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quarta-feira, abril 01, 2009

KIBALA: ESTUDOS LINGUÍSTICOS

- A ma’me’mi’mo’mu! (A mama eme imomu)
- Oh mãe eu já sou assim!
Está comprovado: a língua que se fala na Kibala, Ebo, Kilenda, Libolo, Gabela, Uaco e outtras parcelas do Kuanza-sul habitadas por ambundos é um dialecto ou variante do Kimbundu e não ngoya (1).
Para a pergunta:
Eye oji lyahi wondola? (Tu, que lingua falas?)- (2),
 
Um estudo realizado no terreno, com mais de 60 inquiridos repartidos em dois grupos de 30 (mais de 50 anos e menos de 40 anos), mostrou o seguinte:
- Os maiores de 50 anos disseram: - Eme Kimbundu ngondola; kimbundu kyepala ngondola (eu falo Kimbundu; falo kimbundu da Kibala).

Dos inquiridos (em Luanda e Kwanza Sul) com menos de 40 anos (10-40) responderam à mesma pergunta (Eie oji liahi uondola?) da seguinte forma: - Kimbundu ngondola; imbundo kyeto kyepala (falo kimbundo, o nosso kimbundu de Kibala) = 16 dos inquiridos.
- Eme ngoya ngondola ( falo ngoya) = 09 dos inquiridos
- Eme, umbá; umbá ngoya, ó kipala! (eu não sei se é ngoya ou kibala) = 5 dos inquiridos.

As respostas ambiguas/duvidosas resultam, a meu ver, do facto de nos últimos tempos se ter “publicitado”, sobretudo, pelas rádios VORGAN e NGOLA YETO, que  “a língua falada pelos ambundu do Kuanza-sul é Ngoya”, o que contraria os factos históricos (3) e vivenciais.

Dissecada esta questão, vamos então tentar aprender um pouco da “língua dos kibala”, uma variante do Kimbundu, com empréstimos (poucos do umbundu) e pequenas variações na articulação fonética.
-Alfabeto
-Pronomes pessoais
_Substantivos
_Verbos
-Conjugação do verbo comer










































































































Letra do alfabeto

Palavra

Equivalente em Portugues

A

Anhene

Eles

B

Mbati

Cágado

C





D

Ndundu

Marreta

E

Eye

tu/você

F

Ifo

Intestino

G

Ngando

Papiro

H

Honji

Arco

I

I

Armadilha

J

Munjya

Nassa

K

Kajila

Passarinho

L

Lwiji

Rio

M

Mema

Água

N

Kende

Gruta, refúgio, fenda

O

Oye

Palmeira

P

Phacasa

Pacassa

Q





R

Ryembe

Rola

S

Sote


T

Tendelé

Lagarto

U

Úkita

Nascer

V

Vita

Oiça

W

kwandala

querer

X

Úxila

Fabricar

Y

yami

meu/minha

Z

Zundu

Sapo
Pronomes pessoais (mathu)

























Eme

Eu

Eye

Tu

Mwene

ele/ela

Exe

Nós

Enhe

Vós

Anhene

Eles









Majina (substantivos/nomes)


Exe twete li majina omathu li majina olafuka. Twete nji li majina omalwiji, limajina amungwó.
(Temos nomes de pessoas e de terras. Temos ainda nomes de rios e de outros entes/coisas)



















































































Phuku

Rato

Comuns

Mulo

Montanha



Mema

Água



Mundwé

Cabeça



Musoso

pau/árvore



Munhekuna

Bailoço



Mama

Mãe



Tata

Pai



Nzoji

Sonho

Abstratos

Nguzu

Força



Ilonga

Problema



mbambi

Frio



Kipala

Kibala

Próprios

Kalulu

Kalulo



Kafanda

Kafanda



Kilombo

Kilombo



Nzambi

Deus



Longa

Longa (rio)



Ndumbu

Ndumbo











Os Verbos (…)


Enquanto na língua portuguesa o infinitivo se caracteriza pela terminação em R, na língua dos ambundu do Kwanza-sul o infinitivo forma-se pela presença de dois prefixos: U e K, sendo estes que mais flectem na conjugação verbal.







































































































Kimbundu (Kibala)

