Introdução
O tema "Não procurem o porta-voz: desafios da comunicação no século XXI", abordado por Nestor Goubel (2026), suscita reflexões profundas sobre o papel da comunicação institucional e a função dos porta-vozes nas organizações modernas. A experiência acumulada em mais de vinte anos de assessoria de imprensa, dividida entre o sector empresarial privado (2006–2015) e a administração central do Estado (2018–presente), antecedida por nove anos de prática jornalística na LAC e outras colaborações em media angolanos e estrangeiros (1996–2006), permite analisar criticamente os benefícios e riscos associados à figura do porta-voz.
Nos dias actuais, comunicar deixou de ser uma opção e tornou-se uma obrigação para as organizações públicas e privadas. A comunicação institucional deve alinhar-se à estratégia organizacional — missão, visão, valores e perfil — e exige serviços especializados na recolha, tratamento e divulgação de informações. Como sublinha Manuel Castells (2009), _vivemos numa sociedade em rede, onde a informação circula em tempo real e a reputação depende da transparência e da capacidade de resposta. _
Porta-voz: necessidade ou opção?
O grau de exposição pública e a frequência dos actos comunicacionais definem a necessidade de possuir porta-vozes permanentes. A Polícia Nacional, por exemplo, interage diariamente com a sociedade, sendo imperioso ter representantes oficiais que transmitam mensagens claras e consistentes. Já uma empresa mineira ou um ministério, cuja comunicação externa é sazonal (excepto em situações de crise), pode optar por porta-vozes ocasionais.
Benefícios reputacionais de um porta-voz frequente
Credibilidade: a presença constante reforça a confiança do público.
Consistência: garante uniformidade na mensagem institucional.
Proximidade: cria vínculo com os media e a sociedade.
Visibilidade: aumenta o reconhecimento da instituição.
Desvantagens em caso de depreciação da imagem
Exposição excessiva: o porta-voz pode tornar-se alvo de críticas pessoais.
Associação directa: erros individuais repercutem-se na reputação da instituição.
Rigidez comunicacional: a centralização pode limitar a diversidade de vozes.
Vulnerabilidade: em crises, a imagem do porta-voz pode agravar a percepção negativa.
Autores como Grunig e Hunt (1984) destacam que a comunicação estratégica deve equilibrar visibilidade e prudência, evitando que a figura do porta-voz se confunda com a própria instituição.
Experiência pessoal
Durante nove anos e meio de actividade como assessor de comunicação em Catoca, evitei assumir o papel de porta-voz de uma empresa complexa do ponto de vista técnico. Concluiu-se que o porta-voz principal deveria ser o Diretor-Geral, enquanto os gestores dos distintos negócios actuariam como porta-vozes especializados. Essa estratégia permitiu maior precisão técnica e credibilidade junto aos públicos.
Ao integrar o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás (MIREMPET), optou-se por capitalizar uma relação de proximidade com os media e _opinion makers_, servindo como ponte entre estes e a direcção do Ministério. A função de porta-voz foi assumida apenas em situações pontuais, por orientação superior. Tal prática reforça a ideia de que ser ou não porta-voz é uma questão estratégica, mas comunicar com clareza e eficiência é um dever permanente.
Comunicação institucional no século XXI
A comunicação contemporânea enfrenta desafios como: Velocidade da informação (Castells, 2009);
Exigência de transparência (Cornelissen, 2017); Gestão de crises (Coombs, 2014) e Multiplicidade de canais digitais (Kaplan & Haenlein, 2010).
Esses fatores tornam a comunicação institucional uma função estratégica, que deve ser integrada à gestão organizacional. O porta-voz, quando existente, deve ser preparado para lidar com cenários complexos e imprevisíveis.
Conclusão
Ser ou não porta-voz é uma decisão estratégica que depende da natureza da organização, da frequência de sua interação com a sociedade e da pertinência de comunicar para fora. Contudo, comunicar com clareza e eficiência é uma obrigação inescapável das organizações modernas. Como afirma Habermas (1989), a esfera pública exige transparência e responsabilidade, e a comunicação institucional é o elo que conecta organizações e sociedade.
Procurem, portanto, pelo serviço de comunicação instituição pois, "podem não encontrar o porta-voz".
Referências
Castells, M. (2009). Communication Power. Oxford University Press.
Cornelissen, J. (2017). Corporate Communication: A Guide to Theory and Practice. Sage.
Coombs, W. T. (2014). Ongoing Crisis Communication: Planning, Managing, and Responding. Sage.
Grunig, J. E., & Hunt, T. (1984). Managing Public Relations. Holt, Rinehart and Winston.
Habermas, J. (1989). The Structural Transformation of the Public Sphere. MIT Press.
Kaplan, A. M., & Haenlein, M. (2010). Users of the world, unite! The challenges and opportunities of Social Media. Business Horizons.
Goubel, N. (2021). Não procurem o porta-voz: desafios da comunicação no século XXI. Luanda.
Extensão aproximada: 3–4 páginas em formato expositivo, com melhoria estrutural, revisão ortográfica (pré-AOLP), acentuação corrigida, vantagens e desvantagens do porta-voz, e referências científicas inseridas.
Luciano Canhanga: graduado em Ciências da Comunicação (UPRA) e MSc em Ciência Empresarial (UFP)
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