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quarta-feira, maio 25, 2022

KAJILA K'ELOMBO (tentativa autobiográfica)

I. Contexto Histórico e Origem Familiar

No plano internacional, o governo de Marcelo Caetano acabara de ruir, derrubado pelos Capitães de Abril, enquanto António de Spínola assumia o comando político em Portugal. Internamente, os Movimentos de Libertação Nacional ajustavam estratégias e mediam forças para proclamarem, em separado, a independência de Angola, cujo anúncio se previa para dali a seis meses.

Foi neste quadro que o Kuteka entrou em luto com a morte de Ñana Ñunji Kitinu, o rei da região.

Kilombo Ki’Etinu, também conhecida por Maria Canhanga, vivia a primeira gestação da sua relação com o filho do forasteiro Ñana Muryangu, depois de sucessivos abortos ocorridos na vigência do casamento anterior, extinto pela morte de Kafanda.

No dia consagrado à África, nasceu Kajila k’Elombo, mais tarde registado como Luciano Canhanga, homónimo do irmão mais novo de António Fernando Ndambi. Recebeu o apelido materno por ter nascido no óbito do progenitor e por o registo ter sido efectuado já com o pai falecido.

Luciano nasceu “acidentalmente” na aldeia de Mbangu yo’Teka (Mbango‑de‑Kuteka), comunidade natal do rei Ñana Ñunji Kitinu Mungongo, entronizado em Mbaze yo’Teka. Corria o ano de 1974, segundo dados compulsados.

Até aos quatro anos, viveu em Kitumbulu, encosta que separa o Kuteka do Lussusso, onde o avô paterno cultivava café‑banana e outros produtos.


II. Primeiros Anos de Vida e Mobilidade Forçada

Em 1978, Ano da Agricultura — marcado por severa seca — António Ndambi decidiu deixar o pai e procurar melhores condições junto do asfalto e das escolas. Acompanhado do primo Xika Yangu, então soba de Mbangu‑Kuteka, iniciou a migração. Nesse mesmo ano faleceu o avô Ñana Muryangu.

Em 1979, Ano da Formação de Quadros, Luciano foi matriculado na iniciação (pré‑kabunga), percorrendo a pé o caminho entre a antiga Fazenda Israel e a aldeia de Kalombo, distância superior a 5 km por viagem.

O crescimento do número de alunos levou à transferência da escola de Kalombo para a antiga instalação pecuária da Fazenda Israel (rebaptizada Hoji‑ya‑Henda) no ano lectivo 1980/81. Foi nesse período que viveu a primeira experiência na OPA, participando na recepção ao Comissário Provincial Armando Dembo, em visita à Fazenda Tabango.

A 2.ª classe decorreu numa sala construída entre as aldeolas de João Salomão e Azevedo Kambundu. A 3.ª classe foi frequentada no antigo acampamento junto ao campo de aviação, sob orientação do professor Jorge Manuel Carlos (Kakonda).

Este período revelou-se o mais fértil em aprendizagem social e cultural, incluindo práticas ancestrais: pesca (isca, cesto e envenenamento), caça (armadilhas diversas), agricultura e fundição de ferro com fole, sob orientação do mestre Xika Yangu.

Em 1982, faleceu António Ndambi, quando Luciano frequentava o onzo‑i‑mema (circuncisão), afastado temporariamente do convívio familiar e comunitário.


III. Guerra, Recuos e Mudanças de Terra

Os anos 1983–1984 foram marcados pela presença intensa da guerrilha (UNITA): ataques a viaturas, implantação de minas pessoais e anti-carros nas estradas, pilhagens, raptos e deslocações forçadas. Luciano recorda noites inteiras nas matas e as caminhadas de recuo para Fuke, Katoto, Kandemba, culminando no ataque à Munenga (Fevereiro de 1984) e no subsequente refúgio temporário em Samba Karinje.

A primeira experiência religiosa ocorreu no final de 1983, quando o primo e professor Jorge Carlos o levou à Igreja Cheia da Palavra de Deus, experiência interrompida pela guerra.

Agricultura, pesca e caça permanentes deixaram de ser viáveis. A região adjacente à antiga Fazenda Israel — hoje Pedra Escrita — começou a ser abandonada.

Em 1984, Kilombo Ki’Etinu deixou a aldeola de Limbe e seguiu para Luanda, onde permaneceu três anos, acolhido pelo irmão Ferreira Ganga.


