por alegadamente conter NaCl (sal). O artefacto quadriculado suportado por uma baliza (dois paus verticais e um transversal com duas varas que se estendem da "baliza" ao gatilho, na parte inferior traseira. Para que a frequência dos animais não cesse, normalmente os mais velhos costumam deitar água salgada ou mesmo sal nos locais onde os animais vão roer terra, alegadamente por conter sal. O engatilhamento é semelhante ao da pumba.

sexta-feira, março 01, 2019

QUATRO NOTAS SOBRE A LÍNGUA DOS KIBALA

Quando a 9 de junho de 2012 o político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à Ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para proceder a troca da designação erroneamente atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola Yetu, não o fez sem razão. Havia sido realizados, sob sua governação, dois encontros em que se discutiu a problemática linguística na província.
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu"(nosso Kimbundu) ou Kimbundu do Kwanza-sul, indo de encontro àquilo que a população autóctene responde quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala...(FALO KIMBUNDU, FALO O NOSSO KIMBUNDU, KIMBUNDU DA KIBALA).

Na senda do debate que vimos provocando nas redes sociais e nos jornais convencionais (Cruzeiro do Sul, 3-10 Maio 2008, Jornal Cultura, 2016, www.olhoensaios.blogspot.com, etc),  o meu conterrâneo Tony Mora, avisado por um outro "conterra" e amigo comum, reagiu com hombridade aplausível, por me ter notificado, a que retiro e partilho 4 pontos para uma nova reflexão. Diz, o Tony Mora, no texto que me remeteu que:
1- O termo ngoya, como designativo da língua falada em grande de parte do KS, foi introduzido na rádio provincial em 1993.
2- As tentativas para gravar o programa com a designação Kimbundu não surtiram efeito.
3- Sob a governação de Serafim do Prado, realizaram-se dois encontros para analisar as línguas faladas no Kwanza-Sul.
4- ... Kanyanga (um intruso no debate?) surgiu apenas em 2018...
Perguntas:
1- a) Por que omite a primeira rádio a emitir um programa com esse nome que foi a VORGAN em finais dos anos 80 do século XX?
b) Que estudos fizeram na altura do lançamento do programa para concluir que a língua não era Kimbundu mas sim ngoya?
c) O Ministério que atende pelas questões linguísticas foi ouvido em 1993?
2- a) Por que não conseguiram, em 1993, lançar o programa com a designação Kimbundu?
b) É a rádio quem determina a autonomização das línguas em Angola?
3- a) Sabia que Serafim do Prado escreveu, a 9 de Junho de 2012, à Ministra da Comunicação Social (a mesma pessoa que atende hoje pelo pelouro da Cultura), pedindo a troca da designação do Programa, retirando a expressão ngoya, por considerara que ela não era aceite?
4-a) É a idade que determina o conhecimento?
b) A discussão sobre a designação da língua que se fala no Kwanza-Sul é matéria exclusiva dos que surgiram em 1993?
5- Não estaremos perante um caso de "investigar" para justificar o nome (ngoya) quando a investigação devia ser prévia à criação do programa?

Sem demérito àquilo que os signatários do “anguoia que significa vai por aqui”(?), publicam no Jornal de Angola e retomado pelo Portal de Angola a 15/07/2011, uma melhor compreensão do assunto passaria por fazer um levantamento com metodologia aplicável à ciência social nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul, como o fizeram Héli Chatelain, Maia, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.

O dinamismo das línguas pode levar algumas variantes à emancipação, aí onde as correntes forem mais heterodoxas do que ortodoxas. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes do ngoya para a designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul. Há, por isso, que separara as águas e definir o que se pretende: autonomização ou redesignação?

Como nota final, convido o (a) leitor (a) a colocar aos Kwanza-sulinos (norte e centro) maiores de quarenta anos as seguintes indagações:
1- Ouve rádio com frequência?
2- Ouve a rádio Kwanza-Sul e a rádio Ngola Yetu?
3- Quando começou a ouvir o termo ngoya como língua que se fala no Kwanza-Sul?
4- Antes disso que língua falava?
5- A língua que se fala no Kwanza-Sul (com excepção do Seles, Kassongue e Sumbe) é Kimbundu, Umbundu ou Ngoya?