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quarta-feira, outubro 01, 2025

AS VOZES DO KWANZA-SUL NO MOSAICO LINGUÍSTICO DE ANGOLA

AS VOZES DO KWANZA-SUL NO MOSAICO LINGUÍSTICO DE ANGOLA

Por: Soberano Kanyanga*

 

I. Introdução

A província do Kwanza-Sul ocupa uma posição estratégica no mapa etnolinguístico de Angola, situando-se entre dois grandes polos culturais e linguísticos:

  • Polo Ambundu: Luanda, Bengo, Malanje e Kwanza-Norte, onde predomina o Kimbundu.
  • Polo Ovimbundu: Huambo, Bié e Benguela, com predominância do Umbundu.

Esta localização faz do Kwanza-Sul uma zona de transição etnolinguística, caracterizada pela convivência de variantes do Kimbundu, do Umbundu e de falares locais que expressam a complexidade histórica, social e identitária das comunidades da região.
Segundo Bastin (1983) e Nurse & Philippson (2003), zonas de contacto entre línguas bantu tendem a gerar sistemas linguísticos altamente dinâmicos, marcados por inovação e intensa circulação cultural.

 

II. Zonas de transição etnolinguística: Definição e relevância

As zonas de transição são espaços sociolinguísticos onde línguas e culturas interagem continuamente. São marcadas por:

  • multilinguismo funcional (Fishman, 1972);
  • interferência linguística de ordem lexical, fonética e sintática (Thomason & Kaufman, 1988);
  • identidades linguísticas fluidas (Hymes, 1974);
  • variação dialectal e inovação linguística (Heine & Nurse, 2000).

Distribuição dos falares segundo as influências dominantes

Grupo com maior influência Ambundu (Kimbundu):
Kibala, Mussende, Kilenda, Hebo, Lubolu, Mbwim (Amboim), Waku.

Grupo com maior influência Ovimbundu (Umbundu):
Seles, Cassongue, Sumbe.

III. O “Falar” da Kibala: Identidade, resistência e reivindicação

A variante do Kimbundu falada na região da Kibala é designada pelos seus falantes como:

  • Kimbundu
  • Kimbundu ky’Epala
  • Kimbundu kyetu

O termo “ngoya”, amplamente reconhecido como pejorativo, tem origem umbundu e significa “bárbaro”, “selvagem” ou “imprestável”, como documentam Angenot, Ndonga Mfwa & Ribeiro (2011). A sua difusão moderna ocorreu sobretudo através dos meios de comunicação social, sem respaldo académico ou consulta às autoridades tradicionais.

A relação entre povo e língua é um princípio fundamental da antropologia linguística (Sapir, 1921; Duranti, 1997). Assim como se fala português para os portugueses ou kikongo para os Bakongo, também se deve respeitar a identidade Ambundu dos povos da Kibala, cuja língua é um falar do Kimbundu, enraizado na sua tradição histórica.

“Não basta ser soba para confirmar dados históricos. É preciso ter idade e discernimento necessário.” — Soberano Kanyanga

 

IV. Quadro comparativo: Povo e Língua

Povo / Comunidade

Gentílico

Designação da Língua

Portugueses

Português

Língua Portuguesa

Franceses

Francês

Língua Francesa

Tucokwe

Tucokwe

Língua Ucokwe

Bakongo

Bakongo

Língua Kikongo

Ambundu

Ambundu

Língua Kimbundu

Ovimbundu

Ovimbundu

Língua Umbundu

A coerência entre etnia e língua é central nos estudos bantu (Guthrie, 1967; Vansina, 1995).

 

V. Herança colonial e imposição terminológica

Durante o período colonial, prevaleceu uma política linguística que marginalizou as línguas africanas, classificando-as como “dialectos” ou “línguas menores” (Chimbutane, 2011).
A utilização do termo “ngoya” pela Rádio VORGAN (anos 1980) e posteriormente pela RNA/Ngola Yetu (1992; 2007) não foi precedida de estudos científicos nem de validação comunitária.