IV. Primeira Estadia em Luanda (1984–1987)

Kuteka, Israel, Kalombo e Limbe eram agrupamentos rurais sem energia eléctrica, onde o brilho dos pirilampos alegrava as noites. Já Fuke e Munenga — iluminadas e com trânsito frequente — surgiam aos olhos de Luciano como autênticas cidades.

Antes de alcançar Luanda, visitou Kalulu, em busca de guia de marcha. Kalulu pareceu-lhe gigantesca, apesar de devastada pelos ataques da UNITA, em Setembro de 1983.

Em Maio de 1984, chegou à capital. A viagem durou três dias e o desembarque ocorreu nas imediações do Jumbo, onde duas amplas ruas, com postes imponentes de iluminação, se destacavam. Numa parede, um desenho de um camião Scania “cabeça-burra” chamou-lhe a atenção.

Seguindo com embrulho à cabeça, Emília às costas e dois filhos pelas mãos, Kilombo Ki’Etinu encontrou o caminho para o Hospital “São Paulo", e daí para o Rangel, onde vivia o irmão Ferreira.

No Kaputu, Luciano descobriu que a “brincadeira” local consistia em abandonar recém-chegados em becos para que se perdessem — provocando o grito “nanyi wangibongela kambonga kadyalaeeê”. Mas ele já sabia ler e memorizava nomes e números das ruas e suas ligações.

As aulas recomeçaram em Setembro, mas faltava-lhe a cédula pessoal. Para que não ficasse fora da escola, o irmão Arnaldo Carlos — então professor e hoje Comissário‑Chefe reformado da Polícia Nacional — colocou-o na sua turma da Escola Grande da Terra Nova. Repetiu assim a 2.ª e a 3.ª classes.

Nos anos da RPA, o ingresso simultâneo na escola e na OPA era obrigatório. O uniforme azul‑celeste substituíra as antigas batas. Luciano foi sempre chefe de brigada, sendo o Chefe de Estrela o professor Ki‑Ngibanza.

Responsável pelas compras familiares, percorria lojas, talhos, depósitos de pão e gás, numa época marcada por longas bichas. Vendia restos de sabão descartados pela Induve — o “sabão cocó” — e transportava o milho e massambala da mãe para a moagem, frequentemente enfrentando bullying resolvido “a músculos, kafrikes e basulas”.

Em 1987, perdeu o recibo do Bilhete de Identidade e a cédula, impossibilitando-o de fazer o exame da quarta classe. Os tutores viram nisso propósito e decidiram enviá-lo para Kalulu, onde frequentou o 4.º semestre de adultos, acolhido pelo primo Gonçalves Manuel Carlos, e depois o II Nível (concluído em Junho de 1990).

Em Dezembro de 1989, Kalulu voltou a ser atacada pela UNITA. Luciano recuou para Mbangu‑Kuteka, passando por Munenga e Pedra Escrita. Regressou três meses depois, mas o seu nome desaparecera das listas de turmas e do internato, tendo sido reinserido.

Com a fome instalada e ataques constantes às viaturas de abastecimento, recorreu aos conhecimentos de corte e costura, utilizando a máquina da esposa do director Avelino Gangala para garantir pequenas refeições ou moedas.

Terminou o ano lectivo e pediu transferência para o Ngola Mbandi, onde estudou entre 1990 e 1992.

V. Formação Secundária e Vocacional (1990–1994)

Em 1990, já em Luanda, Luciano apresentou no Ngola Mbandi o certificado da 6.ª classe (Escola Kwame Nkrumah, Kalulu) e a guia de transferência. A adaptação à 7.ª classe foi exigente: aparência modesta, mas rápida assimilação, vocabulário cuidado e gosto pelos livros — trazia consigo um Dicionário Prático Ilustrado e a Gramática de José Maria Relvas. Os primeiros tempos foram marcados por bullying e aproximações interessadas em momentos de prova.

O professor de Língua Portuguesa Cristóvão Major (Man Cristo) — também jornalista da ANGOP — aplicou‑lhe, por falta a uma prova, um teste da 8.ª classe. O desempenho surpreendente (nota vinte, resolvido em menos de vinte minutos) deu‑lhe visibilidade na escola, o convite para integrar a célula da JMPLA e a inscrição antecipada na Associação dos Alunos do Ensino Médio.

Na 8.ª classe, participou nas olimpíadas escolar e municipal de Matemática e identificou um erro num conjunto‑solução de um polinómio do manual, ganhando a alcunha de “o rapaz que corrigiu o livro de Matemática”. Apesar disso, a classificação final foi modesta — reflexo de práticas pouco éticas então correntes (“gasosa”), às quais se recusou a ceder.

