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domingo, dezembro 27, 2009

MARKETING AMBULANTE

_“Com licença família, bom dia! A empresa vai fazer uma pequena revisão”.
Os passageiros pensam num fiscal da transportadora ou da autoridade de transportes de Luanda. Mas o intruso prossegue o discurso:
_"Está aqui o menthol para combater a gripe, ciúme, irritação na garganta, cansaço e até engarrafamento (estress)”.

Só assim os passageiros do autocarro privado que faz a rota 1º de Maio/Rocha Pinto se apercebem tratar-se de um ambulante, bem-falante e marketizando o seu pequeno negócio que na "brincadeira" ganha cada vez mais adesão. O pregão do ambulante, que aproveita o congestionamento do transito automóvel nas imediações do hipermercado Jumbo, na Avenida Deolinda Rodrigues, ganha consistência e aos poucos “despacha” o negócio.

Este grande “marketeiro” que nem sequer a 4ª classe possui, terá, na calada duma noite qualquer ou se calhar numa tarde de panelas vazias, estudado a melhor forma de angariar prosélitos para os seus reboçados . E é nos autocarros e taxis carregados de mulheres, no engarrafamento matinal ou vespertino, que encontra o seu nicho de vendas.

_ Vendedor como ele poucos haverá, desabafam satisfeitas as clientes, à saída do “comerciante”, levando consigo os últimos trocos: dez, cinquenta, cem ou duzentos kuanzas.

O clima parece agora estar mais ameno e com um novo motivo para comentários. Lá se foi o estress, pelo menos por alguns intantes.

Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O VALOR DA DESCRIÇÃO, DA PRECISÃO E DA IMAGEM NA COMUNICAÇÃO

A trilogia representa o que é hoje a media, ou seja, a imprensa descritiva, a rádio exacta no uso da palavra certa e o peso da imagem televisiva.

Dizia, e com razão, um meu antigo editor que "os jornais descobrem os assuntos", pois, tradicionalmente, é para lá que iam/vão as cartas e os telefonemas sobre novos assuntos. Hoje o cenário pode ter mudado, mas os jornais ainda continuam a ser aqueles que com maior profundidade descrevem os factos. Até porque têm de dizer por palavras escritas até aquilo que apenas se sente. Dizer, por exemplo, que fazia frio, que as pessoas estavam exaltadas, que fazia poeira, que o ruído era ensurdecedor, ou que os actores mostravam inabilidade, etc.

As rádios, embora se tenham colado às funções tradicionais da imprensa, têm igualmente os seus campos próprios. Isso faz e fez com que o surgimento das rádios não acabasse com os jornais e a televisão não se arruinasse com a aparição das rádios, nem a multimedia conseguisse acabar com os primeiros. E dizia o meu editor, Zé Rodrigues, que se os jornais descobrem para depois descreverem, "a rádio aprofunda". Ela, a rádio, dá outras vozes aos assuntos. Explora outras dimensões do problema. Traz à ribalta novos actores. Complementa o jornal, usando palavras precisas e de significação inconfusa. Ela diz o máximo num mínimo de palavras e de tempo auxiliada pelo som. Mas não é tudo. Falta mostrar.

É aqui que surge a tv. Ela não precisa extender-se no texto, nem na palavra, ou no pormenor. O assunto já foi lido e ouvido. A curiosidade humana está agora aguçada para a visão. Falta mostrar e a tv cumpre o seu papel mostrando. Aqui se materializa também o velho, mas sempre sábio, ditado chinês: Uma boa imagem vale mais do que mil palavras.
As palavras escritas são para a imprensa, a voz para a rádio e a imagem para a Tv.

NB: Um texto conciso é aquele que consegue transmitir um máximo de informações com um mínimo de palavras. A clareza deve ser a qualidade básica de todo o texto. Para que ela exista concorrem: a impessoalidade, que evita a duplicidade de interpretações que poderia decorrer de um tratamento personalista dado ao texto; o uso do padrão culto de linguagem, em princípio, de entendimento geral e por definição avesso a vocábulos de circulação restrita, como a gíria e o jargão; a formalidade e a padronização, que possibilitam a imprescindível uniformidade dos textos e a concisão que faz desaparecer do texto os excessos linguísticos que nada lhe acrescentam.

Luciano Canhanga

quinta-feira, novembro 19, 2009

O MELHOR DIA PARA UMA NOTA DE IMPRENSA

Quando o assunto é temporal, quando se torna inadiável levar o assunto institucional à esfera pública, não há escolha de tempo. O melhor dia seria “ontem”.

Porém, quando pode haver a escolha do melhor momento, quando se quer e pode dar maior amplitude e noticiabilidade ao facto, qual a melhor altura para “soltar” uma Nota de Imprensa/Press Release?

Da minha experiência jornalística notei que à segunda-feira, fruto da “improdutividade” do fim-de-semana, as redacções estão carentes de notícias. As redaçcões precisam de factos novos. Daí que o aproveitamento de uma press release é quase que generalizada e total. A adesão é maior e melhor.

Quanto à redacção da nota de impensa, é melhor aquela em que os jornalistas não só encontrem respostas aos clássicos elementos do lead, como também se ajuste ao estilo redactorial da casa, daí quem não será um exercício vazio rescrever a nota, indo de acordo ao estilo de redacção de cada receptor. Regra geral, os jornalistas gostam de ver facilitada a sua tarefa. É importante que os elementos que satisfaçam ao lead estejam no princípio da press release.

O título da press release deve ser atractivo aos jornalistas, pois "se o pregão for mal efectuado, por melhor que seja o produto, poucos ou ninguém a ele chegará". Se a nota de imprensa for enviada por e-mail, será importante ligar aos receptores, para confirmarem a recepção. Apesar da cultura, há jornalistas que ainda não abrem com regularidade ou à chegada à redacção os seus correios electrónicos.

Os conselhos acima aplicam-se às notas e pedidos de cobertura noticiosa.
Motivo, Local, Data e Hora, para além de outros elementos periféricos, são importantes.

Note que as Rádios precisam de som e, se alguém estiver habilitado a falar de véspera, o ideal seria colocar na Nota o contacto deste "porta-voz".

Luciano Canhanga

domingo, novembro 01, 2009

O ACTO MATRIMONIAL ENTRE OS LIBOLO E KIBALA

O CASAMENTO (Ú SOÑONA)
Os povos do Libolo e da Kibala (municípios da província angolana do Kuanza-Sul) consideram-se kisoko* por isso mesmo são pacíficos os actos matrimoniais entre estes dois povos do grupo ambundu.

O acto matrimonial tem início com o galanteio ou conquista (ú seka), sendo normalmente o homem quem toma a iniciativa ou os pais deste, podendo ainda a família contrária propor o mesmo à família do rapaz.

Normalmente, é na adolescência que começam os galanteios quando não se tratem de individuos já adultos e em segundas núpcias.  A idade biológica é irrelevante, falando mais a robustez física, atendendo a maturidade  precoce ou retardada dos individuos. O desenvolvimento físico na mulher é factor de relevância.

As adolescentes juntam-se, regra geral, em casa duma idosa, pretenciosamente para dela cuidarem e aprenderem lições de vida, com realce à vida conjugal futura. É nesta kandumba (caserna) onde os adolescentes e jovens do sexo masculino se sentem à vontade para o desfilar de rosários.

Ter um objecto de uso pessoal da jovem pretendida, um lenço, um pano, ou uma pulseira, é considerado meio camino andado para o passo seguinte. Porém, a sociedade/comunidade atenta deve aprovar ou reprovar esta relação nascente em que jogam preponderantemente os activos e passivos entre ambas as famílias. Se reprovação não houver, o passo seguinte será a oferta de uma porção de tabaco, um maço de cigarros ou um valor equivalente à tia paterna ou avó da pretendida.

A aceitação desta oferta será o selo de que nada obsta o namoro entre os jovens, pasando à categoria seguite de “a muibula” que siginifica estar ocupada ou pretendida.

KUIBULA (PRETENDER)
O acto tem o significado exacto de pretender a rapariga. Perguntar às famílias se nada obsta. A aceitação da bouquilha de tabaco ou outro produto correspondente equivalente à aceitação do namoro por parte de quem o recebe e que deverá comunicar aos pais da jovem.

A família da rapariga deve, em seguida, reunir e analisar os hábitos do rapaz e de sua descendência, jogando preponderantemente a amizade ou atritos que haja entre ambas, caso sejam de mesma aldeia ou de aldeias próximas.