Equivalente em português

Úsusa

mijar/urinar

Únha

Defecar/cagar

Únua

Beber

Úkosa

Dormir/pernoitar

Úlóa

Pescar

Úloa

Feitiçar

Useya

Caçar

Úximika

Queimar

Úxipa

Fumar, sorver, chupar

Úxika

Tocar

Úsonika

Escrever

Únhana

Roubar

Útanga

Ler

Úlonga

Ensinar

Úvita

Ouvir/perceber

Úkwata

Pegar/segurar

Úkuta

Amarrara/prender

Úkalala

Trabalhar

Újikala/úkata

Adoecer

Úteleka

Cozinhar

Útunga

Construir

Úzala

Vestir(se)

Úxina

Expremer/ apertar

Úmbeta

Bater, castigar

Úzola

Rir, alegrar

Úpoña

Fornicar

Kwálala

Doer

Kwelesa

Poupar

Kwenda

Andar

Kwambila

Avisar. advertir

Kwaza

Coçar, arranhar






Conjugação do verbo comer (úlya)


-No presente (kapo)


-Pretérito perfeito (kyapiti) e


-Imperfeito (kyapiti kukulo)



































Presente

Preterito perfeito

Pretérito imperfeito

Eme ngilyá

Eme ngali

Eme ngalile

Eye olya

Eye wali

Eye walile

Mwene olya

Mwene wali

Mwene walile

Exe twlyá

Exe twali

Exe twalile

Enhe mulyá

Enhe mwali

Enhe mwalile

Anhene alyá

Anhene ali

Anhene alile

Obs: as letras U e I quando sucedidas de vogais mudam para W e Y.

O futuro forma-se com conjugação perifrástica






















Eme kahane ulya

Eu vou comer

Eye wahane ulya

Tu vais comer

Mwene wahane ulya

Ele/ela vai comer

Exe twahane ulya

Nós vamos comer

Enhe mwahane ulya

Vós vais comer

Anhene ahane ulya

Eles vão comer

Consultas

1- CANHANGA, Soberano: Ngoya ou Kibala eis a questão.Cruzeiro do Sul, edição de 3 a 10 de Maio de 2008.
2- CASTANHEIRA, António: A língua dos Kibala, Jornal de Angola, edição de 03.11.2006.

3- VINTE E CINCO, Gabriel: Grupos étnicos de Angola. Jornal de Angola, 28 Dez.2008

Por: Luciano A. Canhanga "Soberano"

terça-feira, março 10, 2009

A INDÚSTRIA RURAL DOS AMBUNDU DO K-SUL


Texto em Construção (aguardam-se contribuições)

Ù-XILA (fabricar) utensílios de pesca, de cozinha, de caça, de canto e dança, de uso quotidiano é uma das actividades complementares para os Ambundu do Kuanza Sul.

Produzem-se para a caça arcos e flechas, cacetes, armadilhas diversas; para a pesca anzóis, redes, armadilhas diversas, nassas entre outros; para a casa e cozinha, xisa1, (esteira), Musalu (peneira), kinda (balaio), kualo (cesto), produtos de olaria como panelas e moringues à base de argila, almofariz e pilão; batuques e guitarras, chocalhos, dikanzas, entre outros instrumentos para o canto e a dança; para a agricultura charruas e arados puxados por bois; e ainda a destilação do makiakia (kaporroto) que aquecer as noites frias e "alegra os tristonhos".

A matéria-prima vem geralmente da natureza no seu estado mais puro, como árvores, fibras, junco e argila. O ferro e outros metais, retirado essencialmente de carros acidentados e restos de obras industriais, alimenta os foles dos ferreiros e a perícia dos funileiros que dão a forma desejada a pedaços de cada metal recolhido.

A destilação (kualula) complementa o rol desta actividade. A banana, a cana, a batata, o milho, a mandioca, o maluvo (vinho de palma), o ananás e outros frutos são as matérias primas para a destilação de bebidas alcoólicas, uma prática que vai perdendo peso na economia rural, tendo em conta a facilidade de obtenção de bebidas industriais através da compra ou da permuta por produtos campestres.

Nos anos recuados (década de oitenta e noventa do sec. XX) era comum cada família possuir o seu alambique (destilaria) que era igualmente uma unidade económica familiar na medida em que o makiakia não só era usado para oferendas em óbitos e outros eventos comunitários, mas também vendido ou permutado por outros produtos e serviços campestres. Estávamos perante comunidades com índices de monetarização extremamente baixos, sendo a permuta a principal actividade mercantil. Hoje o cenário é diferente e o que se vive é um meio termo entre o moderno e o tradicional.