Em 1991–1992, o ano lectivo foi abreviado pelas primeiras eleições em Angola (Setembro de 1992). Sem grande orientação, escolheu Geologia e Minas (Sumbe) num teste de aptidão que não chegou a consolidar. Em 1993, frequentou um curso de operação de microcomputadores (ENCO), adquiriu noções de electricidade de baixa tensão e expandiu a sua Sala de Reforço Escolar iniciada em 1990.

Em finais de 1993, concorreu ao curso sugerido por Man Cristo e, em 1994, ingressou no IMEL, onde recebeu a alcunha “Star” pelo aproveitamento acima da média. Colegas do grupo MUSSUND’AMIGOS chamavam‑no “galo” por ter concluído sem exames de recurso nem reprovações. Em 1996, defendeu o trabalho final do curso médio de jornalismo: “Criminalidade em Luanda (1990–1995)”.


VI. Primeiras Experiências Profissionais (1990–2006)

Iniciou-se como explicador em 1990. Entre 1997 e 1998, leccionou no ensino primário público e iniciou carreira como repórter‑redactor na Luanda Antena Comercial (LAC), onde viria a ser editor até 2006. Candidatou‑se também à docência na Escola Pica‑Pau, à Secretaria de Estado para a Promoção e Desenvolvimento da Mulher (SEPDM) e à própria LAC — tendo abdicado da vaga na SEPDM em benefício de um colega.

No campo académico, em 2000 ingressou, por prova de aptidão, na licenciatura em Didáctica de História (ISCED‑Luanda). Em 2003, frequentou simultaneamente o 4.º ano de História (ISCED) e o 1.º ano de Comunicação Social (ISPRA). Entre 2001–2002, colaborou na Orion, no programa radiofónico “Nação Coragem”, amealhando o suficiente para adquirir o primeiro Toyota Starlet (terceira mão).

Em 1998, frequentou, em Bamako (Mali), um curso de Jornalismo de Investigação do Centro WANAD (patrocínio do Banco Mundial). Em Abril de 2005, foi seleccionado para o Curso de Jornalismo para os PALOP (Fundação Calouste Gulbenkian / Universidade Católica Portuguesa, Lisboa). Da cadeira de jornalismo digital nasceu o blogue Mesu Majikuka (www.mesumajikuka.blogspot.com).

A 01.06.2005, sofreu um acidente de viação ao regressar a Luanda: o condutor e uma colega morreram; Luciano sobreviveu com lesões graves, passando por cadeira de rodas e canadianas. A experiência motivou uma reflexão profunda sobre carreira e sustentabilidade, levando‑o a candidatar‑se à Sociedade Mineira de Catoca.


VII. Comunicação Corporativa na Catoca (2006–2015)

Em 2006, ingressou na Sociedade Mineira de Catoca para fundar e dirigir a Secção de Comunicação, elevada a Sector no ano seguinte. O período na Lunda Sul foi de intensa profissionalização e formação contínua, ao mesmo tempo que manteve actividade cívica e académica e lietrária.

Entre 2012–2015, leccionou língua portuguesa na Escola Superior Politécnica da Universidade Lueji A’Nkonde (Lunda‑Sul) e, entre 2013–2015, no Instituto Superior Politécnico Lusíadas – Luanda Sul.

Paralelamente, manteve militância cívica e político‑juvenil: foi Segundo Secretário do Comité de Especialidade de Ciências Sociais e Humanas na Lunda‑Sul; no plano religioso, assumiu responsabilidades na Igreja Metodista Unida, com intervenções regulares no púlpito da Igreja Central e funções de vice‑director da Sociedade de Homens.


VIII. Regresso a Luanda e Funções de Direcção (2015–2022)

Em 2014, matriculou‑se em Pós‑Graduação em Gestão Empresarial com Foco em Pessoas (FAAG) e no Mestrado em Ciência Empresarial (UFP), concluído em 2020 com 16 valores, defendendo a dissertação “A motivação dos funcionários do Ministério da Geologia e Minas”.

Em 2015, por convite do Ministro Francisco Queiroz, foi requisitado de Catoca para o então Ministério de Geologia e Minas, onde assumiu funções de Director de Recursos Humanos.

Entre 2016–2020, leccionou História do Jornalismo Angolano e Produção Radiofónica no Instituto Superior Técnico de Angola (ISTA).

