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sábado, fevereiro 20, 2010

UM OLHAR AO CARNAVAL DA LUNDA SUL

Informações históricas apontam para a existência de três períodos distintos do Carnaval na região nordeste de Angola que abaixo se seguem:


1- Até 1975: O Carnaval estava circunscrito aos bailes urbanos organizados por elites de origem europeia, seus descendentes e alguns assimilados (negros letrados e com hábitos culturais europeus)

2- De 1977 a 1990: O Carnaval passou a realizar-se a 27 de Março ao invés de Fevereiro, conforme dita a tradição desta festa de origem pagã. A festa ganhou uma carga política e ideológica, popularizou-se e se tornou de carácter quase “obrigatória” em todo o país. Note-se que 27 de Março de 1976 foi a data em que fora expulso do solo angolano o último dos invasores sul-africanos e mercenários que tentaram impossibilitar a proclamação da independência do país pelo MPLA e Agostinho Neto, a 11 de Novembro de 1975, daí que o Presidente Neto propôs a data para a festa da vitória, ganhando a assim a designação de “Carnaval da Vitória”.

3- CARNAVAL “DO EMPATE”: de 1991 à data presente, a festa popular perdeu a carga ideológica, voltou à espontaneidade com maior realce à criatividade na indumentária, dança, canto, alegoria e outros adereços. Ganhou corpo a participação da classe empresarial pública e privada como patrocinadores, o que tende a diminuir gradualmente a responsabilidade do Governo na organização dos grupos. O Carnaval actual evolui, em todo o país e em todos os sentidos, para uma indústria, à semelhança do que se passa noutras cidades e países.

No que se refere ao nordeste de Angola, dois aspectos ressaltam à vista do visitante e do habitante local: a evolução cultural, fruto das vivências e empréstimos culturais com outros povos e a preservação da matriz cultural do povo Cokwe.

Quem assiste ao Carnaval dançado em Saurimo vê duas formas (muitas vezes combinadas) de execução das danças típicas do nordeste, a Cianda e a Cisela. Os grupos carnavalescos da cidade mostram cada vez mais inovações, fruto de influências de outras danças e ritmos, ao passo que os das aldeias periféricas e outros idos de municípios do interior exibem ainda uma dança “mais conservadora”, ao som rítmico do ngoma , executado por menores e adolescentes que são, ao fim e ao cabo, os continuadores da pureza da cultura deste povo.

Assistindo, de forma crítica e interessada, ao Carnaval da Lunda wa kuthu fica-se com a impressão de que qualquer júri nomeado para julgar a festa popular sente dificuldade em eleger o grupo vencedor de qualquer edição e tal acontecerá em 2011. Concorreram para tal dificuldade a evolução cultural e a manutenção da matriz cultural deste povo Cokwe no seu aspecto mais tradicionalista.

O Grupo AMA (vencedor da edição 2010) apresenta-se como o rosto visível de um Carnaval moderno, com todos os adereços que se esperam duma festa que reúna o tradicional e o moderno. Os grupos representantes dos municípios de Mukonda Dala e Kakolo mostram por sua vez que lá está o viveiro da cultura autóctone dos tucôkwe.

É também importante notar que no nordeste de Angola “o Carnaval não tem tradição , sendo os momentos de festa mais marcantes as cerimónias de mukanda , daí que estes povos podem, e a curto trecho, desenvolver uma festa híbrida que englobe o moderno e o tradicional que se pode converter num grande atractivo turístico.


REFERÊNCIAS

1- MANAÇAS, Abreu: entrevista à RNA Lunda Sul, 15/02/10
2- O carnaval que se segue ao da vitória resulta da instauração do multi-partidarismo e perdeu a feição partdária pró MPLA, voltando à espontaneidade popular. Designo-o por carnaval do empate, pois o Presidente Eduardo dos Santos dizia que para a VERDADEIRA reconciliação nacional entre os angolanos era importante que não houvesse nem vencedores nem perdedores.
3- Cianda é dança típica do nordeste de Angola. Outras danças típicas dos tucôkwe são a cisela e a makopo.
3- ngoma é batuque
4- Mukanda é  cerimónia de iniciação: masculina = mukanda ua kandanji e feminina = mukanda ua mwana pwo).

