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domingo, junho 21, 2009

POR QUE NÃO DESENVOLVER AS LÍNGUAS NACIONAÍS?

A língua é o principal elemento identitário. É, por si só, o meio de afirmação cultural de um povo e elemento diferenciador deste mesmo povo com outros povos ou comunidades.

Sendo Angola um Estado multi-cultural, no qual se ergue uma Nação política, é de levada importância o conhecimento, a divulgação e desenvolvimento das distintas línguas e dialectos existentes, o que permitirá compreender, do ponto de vista científico e filosófico, a composição dos aglomerados populacionais do país, suas relações de dependência e interdependência e a utilidade comunicacional das línguas locais para o desenvolvimento histórico-cultural, económico e político de uma nova sociedade angolana.

As línguas locais são igualmente o meio que nos permite distinguir os parentescos e os distanciamentos entre os povos que há muito habitam o que é hoje o território angolano. Por isso, tendo em conta o desenvolvimento globalizante, a ausência de estudos, promoção, divulgação e ensino das línguas locais angolanas às mais novas gerações pode lavar ao seu esquecimento e consequente desaparecimento, o que a acontecer significaria o aniquilamento de culturas, jamais recuperáveis na sua integridade.

Note-se também que é insignificante ou quase nula a bibliografia em línguas locais angolanas, excepção seja feita ao kimbundu, umbundu e kuanhama (Namíbia).

Por outro lado, a existência de comunidades onde a comunicação é feita predominantemente em línguas locais, faz com que determinadas mensagens difundidas noutras línguas não surtam o efeito imediato desejado e não crie a motivação para a acção que teriam se a comunicação fosse feita na língua com que se identificam.

Campanhas sobre prevenção contra doenças e outros perigos, ética e civismo, comportamento eleitoral, preservação ambiental entre outras devem também ser feitas em línguas locais para que alcancem os efeitos desejados.

Logo, a par da língua portuguesa que é o símbolo de identidade angolana e pilar basilar para a construção da Nação, asa línguas locais (também chamadas de nacionais) e seus sub-grupos ou dialectos devem ser objecto de investigação, divulgação e ensino, de modo a perpetuá-las e ocuparem o seu lugar no desenvolvimento socio-económico, político e cultural de Angola.

Devemos entender que “um povo sem cultura não é um povo” e uma cultura funda-se num veículo de transmissão de ideias, sentimentos, crenças, ritos e atitudes, ou seja, uma língua.

E como dita a minha tradição “kaiete lia sapo caioto”, eis aqui a minha contribuição.

Ngoia: Kaiete lia sapo Kaioto.
Tradução literal para português: uma conversa sem provérbio não anima.
Sentido pedagógico:
uma exposição sem exemplos não convence. Ou seja, toda exposição tem de ser seguida de exemplos. Não basta dizer, é preciso demonstrar.

Na foto: Luciano Delfim Canhanga
Por: Luciano Canhanga /Fev. 2005

sábado, junho 06, 2009

A CARGA PEDAGÓGICA NOS PROVÉRBIOS AMBUNDU

A zona sobre qual me debruço é a que vai do Libolo a Kibala, abrangendo Kilenda, Ebo, Gabela, Mussende e partes do Uaco-Kungo, Kassongue entre outros espaços da Província do Kuanza-Sul.

Trata-se de uma zona de transição etno-linguística entre os ovimbundu e os ambundu. Por isso, a língua contém elementos de duas outras línguas, com maior ou menor acentuação ou prodominância, à medida que se vai aproximando ou distanciando dos pólos (ambundu e ovimbundu).

No período da existência do reino do Ndongo, o Libolo, a Kibala, Ebo, Kilenda, Gabela e até parte do Uaco Kungo integravam este reino, razão pela qual, ainda hoje, quando perguntamos às pessoas destas áreas que língua falam, muitos respondem que falam Kimbundu. Porém, há as que dizem falar Kibala ou Ngoya, conforme um estudo publicado nesta pa'gina.
Sobre a origem dos povos Kibala, demonstrou-o, e muito bem, o Reverendo Vinte e Cinco no seu livro “Os Kibalas”. Também o Dr. Moisés Malumbu no seu livro “Os Ovimbundos do Planalto Central de Angola” faz excelentes apreciações sobre os povos vizinhos dos ovimbundu e das relações de interdependência entre eles.
Malumbu diz mesmo que os actuais povos Mbalundu e Ndulo (Bailundo e Andulo), dos quais nascem os povos planálticos dos nossos dias, são descendentes dos Kibala a quem os ovmbundu tratam por Va-kua-nano (os de cima/norte).
Porém, não basta esta relação de pertença para se dizer, como muitos o fazem, que que os povos que habitam o Kuanza-Sul são "bailundus ou kimbundus" por extensão. Têm uma língua e características próprias. Costumes que fazem uma cultura e língua próprias e que devem ser estudas. Têm também os seus provérbios com grande carga pedagógica.