Ultrapassado favoravelmente este passo, um emissário é enviado à parte do pretendente, comunicando-lhe a aceitação formal do namoro, passando o jovem a frequentar a casa dos sogros, idem a jovem que se deve prestar a alguns serviços domésticos em casa da futura sogra. É o ensaio.
São esses actos que ajudarão a determinar se a futura nora é ou não honesta e trabalhadora. Chegados a este patamar a sociedade jamais permitirá relacionamentos paralelos, sobretudo se praticados pala nubente, sendo qualquer acção desrespeitosa para com ela passivel de uma multa pecuniária e, às vezes, castigos físicos, ditados pelo soba da comunidade.

ÚLEMBA (Alembamento)
É o acto pelo qual a família do noivo formaliza o noivado através da entrega de bens à família da jovem. Não se trata de compra, como alguns podem pensar.

É apenas um acto que valoriza a noiva e que sub entende o costume e o respeito pelas tradições seculares. Não fazer o alembamento é que se torna anomalia e nunca o contrário.

Nas comunidades rurais mais recônditas a bebida mais usada é o kaporroto ( bebida destilada). O noivo, ajudado pela família, deve juntar garrafões de kaporroto em número variável, panos para a sogra, cobertor para a avós, o dinheiro do alembamento que acompanha a carta de pedido devidamente forrada em lenço branco e fechada com alfinetes dourados.

Nas comunidades mais iluminadas o Kaporroto é substituido por garrafões de vinho, wisky, caixas de refrigerantes e cerveja, cigarros, peças de panos para a sogra, fato para o sogro e outros bens. Há famílas que enviam uma lista de bens e outras que são liberais.

Geralmente a família do noivo é recebido em festa, abatendo-se um animal quadrúpede doméstico e outro que é oferecido vivo à família da noiva em forma de dote.

O ACTO FINAL: Ú-UANA (A BUSCA)
Levar a mulher da casa de seus pais é o acto consumatório da união matrimonial entre os nubentes. Preparada a casa em que viverá o novo casal, a família do noivo envia um emissário à casa da família da noiva com a missão de a ir buscar.

O emissário, um tio, uma tia, um kisoko ou outro individuo de confiança ou amigo comum dos nubentes leva um garrafão de kaporroto, ou algumas caixas de cerveja e refrigerantes, dependendo do lugar e das posses.

Deve munir-se de alguma pecúnia de reserva para em caso de multas devidas a atrasos na chagada ou gravidez em casa dos pais. Recebido em festa, apresneta o mahezo (conta o motivo da visita) e é acompanhado com o bater de palmas à medida que discorre o discurso.

Uma tia, amiga ou outra representante acompanha a nova ao seu novo lar. A noiva vai normalmente de rosto coberto destapando o véu somente depois de apresentada pela acompanhante à sua nova família, os sogros. Manda a tradição que na primeira noite ambas tias da noiva e do noivo dvem confirmar a virgindade da rapariga através de lenções novos e brancos que ao raiar do sol são por elas recolhios devendo estar ensanguentados, sinónimo de que houve defloramento naquela noite nupcial.

Se se confirmar o defloramento, ambas tias rejubilam-se, sendo motivo de orgulho das famílias por se ter cumprido a norma tradicional. Há vezes, porém, em que tal acto não passa de uma simples montagem com a conivência de ambas tias. Pegam numa galinha e escondem-na no quarto dos nubentes. À noite, sacrificam-na e o sangue é usado para sujar os lençóis.


A festa de despedida entre o noivo e sua família e as acompanhantes da noiva é regada de muito kaporroto, vinho e/ou outras bebidas, dependente dos hábitos de consumo, do local e das posses. Há famílias que fazem acompanhar a sua filha de um dote (em retribuição ao recebido). Normalmente uma vaca ou outro animal de médio porte, cuja reprodução deverá ser seguida na mesma bitola pelo novo casal.  Este dote tem, porém, outros significados importantes a reter: 1- O apreço que os pais da noiva nutrem pelo genro; 2- Que não a maltratem, pois também têm posses.

A REPRODUÇÃO (ÚKITA)
É o passo seguinte. Ambas famílias permanecem atentas à primeira gravidez da jovem, sendo motivo de preocupação se tal não acontecer nos primeiros seis meses de casamento.


* Kisoko é termo em kimbundu que significa (pessoa ou povos com quem se tem) um pacto de amizade, amor, fraternidade, relações igualitárias e ou privilegiadas ou íntimas. Entre dois kisoko até a asneira passa despercebida.


Luciano Canhanga

sexta-feira, outubro 16, 2009

A CAÇA AO INSÓLITO E SUAS CONSEQUÊNCIAS


O CASO
Uma fonte anónima liga para a estação televisiva anunciando um facto insólito. As imagens têm o poder de persuasão e um isólito, uma cacha, aumenta a audiência em tempo de concorrência mediática. Está-se na expectativa de se anunciar uma cacha no "prime time".

É importante chegar primeiro, mas também ser o primeiro a divulgar para que aos demais se torne apenas informação.

_“Para nós será matéria de primeira-mão”, terá pensado alguém naquela casa.

O repórter sai munido de equipamentos de reportagem. Dirige-se ao local indicado pela chamada anónima e encontra o cenário montado ou “parido”.

Encontra uma senhora que afirma ter dado fim a uma gravidez de 18 meses depois de ter frequentado vários hospitais (não os nomeou) que sempre lhe atestaram resultado negativo da gravidez, mesmo com o crescer, dias sim, dias não, da barriga. O obreiro do insólito é um homem que se proclama como um “grande curandeiro”, também ele surpreendido pelo resultado inaudível.

Ao lado de ambos, um cágado nadava numa bacia e foi apresentado como recém-nascido da “parturiente” que, entre alegria, espanto e também tristeza, atribuia alguma culpava ao curandeiro.

Narração da Sra: “meteu-me sentada na bacia e senti algo a tocar-me o ânus. Quando levantei notei que havia este cágado na bacia e a barriga esvaziou-se”.

Narração do Sr: “nunca vi isso na minha vida apesar de já ter tratado muita gente. É feitiço”.

Comportamento da televisão/ repórter: filmou o cágado na bacia, recolheu os depoimentos do Sr. e da Sra. e divulgou a estória, "nua e crua" (como se de verdade auténtica se tratasse).

E eu me pergunto:
1- terá, de facto, a Sra. parido a um cágado?
2- como foi tal possível?
3- terão o repórter e os editores se colocado estas questões?
4- por que razão não foi postergada a publicação da reportagem, dando lugar a recolha de outros elementos de prova material e científica?
5- e como ficamos, ”nós”, que acreditamos completamente naquilo que a Tv nos mostra?
6- terá a Tv cumprido cabalmente com o seu papel, enquanto órgão público de informação?
7- não terá a Tv sido traída por um factor qualquer?
8- qual?
a) imperícia do repórter?
b) desatenção dos editores?
c) gosto e tentação pela cacha e pelo insólito?
9- ou devemos ter o facto narrado pela Tv como verídico?

Para muitos, não é o meu caso, a senhora  pariu a um cágado e foi anunciado pala Tv em que muita confiança se debita.

Luciano Canhanga

quinta-feira, outubro 01, 2009

A ANTROPONÍMIA DOS AMBUNDU DO KUANZA-SUL


ESTUDO CONTÍNUO
A antroponímia é o estudo dos nomes proprios referentes a pessoas. Quando nos referimos a lugares estaremos perante a toponímia.

Os ambundu do Kuanza-Sul são detentores de uma antroponíma extensa e rica de significados, pois os nomes de novos seres sociais nunca são atribuidos ao acaso. Normalmente referenem-se ao momento, circunstâncias de nascimento ou outro evento relevante na vida do casal, da família ou da comunidade.

Entre os ambundu do Kuanz-Sul, quando um nome não é silogístico (novo) pertence a alguém da família ou da comunidade a quem se designa por chará (cognome).