Luciano Canhanga

(Comunicólogo)



quinta-feira, fevereiro 04, 2010

FORMAÇÃO E MOBILIDADE JORNALÍSTICA NAS FM DE LUANDA

= é um fenómeno normal de mercados concorrenciais =
A LAC, criada em Setembro de 1992 antes das primeiras eleições multipartidárias; a Eclésia, ressurgida em 1997; a Despertar, substituta da VORGAN e a Rádio Mais, criada em 2009 constituem as rádios comerciais de Luanda e que emitem em Frequência Modulada. Todas elas subsistem, teoricamente, da comercialização de espaços, campanhas publicitárias e anúncios.

A Rádio Luanda, Rádio Cinco, Rádio FM Stéreo e a Rádio Escola (vinculada ao Ministério da Comunicação Social) estão ligadas umbilicalmente à Emissora Pública Nacional, a RNA.

Em 1992, quando da abertura da LAC, o que o mercado assistiu foi uma fuga dos melhores quadros da RNA para a novel emissora, fruto do factor novidade da sua programação, mais condizente com a realidade política-democrática do momento, e dos atractivos salários que praticava. O país entrava para a concorrência e sopravam ventos de mudança em todos os sentidos. “A camisola tinha sido colocada no roupeiro e o estômago já tomava decisões laborais”.

Assim, vimos jornalistas como Ismael Mateus, Paula Simons, Pedro Correia, José Rodrigues, Mateus Gonçalves, Amélia Pombo (de Aguiar), entre outros, juntarem-se à directora Maria Luisa, na LAC.

A RNA mais se parecia a “uma senhora que perdera os melhores filhos”. A retomada das emissões da Eclésia só viria a complicar ainda mais a situação da RNA que mal se refez do “tufão LAC” viu outros dos seus melhores filhos partirem. Destacam-se nesta “emigração” nomes como os de Mário Vaz (hoje na TPA), Laurinda Tavares, entre outros, que faziam o núcleo áureo das manhãs informativas da Nacional. Até a LAC ganhou concorrência e não deixou de ver jornalistas e sonoplastas “rezarem” na Emissora Católica.

O cenário de Luanda era também vivido nas províncias de Cabinda Benguela e Huila onde as FM Comercial, Morena e 2000 faziam concorrência às apêndices da RNA, as emissoras locais.

Havia esperança de que a abertura democrática do país à economia de mercado de livre concorrência viesse a potenciar a produção e concomitantemente o mercado publicitário que é a grande alavanca financeira da média privada.

O retomar da guerra, porém, e a estagnação da produção nacional veram a criar sérias dificuldades financeiras às emissoras comerciais, o que levou também à estagnação dos investimentos e dos salários, para além de uma tenaz máquina intimidatória contra a média privada e jornalistas mais espevitados que partia do “Edifício da Avenida dos Combatentes”.

Os profissionais do grupo RNA, por sua vez, viram os seus ordenados melhorados, protegidos pelo poder político instituído, graças à informação paternalistas que veiculavam, e ainda bafejados com ofertas de casas, viaturas e postos de chefias. Para este ultimo aspecto, bastará olhar para a estrutura orgânica dos OCS púbicos, havendo nalguns casos chefes sem subordinados.

Estes factores pesaram bastante para o retorno de muitos profissionais que tinham emigrado, levando consigo jovens recém-formados pelas FM privadas.

A melhoria dos salários, as viagens ao exterior, a estabilidade do emprego, entre outras regalias, foram “armas decisivas” para a inversão do fenómeno migratório a favor da média pública.

As comerciais passaram à condição de simples formadores de mão-de-obra que uma vez experiente viam partir, fruto do assédio da media pública que tinha igualmente interesse em esvazia as FM e diminuir o seu poder de influenciar a opinião pública. A TPA, RNA e o Jornal de Angola estão hoje repletos destes jovens (do meu tempo e de tempos mais próximos).

Hoje, o tempo médio de permanência de um jovem numa comercial vai até um ano, o que corresponde exactamente ao período de um estágio bem sucedido. Esse factor levou também à depreciação da qualidade do serviço jornalístico destas emissoras que, embora conservem alguns “mais velhos” que definem as políticas editoriais e os conteúdos programáticos, se vêem forçados a trabalhar com executores inexperientes e com fraco domínio da língua e das técnicas.