1- na grafia ambundu e de acordo às regras do CICIBA a fonética do s, mesmo quando entre duas vogais, equivale a ss ou ç.

Luciano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

A CAÇA ENTRE OS LUBOLO E KIBALA


Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolo e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas "torpes" linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de vinte e cinco anos...

Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolo (Libolo) e a Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

Tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (
nvula) que é mais longa(9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) Cacimbo). É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (ùximika muízo)1.

As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, na teoria, pertença do Soba ou Rei. O direito consuetudinário colocou limites geográficos não muito estanques, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do Soba/Rei deve atear fogo ao capim para a caça.
É o Soba ou os mais velhos da comunidade que planeiam o programa de caças durante os três meses de tempo seco.

Antes da caçada são preparados minuciosamente os instrumentos de caça: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombua (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais abatidos de pequeno porte), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungua (cone feito de malha metálica), mbuety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.

Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas, e outras armadilhas passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.

Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a despelagem e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que fosse o seu porte, um pedaço de carne era destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Ùtona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.

Ao (muen'axi) dono da terra (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.

Existe entre os Lubolo e Kibala outras formas de caçar: No período chuvoso ou impróprio para queimadas usam-se armadilhas (óbolo, indamba, ótuela, nzomba) e também armas de fogo (caçadeiras). Aqui, sendo actos individuais, o produtos da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o muen'axi e familiares directos.

As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.

Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras de leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras e outras espécies são abundantes, e por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos e onças também habitam a região.

A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.

1- muizo= coutada, extensão de terra cujo capim é queimado para a caça.

Texto publicado pelo Jornal Cultura de 8 de Outubro 2018

sábado, janeiro 31, 2009

TEXTOS ECONÓMICOS OU SOCIAIS?


Amigo Evaristo*,

Há um defeito nosso, enquanto jornalistas económicos, ao pensarmos que a economia nos remete necessariamente aos números. Conclusão: Acabamos, muitas vezes, por não informar. O cidadão, por exemplo, ouve ou lê que "o governo ou a empresa X gastou 200 milhões de dólares em construção de uma escola" sem que se lhe diga quantos beneficiários ou até mesmo as dimensões da escola, para que ele (destinatário da mensagem) tenha uma ideia mais realista.

Os textos descritivos, com grande pender económico, muitas vezes são passados para a página social por falta de "milhões", esquecendo-nos, muitas vezes, que a economia é uma ciência Social... E por isso estão casadas.

É por isso, agora nas minhas vestes de comunicador empresarial, (tenho tempo para me colocar na condição de receptor) que começo a ter dificuldade em escrever o que os Jornalistas/ editores consideram de eminentemente matérias económicas.

Será que enquanto mais números houver isso determina o conteúdo económico da peça jornalística? Será possível escrever sobre economia sem os efeitos sociais, sendo ela uma ciência social?

Para além desta reflexões, remeto-te em anexo um texto que tenho igualmente dificuldade em situar. Se entre os "sociais" ou entre os económicos.


Exemplo


CATOCA AFECTA 2% DO LUCRO À RESPONSABILIDADE SOCIAL


Localizada na Província da Lunda Sul a Sociedade Mineira de Catoca, empresa diamantífera comparticipada pela ENDIAMA, ALROSA, Lev Leviev e Odebrecht, tem como aposta, no âmbito da sua responsabilidade social, o desenvolvimento de projectos auto-sustentados.


Mais de trinta projectos foram esboçados para 2008, 2009 e 2010, com destaque para escolas, centros médicos, lavras comunitárias, energia e água, campo de futebol, quadra poli-desportiva, entre outras benfeitorias que se vão juntar as 4 escolas já erguidas e equipadas, um posto médico, fontanários e o projecto merenda escolar que atende cerca de 25 mil alunos dos arredores do empreendimento mineiro e do município sede da Lunda Sul, Saurimo.


O valor global destas empreitadas é oculto, mas é sabido que os sócios decidiram aplicar 2% do lucro anual da empresa à materialização deste desiderato.

“Aqui preferimos falar do que fazemos e não do que gastamos… É mais gratificante ouvir e ver os beneficiários Contentes do que anunciarmos números financeiros”disse uma fonte bem colocada mas que preferiu o anonimato.