As eleições de 2017 conduziram à fusão dos Ministérios de Geologia e Minas e dos Petróleos, criando o MIREMPET. Luciano foi convidado a dirigir o Gabinete de Comunicação do novo organismo. Na reforma dos Órgãos de Apoio de 01.04.2020, resultante da fusão de direcções, tornou‑se o primeiro Director de um Gabinete de Tecnologias de Informação e Comunicação Institucional de um Ministério (Junho de 2020), tendo sido reconduzido para a mesma função em 2022.


IX. Formação Contínua e Palestras (2002–2026)

Além de cursos curtos ao longo da década, em 2002 concluiu o Curso Propedêutico de Língua Portuguesa (Universidade Católica de Angola / Sindicato de Jornalistas Angolanos), ferramenta valiosa para o exercício do jornalismo, assessoria de imprensa, escrita artística e docência.

Com a agenda institucional mais densa, abdicou da docência regular e passou a dedicar‑se à aprendizagem da Língua Inglesa, na África do Sul, a realizar palestras e conferências sobre comunicação e motivação no trabalho.


X. Vida Pessoal

É pai de Mohamed Mociano dos Santos Canhanga (1997), Fernando Etessa Canhanga (2000), Luciano Delfim Francisco Canhanga (2007), Argemara Princesa Salongue Canhanga (2007), Arlindo Renato Salongue Canhanga (2009) e Lúcia Joelle Salongue Canhanga (2018). É casado com Irlanda Salongue Canhanga.


XI. Obra Literária e Colaborações

Estreou‑se na literatura em 2010 com o romance O Sonho de Kaúia. Seguiram‑se:

  • 10encantos (poesia)
  • Manongo‑nongo (contos)
  • O Relógio do Velho Trinta (romance)
  • O Coleccionador de Pirilampos (contos)
  • Canções ao Vento (poesia)
  • As Travessuras de Jack (novela)
  • Amor sem Pudor (poesia)
  • Kitotas :recuos e avanços (relatos)
  • A falta de motivação e o impacto nos colaboradores: estudo de caso no Ministério de Geologia e Minas (ensaio científico-académico)
  • Amores de Mel'aço (novela)
  • Contos para Lúcia 

Participou em antologias publicadas em Angola, Roménia, Portugal, Brasil, África do Sul e Chile. Como cronista, colaborou com Cruzeiro do Sul, Semanário Angolense, Jornal de Angola, Jornal Cultura, Nova Gazeta, Jornal de Economia & Finanças, O Litoral, Jornal Metropolitano, entre outros.


XII. Linha Cronológica Essencial (síntese)

  • 1974 — Nascimento em Mbangu yo’Teka (Mbango‑de‑Kuteka).
  • 1978–1982 — Primeiras classes; iniciação; falecimento de António Ndambi.
  • 1983–1984 — Guerra intensa; recuos; chegada a Luanda (Maio de 1984).
  • 1987–1990 — Transferência para Kalulu; II Nível concluído (Junho de 1990).
  • 1990–1992 — Ngola Mbandi; olimpíadas de Matemática; ascensão estudantil; III nível concluído.
  • 1993–1996 — ENCO; reforço escolar; ingresso no IMEL; Técnico Médio em jornalismo.
  • 1997–2006 — Docência; LAC (repórter, depois editor); curso Gulbenkian (2005); acidente (01.06.2005).
  • 2002 — Curso Propedêutico de Língua Portuguesa (UCAN/SJA).
  • 2006–2015 — Catoca: fundação e direcção da Comunicação; docência superior (Lueji A’Nkonde, Lusíadas).
  • 2014–2020 — Pós‑graduação e mestrado (dissertação 16 valores).
  • 2015–2020 — Director de RH (Geologia e Minas); ISTA (docência).
  • 2017–2020 — MIREMPET: Gabinete de Comunicação; 1.º Director do Gabinete de TIC Institucional (Junho 2020).
  • 2010–… — Produção literária contínua; crónicas e antologias.

sexta-feira, maio 13, 2022

KILOMBO KI'ETINU

Originalmente Kilombo ki'Etinu, Maria Canhanga, como é conhecida, nasceu na região deKuteka, Munenga, Libolo, a 13 de Maio de 1947 (ofic).

Filha do soberano local Kitinu Mungongo e Maluvu Ndonga, cedo foi forjada para as lides de casa, cuidando de sua mãe, cuja saúde era, desde cedo, precária, e de seu irmão mais novo.