Se as comerciais precisam hoje de jovens inexperientes, por serem pouco exigentes quanto ao salário, estes jovens também precisam das comerciais como trampolim para outros vôos. É nelas que rapidamente se afirmam e encontram, o mais cedo possível, quem para eles acene. Essa é a realidade nas redacções jornalísticas da media privada, em geral, onde a mobilidade é tão grande, chegando a haver renovação completa em apenas 24 meses ou menos, sendo destino a comunicação social pública, a Nova Media (de capitais híbridos), a assessoria de imprensa e afins.

Outro factor que propicia a constante mobilidade dos jovens jornalistas tem sido a elevação da formação académica em áreas não relacionadas com o jornalismo e as ciências da comunicação. Uma vez terminadas as licenciaturas, os jovens partem para a aplicação prática dos seus conhecimentos académicos. Assim, o jornalismo radiofónico, em particular, tornou-se numa porta de passagem para outros destinos bem mais remunerados e valorizados, deixando de ser, a arte de informar, um ofício atrativo para muitos jovens com reforçado apego ao dinheiro e estabilidade material.

Fruto desta situação, assistimos também à carência, no mercado angolano, de jornalistas de grande gabarito e performances para as mais díspares necessidades. Os grandes gurus vêem-se sem discípulos sérios para legar conhecimentos, devido à efêmera estadia dos jovens nas redacções, e o mercado externo começa a ser a solução para o preenchimento de vagas nas redações. Estes expatriados, nem todos de boa qualidade, acabam por inflacionar o mercado, “colonizar” o nosso espaço mediático com vícios de outras paragens e jargões que não se adaptam nem ao nosso “linguajar”, nem ao nosso ser e estar.

Que solução?

_ A palavra é sua. Comente!

sexta-feira, janeiro 15, 2010

A MOBILIDADE NAS REDACÇÕES E O PAPEL DOS ASSESSORES


Fazer uma boa assessoria de imprensa implica possuir uma boa lista de contactos junto das redacções. A imagem das empresas e das instituições passa pelos Media que são, ao fim e ao cabo, os grandes difusores dos activos e passivos das instituições públicas e privadas.

Possuir uma boa agenda, como dizia, não passa apenas pelo contacto telefónico e/ou pelo correio electrónico. É preciso criar laços de aproximação física. O conhecimento pessoal dos profissionais dos O.C.S. e dos secretariados das redações.

Sabendo que as redacções dos media estão em constante renovação, o assessor vê-se também "forçado" pelo seu trabalho a renovar, vezes sem conta, os seus contactos, sem se apartar dos antigos profissionais. "Uns saiem de uma casa e entram noutra" é preciso manter a amizade e criar novas amizades com aqueles que lhes preenchem os lugares deixados vagos.

O assessor tem de conhecer as redacções e os jornalistas. Hoje não basta escrever e enviar Press Release ou Nota de Cobertura... É preciso criar uma "intimidade" com estes "mandões" da media, os homens que hierarquisam as Notícias e as Instituições.

Luciano Canhanga

domingo, dezembro 27, 2009

MARKETING AMBULANTE

_“Com licença família, bom dia! A empresa vai fazer uma pequena revisão”.
Os passageiros pensam num fiscal da transportadora ou da autoridade de transportes de Luanda. Mas o intruso prossegue o discurso:
_"Está aqui o menthol para combater a gripe, ciúme, irritação na garganta, cansaço e até engarrafamento (estress)”.

Só assim os passageiros do autocarro privado que faz a rota 1º de Maio/Rocha Pinto se apercebem tratar-se de um ambulante, bem-falante e marketizando o seu pequeno negócio que na "brincadeira" ganha cada vez mais adesão. O pregão do ambulante, que aproveita o congestionamento do transito automóvel nas imediações do hipermercado Jumbo, na Avenida Deolinda Rodrigues, ganha consistência e aos poucos “despacha” o negócio.

Este grande “marketeiro” que nem sequer a 4ª classe possui, terá, na calada duma noite qualquer ou se calhar numa tarde de panelas vazias, estudado a melhor forma de angariar prosélitos para os seus reboçados . E é nos autocarros e taxis carregados de mulheres, no engarrafamento matinal ou vespertino, que encontra o seu nicho de vendas.

_ Vendedor como ele poucos haverá, desabafam satisfeitas as clientes, à saída do “comerciante”, levando consigo os últimos trocos: dez, cinquenta, cem ou duzentos kuanzas.