No que toca a outras particularidades da Cultura e História, é só ver que nenhum outro povo, dos que habitam Angola, construiu necrópoles (sepulturas em pedras) senão os ancestrais dos Kibalas e seus vizinhos.

O que partilho convosco é que independentemente dos kibalas falarem uma língua parecida com o kimbundu ou umbundu, esta língua tem um nome. Tratemo-la por Kibala ou Ngoya (termo depreciativo mas muito divulgado), ela deve ser divulgada de modo a legá-la a novas gerações. Para que tal aconteça é preciso que seja investigada, divulgada e ensinada.

Tenhamos como exemplo a própria língua portuguesa que falamos, herdada do colono. É uma língua que deriva do latim, tal como o espanhol, o italiano, o francês, o romeno, entre outras e recebe empréstimos do inglês e línguas africanas.

-O português é ou não uma língua própria?-Tem ou não um nome?-É ou não estudado, desenvolvido, divulgado e transmitido a novos falantes?Este exemplo chama-nos atenção para o que devemos fazer para a valorização da nossa língua.

Não quero, aqui e hoje, definir que nome atribuir à nossa língua. Pesquisei um pouco e encontrei várias divergências entre os autores. Mas que temos que investigar, isso temos.

Em seguida quero mostrar-vos o que tenho feito para demonstrar a carga pedagógica dos provérbios da nossa língua.

Sentido pedagógico dos provérbios

Permitam-me que vos fale, ANTES, um pouco da Grécia antiga, tida como “a terra do franco falar” pela liberdade existente na altura dos grandes filósofos como Sócrates cuja escola forjou o grande Platão (Atenas) e a Academia, Aristipo (Cirene) e os Cirenaicos, Diógenes e os Cínicos, Euclides (Megara) e os Megáricos, entre outros.

Hoje, mais de 25 séculos passados, O "grande mestre" tem sido ainda opção preferida de muitos educadores que lembram o hábil inquiridor que finge tudo ignorar para tudo demolir, e investir, a seguir, despido dos julgamentos precipitados, na construção do saber, legitimado pela participação do interlocutor. É a refutação e a maiêutica. Assim é também a escola AMBUNDU nos seus fundamentos didácticos.

Vejamos os casos seguintes:

1.-Úlielela kufula, kuimba ndungue úputu. (confiar é falhar, aconselhar é carência de actividade).

Depois de uma introspecção, o jovem deve concluir que: é preciso ter sempre um plano alternativo e não confiar demasiadamente numa única via.

Em educação, as teorias vão e vêm, as experiências se sucedem, mas, por vezes, algumas ideias permanecem e algumas experiências resistem, ainda que de forma parcial, a novas práticas.

Vejamos agora:
_Uateleka sanji li uilo ué. Literalmente para português quer dizer que: quem cozinha uma galinha também tem vontade de comer carne.

Sentido pedagógico: Um convite para se estar à vontade não deve significar libertinagem.

Em que contexto se aplica? Lá na Kibala quando se abate uma galinha para uma visita ela deve ser servida completa. Os anfitriões comem o que restar da mesa. O convidado deve porém saber que pelo facto de lhe ter sido servido o frango completo não significa que os anfitriões não gostem de carne de galinha.

Os provérbios em ngoya reflectem também um ensino virado para a experiência.

Quantos apressados terão sido arrastados pela corrente de um rio sazonal por imprudência?Aqui a nossa sabedoria dita através de mais um provérbio:

-O luiji ki luezuka lupixile. (se o rio estiver cheio deixe-o passar).