A menos de 2 quilómetro da empresa, na aldeia de Saipupo, nasce a mais nova lavra comunitária que Catoca ajuda a implementar naquela comunidade. São perto de oito hectares de terra arável, já desbravada.

Depois do derrube das árvores, que nesta região quase impedem os agricultores de preparar grandes extensões de terra, o tractor já gradeia o terreno que em breve recebe sementeiras.
“É que depois de tudo pronto, teremos mais comida e ainda podemos vender o resto a Catoca”, explicou Segunda Upale, camponesa da aldeia de Saipupo.

A 35 km de Catoca fica a aldeia de Ngandu. Aqui o investimento é bem maior. a empresa patrocinadora aposta numa escola, um posto médico, um infantário, uma lavra comunitária de 30 hectares e um Jango comunitário com sinal de TV. “São obras simultâneas que vão conferir uma qualidade de vida a essa população”, explica o encarregado de obras. A disciplina laboral obriga a que os trabalhadores do empreendimento não assumam os rostos nem falem em quantidades monetárias.


O investimento cujos números não foram revelados consta de um plano ambicioso aprovado pelo conselho de sócios em Abril último e que prevê a afectação de 2% do lucro líquido anual da empresa à Responsabilidade Social.

”Os tempos são difíceis, devido ao impacto da crise económica, mas há projectos que devem terminar , sendo exemplo disso as obras no Nagandu e Saipupo,rematou a fonte a que temos vindo a fazer alusão .


A maior diamantífera do país rendeu no ano transacto aos cofres do estado, só em impostos, um total de 106,3 milhões de dólares referentes a IRT, Royalities, FFSS, Imposto sobre aplicação de capital e imposto industrial para além de avultados montantes aplicados em Responsabilidade social como: Construção e manutenção de escolas e fontanários, compra de um autocarro para cinema itinerante, programa merenda escolar para mais de 20 mil alunos de Saurimo, assistência médica a dependentes de trabalhadores, entre outras acções.


No tocante à sua produção, em 2007, Catoca vendeu um total de 6.118.174 kilates de diamantes que permitiram uma arrecadação de 451,4 milhões de dólares americanos. Segundo o Relatório desta empresa, estampado no site http://www.catoca.com/, o volume de vendas de Catoca em 2007 representou 76% do total das diamantíferas angolanas>.


Um abraço

* Reprodução de uma comunicação mantida com o jornalista
Evaristo Mulaza

Luciano Canhanga


terça-feira, janeiro 13, 2009

PESCARIAS FLUVIAIS NO LUBOLO E KIBALA


Os ambundu do Kuanza-sul, província angolana cercada pelo Bengo, Benguela, Huambo, Bié, Malanje e Kuanza-Norte, são tanto, agropecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta, de si já rica, visto serem povos há muito sedentários.
A pesca é feita normalmente em rios, visto inexistirem chanas e lagos na região. Rios como o Kuanza, Longa, Nhia, Phumbiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O nguingui/phonde (bagre grande), òlundo (bagre pequeno) icusso/ikele (tilápia), òtimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hála (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.

Os povos Lubolo e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação. Apenas mudam os meios ou instrumentos, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior produtividade.

Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolo e Kibala também usam as nassas (munjia/musua), cestos (kuálo) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas na água (kuimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos isolados pela seca do rio. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (uanda) e armadilhas de redes.

Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas (o meu pai usava e foi com ele que aprendi a pescar no rio). A garotada, sobretudo, aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de Nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas confeccionadas à base de argila (matalhi/matadi). As nasssas (muzua/munjia) e cestos (kuálo) são feitos à base de fibras de junco ou palmeira.

Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolo e Kibala jogam também com a posição da lua, pois enquanto mais luz houver, menor serão os resultados.

Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia toda ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma quase equitativa, compensando-se os menos afortunados.

A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.

