Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, agosto 28, 2026

DATAS QUE FAZEM HISTÓRIA

(Contributos para Datas de Celebração Local a Sul do Kwanza)

O conhecimento rigoroso das datas de criação, elevação e reorganização das localidades angolanas constitui um instrumento essencial para as Administrações Municipais, Comunais e Distritais, bem como para as comunidades locais.

A identificação correta dos marcos fundacionais de cada povoação — criação de concelhos, instalação de postos administrativos, elevação a vila ou cidade, delimitações e reorganizações — permite:

  • Definir com precisão os dias festivos locais (aniversários de fundação, elevação ou reorganização);
  • Uniformizar calendários celebrativos municipais;
  • Fortalecer a identidade histórica das comunidades;
  • Apoiar a planificação sociocultural para fins de turismo, cidadania e preservação do património imaterial.

O Índice Histórico‑Corográfico de Angola, de Mário Milheiros (1972), é o último documento sistemático produzido antes da independência que reúne, com método e rigor, a legislação administrativa relativa à criação de postos, circunscrições, concelhos e povoações em todo o território angolano.

Por isso, continua a ser fonte indispensável para reconstrução da memória local e para fundamentar, de modo seguro, a definição dos Dias da Localidade, elemento identitário hoje valorizado em todo o país.

Localidades em ordem alfabética

AMBOIVA / AMBUÍVA

  • Posto Militar: 22/04/1919
  • Posto Civil: 01/01/1923
  • Caienge (povoação): 29/12/1954

BALAIA (Ebo)

·         Povoação criada a 02/03/1955

CABUTA

  • Posto administrativo criado: 28/08/1923
  • Anexação do sobado Quituma: 1923

CALULO (Libolo)

  • Delegado do Governo: 1895
  • Comando Militar: 1899
  • Posto Militar do Lumbe: 1900
  • Criação do Concelho do Libolo (sede: Calulo): 31/01/1901
  • Circunscrição do Libolo: 06/02/1909
  • Actualizações de limites: 10/10/1913 e 12/01/1954
  • Transformação em Circ. Civil: 1922 (Dec. 325, publicado em 28/08/1923)
  • Concelho reorganizado: 07/08/1940

CARIANGO (Quibala)

  • Posto criado: 29/02/1904 (“Ramada Curto”)
  • Recebe área do Haco: 1935
  • Povoação comercial: 22/07/1957

CASSONGUE (localidades)

  • Lombulua: 28/04/1954
  • Menga: 28/04/1954

CONDA

  • Concelho criado: 13/12/1965
  • Formado pela fusão de Engelo e Tari (após 1923)

CONDÉ (Ebo)

  • Cambula (povoação): 02/03/1955

DALA CACHIBO

  • Posto Militar: 15/05/1903
  • Renomeado Posto Lopes Pereira: 08/08/1903
  • Delimitação: 28/08/1923

EBO

  • Concelho criado: 13/12/1965
  • Condé (povoação): 18/08/1954

GABELA

  • Sede do Concelho do Amboim (1911–1934)
  • Cidade: 06/06/1962

GANGULA

  • Povoação comercial: 27/01/1954
  • Posto administrativo: 01/09/1971

GUNGO (Quibala)

  • Antigo posto de Cariango reorganizado: 10/09/1923
  • Sede do Posto de Lonhe (D.L. 4153): 01/09/1971

GUNGO (Novo Redondo/Sumbe)

  • Povoação comercial: 27/01/1954

LONHE (Quibala)

  • Posto administrativo criado: 01/09/1971
  • Associado a Cariango (povoação de 1957)

LONGOLO (Libolo)

  • Povoação comercial: 10/09/1952

LUSSUSSO (Libolo/Munenga)

  • Povoação criada: 13/05/1959

MUNENGA (Libolo)

  • Posto Militar: 25/01/1919
  • Posto Civil: 28/08/1923

MUSSENDE

  • Posto criado: 07/08/1912
  • Concelho: 13/12/1965
  • Confirmado: 23/02/1971

NOVO REDONDO (Sumbe)

