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segunda-feira, setembro 28, 2026

PINTURAS RUPESTRES DE NDALAMIRI: ACESSO E FUTURO

No coração do município do Ebo, província do Cuanza-Sul, repousa um dos testemunhos mais silenciosos e eloquentes da ancestralidade angolana: as pinturas rupestres de Ndalamiri. Gravadas sobre rochas que resistem ao tempo e às intempéries, estas expressões gráficas são mais do que arte primitiva — são narrativas visuais de um povo que, mesmo sem escrita formal, soube eternizar a sua cosmovisão, os seus rituais e a sua relação com o território.

A visita ao sítio, como relatado por Bernardete e familiares, "exige preparo físico mínimo. A subida e descida ao local são desafiadoras", o que, paradoxalmente, protege e afasta. Protege, porque o difícil acesso limita a degradação humana; afasta, porque impede que mais angolanos e estrangeiros conheçam e valorizem esse património.
A reflexão impõe-se: que futuro queremos para Ndalamiri? A memória colectiva não se preserva apenas com reverência simbólica, mas com acção concreta. O sítio carece de infra-estrutura básica — trilhos seguros, sinalização, retretes, lavabos, abrigo mínimo para visitantes, barracas de conveniência e, sobretudo, guias locais que dominem a história e a cultura da região. Sem isso, o turismo cultural não se consolida, e a narrativa ancestral corre o risco de se apagar.

Mais grave ainda é o silêncio institucional. A ausência de campanhas mediáticas, de inclusão curricular e de roteiros turísticos estruturados revela uma negligência que fere a dignidade histórica do povo angolano. As pinturas de Ndalamiri não são apenas traços sobre pedra — são testemunhos de uma Angola que existia antes da Angola moderna. Ignorá-las é amputar parte da nossa identidade.
A urgência é dupla: proteger e divulgar. Proteger, com medidas técnicas e legais que garantam a integridade do sítio. Divulgar, com acções educativas, culturais e turísticas que o insiram no imaginário nacional. Porque quando a história morre, como bem alerta Soberano Kanyanga, nós morremos com ela — não fisicamente, mas espiritualmente, culturalmente, colectivamente.
Ndalamiri é mais do que um destino. É um chamado à consciência patrimonial. Que saibamos escutá-lo antes que o tempo o silencie.

segunda-feira, setembro 14, 2026

BOLSO DO CIDADÃO "MAIS ALIVIADO”?

 |Uma leitura crítica da inflação de 8,78%|

O título do noticiário da RNA das 13h00 de 13 de Setembro de 2026, “Bolso do cidadão mais aliviado, inflação situa-se em 8,78%”, suscita uma reflexão sobre a forma como os indicadores económicos são comunicados ao público. Embora a desaceleração da inflação constitua um sinal positivo para a estabilidade macroeconómica, a associação imediata entre uma taxa de inflação mais baixa e um alegado alívio do bolso do cidadão merece ser examinada com rigor conceptual e científico.

À primeira vista, a mensagem sugere que a redução da inflação representa um benefício directo para as famílias. Todavia, a inflação de 8,78% continua a significar aumento dos preços. Em termos simples, os bens e serviços custam hoje mais do que custavam há um ano. O que mudou não foi a direcção do movimento dos preços, mas a velocidade a que estes crescem.

A literatura económica é clara a este respeito. Conforme explica o economista norte-americano Gregory Mankiw (2021), a inflação corresponde ao aumento generalizado do nível de preços numa economia e implica uma redução do poder de compra da moeda. Quando a taxa de inflação diminui, ocorre uma desaceleração da subida dos preços, não a sua redução. De modo semelhante, Paul Krugman e Robin Wells (2018) observam que a desaceleração da inflação não significa que os cidadãos recuperem imediatamente o poder de compra anteriormente perdido; significa apenas que essa perda passa a ocorrer a um ritmo mais lento.

É precisamente aqui que surge a fragilidade conceptual da expressão “bolso do cidadão mais aliviado”. Do ponto de vista económico, o bolso só se encontra efectivamente mais aliviado quando os rendimentos crescem acima da inflação ou quando os preços diminuem. Enquanto a inflação permanecer positiva, continua a existir erosão do poder de compra, ainda que menos intensa.

A economia comportamental também ajuda a compreender esta questão. Os investigadores Daniel Kahneman e Amos Tversky, pioneiros da economia psicológica, demonstraram que as pessoas avaliam o seu bem-estar económico não com base em indicadores macroeconómicos, mas na experiência concreta do dia-a-dia. O consumidor comum não mede a inflação através de percentagens; mede-a através do preço do pão, do arroz, do táxi, da propina escolar ou da factura da electricidade. Se estes custos continuam a aumentar, a percepção dominante dificilmente será a de alívio.

O economista prémio Nobel Robert Shiller (2019) argumenta igualmente que as narrativas económicas influenciam a percepção colectiva mais do que os próprios indicadores. Uma narrativa optimista pode criar a impressão de melhoria antes que os seus efeitos sejam efectivamente sentidos pela população. Neste caso, o título da notícia parece privilegiar a narrativa do alívio económico, mesmo quando a realidade estatística indica apenas uma desaceleração da pressão inflacionista.