(Foto pescada na net)
Luciano Canhanga

quinta-feira, janeiro 01, 2009

A CIRCUNCISÃO ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

Falei hoje com o Reverendo Gabriel Vinte e Cinco, meu guia espiritual neste “reencontrar origens” e encontrei muitos amigos anónimos na net que também se dedicam à causa: trazer a verdade sobre os Ambundu do Kwanza-Sul.
E tento falar, de forma vivencial, sobre a circuncisão entre os Ambundu do Kwanza-Sul (Lubolu, Kipala, Kisama*, Haco e Sende)1. Ao contrário dos Bakongo que por norma efectuam a circuncisão à nascença, os povos do Lubolu e Kibala, mandam os rapazes para a "casa de água" (onzo-i-mesma) na adolescência ou na segunda infância. Aí entre os seis ou sete aos quatorze anos de idade. 
O acto, a circuncisão, chama-se Ùtina. Consiste no corte do prepúcio. Se nas sociedades modernas tal cirurgia é efectuada por um médico ou para-médico, nas sociedades tradicionalistas é chamado um "mestre" (Mesene) para o fazer.
Normalmente, o "mestre" fá-lo à sangue-frio. Aconteceu comigo em 1982. A operação acontece normalmente, junto a um ribeiro e bastante isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os cadetes, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e estes mancebos.

Aos olhos dos garotos o "mestre" é um individuo de olhos ensanguentados, talvez devido ao muito sangue que fez derramar e que seus olhos já viram. É um individuo muito temido pelos garotos que ainda não frequentaram a escola de iniciação, que se apavoram à sua passagem, e também respeitado pelos pais. A enfrenta-lo ficam apenas aqueles que não têm outra saída senão enfrentar este desafio de vida ou morte e que lhes dará um novo estatuto social na comunidade.

A operação acontece normalmente, junto a um ribeiro e bastante isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os circuncidados, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e estes mancebos. O makyakya ou kaporroto (álcool destilado) serve de esterilizante da navalha do "mestre" depois de cada "cirurgia".
Um ajudante ou um parente próximo dos mancebos ajuda o mestre, agarrando as mãos e prendendo igualmente as pernas do “paciente” imobilizado. Terminada a operação, o cadete senta-se em uma pedra ou um tronco onde deixa escorrer o sangue da cirurgia e lhe são colocados alguns “milongos” à base de folhas medicinais e outros pós também de origem vegetal. O período que demora a cura é também de aprendizagem de várias artes e ofícios, como: caçar e pescar e são também transmitidas aos noviços noções como a sexualidade, vida familiar e social, bem como a feitura de armadilhas e utensílios. 
Njine é a designação atribuída ao pénis circuncidado, ao contrário de Kifutu (incircunciso). Um homem que tenha “passado pela faca” ganha na sociedade um novo estatuto. Torna-se um homem maduro. Por isso a própria sociedade, condena determinadas acções, como tomar banho desnudado e em público, por menos idade que tenha. É já um homem que deve ser respeitado e diferente dos outros rapazes, ainda que da sua idade, mas que não tenham passado pela “casa de água”. A alimentação dos mancebos é feita de forma cuidada e selectiva. Não se alimentam de ervas, e só pessoas que não mantenham relações sexuais durante o “aquartelamento”podem cuidar, quer da alimentação, quer da guarda, dos circuncidados. 

Dizia-se no meu tempo que nunca se comia do bem e melhor do que no acampamento dos circunciso. Só depois de curado o último mancebos é que o grupo regressa à casa. No fim, uma zagaia (arco) e uma flecha (honji li musongo) são entregues a cada um dos cadetes que perfilam e caminham até à aldeia. Cada mancebo exercita disparando a flecha contra a porta de casa (podem ser várias casas indicadas) e são-lhe dadas algumas oferendas. 

É ponto assente que ao longo dos anos muitos cadetes não resistiram à hemorragia e sucumbiram o que tem levado as comunidades a encontrar um meio termo entre o moderno e o tradicional. Um enfermeiro, em vez de um artesão; lâminas individuais em vez de uma faca colectiva; anestesia em vez de à sangue-frio; entre outras inovações de que sou apologista, mas sem que desvirtue a vertente social e educativa da circuncisão. Não há, nesta região, registos orais sobre ocorrência, mesmo em períodos muito recuados, de incisão genital feminina, tão pouco de acampamentos de iniciação de raparigas que entretanto se casam muito cedo, comparativamente aos centros urbanos. A sociedade rural Libolense e Kibalense é permissiva à poligamia, condenando, porém, veementemente o adultério feminino e a poliandria que são sancionados com avultadas multas pecuniárias ao homem infractor, bem como de castigos físicos.

O Soba, entidade administrativa da aldeia, também administra a aplicação da justiça comunitária com base no direito consuetudinário.