Desposada com António Ndambi (em segundas núpcias), gerou Luciano, Júlia, Elisa e Emília, tornando-se viúva em 1982.

Com a chegada e acentuação do conflito militar teve de abandonar a terra natal, em 1984, recuando, com os filhos, para Luanda onde os sustentou de pequenos negócios e agricultura nas imediações do antigo Hospital Sanatório de Luanda.

Entre 1987-93 esteve a fazer agricultura na aldeia de Pedra Escrita, gerando o seu quinto filho, Cruz.

De novo, a guerra pós-eleitoral a forçaria a seguir para Luanda, permaneceu na capital do país de 1993 até 1998.

Nessa altura, já ela avó, surgiu-lhe a preocupação de manter o campo como recta-guarda para alimentar os filhos e netos na grande cidade (Luanda), regressando à aldeia de Pedra Escrita e entregando-se, apesar da idade crescente, à lavoura.

Em 2015 é atingida por uma severa e irreversível cegueira, o que obrigou o filho mais velho a levá-la para Luanda, para tratamento e acompanhamento médico, dando-lhe uma pequena moradia adaptada às condições de mobilidade condicionada. Vive no Zango 4-B, (Vila Chicala).


* Bio em construção

sábado, abril 02, 2022

ARTE RUPESTRE NO KWANZA-SUL

São poucas as "estações", no nosso país, onde os homens de "há muito tempo" (pré-história) deixaram suas marcas de forma artística e representando a sociedade do seu tempo.

As pinturas rupestres contam, por si sós, a História do "homoangolensis", sendo de capital importância o conhecimento dos locais em que nos deixaram esses testemunhos e a sua divulgação a novas gerações.

Temos pinturas rupestres em Citundu Hulu, e Kaningiri (Huambo); Undolila e Tchicotowe (Namibe) e no Ndalambiri (Ebo, Kwanza-Sul) que é bem próximo de cidades como Cela, Gabela, Dondo, Ndalatandu, Malanji, Luanda, Sumbe e Benguela.

Os que superintendem a Cultura, nos mais diversos escalões da administração do Estado, devem promover o conhecimento e visitas a essas estações, incentivando o turismo rural-cultural.

Todos devemos cuidar e preservar o nosso património histórico.
Visite você também Ndalambiri!

quinta-feira, março 03, 2022

O JORNALISTA, O ASSESSOR E O ADIDO DE IMPRENSA

Conceitos básicos:

1- Jornalista é quem exerce Jornalismo, profissão (para mim, também arte e vício controlável) que consiste na recolha, tratamento e divulgação (através de um media convencional ou virtual) de informações actuais e de interesse público.
2- Assessor de imprensa é um profissional de comunicação cuja tarefa é "documentar-se" (através da recolha), quando possível tratar (em função das características usuais do receptor) e fornecer informação à media que, por sua vez, a (processará de acordo ao formato e) divulgará ao público.
3- O Adido de Imprensa é, igualmente, um Assessor de Imprensa colocado junto de uma representação diplomática.
Quer o Jornalista quanto o Assessor de Imprensa e o Adido de Imprensa recolhem dados, processam-nos e os distribuem/divulgam.
O Assessor e o Adido têm como destinatários da sua informação os media (salvaguardada a veiculação nos canais institucionais), ao passo que o Jornalista tem como destinatário do seu "produto" o público.
Esse esboço (passível de melhoria) vem responder a uma colocação de cariz ética feita por um compatriota, afirmando ser "um belisco à ética" um Assessor colocar perguntas ao seu assessorado (recolha em formato vídeo) e ter partilhado o conteúdo aos jornalistas.
A recolha (entrevista, observação e descrição, consulta documental, etc.) e a valorização/edição são inerentes à função de informar que assiste quer ao Jornalista quer aos Assessores de Imprensa.
A divulgação noticiosa, através da media, é que continua "monopólio do Jornalista".
O Assessor e o Adido de Imprensa estão vectados de fazer jornalismo, isto é, recolher, tratar e divulgar através da media. Devem, porém, produzir conteúdos para os meios internos de comunicação e para os jornalistas, não devendo eles trabalhar em um média convencional.
Acresce-se o facto de ser DEVER DOS JORNALISTAS analisar, tomar decisão editorial e hierarquizar, do ponto de vista noticioso, os dados ou informações recebidas dos Assessores e Adidos de Imprensa.
Um Assessor ou Adido de Imprensa que, no processo de recolha de de dados, tenha interpelado o seu Assessorado, pedindo-lhe que procedesse ao resumo do evento realizado pela instituição e tenha, depois, remetido aos Jornalistas o dado bruto (sem tratamento que fica ao critério editorial de cada Jornalista e ou media) não violou o artigo 5° do Decreto Presidencial n° 3/18 de 11 de Janeiro.
Logo, não é correcto questionar "por que o Assessor ou o Adido de Imprensa entrevistou o seu assessorado e forneceu o dado bruto aos jornalistas"?
Já agora, aproveita-se, nesta nota (apressada), assinalar o trabalho árduo dos Diplomatas e seus Assessores de Imprensa que, muitas vezes, perdem repetidamente sono ou ausentam-se dias seguidos de suas casas para acolher e despedir-se de delegações oficiais do país de origem.
É preciso vivenciar o trabalho destes insignes servidores para melhor compreender que não há pera doce na Diplomacia e na Assessoria de imprensa em que as jornadas só têm principio e, muitas vezes, não têm fim previsto, ao contrário daqueles que (ainda) trabalham por turno e por "tarefa única diária".
26.02.2022.