O ensinamento é que: se alguém estiver furioso deixe-o descarregar toda a sua fúria e aborde-o depois para chamá-lo à razão. Pelo contrário não haverá entendimento. Ou ainda, se se deparar com um conflito deixe primeiro amainar os ânimos. Não seja apressado.


Bibliografia
-Baptista Mondin: Introdução a Filosofia
-Gabriel Vinte e Cinco: Os kibalas
-Gilda Naécia de Barros: Sócrates -Raízes Gnosiológicas do Problema do Ensino- Conferência na Fac. Educação da Universidade de São Paulo.
-Moisés Malumbu: Os ovimbundos do planalto central de Angola, 2005.

Texto tb. publicado em: www.canhanga.blogspot.com

Luciano Canhanga

segunda-feira, junho 01, 2009

A NEGAÇÃO NA LÍNGUA DOS KIBALA

A língua dos Kibala é o termo que utilizo para caractarizar o dialecto ambundu falado no Kuanza-Sul.

Tal como noutras línguas existem frases afirmativas e negativas.

1-A negação é formulada através do uso do prefixo ka.

- Uete li uoma u landandi? -tens medo das pedras?
- Kangete -não tenho!

-O mana u sanji a tenena? -Os filhos da galinha estão completos)?
-Katenene!- não estão completos.

2 Há casos em que se abrevia, na expressão oral, o prefixo ka substituindo-o apenas por ngi.
-Uali honja? - comeste banana?
-(Ka) Ngilile -não comi

-Lelo eye uele ku xikola? -Hoje (tu) foste à escola?
-Kangile. Mesene yo kata -Não fui. O mestre está doente.

Ku'aiaxike ki k'uitena! -Não comeces se não consegues

Luciano Canhanga

terça-feira, maio 12, 2009

ANÁLISE SOCIO-TEMPORAL DO CANCIONEIRO POPULAR KUANZA-SULINO


Tal como os demais povos os ambundos do Kuanza-sul que venho retratando nesta página têm a oralidade como o privilegiado meio de comunicar e legar conhecimentos a gerações presentes e futuras. A música e um dos canais desta comunicação e transmissão de saberes (provérbios/adágios), estados socio-históricos, psico-emocionais, entre outros.

Para os que viveram ou frequentaram regiões habitadas pelos ambundus do Kuanza-sul, com certeza que se ledmbrarão das cancões em voga nos idos de 80 a 90 do século XX, quando com improvisadas violas de três cordas, bujões (feitos de pedaço de tubo PVC ou mo invólucro de um projéctil de tanque) o povo cantava os males de que sofria e o estado psico-social de então e cantava:
1-Mu kiaña ndolo sosó ia mutena bueba/buaiba.
Por gostar de usar a lenha de ndolo (especie que produz muitas faíscas) umas destas tocpou-lhes as partes íntimas. O contexto social obrigava a que as pessoas não se ausentassem para muito longe onde podessem obter boas lenhas. A solução era cortar as árvores mais abundantes, fazê-las secar e depois aproveitar os ramos secos como lenhas. Só que estas tinham consegquências nefastas: as fagulhas que na hora de afugentar o frio se espalhavam pela palhota.
2-Sambuá li sambuá o mbiji ia tena m’oie
Descrição de um estado de guerra em que os beligerantes estavam em lados opostos (Sambuá li sambuá) mantendo no meio a população, aqui personificada por uma palmeira (oie) que sofre os efeitos de um obús.
3-Puto Malio la grama xioso uali
A guerra carrega consigo alguns males como os desvios de víveres e o enriquecimento à custa dos que sofrem e ou combatem. Assim, os ambundus do Kuanza sul também evocavam nas suas canções nocturnas, à volta de uma fogueira ou dum folguedo, o roubo de gramas (ração) para os militares. O Puto Mário representa aqui os que se endinheiraram à custa dos que lutamavam e morriam.

4- Buahila Toy inhuño i biloka
Na morte como no nascimento a música e a dança estão sempre presentes. É nos óbitos de defuntos de guerra ou comuns que a população lembrava: Buahila Toy inhuño i biloka (onde morreu o Toy os abutres sobrevoam). Muitos eram mortos/fuzilados e deixados ao repasto dos abutres. Apelava-se então às mães que deixassem de chorar os seus incontáveis mortos em canções como:
5-Mama kulile Diniel io uolilaxi (mãe não chore o Daniel “que” apodrece por aí), entre outras canções.