O clima parece agora estar mais ameno e com um novo motivo para comentários. Lá se foi o estress, pelo menos por alguns intantes.

Luciano Canhanga

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O VALOR DA DESCRIÇÃO, DA PRECISÃO E DA IMAGEM NA COMUNICAÇÃO

A trilogia representa o que é hoje a media, ou seja, a imprensa descritiva, a rádio exacta no uso da palavra certa e o peso da imagem televisiva.

Dizia, e com razão, um meu antigo editor que "os jornais descobrem os assuntos", pois, tradicionalmente, é para lá que iam/vão as cartas e os telefonemas sobre novos assuntos. Hoje o cenário pode ter mudado, mas os jornais ainda continuam a ser aqueles que com maior profundidade descrevem os factos. Até porque têm de dizer por palavras escritas até aquilo que apenas se sente. Dizer, por exemplo, que fazia frio, que as pessoas estavam exaltadas, que fazia poeira, que o ruído era ensurdecedor, ou que os actores mostravam inabilidade, etc.

As rádios, embora se tenham colado às funções tradicionais da imprensa, têm igualmente os seus campos próprios. Isso faz e fez com que o surgimento das rádios não acabasse com os jornais e a televisão não se arruinasse com a aparição das rádios, nem a multimedia conseguisse acabar com os primeiros. E dizia o meu editor, Zé Rodrigues, que se os jornais descobrem para depois descreverem, "a rádio aprofunda". Ela, a rádio, dá outras vozes aos assuntos. Explora outras dimensões do problema. Traz à ribalta novos actores. Complementa o jornal, usando palavras precisas e de significação inconfusa. Ela diz o máximo num mínimo de palavras e de tempo auxiliada pelo som. Mas não é tudo. Falta mostrar.

É aqui que surge a tv. Ela não precisa extender-se no texto, nem na palavra, ou no pormenor. O assunto já foi lido e ouvido. A curiosidade humana está agora aguçada para a visão. Falta mostrar e a tv cumpre o seu papel mostrando. Aqui se materializa também o velho, mas sempre sábio, ditado chinês: Uma boa imagem vale mais do que mil palavras.
As palavras escritas são para a imprensa, a voz para a rádio e a imagem para a Tv.

NB: Um texto conciso é aquele que consegue transmitir um máximo de informações com um mínimo de palavras. A clareza deve ser a qualidade básica de todo o texto. Para que ela exista concorrem: a impessoalidade, que evita a duplicidade de interpretações que poderia decorrer de um tratamento personalista dado ao texto; o uso do padrão culto de linguagem, em princípio, de entendimento geral e por definição avesso a vocábulos de circulação restrita, como a gíria e o jargão; a formalidade e a padronização, que possibilitam a imprescindível uniformidade dos textos e a concisão que faz desaparecer do texto os excessos linguísticos que nada lhe acrescentam.

Luciano Canhanga

quinta-feira, novembro 19, 2009

O MELHOR DIA PARA UMA NOTA DE IMPRENSA

Quando o assunto é temporal, quando se torna inadiável levar o assunto institucional à esfera pública, não há escolha de tempo. O melhor dia seria “ontem”.

Porém, quando pode haver a escolha do melhor momento, quando se quer e pode dar maior amplitude e noticiabilidade ao facto, qual a melhor altura para “soltar” uma Nota de Imprensa/Press Release?

Da minha experiência jornalística notei que à segunda-feira, fruto da “improdutividade” do fim-de-semana, as redacções estão carentes de notícias. As redaçcões precisam de factos novos. Daí que o aproveitamento de uma press release é quase que generalizada e total. A adesão é maior e melhor.

Quanto à redacção da nota de impensa, é melhor aquela em que os jornalistas não só encontrem respostas aos clássicos elementos do lead, como também se ajuste ao estilo redactorial da casa, daí quem não será um exercício vazio rescrever a nota, indo de acordo ao estilo de redacção de cada receptor. Regra geral, os jornalistas gostam de ver facilitada a sua tarefa. É importante que os elementos que satisfaçam ao lead estejam no princípio da press release.

O título da press release deve ser atractivo aos jornalistas, pois "se o pregão for mal efectuado, por melhor que seja o produto, poucos ou ninguém a ele chegará". Se a nota de imprensa for enviada por e-mail, será importante ligar aos receptores, para confirmarem a recepção. Apesar da cultura, há jornalistas que ainda não abrem com regularidade ou à chegada à redacção os seus correios electrónicos.

