AS VOZES DO KWANZA-SUL NO MOSAICO LINGUÍSTICO DE ANGOLA
Por: Soberano Kanyanga*
I. Introdução
A província do Kwanza-Sul ocupa uma posição estratégica no
mapa etnolinguístico de Angola, situando-se entre dois grandes polos culturais
e linguísticos:
- Polo
Ambundu: Luanda, Bengo, Malanje e Kwanza-Norte, onde predomina o Kimbundu.
- Polo
Ovimbundu: Huambo, Bié e Benguela, com predominância do Umbundu.
II. Zonas de transição etnolinguística: Definição e
relevância
- multilinguismo
funcional (Fishman, 1972);
- interferência
linguística de ordem lexical, fonética e sintática (Thomason &
Kaufman, 1988);
- identidades
linguísticas fluidas (Hymes, 1974);
- variação
dialectal e inovação linguística (Heine & Nurse, 2000).
Distribuição dos falares segundo as influências
dominantes
III. O “Falar” da Kibala: Identidade, resistência e
reivindicação
A variante do Kimbundu falada na região da Kibala é
designada pelos seus falantes como:
- Kimbundu
- Kimbundu
ky’Epala
- Kimbundu
kyetu
O termo “ngoya”, amplamente reconhecido como
pejorativo, tem origem umbundu e significa “bárbaro”, “selvagem” ou
“imprestável”, como documentam Angenot, Ndonga Mfwa & Ribeiro (2011).
A sua difusão moderna ocorreu sobretudo através dos meios de comunicação
social, sem respaldo académico ou consulta às autoridades tradicionais.
A relação entre povo e língua é um princípio fundamental da
antropologia linguística (Sapir, 1921; Duranti, 1997). Assim como se fala português
para os portugueses ou kikongo para os Bakongo, também se deve respeitar
a identidade Ambundu dos povos da Kibala, cuja língua é um falar do Kimbundu,
enraizado na sua tradição histórica.
“Não basta ser soba para confirmar dados históricos. É
preciso ter idade e discernimento necessário.” — Soberano Kanyanga
IV. Quadro comparativo: Povo e Língua
|
Povo
/ Comunidade |
Gentílico |
Designação
da Língua |
|
Portugueses |
Português |
Língua Portuguesa |
|
Franceses |
Francês |
Língua Francesa |
|
Tucokwe |
Tucokwe |
Língua Ucokwe |
|
Bakongo |
Bakongo |
Língua Kikongo |
|
Ambundu |
Ambundu |
Língua Kimbundu |
|
Ovimbundu |
Ovimbundu |
Língua Umbundu |
A coerência entre etnia e língua é central nos estudos bantu
(Guthrie, 1967; Vansina, 1995).
V. Herança colonial e imposição terminológica
Regista-se que, em 9 de Junho de 2012, o Governador
Serafim do Prado solicitou à Ministra Carolina Cerqueira a substituição oficial
de “ngoya” por Kimbundu Kyetu, alinhando-se com o uso popular:
Eye oji lyahi wondola? — “Que língua você fala?”
VI. Estudos, testemunhos e evidência de campo
- Tomé
Grosso (2020): Demonstra bilinguismo e confusão terminológica entre
jovens da Kibala, influenciados pelos meios de comunicação, na monografia O
Dialecto Kibala (Kimbundu) e a Problemática do Termo Ngoya.
- Soberano
Kanyanga (2024): Inquérito com 60 participantes revela ampla rejeição
ao termo “ngoya” e clara identificação com o Kimbundu da Kibala.
- Gabriel
Vinte e Cinco, Moisés Malumbu e José Redinha: Todos confirmam a origem
Ambundu dos Kibala e a ausência de qualquer grupo étnico denominado
“ngoya”.
- Angenot,
Ndonga Mfwa & Ribeiro (2011): Consideram o “kibala-ngoya” um falar
bantu não-documentado, em zona de contacto entre Kimbundu (H20) e
Umbundu (R10), e destacam o carácter pejorativo da palavra “ngoya”.
![]() |
| Min C. Cerqueira, Juiz J. Felismino, Revº Gab Vinte e Cinco e Sob. Kanyanga |
VII. Propostas para a valorização dos falares locais
- Educação:
Inclusão dos falares do Kwanza-Sul nos currículos provinciais.
- Cultura:
Incentivo à literatura, música e oralidade em Kimbundu local.
- Investigação:
Criação de centros provinciais de estudo linguístico.
- Media:
Uso criterioso das designações linguísticas, baseado em investigação e
memória comunitária.
VIII. Conclusão
A valorização dos falares locais é crucial para a
preservação da identidade cultural do Kwanza-Sul. Os falares da região não
constituem uma “língua ngoya”, mas variações legítimas do Kimbundu,
ancoradas na história, na etnografia e na auto-identificação das comunidades.
“Toda a ciência que envolva antropologia, história e
etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.” — Soberano
Kanyanga
Referências Bibliográficas
- ANGENOT,
Jean-Pierre; NDONGA MFUWA; RIBEIRO, Michela Araújo. As classes nominais
do Kibala-Ngoya: um falar bantu de Angola não documentado. PAIA,
v. 21, n. 2, p. 253‑266, 2011.
- BASTIN,
Yvonne. La classification des langues bantoues. Paris: SELAF, 1983.
- CHIMBUTANE,
Feliciano. Language and Education in Mozambique. New York:
Palgrave, 2011.
- DURANTI,
Alessandro. Linguistic Anthropology. Cambridge: Cambridge
University Press, 1997.
- FISHMAN,
Joshua. Language and Nationalism. Rowley: Newbury House, 1972.
- GROSSO,
Tomé. O Dialecto Kibala e a problemática do termo Ngoya.
Monografia, UAN, 2020.
- GUTHRIE,
Malcolm. Comparative Bantu. 4 vols. Farnborough: Gregg Press, 1967.
- HEINE,
Bernd; NURSE, Derek (eds.). African Languages: An Introduction.
Cambridge: CUP, 2000.
- NURSE,
Derek; PHILIPPSON, Gérard (eds.). The Bantu Languages. New York:
Routledge, 2003.
- REDINHA,
José. Etnias e Culturas de Angola. Luanda: Ministério da Cultura,
1975.
*Formado em Didáctica de História e investigador social.



Sem comentários:
Enviar um comentário