Hoje, 2009, chegada a paz, este mesmo povo traduzido por Kahinza, a voz sonante dos Kibalas, tras ao público novos lamentos, novos apelos, novas saudades e novas realidades.

E é servindo de megafone do seu povo que Kainza nos tras cantados na sua língua provérbios como: “Éramos três irmãos e todos fomos à escola. A galinha na sua capoeira, o porco na sua pocilga mas o cabrito vegeta por aí” ou angolano io uenda io zola (angolano anda e ri).

E canta ainda Munganda u’amore uasala bu Kuanza (a carta de amor ficou no kuanza), ou Kete kusonina ki uanvitila (aquele não escreve para mim que de mal lhe contaram).
São retratos dum outro tempo. Em que a paz trouxe de volta o sorriso ao rosto do angolano. Em que os três irmãos (libertadores do país) deposeram, felizmente, as armas, dois ocupam os seus verdadeiros lugares, existindo um que ainda não se reencontrou consigo mesmo, por isso vagueando... Sanji li Kialu kié; ngulo li linda lié; hombo io uendelaxi. Tempos de saudades daqueles que tinham “sobrado da guerra” mas que tinham encontrado outras vidas e se esqueceram da família à qual nem sequer cartas enviavam. Tempo também de novas paixões, de novas ilusões. De novas declarações de amor, por via da carta que cai na dura revista feita no controlo do Kuanza (Kiamafulo).

E retrata também a reabertura das estradas e as viagens para Luanda onde as jovens rurais, por inadaptação, se engravidaram no primeiro engate. E Kainza transmite o sentimento dos ambundus do Kuanza-Sul nos seguintes termos: Mona uai muangope, ku uana omala ké uai (a filha foi a Luanda; foi à busca da sua gravidez), sem se esquecer dos negócios por Angola adentro.


O povo retrata ainda a vida da mama’a ngongo (mãe dos gêmeos) e do Tio Ngunga. Este último é descrito como sendo originário do Uige e por gostar de fazer negócios foi sepultado numa via/estrada do Kuanza sul. Tio Ngunga Ku Uige uatundu muapila nengócio mbila ie mu via/mu kuanza-sul.

Se recuarmos 30 anos e consultarmos o cancioneiro popular da decada de Setenta do seculo XX ouviremos nas ngomas e kisacas (batuques e xocalhos) letras como: Ohié, ohié mua Cê-Pê-A; okalunga kali monami xio ua kenjia (CPA= Corpo de Polícia de Angola criado pelo governo de transição ao abrigo dos acordos de Alvor). E apelava o povo à polícia que a causa da morte do seu filho era desconhecida.


Assim se escreve a Históriia de um povo que canta e sempre cantou!




Luciano Canhanga

segunda-feira, maio 04, 2009

OS AMBUNDU DO K-SUL: DELITOS, TRANSGRESSÕES E PENALIZAÇÕES NAS ALDEIAS RURAIS


"A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceite em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que estão acima de um status particular no sistema hierárquico estabelecido (Max Webber)" 1.

Para além dos meus primeiros dez anos de vida vivida em aldeias rurais do Lubolo (Libolo) e Kibala, tenho me servido de idas constantes à região que descrevo para “in situ” reviver a maneira de ser e de estar destes povos.

As comunidades rurais do Libolo, Kibala e doutros povos ambundu que habitam o território da província angolana do Kuanza-Sul, apesar de não possuírem uma pauta que tipifique o que são delitos e o que são transgressões nem tão pouco as penalizações para cada desvio de conduta social, têm um sistema jurídico baseado em mores e hábitos aceites universalmente pela comunidade e que têm o peso de lei.

Ùkambula é o termo que traduzido para português equivale a cometer delito ou desvio social. A autoridade administrativa e sua corte, no caso o rei/soba é também o garante da legalidade na sua jurisdição sendo auxiliado na administração da justiça pelo Ñgana Thandela (ministro da justiça)2 que é perante a corte o responsável pela aplicação da lei.