KAKULU= O primeiro dos gémios
KABASA= O segundo dos gémios
Kaxinda= que segue aos gémeos
Kalunga= relativo à morte, o inesperado
Kitumba= relativo ao feitiço
SABALU= Que nasceu num Sábado
Katumbila=
Kilombo=
Kikola= Sagrado, perigoso
Kamuenda=
Nzongo=
Kilulu= fantasma
Kitongo=
Lukamba= Relativo ao gato bravo
Kavindi=
Ebo= Nascido de uma gravidez acima dos nove meses de gestação
Kiteta= dorminhoco (relativo a quem dormia muito no periodo da gestação)
Kambondondo= curto, de baixa estatura
Kimbi= morto, nascido depois de um nado morto ou depois da morte de irmãos mais velhos
Kitoma= picador, o vacinador...
Kisongo=
Kaphuku= o mesmo que ratinho, muito magro
Kaiela= relativo a diala=homem,
Maluvu= relativo ao vinho de palma
Kapengo= o mesmo que ratinho de casa, feito
Mungongo=
Kajila= passarinho, voador, espevitado, lesto
Kikumbu=
Kakonda=
Nzumba=
Lemba=
Umba=
Kaphonde= relativo ao bagre, de cabeça desproporcional ao corpo
Kifunde=
Maluvu= relativo ao vinho de palma (maluvo)
Kioko=
Kapoko= relarivo à faca; phoko=faca
Vundi= relativo ao juramento, ou a um pedido especial
Kisanga=
Kihuhu=
Kasola=
Phande= que vem a seguir de...
Nzamba= Elefante, também gémeo
Kindala= relativo à cobra. Ndala espécie de cobra perigosa que abunda a região
Kibenda/Kipenda=
Kabiabia= andorinha
Kixibo= cacimbo/época seca
Kikele=
Henda= benevolente, saudoso, bom-doso/dade
Kambondondo= curto, baixo
Kamuenda=
Hongolo=
Kaxikiri=
Kinguenha=
Lemba=
Kabezo/kapezo=
Muthumbua=
Kime=
Kasola=
Kakiezu= vassourinha, magro
Kiole= apodrecido, tardio
Ngunza/Ñunza=
Kalola=
Kalulu= pequeno fantasma
Kambota=
Kabota=
Kindundango=
Sumbanguia= comprador de agulhas
Muhongo=
Kasaba=
Ndumbo= infiel
Katumbo=
Kamalenge= fabricador de argolas?
Pangila=
Kiteke= desenhador
Kupenda/Kubenda=
Kibenda/Kipenda=
Umba=
Kathuku=
Kaiela=
Mbondondo=
Manda=
Munzombe=
Kafanda=
Malebu= fama, afamado
Kioza=
Njilá=
Kajobiri=
Tembu=
Nzumba=
Mulunji
Katibiá= foguinho
Kimone=
Funji=
Nzundo= marreta, pesado
Sumbula=
Katimba= reguila,
Thandela=
Lombe= local santo onde se sepultam os reis
Mundombe=
Ngonga= Prato santo para adivinho
Nhañe=
Ndonga=
Muriangu= comelão, que come muito
Murianga=
Kixibá=
Ngaio=
Kaxikiri=
Kimbila= relativo à sepultura
Kixindo=
Kikaxa=
Kizoko=
Ndulú= amargo; fel
Ximinha=
Kambundu=
Musunga=

Luciano Canhanga (Phande a Umba)

quarta-feira, setembro 16, 2009

NO JORNALISMO ANGOLANO: É PRECISO SEPARAR O TRIGO DO JOIO

Desde 2006 que despi a camisola de jornalista, mas como formado e profissional da área não posso assistir ao “ladrar dos cães e ao passar da caravana”. E é refugiado nesta pele de comentador de factos que assisto, participando do debate de ideias.

Há muito tempo temos vindo a ser brindados pela media com a intragável arte de transformar navios em bragres. Acontece na imaginação. A propaganda o tenta, mas as consciências sempre despertam. A minha abordagem de hoje tem a ver com o que assisto na classe jornalística. Quando o debate é sobre “se devem ou não ser considerados jornalistas apenas aqueles que têm graduação e equivalência em ciências da comunicação”, dia após dia vimos fabricados outros jornaleiros vindo de outras “artes”.

O jornalismo áudio-visual em Angola é aos olhos do povo a profissão mais fácil de se exercer. Pensa-se que não se estuda, não se aprende, nem se faz carreira. Todos os dias há transformação, à escala industrial, de novos homens e mulheres de microfone na mão. Qualquer músico, actor de teatro, taxista, animador de eventos ou mesmo “roboteiro” aparece perante as câmaras televisivas ou em qualquer programa radiofónico a intitular-se de jornalista e todos, passivamente, acenamos a cabeça, aprovando-o no silêncio. É triste que assim aconteça.

O caso mais recente e ainda em voga tem a ver com um animador de festas que surge na televisão pública num programa que incita a rixas entre grupos de kú duro. O outro é um “adolescente" do Bié que a máquina propagandística da Orion quer que o tratemos como jornalista, forçando-o a pseudo-reportagens que são despejadas a bruto pela televisão pública. É que o jovem nem sequer consegue (nas suas pseudo-reportagens) pronunciar nomes como Deolinda Rodrigues e já "é jornalista”!

Se o tempo que trazemos às costas é carregado de muita tarimba, mas com debilidades em termos de formação que, felizmente, muitos decanos vão anulando com formações específicas e treinamentos, disseminar outros pára-quedistas seria o mesmo que matar o jornalismo angolano.
Que país teremos com profissionais da media que não sabem sequer escrever uma frase com sujeito e predicado ou pronunciar correctamente palavra e meia?

É mister que, sobretudo, a nossa televisão diferencie os seus programas comerciais ou propagandísticos dos noticiosos/informativos, fazendo com que o conteúdo e apresentadores destas atordoadas se apartem do compromisso noticioso, deixando assim de nos confundirem a todos.

Também é míster que o governo regulamente a lei de imprensa, há mais de dois anos aprovada pelo parlamento, e que se criem outros mecanismos reguladores da classe, como uma ordem ou uma comissão para a atribuição e cassação da carteirade profissional.
Julgo que para se ser jornalista não basta abrir a boca nem exibir dotes e poses corporais. É preciso sim, cérebro, escola e muito trabalho, daí que,

É preciso separar o trigo do joio no nosso jornalismo e deve ser para já!
Luciano Canhanga

sábado, setembro 05, 2009

ACERTOS FULCRAIS NA ASSESSORIA DE IMPRENSA

Há no jornalismo erros capitais como faltar à verdade ou não compulsar dados, manipular, entre outros* . Na assessoria de imprensa há "acertos capitais", dos quais falarei sobre 4, radicando a minha pequena análise num facto concreto.

A.C. é oficial superior da polícia angolana com cargo de direcção. Chamado à TPA para uma entrevista, A.C. apareceu fardado com galões e, enquanto formado em direito, não defraudou, recorrendo diversas vezes à lei e seus articulados para argumentar determinadas medidas e procedimentos da polícia. Até aqui tudo bem.

Notei, porém, que sendo a entrevistadora uma jurista, há muito na profissão e A.C. também um jurista mas há pouco tempo formado, houve uma "temeridade" por parte deste em relação à entrevistadora a quem trataou por diversas vezes por Dra. Nada de errado, mas fez transparecer alguma "subordinação moral" como que de um ex-aluno se tratasse.

Notei também em A.C. que embora usasse um discurso vertical e nada titubiente nas respostas, o que é próprio de um comandante, serviu-se vezes sem conta dos papéis, ou pelo menos desviou o olhar das câmaras, fixando-o no acervo de que era portador.

Para este exemplo concreto, e como a permissão que o meu kota me daria para a análise situacional, sou a enumerar alguns "acertos fulcrais".

1- O Jornalista não "é Dr." (entrevistado ainda que o saiba deve evitar essa referência).

2-O entrevistado (Dr.) não leva livros à entrevista, nem olha para papéis na hora da resposta.

3-O entrevistado (que é o Dr.) solta-se no discurso, olha para a câmara que personifica os telespectadores e "ignora" o entrevistador (não olha para ele).

4- O entrevistado veste-se segundo as circunstâncias da entrevista, o facto motivador da mesma ou a posição que ocupa no ofício.

*-. Heródoto BARBEIRO (www.fae.br/Noticias/n426.html) enumera sete erros capitais do jornalismo que a seu ver se resumem em: 1-invasão da privacidade, 2-manipulação da notícia, 3-assassinato do personagem (denúncia e condenação antes de apurar os fatos), 4-abuso de poder (jornalismo não é o quarto poder na constituição), 5- envenenamento da mente (tentativa de manipular, de fazer a cabeça das pessoas, de alinhá-las a esta ou aquela doutrina), 6-culto de falsas imagens (visando o sensacionalismo) e 7- colaboração para uma sociedade que explora o sexo.