Os conselhos acima aplicam-se às notas e pedidos de cobertura noticiosa.
Motivo, Local, Data e Hora, para além de outros elementos periféricos, são importantes.

Note que as Rádios precisam de som e, se alguém estiver habilitado a falar de véspera, o ideal seria colocar na Nota o contacto deste "porta-voz".

Luciano Canhanga

domingo, novembro 01, 2009

O ACTO MATRIMONIAL ENTRE OS LIBOLO E KIBALA

O CASAMENTO (Ú SOÑONA)
Os povos do Libolo e da Kibala (municípios da província angolana do Kuanza-Sul) consideram-se kisoko* por isso mesmo são pacíficos os actos matrimoniais entre estes dois povos do grupo ambundu.

O acto matrimonial tem início com o galanteio ou conquista (ú seka), sendo normalmente o homem quem toma a iniciativa ou os pais deste, podendo ainda a família contrária propor o mesmo à família do rapaz.

Normalmente, é na adolescência que começam os galanteios quando não se tratem de individuos já adultos e em segundas núpcias.  A idade biológica é irrelevante, falando mais a robustez física, atendendo a maturidade  precoce ou retardada dos individuos. O desenvolvimento físico na mulher é factor de relevância.

As adolescentes juntam-se, regra geral, em casa duma idosa, pretenciosamente para dela cuidarem e aprenderem lições de vida, com realce à vida conjugal futura. É nesta kandumba (caserna) onde os adolescentes e jovens do sexo masculino se sentem à vontade para o desfilar de rosários.

Ter um objecto de uso pessoal da jovem pretendida, um lenço, um pano, ou uma pulseira, é considerado meio camino andado para o passo seguinte. Porém, a sociedade/comunidade atenta deve aprovar ou reprovar esta relação nascente em que jogam preponderantemente os activos e passivos entre ambas as famílias. Se reprovação não houver, o passo seguinte será a oferta de uma porção de tabaco, um maço de cigarros ou um valor equivalente à tia paterna ou avó da pretendida.

A aceitação desta oferta será o selo de que nada obsta o namoro entre os jovens, pasando à categoria seguite de “a muibula” que siginifica estar ocupada ou pretendida.

KUIBULA (PRETENDER)
O acto tem o significado exacto de pretender a rapariga. Perguntar às famílias se nada obsta. A aceitação da bouquilha de tabaco ou outro produto correspondente equivalente à aceitação do namoro por parte de quem o recebe e que deverá comunicar aos pais da jovem.

A família da rapariga deve, em seguida, reunir e analisar os hábitos do rapaz e de sua descendência, jogando preponderantemente a amizade ou atritos que haja entre ambas, caso sejam de mesma aldeia ou de aldeias próximas.

Ultrapassado favoravelmente este passo, um emissário é enviado à parte do pretendente, comunicando-lhe a aceitação formal do namoro, passando o jovem a frequentar a casa dos sogros, idem a jovem que se deve prestar a alguns serviços domésticos em casa da futura sogra. É o ensaio.
São esses actos que ajudarão a determinar se a futura nora é ou não honesta e trabalhadora. Chegados a este patamar a sociedade jamais permitirá relacionamentos paralelos, sobretudo se praticados pala nubente, sendo qualquer acção desrespeitosa para com ela passivel de uma multa pecuniária e, às vezes, castigos físicos, ditados pelo soba da comunidade.

ÚLEMBA (Alembamento)
É o acto pelo qual a família do noivo formaliza o noivado através da entrega de bens à família da jovem. Não se trata de compra, como alguns podem pensar.

É apenas um acto que valoriza a noiva e que sub entende o costume e o respeito pelas tradições seculares. Não fazer o alembamento é que se torna anomalia e nunca o contrário.

Nas comunidades rurais mais recônditas a bebida mais usada é o kaporroto ( bebida destilada). O noivo, ajudado pela família, deve juntar garrafões de kaporroto em número variável, panos para a sogra, cobertor para a avós, o dinheiro do alembamento que acompanha a carta de pedido devidamente forrada em lenço branco e fechada com alfinetes dourados.

Nas comunidades mais iluminadas o Kaporroto é substituido por garrafões de vinho, wisky, caixas de refrigerantes e cerveja, cigarros, peças de panos para a sogra, fato para o sogro e outros bens. Há famílas que enviam uma lista de bens e outras que são liberais.