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A LÍNGUA DOS POVOS DO NORTE DO KWANZA-SUL

Estive de 10 a 13.02 no Libolo, Kibala e Ebo. Uma das estórias que registei foi a seguinte: 

Em Dalambiri, Ebo, no início dos anos 80, o catequista, que também era professor, tinha esculpido uma estatueta que designou por "burro". 

Essa peça de madeira circulava de mão em mão dos meninos e meninas que fossem ouvidos a falar Kimbundu. Aquele que passasse a noite com o "burro" era castigado com palmatórias. 

Tal visava, segundo os narradores, incutir entre os rapazes e raparigas o uso constante da Língua Portuguesa, instrumento de ensino e aprendizagem na escola. 

Todos os oradores, maiores de 40 anos, referiam-se, nas suas narrações, ao termo Kimbundu e não usavam outra expressão para designar a língua local. 

Pergunto: isso acrescenta alguma coisa ao debate? 

- Para mim, fortalece o que tenho pesquisado e defendido: os povos do norte do Kwanza-Sul falam uma variante do Kimbundu.

=

Leia mais em: http://olhoensaios.blogspot.com/2019/03/quatro-notas-sobre-lingua-dos-kibala.html?m=1

e tb em: http://www.kalulo.com/index.php/cultura/antropologia/254-a-lingua-dos-kibala-kimbundu-ou-ngoya

domingo, dezembro 26, 2021

NO SEMINÁRIO DA AJECO & SNL

Assim dissemos: 

"Um Bom Jornalista não quer ser apenas o 1° a informar. Quer ser aquele que veicula a informação completa e isenta, ouvindo as partes envolvidas e evitando a rectificação. 


Ouçam-nos (enquanto assessores). Contacte-nos previamente e não apenas na hora do fecho do jornal  para escrever: 'tentámos e não obtivemos resposta'. 


O assessor é ponte. Não é ele o detentor do conhecimento total, por isso, tb precisa de tempo para se informar".

LC.23.12.2021

sexta-feira, novembro 05, 2021

LONGESO

Desde que o "Jornal de Sábado" foi ao Wambu fazer e transmitir as notícias daquele dia, a partir de Mbalundu, que o longeso¹ passou a ser assunto de comentários e "interesse nacional, sobretudo por parte dos adyakime².

Quando pequeno, nas hortas do Limbe³ e, mais tarde, de Kalulu, sempre que desbravasse a terra, surgiam pequenos tubérculos saídos quase que do nada. Pequenos, comparados a grãos de jinguba⁴, nunca tinham desperto a nossa atenção, salvo raras excepções de alguns mais velhos que, à escondida os lavavam e experimentavam, sempre longe de nossos olhares.
Foi depois da RNA ter, em crónica, anunciado que "Mbalundu era o único município do país onde se podia encontrar os [super-afrodisíacos] longeso" que comecei a rebobinar a minha longa metragem de recordações até chegar a ele.
Bem atrás de minha casa, em Viana, está a centenária Lagoa de Terembembe aonde os homens canalizam, hoje, todas as águas pluviais e urbanas de Viana. Onde haja água e terra há longeso!
Quem quiser comprar, pode procurar-me para ganhar a capacidade metralhadora e de "produção gemelar". Tenho uma honga⁵ de longeso.