Luciano Canhanga

segunda-feira, agosto 10, 2009

NASCE OUSADIA NO JORNAL DE ANGOLA

Habituado a ler títulos no diária nacional de orientação oficial que sempre nos convidaram a guardar o jornal ou saltar para a página dos anúncios, leio hoje, e com satisfação, na página online uma entrada curiosa: Japoneses no Ministério da Saúde*.

Dentro de mim perguntei-me: Será que o governo optou agora por contratar especialistas japoneses para a nossa saúde? Uma curiosidade que, com certeza, quis matar, e como?


Folheando a página correspondente ao que lí na chamada de capa:
“O ministro da Saúde, José Van-Dúnem, recebeu, em Luanda, a delegação japonesa chefiada pelo embaixador encarregado do Sector da Saúde para África e o conselheiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, Yasuhiro Yamamoto, com quem trocou impressões sobre os desafios na área médica em Angola.
Yamamoto é a figura mais importante na área de medicina de emergência no Japão.
Durante a audiência, o embaixador Yamamoto referiu que o Japão considera a área da Saúde como um dos pilares mais importantes na sua cooperação com Angola, por ser o -factor fundamental para a vida do povo-“.


Realmente, uma feliz ousadia e que só perde por tardia no nosso único diário. O apelo é para que: sem sensacionalismo os títulos despertem curiosidade para a compra do Jornal de Angola que nada custa aos seus fazedores, já que o custeamos todos nó (contribuintes).
Se assim for, em todas as matérias, e se todos os jornalistas intitularem com mestria, sem pintar em demasia, mas sem serem bastante redundantes, o Jornal de Angola só terá a sua cotação em alta, podendo ombrear, quem sabe, com os semanários que há muito aprenderam a lição, que até é da kabunga.

E na primeira página, como destaque do jornal, intitulava-se:


AGENDA ATÉ 2012
“Governo aprova projectos de grande impacto social”

Até aqui nada de anormal. A frustração do leitor só acontece quando lido o lead não encontra nem a designação/localização dos projectos, nem a benfeitoria dos mesmos.
Por dentro:
“O Conselho de Ministros aprovou, ontem, a carteira de projectos de grande impacto econômico e social, a desenvolver até 2012. A carteira de projectos tem o custo estimado de 1,2 mil milhões de dólares**, a serem financiados através da linha de crédito do banco de Desenvolvimento da China, investimento provado e outras linhas de crédito disponíveis. Um comunicado emitido no final da reunião refere que a carteira de projectos foi aprovado considerando o -potencial dos recursos naturais e a competitividade do sector, tendo em vista uma maior geração de emprego e renda-" >POLÍTICA/3

O que terá faltado ao articulista para não dar os elementos essenciais neste lead. Guardou a designação dos "importantíssimos projectos" na página interior onde geralmente poucos vão? E o título não é redundante? Ou é bastante assertivo para um jornal que queira endereçar o convite ao leitor?

*Texto de Fonseca Bengui, edição de Quinta, 16 de Julho 2009 Jornal de Angola.
** Por que não uma estimativa em Kuanzas, a nossa moeda?



Luciano Canhanga

sábado, agosto 01, 2009

JORNALISMO EM ANGOLA: COM OU SEM DIPLOMA?

Para mim é um debate oportuno e incentivo a sua extensão a todos os níveis da esfera pública, daí que tomo a liberdade (peço perdão aos colegas cujas ideias reproduzo sem anuência) de aqui expor o pouco do muito que ainda há por se dizer.

I
Cai exigência do diploma de jornalismo no Brasil
Por: Sérgio Matsuura e Izabela Vasconcelos
O diploma para o exercício da profissão de jornalista já não é mais uma obrigatoriedade no Brasil. Por oito votos a um, o Supremo Tribunal Federal considerou incompatível com a Constituição a exigência da graduação em jornalismo para o exercício da profissão, em votação do Recurso Extraordinário 511961, nesta quarta-feira (17/06). Os ministros Gilmar Mendes, Carmen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso de Mello votaram contra a exigência. Apenas Marco Aurélio Mello votou a favor da obrigatoriedade do diploma.No início da sessão plenária, as teses se dividiram entre a posição defendida pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo e o Ministério Público Federal (MPF), contra a obrigatoriedade do diploma, e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), com o apoio da Advocacia Geral da União, sustentando a exigência.
Gilmar Mendes, relator do recurso, defendeu a autorregulação da imprensa. “São os próprios meios de comunicação que devem definir os seus controles”, afirmou.
Mesmo sem a exigência de diploma, os cursos de jornalismo devem continuar existindo, argumentou Mendes. “É inegável que a frequência a um curso superior pode dar uma formação sólida para o exercício cotidiano do jornalismo. Isso afasta a hipótese de que os cursos de jornalismo serão desnecessários”, avaliou.

II
Por: Luísa Rogério
Saudações a todos.
Devo confessar que essa notícia foi um balde de água fria para mim. O SJA subscreve a obrigatoriedade do diploma (alargado a outras áreas de formação) na nova proposta do Estatuto do Jornalista.
A nossa principal referência era o Brasil, uma vez que Portugal também derrogou essa exigência legal. Essa questão suscita alguma controvérsia no seio da própria classe, mas acho que sairemos todos a ganhar. Estaremos melhor preparados e os futuros jornalistas abraçarão a profissão com uma bagagem que muitos de nós, os produtos da tarimba, levaram longos anos a acumular.
A questionada postura ética e deontógica da media angolana durante o periodo eleitoral, mas não apenas nesse caso, constitui apenas um exemplo da necessidade de se elevar a fasquia em termos de formação.
Apesar de a lei não ter efeitos retroactivos, há ainda a vantagem de a obrigatoriedade do canudo incentivar muita gente a voltar para os bancos da escola, vencendo o receio de expor-se ao ridículo diante de colegas mais jovens, muitas vezes subordinados. Ressalvando as excepções que confirmam a regra, convém ao patronato ter a possibilidade de recrutar, ao menor custo, novos jornalistas. Já imaginaram que redacções teremos quando todos os jornalistas tiverem um canudo e puderem, a nível das redacções, sustentar e defender teses que contrariam práticas que atentam contra as chamadas regras de ouro? Evidentemente, não tenho a ilusão de que o diploma resolva todas as falhas nossas. Até porque, em países como o Brasil, discute-se diariamente a postura da media. E a discussão já é um começo. O meu receio, repito, é que se evoque o exemplo recente do Brasil para se chumbar o projecto de Estatuto.
Coloco a questão sem qualquer pretesão porque não ostento nenhum diploma universitário e digo isso sem problemas. Em síntese, além de fazer a apologia do diploma, socorro-me desta ladaínha para sensibilizar os colegas a participarem num encontro que o SJA promoverá brevemente para discutir-mos, uma vez mais, o ante-projecto de ESTATUTO DOS JORNALISTAS.

III
Por: Ismael Mateus
Quero felicitar o SJA por promover este debate. Oxalá eu possa participar.
É preciso ver a questao do Brasil com tranquilidade. Se agora foi alterado é porque antes havia essa condição. Como sabe quem acompanhou, a luta foi renhida e muitas vozes criticaram e criticam a alteraçao. O principal argumento é o mercado e o desemprego. Ao nivel da discussão etica estavamos exactamente como o Brasil estava há 30 anos quando isso foi imposto. Graças a isso a qualidade melhor, a respeitabilidade também e não há nenhuma crise de identidade da classe jornalista (o que é o nosso caso - vejam-se as discussoes sobre quem é jornalista ou os auto-proclamados jornalistas).