Os tempos modernos são de busca de combinação entre o moderno e o tradicional, encontrando-se já os sobas a trabalhar lado a lado com os secretários de aldeias, os administradores comunais e os chefes das esquadras policiais mais próximas, buscando um equilíbrio entre o direito positivo e o costumeiro.

*Kissama foi até à criação da província do Bengo, território sob jurisdição da província do Kuanza Sul. Foi igualmente, tal qual o Libolo e outras, dependência do Rei Ngola. Vinte e Cinco, Gabriel: Jornal de Angola, 28/12/2008

terça-feira, dezembro 02, 2008

JOGAR COM OU CONTRA?


A preposição CONTRA transmite a ideia de oposição, ao passo que a preposição COM transmite-nos a ideia de ligação, simultaneidade, ao mesmo tempo que... (Dic. Prát. Ilustrado, Lello Editores, 2001).

Este exercício surge a propósito do que muito se ouve, lê e assiste na TV quanto aos emparceiramentos dos jogos. É corrente e recorrente ouvir-se o Petro joga com o Libolo em vez de CONTRA.

Estar com é estar junto na mesma tarefa. No caso dos desportos colectivos, o atleta joga com o colega da mesma equipa e contra o jogador da equipa adversária. As equipas jogam uma contra a outra, já que cada uma delas tem como objectivo penetrar e violar o último reduto do adversário (marcar golos, por exemplo).

Daí os "puritanos" preferirem que se diga "o Libolo jogou contra o Benfica do Lubango em vez de 'COM'".

Portanto, jogar contra quando são adversários e jogar com quando se tratem de colegas de mesma equipa.

Luciano Canhanga

domingo, novembro 02, 2008

POR QUE OS GESTORES DETESTAM A PRESENÇA DA MEDIA?


PONTO PRÉVIO
Os repórteres entrevistam as suas fontes para obter destas declarações que validem as informações apuradas ou que relatem situações vividas por personagens. Antes de ir para a rua, o repórter recebe uma pauta que contém informações que o ajudarão a construir a matéria. Além das informações, a pauta sugere o enfoque a ser trabalhado assim como as fontes a serem entrevistadas. Antes da entrevista o repórter costuma reunir o máximo de informações disponíveis sobre o assunto a ser abordado e sobre a pessoa que será entrevistada. Munido deste material, ele formula perguntas que levem o entrevistado a fornecer informações novas e relevantes. O repórter também deve ser perspicaz para perceber se o entrevistado mente ou manipula dados nas suas respostas, facto que costuma acontecer principalmente com as fontes oficiais do tema. Por exemplo, quando o repórter vai entrevistar o presidente de uma instituição pública sobre um problema que está a afectar o fornecimento de serviços à população, ele tende a evitar as perguntas e a querer reverter a resposta para o que considera positivo na instituição. É importante que o repórter seja insistente. O entrevistador deve conquistar a confiança do entrevistado, mas não tentar dominá-lo, nem ser por ele dominado. Caso contrário, acabará induzindo as respostas ou perdendo a objectividade.


Gestores que nunca temeram e jamais temerão a concorrência, nem mesmo a queda da cotação da empresa em tempo de cises financeiras mundiais ou catástrofes naturais, nutrem um temor visceral à media. Por que será?

Uma pergunta actual e sempre presente nas organizações jornalísticas é: POR QUE DETESTAM OS GESTORES EMPRESARIAIS A PRESENÇA DA MEDIA?



O certo é que não há e nunca haverá hostilidade premeditada entre jornalistas e os gestores empresariais. Os repórteres apenas precisam saciar a sede informativa de seus públicos, daí que não perguntam para alimentar o seu próprio ego, mas para esclarecer as questões do grande público.



Por outro lado, muitas vezes nos perguntamos, porque é que os repórteres não perguntam sobre as coisas boas?

A resposta é que o normal não faz notícia. São os escândalos, as anormalidades, os excessos (por baixo ou por cima), o desconhecido, etc. que fazem notícias.



Em “Os jornalistas e as crises”, Luigi Norsa, afirma que “os jornalistas adoram as crises, enquanto os dirigentes das empresas as detestam”.

