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segunda-feira, setembro 14, 2026

"Bolso do cidadão mais aliviado”?

 |Uma leitura crítica da inflação de 8,78%|

O título do noticiário da RNA das 13h00 de 13 de Setembro de 2026, “Bolso do cidadão mais aliviado, inflação situa-se em 8,78%”, suscita uma reflexão sobre a forma como os indicadores económicos são comunicados ao público. Embora a desaceleração da inflação constitua um sinal positivo para a estabilidade macroeconómica, a associação imediata entre uma taxa de inflação mais baixa e um alegado alívio do bolso do cidadão merece ser examinada com rigor conceptual e científico.

À primeira vista, a mensagem sugere que a redução da inflação representa um benefício directo para as famílias. Todavia, a inflação de 8,78% continua a significar aumento dos preços. Em termos simples, os bens e serviços custam hoje mais do que custavam há um ano. O que mudou não foi a direcção do movimento dos preços, mas a velocidade a que estes crescem.

A literatura económica é clara a este respeito. Conforme explica o economista norte-americano Gregory Mankiw (2021), a inflação corresponde ao aumento generalizado do nível de preços numa economia e implica uma redução do poder de compra da moeda. Quando a taxa de inflação diminui, ocorre uma desaceleração da subida dos preços, não a sua redução. De modo semelhante, Paul Krugman e Robin Wells (2018) observam que a desaceleração da inflação não significa que os cidadãos recuperem imediatamente o poder de compra anteriormente perdido; significa apenas que essa perda passa a ocorrer a um ritmo mais lento.

É precisamente aqui que surge a fragilidade conceptual da expressão “bolso do cidadão mais aliviado”. Do ponto de vista económico, o bolso só se encontra efectivamente mais aliviado quando os rendimentos crescem acima da inflação ou quando os preços diminuem. Enquanto a inflação permanecer positiva, continua a existir erosão do poder de compra, ainda que menos intensa.

A economia comportamental também ajuda a compreender esta questão. Os investigadores Daniel Kahneman e Amos Tversky, pioneiros da economia psicológica, demonstraram que as pessoas avaliam o seu bem-estar económico não com base em indicadores macroeconómicos, mas na experiência concreta do dia-a-dia. O consumidor comum não mede a inflação através de percentagens; mede-a através do preço do pão, do arroz, do táxi, da propina escolar ou da factura da electricidade. Se estes custos continuam a aumentar, a percepção dominante dificilmente será a de alívio.

O economista prémio Nobel Robert Shiller (2019) argumenta igualmente que as narrativas económicas influenciam a percepção colectiva mais do que os próprios indicadores. Uma narrativa optimista pode criar a impressão de melhoria antes que os seus efeitos sejam efectivamente sentidos pela população. Neste caso, o título da notícia parece privilegiar a narrativa do alívio económico, mesmo quando a realidade estatística indica apenas uma desaceleração da pressão inflacionista.

Há ainda uma distinção importante entre a economia dos números e a economia da vida. Os números podem revelar uma trajectória positiva da política monetária e da estabilidade financeira. Contudo, como observam Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi (2009), o progresso económico não deve ser avaliado apenas por indicadores agregados, mas também pela capacidade de as pessoas melhorarem efectivamente as suas condições de vida. Uma inflação mais baixa, por si só, não garante bem-estar. É necessário analisar simultaneamente os salários, o emprego, a produtividade e o custo da cesta básica.

Uma analogia simples ajuda a ilustrar esta realidade. Se alguém transporta um saco de cinquenta quilogramas e reduz o peso para quarenta, a carga torna-se menos pesada, mas continua pesada. Do mesmo modo, uma inflação de 8,78% é menos gravosa do que uma inflação de 20% ou 30%, mas continua a representar aumento do custo de vida. O fardo diminuiu, mas não desapareceu.

Do ponto de vista técnico, talvez fosse mais adequado afirmar que:

“A inflação desacelerou para 8,78%, reduzindo a pressão sobre o orçamento das famílias.”

Ou ainda:

“A subida dos preços abrandou para 8,78%, embora persistam desafios ao poder de compra.”

Estas formulações preservam o rigor económico e evitam induzir a interpretação de que o problema inflacionário foi resolvido.

Em síntese, o título da RNA evidencia uma leitura optimista da evolução dos indicadores económicos. Todavia, a análise científica recomenda cautela. A inflação de 8,78% constitui um sinal de melhoria relativamente a períodos de inflação mais elevada, mas continua a significar aumento dos preços e perda de poder de compra. Por isso, seria mais rigoroso afirmar que a pressão inflacionista diminuiu do que concluir que o bolso do cidadão está mais aliviado. Entre a estatística e a experiência quotidiana das famílias existe uma distância que a comunicação económica deve procurar reduzir, e não ampliar.

Luciano Canhanga
Mestre (MSc) em Ciências Empresariais, Universidade Fernando Pessoa (Porto)

Referências bibliográficas

  • Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
  • Krugman, P., & Wells, R. (2018). Economics (5th ed.). New York: Worth Publishers.
  • Mankiw, N. G. (2021). Principles of Economics (9th ed.). Boston: Cengage Learning.
  • Shiller, R. J. (2019). Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events. Princeton: Princeton University Press.
  • Stiglitz, J. E., Sen, A., & Fitoussi, J.-P. (2009). Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress. Paris.
  • Tversky, A., & Kahneman, D. (1974). “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”. Science, Vol. 185, No. 4157, pp. 1124-1131.

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