  • Elevado a Vila: 10/09/1923

PAMBANGALA

  • Povoação comercial: 28/04/1954
  • Posto administrativo: 16/05/1964

PORTO AMBOIM

  • Elevado a vila: 10/09/1923
  • Renomeado concelho: 19/05/1925

QUIRIMBO

  • Posto civil: 30/05/1922
  • Posto administrativo reorganizado: 13/12/1965

QUIBALA

  • Circunscrição Civil: 17/09/1921
  • Concelho (3.ª classe): 01/03/1944

QUILENDA

  • Passagem a posto civil: 12/09/1921
  • Concelho criado: 13/12/1965

QUISSONGO

  • Posto administrativo criado: 28/08/1923

SELES

  • Capitania‑mor: 1914
  • Circunscrição Civil: 28/07/1921
  • Concelho: 01/03/1944
  • Caiba‑Iba: 28/04/1954
  • Cainja: 28/04/1954

quinta-feira, agosto 13, 2026

"Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em Angola (1974-1978) - Contributos"

Apresentação do Livro 

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Todo o protocolo observado!

O autor José Rodrigues apresentam-nos a obra "Entrevistas com a História: A História da Indústria do Petróleo em Angola (1974-1978) - Contributos", um livro de 266 páginas que constitui um importante contributo para a preservação da memória histórica do sector petrolífero angolano.

Ao folhear esta obra, encontramos uma estrutura organizada em dois grandes cadernos. O primeiro integra os elementos pré-textuais, como a dedicatória, os agradecimentos e a apresentação, seguindo-se uma secção composta por dezasseis entrevistas, antecedidas por citações seleccionadas dos respectivos entrevistados.

O segundo caderno reúne um vasto conjunto documental, incluindo relatórios, actas, ofícios, exposições, pareceres e outros documentos de relevante interesse histórico.

Tal como o título sugere, o livro resulta de uma feliz conjugação entre entrevistas jornalísticas e documentação histórica. O conteúdo das entrevistas e os documentos que sustentam muitos dos factos narrados permitem delimitar, em termos cronológicos, um período que se estende essencialmente de 1975 a 1985.

Poderá alguém questionar: por que razão considerar o período até 1985 quando o título destaca os anos de 1974 a 1978?

A resposta encontra-se na própria narrativa construída pelo autor. Um dos entrevistados, embora tenha beneficiado de uma bolsa de estudos em 1979, apenas iniciou a sua actividade profissional em 1985. Assim, para uma compreensão mais ampla da formação dos quadros e da consolidação institucional da indústria petrolífera nacional, parece legítimo considerar esse horizonte temporal mais alargado.

Estamos, portanto, perante uma obra que recolhe fragmentos da história oral, preservando-os através da palavra escrita. José Rodrigues desempenha aqui um papel fundamental. O jornalista surge como uma ponte entre gerações: de um lado, os jovens sedentos de conhecimento; do outro, homens e mulheres que viveram momentos decisivos da construção da indústria petrolífera angolana.

Muitos dos entrevistados eram extremamente jovens nos anos de 1975 e 1976. Tinham pouca ou nenhuma experiência numa actividade altamente especializada. Contudo, perante as exigências do momento histórico, tiveram de "pegar o touro pelos cornos", aprender fazendo e crescer profissionalmente à medida que o país se afirmava. Com o passar do tempo, tornaram-se alguns dos maiores depositários de conhecimento e experiência sobre o sector petrolífero nacional.

Ao longo das entrevistas e dos documentos reunidos, alguns nomes surgem de forma recorrente. O autor teve o cuidado de organizar os testemunhos segundo as responsabilidades desempenhadas pelos seus protagonistas.

Destaco, desde logo, Lopo do Nascimento, então Primeiro-Ministro da República Popular de Angola, a quem coube exarar o diploma que transferiu para a esfera do Estado angolano a empresa portuguesa ANGOL, conduzindo à criação da SONANGOL.