O delito maior é o assassinato ou seja a morte de alguém de forma voluntária, o que pressupõe dizer que o direito à vida é o principal que a sociedade atribui ao homem.
Roubos, furtos, violações, falsos testemunhos, agressões físicas e verbais, incêndios contra propriedades privadas e ou colectivas (como as coutadas) são frequentes, sendo igualmente os desvios às normas sociais mais conhecidos e punidos de acordo ao direito consuetudinário.

Fruto da sua crença no poder dos defuntos e antepassados e sua irreligiosidade (são grande parte animistas) os povos em referência têm uma grande crença no feitiço. Daí que acusações de feiticismo preenchem o dia-a-dia do soberano e das comunidades.

Entre as penalizações constam a simples censura, restituição de bens de terceiros (roubados ou danificados), indemnizações (pecuniárias e em espécie), castigos físicos, entre outros.

A autoridade do rei/soba é reforçada apelo animismo e pela ideia de feitiço. O rei é tido como o detentor do mais forte feitiço, daí que para além de respeitado é igualmente temido, sendo as suas convocatórias, normalmente de comparência obrigatória. Os povos destas comunidades apesar de professarem algumas crenças religiosas (católica e protestantes) têm uma ligação muito forte a seus ancestrais e retornos a práticas animistas.

No esforço de conciliação entre o moderno e o tradicional, muitas vezes os reis/sobas encaminham determinados “casos” às autoridades políticas e judiciais, sobretudo casos de homicídios voluntários, evitando-se assim que seja executada a justiça por mãos próprias, as autoridades policiais locais (as mais próximas) têm sido igualmente várias vezes chamadas para dirimir querelas que os soberanos julgam poder fugir fora do seu controlo. Outras vezes são os próprios cidadãos que recorrem ao direito positivo, sempre que julguem ineficazes os julgamentos comunitários.

1-http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber, consulta 05.02.09
2- VINTE E CINCO, Gabriel: Os Kibalas, Núcleo-Publicações Cristãs, Lda. Queluz, 1992
Na foto: A aldeia de Pedra Escrita (Munenga-Libolo)

Luciano Canhanga

quarta-feira, abril 01, 2009

KIBALA: ESTUDOS LINGUÍSTICOS

- A ma’me’mi’mo’mu! (A mama eme imomu)
- Oh mãe eu já sou assim!
Está comprovado: a língua que se fala na Kibala, Ebo, Kilenda, Libolo, Gabela, Uaco e outtras parcelas do Kuanza-sul habitadas por ambundos é um dialecto ou variante do Kimbundu e não ngoya (1).
Para a pergunta:
Eye oji lyahi wondola? (Tu, que lingua falas?)- (2),
 
Um estudo realizado no terreno, com mais de 60 inquiridos repartidos em dois grupos de 30 (mais de 50 anos e menos de 40 anos), mostrou o seguinte:
- Os maiores de 50 anos disseram: - Eme Kimbundu ngondola; kimbundu kyepala ngondola (eu falo Kimbundu; falo kimbundu da Kibala).

Dos inquiridos (em Luanda e Kwanza Sul) com menos de 40 anos (10-40) responderam à mesma pergunta (Eie oji liahi uondola?) da seguinte forma: - Kimbundu ngondola; imbundo kyeto kyepala (falo kimbundo, o nosso kimbundu de Kibala) = 16 dos inquiridos.
- Eme ngoya ngondola ( falo ngoya) = 09 dos inquiridos
- Eme, umbá; umbá ngoya, ó kipala! (eu não sei se é ngoya ou kibala) = 5 dos inquiridos.

As respostas ambiguas/duvidosas resultam, a meu ver, do facto de nos últimos tempos se ter “publicitado”, sobretudo, pelas rádios VORGAN e NGOLA YETO, que  “a língua falada pelos ambundu do Kuanza-sul é Ngoya”, o que contraria os factos históricos (3) e vivenciais.