Em Portugal nãio há formalmente ujma obrigatoriedade de contrataçao de jornalistas com diploma. O que se passa é que é quase impensavel aparecer quem nao tenha. O proprio mercado assim o exige. Na hora de confrontar os cvs, a experiencia de trabalho ou o perfil tecnico do candidato, quem nao tem formaçao superior sai a perder.
Nos anos 90, houve uma ampla superaçao de profissionais com anos de trabalho no Cenjor e a maior parte deles foi elevada a equiparados a tecnicos superiores.
Portanto vamos ao debate, tranquilo, sereno e tendo em conta que o nosso caminho é aquele que decidirmos.
E parabéns novamente ao SJA

IV
Por: Luciano Canhanga
Prezados,
Felicito-os a todos por esta abordagem oportuna e anadiável para o ordenamento da nossa classe.
Óbvio que todos os argumentos de razão, quer dos prós, quer dos contra uma obrigatoriedade do género na nossa praça, já foram aqui esmiuçados.Quero apenas chamar-vos para que olhem para a nossa formação básica e média. Pensem na carga de conhecimentos que tínheis e na carga que têm agora aqueles que completam a oitava ou décima segunda classes e reflitamos todos se vale a pena fazer jornalismo com gente que nem o seu próprio nome sabe escrever em condições. Falo, não apenas como jornalista mas, como um pedagogo (sou tb. formado em Ciências da Educação pelo ISCED).

Portugal e Brasil antes de declararem a derrogação da obrigatoriedade do ensino superior (não se obriga que seja em ciências da comunicação) tiveram de arrumar a casa, profissiinalizando a classe. E nós? Se calhar valerá irmos discutindo o assunto em cada fórum possivel. Um braço a todos e boa reflexão.
V
Por:Elias André
Caros,
É bom e saudável falarmos de nós. Trata-se de uma questão que deve ser objecto de uma séria reflexão de todos os profissionais de comunicação social. O nosso passado recente não nos possibilitou termos Jornalistas formados. Talvez se tenha pensado que para se ser jornalista não é necessário ter formação superior. Aliás, diga-se que até aqui a profissão é exercida por pessoas sem essa formação superior, mas que têm garantido o jornalismo que o nosso mercado apresenta. Mas importa também destacar que esses "velhos" herdaram uma boa "escola" de jornalismo. Hoje, o cenário é totalmente diferente. Os colegas saidos do ensino médio, talvez por debilidades do próprio ensino sabemos que nível apresentam. A formação superior poderá não ser o factor determinante para o exercício de um óptimo jornalismo, mas, dá outra visão da profissão. Eu próprio sempre pensei que a minha formação média era suficiente, mas depois da Licenciatura conclui que é importante e melhor para o jornalista ter formação superior. Francamente, formação média para Jornalismo já não é nível aceitável hoje.

Não temos condições de exigir essa formação nesta fase porque a agressividade do mercado não permite, mas é bom e aconselhável discutir-se esta questão.Há aspectos científicos da profissão que a "Tarimba" não ensina. Discussões científicas sobre o Jornalismo em Congressos Internacionais por exemplo devem ser feitas por profissionais com formação superior porque a "Tarimba" é muito limitativa. Se alguém criou a Universidade de Comunicação Social ou Jornalismo foi por alguma razão. O desenvolvimento da própria tecnologia na comunicação social, designadamente à Televisão requer outros conhecimentos.Não vamos certamente chegar a nenhuma concliusão já, mas é bom irmos pensando nesta questão. Todas as profissões têm Ordens ou Associações e nós estamos reduzidos ao Sindicato. Algum órgão tem de regular o exercício do jornalismo em Angola. "Mentimos Mais Alto Quando Mentimos Para Nós Mesmos".

Deixe, aqui, você também o seu comentário
L.C.

sábado, julho 18, 2009

O NÚMERO, O GÉNERO E O GRAU DOS SUBSTANTIVOS NA LÍNGUA DOS KIBALA

Tal qual na língua portuguesa que nos serve de elemento comparativo nestes ensaios experimentais, na língua dos Kibala/Lubolo, os substantivos ou nomes, também flectem quanto ao género, número e grau.

1-A formação do plural dos substantivos é regido do prefixo ma ou m'.
Muthu; mathu (pessoa;pessoas)
Zundú; mazundú (sapo; sapos)
Luiji; maluiji (rio; rios)
Lieso; meso (olho; olhos)
Temo; matemo (enxada; enxadas)

2- Excepções
Mulu; iulu (monte; montes)
Ombua; lombua (cão; cães)
Ndandi; landandi (pedra;pedras)
Mbiji; lambiji (peixe; peixes)
Mbinza; lambinza (camisa; camisas)
Hombo; lahombo (cabra; cabras)
Ngulu; langulu (porco; porcos)
Inzo; lonzo(casa; casas)
Ongo; longo (onça; onças)
Ohandangala; uhandangala (hiena;hienas)
Muñambo; añambo (mulher; mulheres)
Mundata; andata (homem; homens)

Grau dos substantivos
1-Forma-se o grau diminutivo com o prefixo ka.
Muñambo; kañambo (mulher; mulherzinha)
Luiji; kaluiji (rio; riacho)
Excepções com o prefixo o
Ndandi; ondandi (pedra, pedrinha
Luiji; oluiji (rio, riacho)
etc.
3-Forma-se o grau aumentativo com o prefixo ki.
Muezo; kimuezo (barba barbicha/juba)
Kañambo; muñambo; kiñambo (mulherzinha; mulher mulherona)
Kaphonde, phonde. Kiphonde (bagre, bragrito, bagrão)

O gênero dos substantivos
Forma-se acrescentando o equivalente à palavra fêmea (kota) ou macho (ndumbe) ao substantivo.
Hombo i kota; hombo i ndumbe (cabra, bode)
Ombua i kota; ombua i ndumbe (cadela; cão)

Excepções:
Sanji; kolombolo (galinha; galo)
Mundata; muñambo (homem; mulher) = diala; muhatu (homem; mulher em Kimbundu ambakista)

Obs: Sinta-se à vontade em contribuir.
Luciano Canhanga

quarta-feira, julho 01, 2009

A PLURIMATERNIDADE ENTRE OS AMBUNDU DO K-SUL

A maternidade, a qualidade de dar vida a vidas ainda inexistentes, é para os ambundu do K-sul uma questão vital. Aliás, assim o é noutras paragens.

Partindo de estudos (silenciosos) que tenho vindo a fazer sobre a língua dos Kibala e seus parentes (do Lubolo, Ebo, Waco-Kungo, Cela, Gabela, Quilenda entre outros kamundongos), notei que quando se refere à condição de mãe, esta é sempre feita no plural, ou seja: a mulher é sempre tida como mãe de filhos e não de um filho único.
mbati iami= meu cágado; mbueti iami= meu cacete; mbinda iami= minha cabaça; hopo iami= meu copo; mungaj'ami=minha mulher, etc.

Note-se, entretanto, que a expressão mama iami que seria o equivalente à minha mãe não existe. O que há no lexico é: mam'êtu (nossa mãe).
Note outros exemplos do uso do pronome possessivo.
mbinza ia=tua camisa; mungaj'a=tua mulher; phela ia/munume'â= teu marido; uku ua= teu sogro/a, etc. Inexiste a expressão mama ia (tua mãe) e usa-se mam'i (vossa mãe).

Se calhar esta simples constatação sirva também para explicar a elevada taxa de fecundidade das mulheres ambundu que normalmente varia entre os sete a oito partos por cada mulher (tida como normal). Porém importa também ressaltar a elevada taxa de mortalidade infantil o que faz com que embora haja muita natalidade o crescimento populacional seja diminuto. A isso se junta ainda a baixa esperança de vida que anda à volta dos 35/40 anos.

Doenças causadas por um saneamento básico inexistente (latrinas), carência de medicamentos e técnicos de saúde, elevadas mortes maternas, entre outras pragas, fazem com que "os campos santos cresçam ao mesmo nível dos campos agrícolas".

E como a mãe é sagrada, os ambundu do Kuanza-Sul também cantam: Mam'etu nanji kinema, mamê, mama; mukonda muene wa tu vala, mamê, mama!(A nossa mãe ainda que seja mutilada é nossa mãe, porque foi ela quem nos gerou)!

NB: Mais do que reproduzir, duplicar ou triplicar é uma questão cultural, tal como afirma o Pe. Toninho Nunes, no seu blog http://www.pime.org.br/, "na sociedade africana a criança é verdadeiramente a glória da mãe. A mulher será bem estimada pelo seu marido e seus familiares pelo número de filhos que ela colocar no mundo..."

E se quisermos ir à fonte, Kahinza canta: Ki Uakiti ndexa; mona uopeka xoio (se nasceu deixa; filho único é mesmo que nada!)

Luciano Canhanga

domingo, junho 21, 2009

POR QUE NÃO DESENVOLVER AS LÍNGUAS NACIONAÍS?