“Numa crise (...) só procuram uma boa notícia (“os jornalistas adoram as crises, enquanto os dirigentes das empresas as detestam”), querem saber o que é que sucedeu, de quem é a culpa, quem deve ser considerado responsável pelo sucedido e, por fim, o que é que se está a fazer para evitar a sua repetição. Faz parte do jogo e é necessário aceitá-lo. Só assim se pode trabalhar com a comunicação social, evitando que os seus interesses acabem por prejudicar os nossos. É inútil entrincheirar-se ou procurar ser evasivo.



Seria ideal que as empresas não se fechassem à media, nem se tornassem em únicas fontes de alimentação noticiosa, o que levaria a empresa à banalização junto dos públicos. É igualmente importante que o executivo empresarial não tenha nada a esconder, ou seja, “a melhor forma de esconder é abrir uma brecha no escuro, fazendo com que seja visto apenas o desejável.



Para o autor que vimos citando, é importante que se trate a comunicação como um intermediário, não como um inimigo. “Os jornalistas têm o seu trabalho. A empresa só tem duas escolhas: entrincheirar-se no silêncio e deixar que outras fontes sejam contactadas (terceiras partes hostis, pessoas com contas a ajustar, peritos ou políticos que pretendem aproveitar a ocasião para demonstrar que as suas teorias são certas, pessoas que podem ter qualquer interesse em meter os outros em sarilhos) ou colaborar aberta e correctamente. A comunicação social pode servir de instrumento para chegar rapidamente a um vasto público, ou pode tornar-se parte do problema, uma fonte de injustiças, de aproximação, de informações deturpadas. Aceite as suas exigências, mostre-se aberto e cooperante e pode esperar uma retribuição mediante um tratamento objectivo e sem demasiados preconceitos”.





Só há temor da media quando não se sabe o que se vai dizer, ou quando não se tem o domínio da casa em que se “vive”. O secretismo só prejudica, pois por mais auto-suficiente que seja uma organização haverá sempre momentos em que precisará de recorrer à media, ou para informar, ou para esclarecer.



Luigi Norsa acrescenta ainda que “é preciso estabelecer uma relação serena com os representantes do mundo da informação, aceitando o seu papel e procurando ser uma fonte credível e respeitada. É necessário dizer só a verdade, ainda que não toda, e ajudar os jornalistas a executar o próprio dever, pretendendo, contudo, o respeito pelos próprios direitos, sem esperar deles competências técnicas que não têm e não devem ter. E é sempre importante recordar que ser compreendido é um problema de quem comunica, não de quem escuta”.



Para evitar as perguntas cavilosas dos repórteres, bastará ao gestor empresarial assumir uma postura sóbria nas respostas, mesmo às perguntas que denotem alguma provocação. É imperioso conhecer o assunto e quando não se tiver o conhecimento da questão colocada, uma vez que muitas questões não passam de simples arquitecturas do repórter, a solução é sorrir e, honestamente, dizer que não tem o domínio completo do dossier, mas que se vai informar ou indicar alguém que lhe responda a questão.



Tal como os repórteres são livres de perguntar, de igual forma são livres em não responder os entrevistados, bastando apenas cortesia para se demarcar e desviar de perguntas incómodas.



Para Christiane Mirabaud uma das forma de contornar a verdade é: “A notícia deve ser divulgada à comunicação social possivelmente no final da noite, de Sexta para Sábado, de modo a dar o menos tempo possível para elaborar o notícia, fazendo-a, por conseguinte, chegar quando também os espaços de redacção já foram atribuídos. Relativamente aos conteúdos, a notícia deve ser o mais fria possível, procurando retirar-lhe qualquer appeal jornalístico possível”.



Tendo em conta que os gestores de empresas estão mais virados à gestão e não à comunicação, a eliminação de falhas comunicacionais (quer internamente) quer com os públicos externos (incluindo a media) é feita através da contratação de jornalistas e ou técnicos de Relações Públicas cuja missão é: velar pela efectivação da Comunicação Institucional e Elevação das relações com os públicos.







Luciano Canhanga

domingo, outubro 05, 2008

A RÁDIO CINCO E AS ELEIÇÕES


No último dia de Agosto/08, C.P., comentarista da Rádio Cinco, fartou-se em fazer apelo ao “voto na continuidade, voto no partido do coração…” ao longo do período que antecedeu e durante os primeiros 45 minutos do jogo entre a selecção provincial de Luanda do Girabairro e o Kabuscorp do Palanca, realizado no campo adjacente à administração do Kilamba Kiaxi, em homenagem ao 66º aniversário do Presidente da República e do MPLA, José Eduardo dos Santos.