Geralmente a família do noivo é recebido em festa, abatendo-se um animal quadrúpede doméstico e outro que é oferecido vivo à família da noiva em forma de dote.

O ACTO FINAL: Ú-UANA (A BUSCA)
Levar a mulher da casa de seus pais é o acto consumatório da união matrimonial entre os nubentes. Preparada a casa em que viverá o novo casal, a família do noivo envia um emissário à casa da família da noiva com a missão de a ir buscar.

O emissário, um tio, uma tia, um kisoko ou outro individuo de confiança ou amigo comum dos nubentes leva um garrafão de kaporroto, ou algumas caixas de cerveja e refrigerantes, dependendo do lugar e das posses.

Deve munir-se de alguma pecúnia de reserva para em caso de multas devidas a atrasos na chagada ou gravidez em casa dos pais. Recebido em festa, apresneta o mahezo (conta o motivo da visita) e é acompanhado com o bater de palmas à medida que discorre o discurso.

Uma tia, amiga ou outra representante acompanha a nova ao seu novo lar. A noiva vai normalmente de rosto coberto destapando o véu somente depois de apresentada pela acompanhante à sua nova família, os sogros. Manda a tradição que na primeira noite ambas tias da noiva e do noivo dvem confirmar a virgindade da rapariga através de lenções novos e brancos que ao raiar do sol são por elas recolhios devendo estar ensanguentados, sinónimo de que houve defloramento naquela noite nupcial.

Se se confirmar o defloramento, ambas tias rejubilam-se, sendo motivo de orgulho das famílias por se ter cumprido a norma tradicional. Há vezes, porém, em que tal acto não passa de uma simples montagem com a conivência de ambas tias. Pegam numa galinha e escondem-na no quarto dos nubentes. À noite, sacrificam-na e o sangue é usado para sujar os lençóis.


A festa de despedida entre o noivo e sua família e as acompanhantes da noiva é regada de muito kaporroto, vinho e/ou outras bebidas, dependente dos hábitos de consumo, do local e das posses. Há famílias que fazem acompanhar a sua filha de um dote (em retribuição ao recebido). Normalmente uma vaca ou outro animal de médio porte, cuja reprodução deverá ser seguida na mesma bitola pelo novo casal.  Este dote tem, porém, outros significados importantes a reter: 1- O apreço que os pais da noiva nutrem pelo genro; 2- Que não a maltratem, pois também têm posses.

A REPRODUÇÃO (ÚKITA)
É o passo seguinte. Ambas famílias permanecem atentas à primeira gravidez da jovem, sendo motivo de preocupação se tal não acontecer nos primeiros seis meses de casamento.


* Kisoko é termo em kimbundu que significa (pessoa ou povos com quem se tem) um pacto de amizade, amor, fraternidade, relações igualitárias e ou privilegiadas ou íntimas. Entre dois kisoko até a asneira passa despercebida.


Luciano Canhanga

sexta-feira, outubro 16, 2009

A CAÇA AO INSÓLITO E SUAS CONSEQUÊNCIAS


O CASO
Uma fonte anónima liga para a estação televisiva anunciando um facto insólito. As imagens têm o poder de persuasão e um isólito, uma cacha, aumenta a audiência em tempo de concorrência mediática. Está-se na expectativa de se anunciar uma cacha no "prime time".

É importante chegar primeiro, mas também ser o primeiro a divulgar para que aos demais se torne apenas informação.

_“Para nós será matéria de primeira-mão”, terá pensado alguém naquela casa.

O repórter sai munido de equipamentos de reportagem. Dirige-se ao local indicado pela chamada anónima e encontra o cenário montado ou “parido”.

Encontra uma senhora que afirma ter dado fim a uma gravidez de 18 meses depois de ter frequentado vários hospitais (não os nomeou) que sempre lhe atestaram resultado negativo da gravidez, mesmo com o crescer, dias sim, dias não, da barriga. O obreiro do insólito é um homem que se proclama como um “grande curandeiro”, também ele surpreendido pelo resultado inaudível.

Ao lado de ambos, um cágado nadava numa bacia e foi apresentado como recém-nascido da “parturiente” que, entre alegria, espanto e também tristeza, atribuia alguma culpava ao curandeiro.