A língua é o principal elemento identitário. É, por si só, o meio de afirmação cultural de um povo e elemento diferenciador deste mesmo povo com outros povos ou comunidades.

Sendo Angola um Estado multi-cultural, no qual se ergue uma Nação política, é de levada importância o conhecimento, a divulgação e desenvolvimento das distintas línguas e dialectos existentes, o que permitirá compreender, do ponto de vista científico e filosófico, a composição dos aglomerados populacionais do país, suas relações de dependência e interdependência e a utilidade comunicacional das línguas locais para o desenvolvimento histórico-cultural, económico e político de uma nova sociedade angolana.

As línguas locais são igualmente o meio que nos permite distinguir os parentescos e os distanciamentos entre os povos que há muito habitam o que é hoje o território angolano. Por isso, tendo em conta o desenvolvimento globalizante, a ausência de estudos, promoção, divulgação e ensino das línguas locais angolanas às mais novas gerações pode lavar ao seu esquecimento e consequente desaparecimento, o que a acontecer significaria o aniquilamento de culturas, jamais recuperáveis na sua integridade.

Note-se também que é insignificante ou quase nula a bibliografia em línguas locais angolanas, excepção seja feita ao kimbundu, umbundu e kuanhama (Namíbia).

Por outro lado, a existência de comunidades onde a comunicação é feita predominantemente em línguas locais, faz com que determinadas mensagens difundidas noutras línguas não surtam o efeito imediato desejado e não crie a motivação para a acção que teriam se a comunicação fosse feita na língua com que se identificam.

Campanhas sobre prevenção contra doenças e outros perigos, ética e civismo, comportamento eleitoral, preservação ambiental entre outras devem também ser feitas em línguas locais para que alcancem os efeitos desejados.

Logo, a par da língua portuguesa que é o símbolo de identidade angolana e pilar basilar para a construção da Nação, asa línguas locais (também chamadas de nacionais) e seus sub-grupos ou dialectos devem ser objecto de investigação, divulgação e ensino, de modo a perpetuá-las e ocuparem o seu lugar no desenvolvimento socio-económico, político e cultural de Angola.

Devemos entender que “um povo sem cultura não é um povo” e uma cultura funda-se num veículo de transmissão de ideias, sentimentos, crenças, ritos e atitudes, ou seja, uma língua.

E como dita a minha tradição “kaiete lia sapo caioto”, eis aqui a minha contribuição.

Ngoia: Kaiete lia sapo Kaioto.
Tradução literal para português: uma conversa sem provérbio não anima.
Sentido pedagógico:
uma exposição sem exemplos não convence. Ou seja, toda exposição tem de ser seguida de exemplos. Não basta dizer, é preciso demonstrar.

Na foto: Luciano Delfim Canhanga
Por: Luciano Canhanga /Fev. 2005

sábado, junho 06, 2009

A CARGA PEDAGÓGICA NOS PROVÉRBIOS AMBUNDU

A zona sobre qual me debruço é a que vai do Libolo a Kibala, abrangendo Kilenda, Ebo, Gabela, Mussende e partes do Uaco-Kungo, Kassongue entre outros espaços da Província do Kuanza-Sul.

Trata-se de uma zona de transição etno-linguística entre os ovimbundu e os ambundu. Por isso, a língua contém elementos de duas outras línguas, com maior ou menor acentuação ou prodominância, à medida que se vai aproximando ou distanciando dos pólos (ambundu e ovimbundu).

No período da existência do reino do Ndongo, o Libolo, a Kibala, Ebo, Kilenda, Gabela e até parte do Uaco Kungo integravam este reino, razão pela qual, ainda hoje, quando perguntamos às pessoas destas áreas que língua falam, muitos respondem que falam Kimbundu. Porém, há as que dizem falar Kibala ou Ngoya, conforme um estudo publicado nesta pa'gina.
Sobre a origem dos povos Kibala, demonstrou-o, e muito bem, o Reverendo Vinte e Cinco no seu livro “Os Kibalas”. Também o Dr. Moisés Malumbu no seu livro “Os Ovimbundos do Planalto Central de Angola” faz excelentes apreciações sobre os povos vizinhos dos ovimbundu e das relações de interdependência entre eles.
Malumbu diz mesmo que os actuais povos Mbalundu e Ndulo (Bailundo e Andulo), dos quais nascem os povos planálticos dos nossos dias, são descendentes dos Kibala a quem os ovmbundu tratam por Va-kua-nano (os de cima/norte).
Porém, não basta esta relação de pertença para se dizer, como muitos o fazem, que que os povos que habitam o Kuanza-Sul são "bailundus ou kimbundus" por extensão. Têm uma língua e características próprias. Costumes que fazem uma cultura e língua próprias e que devem ser estudas. Têm também os seus provérbios com grande carga pedagógica.

No que toca a outras particularidades da Cultura e História, é só ver que nenhum outro povo, dos que habitam Angola, construiu necrópoles (sepulturas em pedras) senão os ancestrais dos Kibalas e seus vizinhos.

O que partilho convosco é que independentemente dos kibalas falarem uma língua parecida com o kimbundu ou umbundu, esta língua tem um nome. Tratemo-la por Kibala ou Ngoya (termo depreciativo mas muito divulgado), ela deve ser divulgada de modo a legá-la a novas gerações. Para que tal aconteça é preciso que seja investigada, divulgada e ensinada.

Tenhamos como exemplo a própria língua portuguesa que falamos, herdada do colono. É uma língua que deriva do latim, tal como o espanhol, o italiano, o francês, o romeno, entre outras e recebe empréstimos do inglês e línguas africanas.

-O português é ou não uma língua própria?-Tem ou não um nome?-É ou não estudado, desenvolvido, divulgado e transmitido a novos falantes?Este exemplo chama-nos atenção para o que devemos fazer para a valorização da nossa língua.

Não quero, aqui e hoje, definir que nome atribuir à nossa língua. Pesquisei um pouco e encontrei várias divergências entre os autores. Mas que temos que investigar, isso temos.

Em seguida quero mostrar-vos o que tenho feito para demonstrar a carga pedagógica dos provérbios da nossa língua.

Sentido pedagógico dos provérbios

Permitam-me que vos fale, ANTES, um pouco da Grécia antiga, tida como “a terra do franco falar” pela liberdade existente na altura dos grandes filósofos como Sócrates cuja escola forjou o grande Platão (Atenas) e a Academia, Aristipo (Cirene) e os Cirenaicos, Diógenes e os Cínicos, Euclides (Megara) e os Megáricos, entre outros.

Hoje, mais de 25 séculos passados, O "grande mestre" tem sido ainda opção preferida de muitos educadores que lembram o hábil inquiridor que finge tudo ignorar para tudo demolir, e investir, a seguir, despido dos julgamentos precipitados, na construção do saber, legitimado pela participação do interlocutor. É a refutação e a maiêutica. Assim é também a escola AMBUNDU nos seus fundamentos didácticos.

Vejamos os casos seguintes:

1.-Úlielela kufula, kuimba ndungue úputu. (confiar é falhar, aconselhar é carência de actividade).

Depois de uma introspecção, o jovem deve concluir que: é preciso ter sempre um plano alternativo e não confiar demasiadamente numa única via.

Em educação, as teorias vão e vêm, as experiências se sucedem, mas, por vezes, algumas ideias permanecem e algumas experiências resistem, ainda que de forma parcial, a novas práticas.

Vejamos agora:
_Uateleka sanji li uilo ué. Literalmente para português quer dizer que: quem cozinha uma galinha também tem vontade de comer carne.

Sentido pedagógico: Um convite para se estar à vontade não deve significar libertinagem.

Em que contexto se aplica? Lá na Kibala quando se abate uma galinha para uma visita ela deve ser servida completa. Os anfitriões comem o que restar da mesa. O convidado deve porém saber que pelo facto de lhe ter sido servido o frango completo não significa que os anfitriões não gostem de carne de galinha.

Os provérbios em ngoya reflectem também um ensino virado para a experiência.

Quantos apressados terão sido arrastados pela corrente de um rio sazonal por imprudência?Aqui a nossa sabedoria dita através de mais um provérbio:

-O luiji ki luezuka lupixile. (se o rio estiver cheio deixe-o passar).

O ensinamento é que: se alguém estiver furioso deixe-o descarregar toda a sua fúria e aborde-o depois para chamá-lo à razão. Pelo contrário não haverá entendimento. Ou ainda, se se deparar com um conflito deixe primeiro amainar os ânimos. Não seja apressado.