Dissecada esta questão, vamos então tentar aprender um pouco da “língua dos kibala”, uma variante do Kimbundu, com empréstimos (poucos do umbundu) e pequenas variações na articulação fonética.
-Alfabeto
-Pronomes pessoais
_Substantivos
_Verbos
-Conjugação do verbo comer










































































































Letra do alfabeto

Palavra

Equivalente em Portugues

A

Anhene

Eles

B

Mbati

Cágado

C





D

Ndundu

Marreta

E

Eye

tu/você

F

Ifo

Intestino

G

Ngando

Papiro

H

Honji

Arco

I

I

Armadilha

J

Munjya

Nassa

K

Kajila

Passarinho

L

Lwiji

Rio

M

Mema

Água

N

Kende

Gruta, refúgio, fenda

O

Oye

Palmeira

P

Phacasa

Pacassa

Q





R

Ryembe

Rola

S

Sote


T

Tendelé

Lagarto

U

Úkita

Nascer

V

Vita

Oiça

W

kwandala

querer

X

Úxila

Fabricar

Y

yami

meu/minha

Z

Zundu

Sapo
Pronomes pessoais (mathu)

























Eme

Eu

Eye

Tu

Mwene

ele/ela

Exe

Nós

Enhe

Vós

Anhene

Eles









Majina (substantivos/nomes)


Exe twete li majina omathu li majina olafuka. Twete nji li majina omalwiji, limajina amungwó.
(Temos nomes de pessoas e de terras. Temos ainda nomes de rios e de outros entes/coisas)



















































































Phuku

Rato

Comuns

Mulo

Montanha



Mema

Água



Mundwé

Cabeça



Musoso

pau/árvore



Munhekuna

Bailoço



Mama

Mãe



Tata

Pai



Nzoji

Sonho

Abstratos

Nguzu

Força



Ilonga

Problema



mbambi

Frio



Kipala

Kibala

Próprios

Kalulu

Kalulo



Kafanda

Kafanda



Kilombo

Kilombo



Nzambi

Deus



Longa

Longa (rio)



Ndumbu

Ndumbo











Os Verbos (…)


Enquanto na língua portuguesa o infinitivo se caracteriza pela terminação em R, na língua dos ambundu do Kwanza-sul o infinitivo forma-se pela presença de dois prefixos: U e K, sendo estes que mais flectem na conjugação verbal.







































































































Kimbundu (Kibala)

Equivalente em português

Úsusa

mijar/urinar

Únha

Defecar/cagar

Únua

Beber

Úkosa

Dormir/pernoitar

Úlóa

Pescar

Úloa

Feitiçar

Useya

Caçar

Úximika

Queimar

Úxipa

Fumar, sorver, chupar

Úxika

Tocar

Úsonika

Escrever

Únhana

Roubar

Útanga

Ler

Úlonga

Ensinar

Úvita

Ouvir/perceber

Úkwata

Pegar/segurar

Úkuta

Amarrara/prender

Úkalala

Trabalhar

Újikala/úkata

Adoecer

Úteleka

Cozinhar

Útunga

Construir

Úzala

Vestir(se)

Úxina

Expremer/ apertar

Úmbeta

Bater, castigar

Úzola

Rir, alegrar

Úpoña

Fornicar

Kwálala

Doer

Kwelesa

Poupar

Kwenda

Andar

Kwambila

Avisar. advertir

Kwaza

Coçar, arranhar






Conjugação do verbo comer (úlya)


-No presente (kapo)


-Pretérito perfeito (kyapiti) e


-Imperfeito (kyapiti kukulo)



































Presente

Preterito perfeito

Pretérito imperfeito

Eme ngilyá

Eme ngali

Eme ngalile

Eye olya

Eye wali

Eye walile

Mwene olya

Mwene wali

Mwene walile

Exe twlyá

Exe twali

Exe twalile

Enhe mulyá

Enhe mwali

Enhe mwalile

Anhene alyá

Anhene ali

Anhene alile

Obs: as letras U e I quando sucedidas de vogais mudam para W e Y.

O futuro forma-se com conjugação perifrástica






















Eme kahane ulya

Eu vou comer

Eye wahane ulya

Tu vais comer

Mwene wahane ulya

Ele/ela vai comer

Exe twahane ulya

Nós vamos comer

Enhe mwahane ulya

Vós vais comer

Anhene ahane ulya

Eles vão comer

Consultas

1- CANHANGA, Soberano: Ngoya ou Kibala eis a questão.Cruzeiro do Sul, edição de 3 a 10 de Maio de 2008.
2- CASTANHEIRA, António: A língua dos Kibala, Jornal de Angola, edição de 03.11.2006.

3- VINTE E CINCO, Gabriel: Grupos étnicos de Angola. Jornal de Angola, 28 Dez.2008

Por: Luciano A. Canhanga "Soberano"