=
¹ Tubérculo de uma herbácea cujas folhas se podem confundir com as de alheiro, presente nas zonas baixas e ribeirinhas.
² Mais velhos (Kimbundu).
³ Aldeia (extinta) da comuna da Munenga, ficava a dois Km da actual Pedra Escrita, na EN120.
⁴ Amendoim.
⁵ Lavra em terreno plano e ou baixo. Horta.

quinta-feira, outubro 07, 2021

LAMBIJI E CONDUTO

- Ombelela nyê?!- Perguntava o tio Vinte e Cinco à mulher, sempre que chegasse da tonga¹.

- Lambiji kihi, Elombo?! - Indagava, igualmente, o meu pai, antes dos amicíssimos juntarem as jantas, uma noite em casa do tio Vinte e Cinco e outra em nossa. Era assim religiosamente.
Porém, o vizinho Cacebola, um ovimbundu que tinha estudado um pouco mais e que era capataz (ajudante do gerente), preferia pronunciar o termo conduto para se referir ao que acompanhava o pirão.
Era fuba de milho, feijão e peixe seco amarelado ou acastanhado que o "patrão-Estado" continuava a distribuir aos camponeses da fazenda. Estávamos a finalizar a década de setenta do séc XX.
www.mozindico.blogspot.com faz referência a conduto (Angola) como "iguaria" acompanhante, sobretudo para o pirão/funji e outros alimentos.
No meu consciente, o termo entra por volta de 1978, quando a minha família se mudou de Kitumbulu (fazenda de meu avô Fernando Ndambi) à fazenda Israel (comuna da Munenga).
Os trabalhadores ovimbundu da fazenda (rebaptizada Hoji-ya-Henda) usavam termos como pirão em vez de funji e conduto para a iguaria acompanhante.
Até então, o termo familiar, no "nosso Kimbundu de Kuteka", era lambiji².
Se calhar, por ser um povo ribeirinho (Longa), o peixe tenha sido o principal conduto de sua dieta, fora os vegetais que, senso geral, recebiam a designação de lambiji.
Genericamente, lambiji/ mbiji podia ser peixe, verduras, insectos (grilos, cigarras, térmitas/salalé, gafanhotos) ou carne.
- Lelo, lambiji kihi?³
- Lambiji xiwe!⁴
Ombelela era/é outra expressão usada pelos ovimbundu com quem privei na infância para se referirem à iguaria acompanhante do pirão.
O termo conduto vem ganhando força e "expansão nacional", impondo-se no léxico da Língua Veicular (Pt). Porém, é mister assinalar e registar as particularidades de cada região e povo, no que diz respeito às suas particularidades sociológicas e linguísticas, pois a construção do todo nacional passa, indubitavelmente, pelo "eu" de cada comunidade.
O angolano Carlos Figueiredo, professor e investigador de História e Linguística do Libolo, diz que "conduto é termo português, bastante usado no norte de Portugal, sendo que o seu uso em Angola terá a ver com as fases da colonização das diferentes áreas da então colónia, pois o termo era comum no Português da Idade Média. Note-se que a colonização de Benguela Nova (actual Benguela) e Planalto Central, ou seja das zonas Ovimbundu, dá-se a partir do início do séc. XVII, ou seja, quando ainda se falava o português do período clássico. Esta ocupação é muito anterior à colonização do interior do Cuanza-Sul, que vai acontecer apenas no final do século XIX, quando já se fala o português moderno. Portanto, no Libolo, a palavra “conduto” foi usada também para definir a ração dada pelos colonos aos trabalhadores..."
Fernanda Bandos, portuguesa, acrescenta que "conduto é um termo usado pelos meus avós portugueses, mas que tem sido substituído pelo termo acompanhamento em muitos restaurantes em Lisboa..."
Por seu turno, o kisongoense (Libolo) Artur Cussendala recorda que, na sua aldeia, "todo o acompanhante é tratado genericamente por mbiji (peixe)".
O escritor e pesquisador social Gociante Patissa, quando solicitado a debitar sobre a expressão mbelela/ombelela, explica que "conforme as variantes do umbundu, mbelela ou ombelala podem referir-se exclusivamente ao conduto que tenha a ver com carne (de animal), passando o resto a integrar a categoria de "lombo", o que abarca também peixe e feijão. [É assim] na região de Benguela, os considerados vacisanji e vasale (estes últimos mais próximos do Kwanza-Sul)".
No leste/nordeste de Angola, onde predomina a língua Ucokwe, ikasa é o designativo do acompanhante de xima⁵. O poeta e jornalista João De Figueiredo Wassamba confirma que tal nome genérico "aplica-se a carne, peixe verduras, insectos e demais acompanhantes".
=
¹- Empreitada, parte distribuída, na fazenda, como empreitada diária.
² Condutor/acompanhante.
³ Hoje, qual será o acompanhante/conduto?
⁴ Será (carne de) paca.
⁵ O mesmo que fuji para os ambundu. Os tucokwe comem, preferencialmente, pasta feita de farinha de mandioca (fuba de bombô).