Encontramos igualmente Percy Freudenthal, coordenador da Comissão Nacional de Reestruturação da Indústria Petrolífera e primeiro Director-Geral da SONANGOL.

Surge também Desidério Costa, frequentemente referido como o homem do partido ou o político entre aqueles que desempenhavam funções eminentemente técnicas numa indústria extremamente sensível, que exigia equilíbrio, tacto e visão estratégica.

Ao longo da leitura, deparamo-nos com episódios particularmente interessantes. Um deles demonstra como a indústria petrolífera angolana soube construir pontes mesmo em contextos geopolíticos extremamente complexos. No auge da Guerra Fria e num período de elevada tensão entre os Estados Unidos da América e Cuba, instalações de uma empresa petrolífera norte-americana em Angola chegaram a ser protegidas por militares cubanos. Eis um exemplo eloquente da singularidade da nossa história petrolífera.

Além destes protagonistas, a obra preserva os testemunhos e os contributos de figuras como Hermínio Escórcio, Carlos Viegas de Abreu, José Jaime Freitas, Arnaldo Lago de Carvalho, Joaquim David, Albina Assis Africano, José Maria Botelho de Vasconcelos, Abílio Sianga, Sebastião Martins, Paulino Jerónimo e Filomena Costa Rosa, entre outros.

Há ainda uma personalidade internacional cujo nome é referido com particular reverência pelos entrevistados: o Presidente Murtala Ramat Muhammed, antigo Chefe de Estado da Nigéria, cuja liderança e apoio à retomada das operações em Angola por parte da petrolífera americana Chevron foi crucial.

Peço a todos os presentes uma salva de palmas em reconhecimento a todos quantos facilitaram a produção deste livro, assim como ao Presidente Murtala Muhammed, que empresta o seu nome a uma das mais conhecidas avenidas da cidade de Luanda.

(Pausa para aplausos)

Como disse anteriormente, José Rodrigues, na qualidade de jornalista, entrevistador e guardião de documentos históricos, desempenha o papel de uma verdadeira ponte entre gerações.

Uma ponte que aproxima os jovens da história; uma ponte que liga a curiosidade ao conhecimento; uma ponte que permite que a experiência dos mais velhos continue a iluminar o caminho daqueles que hoje assumem responsabilidades na construção do futuro.

Quanto a mim, foi uma enorme honra receber o convite daquele que considero um dos meus mestres no jornalismo radiofónico e ter a oportunidade de percorrer as páginas desta obra, rica em testemunhos, documentos e lições para as gerações presentes e futuras.

Com estas breves palavras, deixo-vos o convite para mergulharem na leitura deste importante trabalho de memória e de cidadania, que ajuda a compreender não apenas a história da indústria petrolífera angolana, mas também a história dos homens e mulheres que a construíram.

 

Muito obrigado!

terça-feira, agosto 04, 2026

GADO ECONÓMICO E GADO ECOLÓGICO: PROSPERIDADE POTENCIAL E POBREZA ESTRUTURAL

A distinção entre gado económico e gado ecológico, em Angola, reflecte não apenas duas formas de organização pecuária, mas também duas concepções de riqueza, valor e desenvolvimento, tal como demonstrado por E.E. Evans‑Pritchard (1940) quando afirmava que “para os povos pastoris, o gado é a medida universal de valor”.


Esta dicotomia permite compreender tensões profundas entre tradição e modernidade, bem como paradoxos socioeconómicos que caracterizam várias comunidades rurais do sul do país, onde o gado não é apenas um recurso económico, mas um elemento de estrutura social, como já observara Isaac Schapera (1955) ao referir que “a organização social não pode ser separada da organização pecuária”.

O gado económico representa uma forma de pecuária orientada para a produtividade e racionalidade, aproximando‑se do que Theodore Schultz (1964) descreve como “a transformação do agricultor tradicional num pequeno empresário racional”. Este tipo de gado constitui património animal gerido com vista à geração de rendimento monetário, segurança alimentar, integração nas cadeias de valor e melhoramento genético.