Narração da Sra: “meteu-me sentada na bacia e senti algo a tocar-me o ânus. Quando levantei notei que havia este cágado na bacia e a barriga esvaziou-se”.

Narração do Sr: “nunca vi isso na minha vida apesar de já ter tratado muita gente. É feitiço”.

Comportamento da televisão/ repórter: filmou o cágado na bacia, recolheu os depoimentos do Sr. e da Sra. e divulgou a estória, "nua e crua" (como se de verdade auténtica se tratasse).

E eu me pergunto:
1- terá, de facto, a Sra. parido a um cágado?
2- como foi tal possível?
3- terão o repórter e os editores se colocado estas questões?
4- por que razão não foi postergada a publicação da reportagem, dando lugar a recolha de outros elementos de prova material e científica?
5- e como ficamos, ”nós”, que acreditamos completamente naquilo que a Tv nos mostra?
6- terá a Tv cumprido cabalmente com o seu papel, enquanto órgão público de informação?
7- não terá a Tv sido traída por um factor qualquer?
8- qual?
a) imperícia do repórter?
b) desatenção dos editores?
c) gosto e tentação pela cacha e pelo insólito?
9- ou devemos ter o facto narrado pela Tv como verídico?

Para muitos, não é o meu caso, a senhora  pariu a um cágado e foi anunciado pala Tv em que muita confiança se debita.

Luciano Canhanga

quinta-feira, outubro 01, 2009

A ANTROPONÍMIA DOS AMBUNDU DO KWANZA-SUL

ESTUDO CONTÍNUO
A antroponímia é o estudo dos nomes proprios referentes a pessoas. Quando nos referimos a lugares estaremos perante a toponímia.

Os ambundu do Kwanza-Sul são detentores de uma antroponíma extensa e rica de significados, pois os nomes de novos seres sociais nunca são atribuidos ao acaso. Normalmente referenem-se ao momento, circunstâncias de nascimento ou outro evento relevante na vida do casal, da família ou da comunidade.

Entre os ambundu do Kwanza-Sul, (ocupam a região norte e centro da província) quando um nome não é silogístico (novo) pertence a alguém da família ou da comunidade a quem se designa por chará (cognome).

KAKULU= O primeiro dos gémios
KABASA= O segundo dos gémios
Kaxinda= que segue aos gémeos
Kalunga= relativo à morte, o inesperado
Kitumba= relativo ao feitiço
SABALU= Que nasceu num Sábado
Katumbila=
Kilombo=
Kikola= Sagrado, perigoso
Kamuenda=
Nzongo=
Kilulu= fantasma
Kitongo=
Lukamba= Relativo ao gato bravo
Kavindi=
Ebo= Nascido de uma gravidez acima dos nove meses de gestação
Kiteta= dorminhoco (relativo a quem dormia muito no periodo da gestação)
Kambondondo= curto, de baixa estatura
Kimbi= morto, nascido depois de um nado morto ou depois da morte de irmãos mais velhos
Kitoma= picador, o vacinador...
Kisongo=
Kaphuku= o mesmo que ratinho, muito magro
Kaiela= relativo a diala=homem,
Maluvu= relativo ao vinho de palma
Kapengo= o mesmo que ratinho de casa, feito
Mungongo=
Kajila= passarinho, voador, espevitado, lesto
Kikumbu=
Kakonda=
Nzumba=
Lemba=
Umba=
Kaphonde= relativo ao bagre, de cabeça desproporcional ao corpo
Kifunde=
Maluvu= relativo ao vinho de palma (maluvo)
Kioko=
Kapoko= relarivo à faca; phoko=faca
Vundi= relativo ao juramento, ou a um pedido especial
Kisanga=
Kihuhu=
Kasola=
Phande= que vem a seguir de...
Nzamba= Elefante, também gémeo
Kindala= relativo à cobra. Ndala espécie de cobra perigosa que abunda a região
Kibenda/Kipenda=
Kabiabia= andorinha
Kixibo= cacimbo/época seca
Kikele=
Henda= benevolente, saudoso, bom-doso/dade
Kambondondo= curto, baixo
Kamuenda=
Hongolo=
Kaxikiri=
Kinguenha=
Lemba=
Kabezo/kapezo=
Muthumbua=
Kime=
Kasola=
Kakiezu= vassourinha, magro
Kiole= apodrecido, tardio
Ngunza/Ñunza=
Kalola=
Kalulu= pequeno fantasma
Kambota=
Kabota=
Kindundango=
Sumbanguia= comprador de agulhas
Muhongo=
Kasaba=
Ndumbo= infiel
Katumbo=
Kamalenge= fabricador de argolas?
Pangila=
Kiteke= desenhador
Kupenda/Kubenda=
Kibenda/Kipenda=
Umba=
Kathuku=
Kaiela=
Mbondondo=
Manda=
Munzombe=
Kafanda=
Malebu= fama, afamado
Kioza=
Njilá=
Kajobiri=
Tembu=
Nzumba=
Mulunji
Katibiá= foguinho
Kimone=
Funji=
Nzundo= marreta, pesado
Sumbula=
Katimba= reguila,
Thandela=
Lombe= local santo onde se sepultam os reis
Mundombe=
Ngonga= Prato santo para adivinho
Nhañe=
Ndonga=
Muriangu= comelão, que come muito
Murianga=
Kixibá=
Ngaio=
Kaxikiri=
Kimbila= relativo à sepultura
Kixindo=
Kikaxa=
Kizoko=
Ndulú= amargo; fel
Ximinha=
Kambundu=
Musunga=