Há ainda uma distinção importante entre a economia dos números e a economia da vida. Os números podem revelar uma trajectória positiva da política monetária e da estabilidade financeira. Contudo, como observam Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi (2009), o progresso económico não deve ser avaliado apenas por indicadores agregados, mas também pela capacidade de as pessoas melhorarem efectivamente as suas condições de vida. Uma inflação mais baixa, por si só, não garante bem-estar. É necessário analisar simultaneamente os salários, o emprego, a produtividade e o custo da cesta básica.

Uma analogia simples ajuda a ilustrar esta realidade. Se alguém transporta um saco de cinquenta quilogramas e reduz o peso para quarenta, a carga torna-se menos pesada, mas continua pesada. Do mesmo modo, uma inflação de 8,78% é menos gravosa do que uma inflação de 20% ou 30%, mas continua a representar aumento do custo de vida. O fardo diminuiu, mas não desapareceu.

Do ponto de vista técnico, talvez fosse mais adequado afirmar que:

“A inflação desacelerou para 8,78%, reduzindo a pressão sobre o orçamento das famílias.”

Ou ainda:

“A subida dos preços abrandou para 8,78%, embora persistam desafios ao poder de compra.”

Estas formulações preservam o rigor económico e evitam induzir a interpretação de que o problema inflacionário foi resolvido.

Em síntese, o título da RNA evidencia uma leitura optimista da evolução dos indicadores económicos. Todavia, a análise científica recomenda cautela. A inflação de 8,78% constitui um sinal de melhoria relativamente a períodos de inflação mais elevada, mas continua a significar aumento dos preços e perda de poder de compra. Por isso, seria mais rigoroso afirmar que a pressão inflacionista diminuiu do que concluir que o bolso do cidadão está mais aliviado. Entre a estatística e a experiência quotidiana das famílias existe uma distância que a comunicação económica deve procurar reduzir, e não ampliar.

Luciano Canhanga
Mestre (MSc) em Ciências Empresariais, Universidade Fernando Pessoa (Porto)

Referências bibliográficas

  • Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux.
  • Krugman, P., & Wells, R. (2018). Economics (5th ed.). New York: Worth Publishers.
  • Mankiw, N. G. (2021). Principles of Economics (9th ed.). Boston: Cengage Learning.
  • Shiller, R. J. (2019). Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events. Princeton: Princeton University Press.
  • Stiglitz, J. E., Sen, A., & Fitoussi, J.-P. (2009). Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress. Paris.
  • Tversky, A., & Kahneman, D. (1974). “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”. Science, Vol. 185, No. 4157, pp. 1124-1131.

sábado, setembro 12, 2026

INOVAÇÃO POPULAR NO COMÉRCIO AMBULANTE

Por: Luciano Canhanga*

Em Luanda, capital da República de Angola, as zungueiras — termo da língua ambundu que designa vendedeiras ambulantes — têm revelado engenho e capacidade de adaptação ao mercado, mesmo sem formação académica especializada.

Tradicionalmente, estas senhoras percorriam as ruas em grupo, em silêncio ou com pregões ocasionais, repartindo os clientes em vez de os disputar com arte e astúcia. Tal prática, embora solidária, mostrava-se pouco eficaz em termos de venda.

Reconhecendo a necessidade de mudança, algumas zungueiras decidiram gravar mensagens promocionais que são difundidas por meio de megafones. Esta solução evita o cansaço da voz e permite maior alcance auditivo. Em acto contínuo, passaram a caminhar sozinhas ou acompanhadas de colegas que vendem produtos distintos, evitando concorrência directa e promovendo complementaridade comercial.

Trata-se de uma verdadeira inovação marketista fora dos muros da academia, nascida da observação empírica e da inteligência prática. O fenómeno pode ser compreendido à luz do pensamento de Philip Kotler, que defende que o marketing não se limita à publicidade, mas envolve a criação de valor e adaptação ao consumidor. Também Seth Godin, ao abordar o marketing de permissão e a autenticidade, valoriza práticas que emergem da realidade concreta e da escuta activa do público.

Eis o pregão da mamã zungueira que vende gelado, refrescando os petizes em dias solarentos de Luanda, enquanto percorre as ruas, de aduela em aduela e de esquina em esquina:

_ O gelado kuya  

_ De laranja kuya  

_ De banana kuya  

_ De morango kuya  

_ Papá me mima só, gelado está a passar  

_ Mamã me mima só, gelado está a passar  

_ Avó me mima só, gelado está a passar!

Este exemplo revela que a ausência de escolaridade formal não equivale à ausência de inteligência ou de capacidade inventiva. As zungueiras, com criatividade e sentido prático, reinventam o comércio popular urbano e contribuem para a economia local com soluções originais e eficazes.

Autores como Guy Kawasaki, ao falar sobre o espírito empreendedor, e Alvin Toffler, que em A Terceira Onda valoriza o saber prático como motor de transformação social, ajudam a compreender que a inovação não é monopólio das instituições formais. Também Carolina Schmitt Nunes e Gertrudes Dandolini, ao estudarem práticas de marketing em contextos não convencionais, reforçam a legitimidade destas estratégias emergentes.

As zungueiras de Luanda, com megafone em punho e criatividade em marcha, são exemplo vivo de como o pensamento estratégico pode florescer nas margens da academia, com impacto directo na vida urbana e no consumo quotidiano.

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*Graduado em Comunicação Social e MSc em Ciências Empresariais pela UFP, Porto.