Bibliografia
-Baptista Mondin: Introdução a Filosofia
-Gabriel Vinte e Cinco: Os kibalas
-Gilda Naécia de Barros: Sócrates -Raízes Gnosiológicas do Problema do Ensino- Conferência na Fac. Educação da Universidade de São Paulo.
-Moisés Malumbu: Os ovimbundos do planalto central de Angola, 2005.

Texto tb. publicado em: www.canhanga.blogspot.com

Luciano Canhanga

segunda-feira, junho 01, 2009

A NEGAÇÃO NA LÍNGUA DOS KIBALA

A língua dos Kibala é o termo que utilizo para caractarizar o dialecto ambundu falado no Kuanza-Sul.

Tal como noutras línguas existem frases afirmativas e negativas.

1-A negação é formulada através do uso do prefixo ka.

- Uete li uoma u landandi? -tens medo das pedras?
- Kangete -não tenho!

-O mana u sanji a tenena? -Os filhos da galinha estão completos)?
-Katenene!- não estão completos.

2 Há casos em que se abrevia, na expressão oral, o prefixo ka substituindo-o apenas por ngi.
-Uali honja? - comeste banana?
-(Ka) Ngilile -não comi

-Lelo eye uele ku xikola? -Hoje (tu) foste à escola?
-Kangile. Mesene yo kata -Não fui. O mestre está doente.

Ku'aiaxike ki k'uitena! -Não comeces se não consegues

Luciano Canhanga

terça-feira, maio 12, 2009

ANÁLISE SOCIO-TEMPORAL DO CANCIONEIRO POPULAR KUANZA-SULINO


Tal como os demais povos os ambundos do Kuanza-sul que venho retratando nesta página têm a oralidade como o privilegiado meio de comunicar e legar conhecimentos a gerações presentes e futuras. A música e um dos canais desta comunicação e transmissão de saberes (provérbios/adágios), estados socio-históricos, psico-emocionais, entre outros.

Para os que viveram ou frequentaram regiões habitadas pelos ambundus do Kuanza-sul, com certeza que se ledmbrarão das cancões em voga nos idos de 80 a 90 do século XX, quando com improvisadas violas de três cordas, bujões (feitos de pedaço de tubo PVC ou mo invólucro de um projéctil de tanque) o povo cantava os males de que sofria e o estado psico-social de então e cantava:
1-Mu kiaña ndolo sosó ia mutena bueba/buaiba.
Por gostar de usar a lenha de ndolo (especie que produz muitas faíscas) umas destas tocpou-lhes as partes íntimas. O contexto social obrigava a que as pessoas não se ausentassem para muito longe onde podessem obter boas lenhas. A solução era cortar as árvores mais abundantes, fazê-las secar e depois aproveitar os ramos secos como lenhas. Só que estas tinham consegquências nefastas: as fagulhas que na hora de afugentar o frio se espalhavam pela palhota.
2-Sambuá li sambuá o mbiji ia tena m’oie
Descrição de um estado de guerra em que os beligerantes estavam em lados opostos (Sambuá li sambuá) mantendo no meio a população, aqui personificada por uma palmeira (oie) que sofre os efeitos de um obús.
3-Puto Malio la grama xioso uali
A guerra carrega consigo alguns males como os desvios de víveres e o enriquecimento à custa dos que sofrem e ou combatem. Assim, os ambundus do Kuanza sul também evocavam nas suas canções nocturnas, à volta de uma fogueira ou dum folguedo, o roubo de gramas (ração) para os militares. O Puto Mário representa aqui os que se endinheiraram à custa dos que lutamavam e morriam.

4- Buahila Toy inhuño i biloka
Na morte como no nascimento a música e a dança estão sempre presentes. É nos óbitos de defuntos de guerra ou comuns que a população lembrava: Buahila Toy inhuño i biloka (onde morreu o Toy os abutres sobrevoam). Muitos eram mortos/fuzilados e deixados ao repasto dos abutres. Apelava-se então às mães que deixassem de chorar os seus incontáveis mortos em canções como:
5-Mama kulile Diniel io uolilaxi (mãe não chore o Daniel “que” apodrece por aí), entre outras canções.

Hoje, 2009, chegada a paz, este mesmo povo traduzido por Kahinza, a voz sonante dos Kibalas, tras ao público novos lamentos, novos apelos, novas saudades e novas realidades.

E é servindo de megafone do seu povo que Kainza nos tras cantados na sua língua provérbios como: “Éramos três irmãos e todos fomos à escola. A galinha na sua capoeira, o porco na sua pocilga mas o cabrito vegeta por aí” ou angolano io uenda io zola (angolano anda e ri).

E canta ainda Munganda u’amore uasala bu Kuanza (a carta de amor ficou no kuanza), ou Kete kusonina ki uanvitila (aquele não escreve para mim que de mal lhe contaram).
São retratos dum outro tempo. Em que a paz trouxe de volta o sorriso ao rosto do angolano. Em que os três irmãos (libertadores do país) deposeram, felizmente, as armas, dois ocupam os seus verdadeiros lugares, existindo um que ainda não se reencontrou consigo mesmo, por isso vagueando... Sanji li Kialu kié; ngulo li linda lié; hombo io uendelaxi. Tempos de saudades daqueles que tinham “sobrado da guerra” mas que tinham encontrado outras vidas e se esqueceram da família à qual nem sequer cartas enviavam. Tempo também de novas paixões, de novas ilusões. De novas declarações de amor, por via da carta que cai na dura revista feita no controlo do Kuanza (Kiamafulo).

E retrata também a reabertura das estradas e as viagens para Luanda onde as jovens rurais, por inadaptação, se engravidaram no primeiro engate. E Kainza transmite o sentimento dos ambundus do Kuanza-Sul nos seguintes termos: Mona uai muangope, ku uana omala ké uai (a filha foi a Luanda; foi à busca da sua gravidez), sem se esquecer dos negócios por Angola adentro.


O povo retrata ainda a vida da mama’a ngongo (mãe dos gêmeos) e do Tio Ngunga. Este último é descrito como sendo originário do Uige e por gostar de fazer negócios foi sepultado numa via/estrada do Kuanza sul. Tio Ngunga Ku Uige uatundu muapila nengócio mbila ie mu via/mu kuanza-sul.

Se recuarmos 30 anos e consultarmos o cancioneiro popular da decada de Setenta do seculo XX ouviremos nas ngomas e kisacas (batuques e xocalhos) letras como: Ohié, ohié mua Cê-Pê-A; okalunga kali monami xio ua kenjia (CPA= Corpo de Polícia de Angola criado pelo governo de transição ao abrigo dos acordos de Alvor). E apelava o povo à polícia que a causa da morte do seu filho era desconhecida.


Assim se escreve a Históriia de um povo que canta e sempre cantou!




Luciano Canhanga

segunda-feira, maio 04, 2009

OS AMBUNDU DO K-SUL: DELITOS, TRANSGRESSÕES E PENALIZAÇÕES NAS ALDEIAS RURAIS


"A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceite em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que estão acima de um status particular no sistema hierárquico estabelecido (Max Webber)" 1.

Para além dos meus primeiros dez anos de vida vivida em aldeias rurais do Lubolo (Libolo) e Kibala, tenho me servido de idas constantes à região que descrevo para “in situ” reviver a maneira de ser e de estar destes povos.

As comunidades rurais do Libolo, Kibala e doutros povos ambundu que habitam o território da província angolana do Kuanza-Sul, apesar de não possuírem uma pauta que tipifique o que são delitos e o que são transgressões nem tão pouco as penalizações para cada desvio de conduta social, têm um sistema jurídico baseado em mores e hábitos aceites universalmente pela comunidade e que têm o peso de lei.

Ùkambula é o termo que traduzido para português equivale a cometer delito ou desvio social. A autoridade administrativa e sua corte, no caso o rei/soba é também o garante da legalidade na sua jurisdição sendo auxiliado na administração da justiça pelo Ñgana Thandela (ministro da justiça)2 que é perante a corte o responsável pela aplicação da lei.

O delito maior é o assassinato ou seja a morte de alguém de forma voluntária, o que pressupõe dizer que o direito à vida é o principal que a sociedade atribui ao homem.
Roubos, furtos, violações, falsos testemunhos, agressões físicas e verbais, incêndios contra propriedades privadas e ou colectivas (como as coutadas) são frequentes, sendo igualmente os desvios às normas sociais mais conhecidos e punidos de acordo ao direito consuetudinário.