Luciano Canhanga tb conhecido por Kajila (passarinho) ou Phande a Umba (o que veio depois de Umba)

quarta-feira, setembro 16, 2009

NO JORNALISMO ANGOLANO: É PRECISO SEPARAR O TRIGO DO JOIO

Desde 2006 que despi a camisola de jornalista, mas como formado e profissional da área não posso assistir ao “ladrar dos cães e ao passar da caravana”. E é refugiado nesta pele de comentador de factos que assisto, participando do debate de ideias.

Há muito tempo temos vindo a ser brindados pela media com a intragável arte de transformar navios em bragres. Acontece na imaginação. A propaganda o tenta, mas as consciências sempre despertam. A minha abordagem de hoje tem a ver com o que assisto na classe jornalística. Quando o debate é sobre “se devem ou não ser considerados jornalistas apenas aqueles que têm graduação e equivalência em ciências da comunicação”, dia após dia vimos fabricados outros jornaleiros vindo de outras “artes”.

O jornalismo áudio-visual em Angola é aos olhos do povo a profissão mais fácil de se exercer. Pensa-se que não se estuda, não se aprende, nem se faz carreira. Todos os dias há transformação, à escala industrial, de novos homens e mulheres de microfone na mão. Qualquer músico, actor de teatro, taxista, animador de eventos ou mesmo “roboteiro” aparece perante as câmaras televisivas ou em qualquer programa radiofónico a intitular-se de jornalista e todos, passivamente, acenamos a cabeça, aprovando-o no silêncio. É triste que assim aconteça.

O caso mais recente e ainda em voga tem a ver com um animador de festas que surge na televisão pública num programa que incita a rixas entre grupos de kú duro. O outro é um “adolescente" do Bié que a máquina propagandística da Orion quer que o tratemos como jornalista, forçando-o a pseudo-reportagens que são despejadas a bruto pela televisão pública. É que o jovem nem sequer consegue (nas suas pseudo-reportagens) pronunciar nomes como Deolinda Rodrigues e já "é jornalista”!

Se o tempo que trazemos às costas é carregado de muita tarimba, mas com debilidades em termos de formação que, felizmente, muitos decanos vão anulando com formações específicas e treinamentos, disseminar outros pára-quedistas seria o mesmo que matar o jornalismo angolano.
Que país teremos com profissionais da media que não sabem sequer escrever uma frase com sujeito e predicado ou pronunciar correctamente palavra e meia?

É mister que, sobretudo, a nossa televisão diferencie os seus programas comerciais ou propagandísticos dos noticiosos/informativos, fazendo com que o conteúdo e apresentadores destas atordoadas se apartem do compromisso noticioso, deixando assim de nos confundirem a todos.

Também é míster que o governo regulamente a lei de imprensa, há mais de dois anos aprovada pelo parlamento, e que se criem outros mecanismos reguladores da classe, como uma ordem ou uma comissão para a atribuição e cassação da carteirade profissional.
Julgo que para se ser jornalista não basta abrir a boca nem exibir dotes e poses corporais. É preciso sim, cérebro, escola e muito trabalho, daí que,

É preciso separar o trigo do joio no nosso jornalismo e deve ser para já!
Luciano Canhanga