Pelo que nos habituou, a Rádio cinco, foi feita p’ra “cuidar” dos eventos desportivos e não da propaganda política. Um apelo ao voto consciente seria um bom trabalho, tendo em conta ao papel mobilizador da media, evitando-se assim a abstenção. Mas, de forma implícita, citar-se o nome da formação política em que os angolanos devem/deviam votar, foi já um trabalho p’ra esquecer, tendo em conta a sua linha editorial. E mais, a lei eleitoral estabelece direitos iguais de tratamento por parte da comunicação Social aos partidos políticos concorrentes.

Tudo quanto sabemos e observamos ao longo da campanha política no país, é consabido que o Partido tem uma grande veia mobilizadora, a valer-se pelos quadros e resultados da sua governação em tempo de paz, pelo que nunca precisaria de uma boleia denunciadora do “Cda C.P.”.

Tendo em conta que os apelos saíram da boca de um comentarista, se calhar, alheio à legislação eleitoral vigente, foi de bom gosto e tom, termos ouvido um C.P. silencioso ao longo do período complementar do jogo, indiciando que uma chamada de atenção lhe tenha sido feita.

Para a isenção de que sempre nos brindou a rádio cinco, fica esta mancha, augurando que este deslize, de quem não soube diferenciar a actividade jornalística da política, não macule a Nossa Rádio Campeã dos desportos.

E já que a abordagem é sobre a rádio dos desportos, permitam-me rever as cartolinas do árbitro de futebol.
Com frequência ouvimos dizer que o árbitro exibiu duas ou cinco cartolinas vermelhas, ou que o jogador viu duas cartolinas amarelas. O que é real é que o árbitro leva consigo apenas duas cartolinas: Uma vermelha e outra amarela que podem ser exibidas tantas vezes ao longo de um jogo.

Portanto, nunca um jogador vê duas cartolinas da mesma cor. Vê por duas vezes a cartolina, ou o árbitro mostra duas, três, quatro vezes a cartolina…
Estamos conversados.

Luciano Canhanga

terça-feira, setembro 09, 2008

SOFRER E BENEFICIAR NA NOSSA COMUNICAÇÃO SOCIAL

“O Presidente da República inaugura hoje o Hospital Central da Huila, no Lubango, que sofreu profundas obras de reabilitação”, sic. A.A, RNA, 29/08/08.

“No Moxico, município do Alto Zambeze, é hoje, inaugurada a ponte sobre o rio Zambeze destruída em 1984, depois de ter beneficiado de obras de reparação” sic. RNA.

Tendo em conta ao conteúdo, depreende-se que ambas infraestruturas foram reparadas após destruição pela guerra. Então, se com a guerra sofreram, a sua reparação torna-se um benefício… ou será o contrário?

Analisado o discurso jornalístico (Rádio e Jornal) notamos, com frequência, e até por parte de jornalistas já experimentados, algum descuidado na articulação dos dois termos (sofrer e beneficiar), o que se deverá a alguns vícios do passado. É que houve um tempo em que as matérias sobre infraestruturas só veiculavam “sofrimentos” ao invés do que se passa agora que estamos em tempos de reconstrução. Por outro lado, há também que ter em conta o fraco nível de formação académica e técnico-profissional por parte de alguns que se julgam “gurus” da nossa comunicação social.

Analisando a questão noutro prisma, notamos que do ponto de vista comunicacional a mensagem atinge o seu objectivo, na medida em que o entendimento é de que quer no primeiro caso, quer no segundo, houve reparação das infraestruturas, apesar de num caso a acção ter sido sofrimento e noutro beneficiação.

Do ponto de vista linguístico, aí a coisa é diferente. Beneficiar e sofrer têm significados diametralmente opostos como elucida qualquer dicionário da língua portuguesa, o nosso instrumento de trabalho.

Sofre quem é prejudicado... (sic. dic. prático ilustrado, 1990) e beneficia quem é favorecido... (ibdem).

Já que "os médicos enterram os seus erros, os advogados os aprisionam, mas os jornalistas os expõem ao público", vamos comunicar com lisura e velar também pela formação da nova geração, desprovida de um ensino escolar rigoroso e muito mais apegada aos media como instrumentos de formação e informação.


Luciano Canhanga