Fruto da sua crença no poder dos defuntos e antepassados e sua irreligiosidade (são grande parte animistas) os povos em referência têm uma grande crença no feitiço. Daí que acusações de feiticismo preenchem o dia-a-dia do soberano e das comunidades.

Entre as penalizações constam a simples censura, restituição de bens de terceiros (roubados ou danificados), indemnizações (pecuniárias e em espécie), castigos físicos, entre outros.

A autoridade do rei/soba é reforçada apelo animismo e pela ideia de feitiço. O rei é tido como o detentor do mais forte feitiço, daí que para além de respeitado é igualmente temido, sendo as suas convocatórias, normalmente de comparência obrigatória. Os povos destas comunidades apesar de professarem algumas crenças religiosas (católica e protestantes) têm uma ligação muito forte a seus ancestrais e retornos a práticas animistas.

No esforço de conciliação entre o moderno e o tradicional, muitas vezes os reis/sobas encaminham determinados “casos” às autoridades políticas e judiciais, sobretudo casos de homicídios voluntários, evitando-se assim que seja executada a justiça por mãos próprias, as autoridades policiais locais (as mais próximas) têm sido igualmente várias vezes chamadas para dirimir querelas que os soberanos julgam poder fugir fora do seu controlo. Outras vezes são os próprios cidadãos que recorrem ao direito positivo, sempre que julguem ineficazes os julgamentos comunitários.

1-http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber, consulta 05.02.09
2- VINTE E CINCO, Gabriel: Os Kibalas, Núcleo-Publicações Cristãs, Lda. Queluz, 1992
Na foto: A aldeia de Pedra Escrita (Munenga-Libolo)

Luciano Canhanga

quarta-feira, abril 01, 2009

KIBALA: ESTUDOS LINGUÍSTICOS

- A ma’me’mi’mo’mu! (A mama eme imomu)
- Oh mãe eu já sou assim!
Está comprovado: a língua que se fala na Kibala, Ebo, Kilenda, Libolo, Gabela, Uaco e outtras parcelas do Kuanza-sul habitadas por ambundos é um dialecto ou variante do Kimbundu e não ngoya (1).
Para a pergunta:
Eye oji lyahi wondola? (Tu, que lingua falas?)- (2),
 
Um estudo realizado no terreno, com mais de 60 inquiridos repartidos em dois grupos de 30 (mais de 50 anos e menos de 40 anos), mostrou o seguinte:
- Os maiores de 50 anos disseram: - Eme Kimbundu ngondola; kimbundu kyepala ngondola (eu falo Kimbundu; falo kimbundu da Kibala).

Dos inquiridos (em Luanda e Kwanza Sul) com menos de 40 anos (10-40) responderam à mesma pergunta (Eie oji liahi uondola?) da seguinte forma: - Kimbundu ngondola; imbundo kyeto kyepala (falo kimbundo, o nosso kimbundu de Kibala) = 16 dos inquiridos.
- Eme ngoya ngondola ( falo ngoya) = 09 dos inquiridos
- Eme, umbá; umbá ngoya, ó kipala! (eu não sei se é ngoya ou kibala) = 5 dos inquiridos.

As respostas ambiguas/duvidosas resultam, a meu ver, do facto de nos últimos tempos se ter “publicitado”, sobretudo, pelas rádios VORGAN e NGOLA YETO, que  “a língua falada pelos ambundu do Kuanza-sul é Ngoya”, o que contraria os factos históricos (3) e vivenciais.

Dissecada esta questão, vamos então tentar aprender um pouco da “língua dos kibala”, uma variante do Kimbundu, com empréstimos (poucos do umbundu) e pequenas variações na articulação fonética.
-Alfabeto
-Pronomes pessoais
_Substantivos
_Verbos
-Conjugação do verbo comer










































































































Letra do alfabeto

Palavra

Equivalente em Portugues

A

Anhene

Eles

B

Mbati

Cágado

C





D

Ndundu

Marreta

E

Eye

tu/você

F

Ifo

Intestino

G

Ngando

Papiro

H

Honji

Arco

I

I

Armadilha

J

Munjya

Nassa

K

Kajila

Passarinho

L

Lwiji

Rio

M

Mema

Água

N

Kende

Gruta, refúgio, fenda

O

Oye

Palmeira

P

Phacasa

Pacassa

Q





R

Ryembe

Rola

S

Sote


T

Tendelé

Lagarto

U

Úkita

Nascer

V

Vita

Oiça

W

kwandala

querer

X

Úxila

Fabricar

Y

yami

meu/minha

Z

Zundu

Sapo
Pronomes pessoais (mathu)

























Eme

Eu

Eye

Tu

Mwene

ele/ela

Exe

Nós

Enhe

Vós

Anhene

Eles









Majina (substantivos/nomes)


Exe twete li majina omathu li majina olafuka. Twete nji li majina omalwiji, limajina amungwó.
(Temos nomes de pessoas e de terras. Temos ainda nomes de rios e de outros entes/coisas)



















































































Phuku

Rato

Comuns

Mulo

Montanha



Mema

Água



Mundwé

Cabeça



Musoso

pau/árvore



Munhekuna

Bailoço



Mama

Mãe



Tata

Pai



Nzoji

Sonho

Abstratos

Nguzu

Força



Ilonga

Problema



mbambi

Frio



Kipala

Kibala

Próprios

Kalulu

Kalulo



Kafanda

Kafanda



Kilombo

Kilombo



Nzambi

Deus



Longa

Longa (rio)



Ndumbu

Ndumbo











Os Verbos (…)


Enquanto na língua portuguesa o infinitivo se caracteriza pela terminação em R, na língua dos ambundu do Kwanza-sul o infinitivo forma-se pela presença de dois prefixos: U e K, sendo estes que mais flectem na conjugação verbal.







































































































Kimbundu (Kibala)

Equivalente em português

Úsusa

mijar/urinar

Únha

Defecar/cagar

Únua

Beber

Úkosa

Dormir/pernoitar

Úlóa

Pescar

Úloa

Feitiçar

Useya

Caçar

Úximika

Queimar

Úxipa

Fumar, sorver, chupar

Úxika

Tocar

Úsonika

Escrever

Únhana

Roubar

Útanga

Ler

Úlonga

Ensinar

Úvita

Ouvir/perceber

Úkwata

Pegar/segurar

Úkuta

Amarrara/prender

Úkalala

Trabalhar

Újikala/úkata

Adoecer

Úteleka

Cozinhar

Útunga

Construir

Úzala

Vestir(se)

Úxina

Expremer/ apertar

Úmbeta

Bater, castigar

Úzola

Rir, alegrar

Úpoña

Fornicar

Kwálala

Doer

Kwelesa

Poupar

Kwenda

Andar

Kwambila

Avisar. advertir

Kwaza

Coçar, arranhar






Conjugação do verbo comer (úlya)


-No presente (kapo)


-Pretérito perfeito (kyapiti) e


-Imperfeito (kyapiti kukulo)



































Presente

Preterito perfeito

Pretérito imperfeito

Eme ngilyá

Eme ngali

Eme ngalile

Eye olya

Eye wali

Eye walile

Mwene olya

Mwene wali

Mwene walile

Exe twlyá

Exe twali

Exe twalile

Enhe mulyá

Enhe mwali

Enhe mwalile

Anhene alyá

Anhene ali

Anhene alile

Obs: as letras U e I quando sucedidas de vogais mudam para W e Y.

O futuro forma-se com conjugação perifrástica






















Eme kahane ulya

Eu vou comer

Eye wahane ulya

Tu vais comer

Mwene wahane ulya

Ele/ela vai comer

Exe twahane ulya

Nós vamos comer

Enhe mwahane ulya

Vós vais comer

Anhene ahane ulya

Eles vão comer

Consultas

1- CANHANGA, Soberano: Ngoya ou Kibala eis a questão.Cruzeiro do Sul, edição de 3 a 10 de Maio de 2008.
2- CASTANHEIRA, António: A língua dos Kibala, Jornal de Angola, edição de 03.11.2006.

3- VINTE E CINCO, Gabriel: Grupos étnicos de Angola. Jornal de Angola, 28 Dez.2008

Por: Luciano A. Canhanga "Soberano"