quinta-feira, julho 08, 2021

MINHA TESE DE MESTRADO JÁ DISPONÍVEL AOS ESTUDIOSOS

https://bdigital.ufp.pt/handle/10284/9577

A falta de motivação e o impacto nos colaboradores: um estudo de caso no Ministério da Geologia e Minas



sábado, junho 26, 2021

O NOVO FORMATO DO GTICI E OS DESAFIOS PARA A SUA GESTÃO

(Reflexão em esboço)

O Gabinete de Comunicação Institucional, enquanto órgão dos Organismos Centrais da Administração do Estado Angolano, foi instituído pelo DP nº 230/15 de 29 de Dezembro, tendo este sido revogado pelo DP nº 3/18 de 11 de Janeiro que retoma algumas de suas atribuições e competências.

A Estratégia do Presidente João Lourenço que consiste em tornar dotar a "organização da Administração Central de racionalidade e eficiência no realização do serviço Público ... reduzindo ao mínimo a existência de conflito de interesses e de competências, bem como buscar maior racionalização da despesa pública" fundiu alguns ministérios, levando estes a diminuírem, por via da extinção e fusão, alguns órgãos Executivos Directos (direcções) e órgãos de apoio técnico (Gabinetes), trazendo desafios para os Ministérios e seus Líderes.

Nessa "nova era", tive o grato prazer de ser o primeiro ocupante do cargo de Director de um Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa a entrar no debate (interno), pois o Organismo a que presto serviço, o MIREMPET, foi o primeiro, por iniciativa do seu titular, Diamantino Azevedo, e antes mesmo da reforma dos OAPR vide DLP nº 4/20 de 01 de Abril, a promover um debate interno para o enxugamento dos seus órgãos directivos, extinguindo uma Direcção Executiva e fundindo dois Gabinetes (GTI e GCII).

Agora que se universaliza a fusão entre o GTI e GCII ao nível dos Órgãos Centrais da Administração do Estado, há um debate novo que se adensa, procurando saber quem, entre os experimentados  na elaboração e transmissão da mensagem (comunicólogo/jornalistas) e os experimentados na facilitação do caminho/via para a expedição da mensagem (informática/telecomunicações e afins) deve dirigir a área que atende pelas Tecnologias de Informação e Comunicação Institucional?
. Quem se afigura como "melhor especialista" para gerir o Gabinete de Tecnologias de Informação e Comunicação Institucional (GTICI?
Entendamos  que o director de um órgão ministerial está no nível intermédio de responsabilidade, ou seja, entre o nível estratégico (Direcção Central) e o nível operacional. Actua no nível táctico, podendo/devendo auxiliar os extremos. Se o nível Estratégico entender/dominar as ciências de telecomunicações/informática ou possuir um assessor para tal, sugere-se que "poupe" suas energias, deixando confiando a direcção do GTICI a um especialista em Ciências da Comunicação. A isso se acresce também a qualidade dos técnicos disponíveis, pois a experiência e autonomia dos técnicos disponíveis versados em tecnologias de informação e em comunicação influenciará a escolha do perfil do director do GTICI (que, em teoria, deve ser aquele que detém maior conhecimento e experiência na área mais carenciada  entre Comunicação e Tecnologias).
Se a maior necessidade/fraqueza da Direcção Estratégica for em Comunicação, o ideal é que a direcção táctica seja confiada a um entendido em comunicação/jornalismo (assim agiu o MIREMPET). Caso seja o inverso, o melhor conselho será capitalizar/reforçar o GTICI com um director versado em Tecnologias de Informação (valendo-se da autonomia dos técnicos do Departamento de Comunicação).

Por outro lado, dirigir é, acima de tudo, programar, distribuir, acompanhar, supervisionar, conferir, corrigir e aperfeiçoar (kai zen). Significa que um gestor visionário, com uma equipa competente (no caso duas, DTI e DCI), mesmo que não seja estudioso e executante de ciências da comunicação ou tecnologias de informação pode, com ou sem constrangimentos maiores, dirigir o GTICI.