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terça-feira, agosto 04, 2026

GADO ECONÓMICO E GADO ECOLÓGICO: PROSPERIDADE POTENCIAL E POBREZA ESTRUTURAL

A distinção entre gado económico e gado ecológico, em Angola, reflecte não apenas duas formas de organização pecuária, mas também duas concepções de riqueza, valor e desenvolvimento, tal como demonstrado por E.E. Evans‑Pritchard (1940) quando afirmava que “para os povos pastoris, o gado é a medida universal de valor”.


Esta dicotomia permite compreender tensões profundas entre tradição e modernidade, bem como paradoxos socioeconómicos que caracterizam várias comunidades rurais do sul do país, onde o gado não é apenas um recurso económico, mas um elemento de estrutura social, como já observara Isaac Schapera (1955) ao referir que “a organização social não pode ser separada da organização pecuária”.

O gado económico representa uma forma de pecuária orientada para a produtividade e racionalidade, aproximando‑se do que Theodore Schultz (1964) descreve como “a transformação do agricultor tradicional num pequeno empresário racional”. Este tipo de gado constitui património animal gerido com vista à geração de rendimento monetário, segurança alimentar, integração nas cadeias de valor e melhoramento genético.

Nesta lógica, o gado funciona como capital económico, alinhado com a tese de Hernando de Soto (2000), segundo a qual “a riqueza só liberta quando é convertida em capital formal, capaz de circular e produzir mais valor”. Assim, a mobilização activa do rebanho como activo financeiro (vendendo, reinvestindo, diversificando) está em consonância com as propostas de Michael Lipton (1988) sobre o papel da agricultura eficiente na redução da pobreza rural.

Em contraste, o gado ecológico, característico de grupos herero, kuvale e mucubal, mantém funções culturais, rituais, patrimoniais e de coesão comunitária. Este papel é descrito por Marshall Sahlins (1972), ao afirmar que “as economias tradicionais não são economias de escassez, mas de significados”. Aqui, o gado é sobretudo um marcador identitário e simbólico, funcionando como extensão do corpo social, tal como explica Pierre Bourdieu (1979) ao definir capital simbólico como “o reconhecimento social que confere valor independente da utilidade económica”. O gado, nestas sociedades, não se destina prioritariamente ao mercado: é um activo existencial, depositário da continuidade ancestral, dos ritos de passagem, das alianças matrimoniais e do prestígio comunitário.

É neste cruzamento que emerge o paradoxo dos “ricos pobres”: famílias consideradas ricas pelo número de cabeças de gado, mas pobres em condições materiais. Amartya Sen (1999) ajuda a interpretar este fenómeno ao afirmar que “a posse de bens não implica capacidade real de transformar esses bens em liberdade efectiva”.

Assim, a riqueza acumulada sob a forma de rebanho, mas não convertida em liquidez, educação ou saúde, resulta numa prosperidade apenas aparente. James Ferguson (1990), nos seus estudos sobre economias africanas, descreve esse desfasamento como “o colapso entre a presença de recursos e a ausência de desenvolvimento”, destacando como a centralidade simbólica do gado pode bloquear a sua função económica.

A introdução e expansão do conceito de gado económico entre os criadores angolanos permite compreender como a transição para uma pecuária mais produtiva pode gerar liquidez, dinamização local, aumento da resiliência familiar, redução da pobreza multidimensional, criação de mercados regionais sustentáveis e impulso agroindustrial. Contudo, como alertam Caroline Ensminger (1962) e Elliot Fratkin (1997), transformações apressadas nos sistemas pastorais podem desestabilizar estruturas culturais delicadas, provocar resistência comunitária ou mesmo erosão identitária.

Dada a sensibilidade cultural deve-se alterar a função económica do gado sem violar ao seu papel simbólico cujo valor constitui-se na base social que sustenta a própria criação.

Do ponto de vista académico e das políticas públicas, o dilema entre gado económico e gado ecológico constitui um desafio estrutural para o desenvolvimento rural angolano. A dificuldade consiste em introduzir práticas de gestão económica sem destruir tradições; promover mercados pecuários sem desarticular identidades comunitárias; e demonstrar que o gado pode continuar a ser símbolo cultural e, simultaneamente, instrumento de emancipação económica. Esta perspectiva encontra respaldo nas abordagens de Robert Chambers (1983), Frank Ellis (2000) e Ian Scoones (1994), que defendem políticas integradas e participativas, conjugando saberes locais e inovação tecnológica.

O debate entre gado económico e gado ecológico ultrapassa, portanto, a dicotomia “ricos e pobres”, revelando modos diferenciados de relação com a riqueza, conflitos entre tradição e inovação, tensões entre valor simbólico e valor económico e aspirações de modernização que preservam a identidade. Por isso, qualquer abordagem, académica ou política, deve ser interdisciplinar, integrando Antropologia, Economia Rural, Sociologia Comunitária, Gestão Agropecuária, Ecologia, Estudos do Desenvolvimento e Ciências Ambientais.

Em Angola, o gado, seja económico ou ecológico, é um marcador de história, cultura, riqueza e sobrevivência, cuja compreensão exige atenção à sua complexidade integral.

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