Regista-se que, em 9 de Junho de 2012, o Governador Serafim do Prado solicitou à Ministra Carolina Cerqueira a substituição oficial de “ngoya” por Kimbundu Kyetu, alinhando-se com o uso popular:

Eye oji lyahi wondola? — “Que língua você fala?”

 

VI. Estudos, testemunhos e evidência de campo

  • Tomé Grosso (2020): Demonstra bilinguismo e confusão terminológica entre jovens da Kibala, influenciados pelos meios de comunicação, na monografia O Dialecto Kibala (Kimbundu) e a Problemática do Termo Ngoya.
  • Soberano Kanyanga (2024): Inquérito com 60 participantes revela ampla rejeição ao termo “ngoya” e clara identificação com o Kimbundu da Kibala.
  • Gabriel Vinte e Cinco, Moisés Malumbu e José Redinha: Todos confirmam a origem Ambundu dos Kibala e a ausência de qualquer grupo étnico denominado “ngoya”.
  • Angenot, Ndonga Mfwa & Ribeiro (2011): Consideram o “kibala-ngoya” um falar bantu não-documentado, em zona de contacto entre Kimbundu (H20) e Umbundu (R10), e destacam o carácter pejorativo da palavra “ngoya”.

Min C. Cerqueira, Juiz J. Felismino, Revº Gab Vinte e Cinco e Sob. Kanyanga

Os autores sublinham que:

“É propositalmente que recorremos à denominação ‘falar’ [...] paira alguma incerteza sobre se é uma variante dialetal ou um falar híbrido de transição.”
(ANGENOT; NDONGA MFUWA; RIBEIRO, 2011, p. 253)

 

VII. Propostas para a valorização dos falares locais

  1. Educação: Inclusão dos falares do Kwanza-Sul nos currículos provinciais.
  2. Cultura: Incentivo à literatura, música e oralidade em Kimbundu local.
  3. Investigação: Criação de centros provinciais de estudo linguístico.
  4. Media: Uso criterioso das designações linguísticas, baseado em investigação e memória comunitária.

 

VIII. Conclusão

A valorização dos falares locais é crucial para a preservação da identidade cultural do Kwanza-Sul. Os falares da região não constituem uma “língua ngoya”, mas variações legítimas do Kimbundu, ancoradas na história, na etnografia e na auto-identificação das comunidades.

“Toda a ciência que envolva antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.” — Soberano Kanyanga

 

Referências Bibliográficas

  1. ANGENOT, Jean-Pierre; NDONGA MFUWA; RIBEIRO, Michela Araújo. As classes nominais do Kibala-Ngoya: um falar bantu de Angola não documentado. PAIA, v. 21, n. 2, p. 253‑266, 2011.
  2. BASTIN, Yvonne. La classification des langues bantoues. Paris: SELAF, 1983.
  3. CHIMBUTANE, Feliciano. Language and Education in Mozambique. New York: Palgrave, 2011.
  4. DURANTI, Alessandro. Linguistic Anthropology. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
  5. FISHMAN, Joshua. Language and Nationalism. Rowley: Newbury House, 1972.
  6. GROSSO, Tomé. O Dialecto Kibala e a problemática do termo Ngoya. Monografia, UAN, 2020.
  7. GUTHRIE, Malcolm. Comparative Bantu. 4 vols. Farnborough: Gregg Press, 1967.
  8. HEINE, Bernd; NURSE, Derek (eds.). African Languages: An Introduction. Cambridge: CUP, 2000.
  9. NURSE, Derek; PHILIPPSON, Gérard (eds.). The Bantu Languages. New York: Routledge, 2003.
  10. REDINHA, José. Etnias e Culturas de Angola. Luanda: Ministério da Cultura, 1975.
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*Formado em Didáctica de História e investigador social.