Nesta lógica, o gado funciona como capital económico, alinhado com a tese de Hernando de Soto (2000), segundo a qual “a riqueza só liberta quando é convertida em capital formal, capaz de circular e produzir mais valor”. Assim, a mobilização activa do rebanho como activo financeiro (vendendo, reinvestindo, diversificando) está em consonância com as propostas de Michael Lipton (1988) sobre o papel da agricultura eficiente na redução da pobreza rural.

Em contraste, o gado ecológico, característico de grupos herero, kuvale e mucubal, mantém funções culturais, rituais, patrimoniais e de coesão comunitária. Este papel é descrito por Marshall Sahlins (1972), ao afirmar que “as economias tradicionais não são economias de escassez, mas de significados”. Aqui, o gado é sobretudo um marcador identitário e simbólico, funcionando como extensão do corpo social, tal como explica Pierre Bourdieu (1979) ao definir capital simbólico como “o reconhecimento social que confere valor independente da utilidade económica”. O gado, nestas sociedades, não se destina prioritariamente ao mercado: é um activo existencial, depositário da continuidade ancestral, dos ritos de passagem, das alianças matrimoniais e do prestígio comunitário.

É neste cruzamento que emerge o paradoxo dos “ricos pobres”: famílias consideradas ricas pelo número de cabeças de gado, mas pobres em condições materiais. Amartya Sen (1999) ajuda a interpretar este fenómeno ao afirmar que “a posse de bens não implica capacidade real de transformar esses bens em liberdade efectiva”.

Assim, a riqueza acumulada sob a forma de rebanho, mas não convertida em liquidez, educação ou saúde, resulta numa prosperidade apenas aparente. James Ferguson (1990), nos seus estudos sobre economias africanas, descreve esse desfasamento como “o colapso entre a presença de recursos e a ausência de desenvolvimento”, destacando como a centralidade simbólica do gado pode bloquear a sua função económica.

A introdução e expansão do conceito de gado económico entre os criadores angolanos permite compreender como a transição para uma pecuária mais produtiva pode gerar liquidez, dinamização local, aumento da resiliência familiar, redução da pobreza multidimensional, criação de mercados regionais sustentáveis e impulso agroindustrial. Contudo, como alertam Caroline Ensminger (1962) e Elliot Fratkin (1997), transformações apressadas nos sistemas pastorais podem desestabilizar estruturas culturais delicadas, provocar resistência comunitária ou mesmo erosão identitária.

Dada a sensibilidade cultural deve-se alterar a função económica do gado sem violar ao seu papel simbólico cujo valor constitui-se na base social que sustenta a própria criação.

Do ponto de vista académico e das políticas públicas, o dilema entre gado económico e gado ecológico constitui um desafio estrutural para o desenvolvimento rural angolano. A dificuldade consiste em introduzir práticas de gestão económica sem destruir tradições; promover mercados pecuários sem desarticular identidades comunitárias; e demonstrar que o gado pode continuar a ser símbolo cultural e, simultaneamente, instrumento de emancipação económica. Esta perspectiva encontra respaldo nas abordagens de Robert Chambers (1983), Frank Ellis (2000) e Ian Scoones (1994), que defendem políticas integradas e participativas, conjugando saberes locais e inovação tecnológica.

O debate entre gado económico e gado ecológico ultrapassa, portanto, a dicotomia “ricos e pobres”, revelando modos diferenciados de relação com a riqueza, conflitos entre tradição e inovação, tensões entre valor simbólico e valor económico e aspirações de modernização que preservam a identidade. Por isso, qualquer abordagem, académica ou política, deve ser interdisciplinar, integrando Antropologia, Economia Rural, Sociologia Comunitária, Gestão Agropecuária, Ecologia, Estudos do Desenvolvimento e Ciências Ambientais.

Em Angola, o gado, seja económico ou ecológico, é um marcador de história, cultura, riqueza e sobrevivência, cuja compreensão exige atenção à sua complexidade integral.

Publicado a 27 de Março/2026 no jornal Pungo a Ngongo