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terça-feira, julho 15, 2014

O VALOR DO FEEDBACK NA COMUNICAÇÃO VERBAL

Mais do que um mecanismo que permite confirmar a fiabilidade do canal pelo qual trafega a informação entre o destinador e destinatário, o feedback é troca bi-direccional que elimina distorções ou falhas na comunicacão verbal. Quando essa é realizada de forma oral, o feedback permite assegurar que não houve ruído e que a reacção do destinatário será conforme espectado pelo emissor.
 
A repetição da mensagem pelo receptor ou o resumo da mesma é uma garantia de que houve eficiência na comunicação.
 


O que você faz quando recebe uma mensagem por e-mail, por carta, sms (short message servisse) ou comentário no facebook? 
Quem lhe manda uma mensagem, independentemente do canal e do código, praticou um acto comunicacional. Partilhou ideias, sentimentos ou estado de alma. Ao remeter a mensagem, está também testando o canal. Precisa de ter certeza de que o canal funciona, a mensagem chegou ou destinatário e foi ou não percebida. A percepção é aferida pela qualidade da reacção do recepor. Se esta for a esperada é porque não houve ruído.
 
Como é que o emissor terá essa percepção caso não receba feedback?

 1- Recebeu telefonema e não pôde tender no momento? Dê retorno tão logo seja possível.
2- Recebeu e-mail? Tenha ou não percebido, dê feedback para que se confirme a recepção e percepção da mensagem  ou se melhore a comunicação.
3- Faça o mesmo em relação ao facebook e outros canais ou meios de comunicação verbais (oral e ou escrita), reagindo em função da recepção e da descodificação que fizer da mensagem.
4- Responda sempre com mensagens verbais ou acções esperadas. Dê feedback a cada mensagem que receba, ignorando, como é obvio, o spam viral.
5- Saiba que a comunicação oral (por voz) é mais quente e afectiva do que a escrita, embora a segunda seja mais segura em termos de conservação da mensagem, sobretudo em caso de repasse.
 
 

terça-feira, julho 01, 2014

OS CAMINHOS ÍNVIOS DO NOSSO PORTUGUÊS

Nota Prévia: A presente reflexão foi solicitada pelo Semanário Angolense, a propósito dos 800 anos da L.P., assinalados a 27.06.2014.

Os desvios à norma (uso popular ou vulgar da língua) coabitarão com o uso normativo, sem que para tal surja uma nova língua ou essa desarticulação da norma pode levar a nova forma de comunicar (por oralidade e escrita)?  Os excessivos desvios, os empréstimos/importações de outras línguas africanas (angolanas) e o génio criador/inventivo de novos vocábulos (neologismos) levarão ao surgimento do "Angolês"? Poderá ou não surgir em Angola, dentro de séculos, uma língua distinta do Português Europeu e da miríade de idiomas expressos no universo angolano?
Partindo de estudos sincrónicos e diacrónicos (evolução histórica) das línguas, atentos às tendências, autores como Carlos Figueiredo, Francisco Edmundo,  G. Bender, Amélia Mingas, entre outros, apontam os desvios visíveis na utilização da Língua Portuguesa em Angola como propiciadores do surgimento de uma "nova" língua a que designam por "Angolês, Português Angolano", etc.

Atendendo que as línguas têm sempre diferentes níveis de utilização (vulgar/popular, padrão/norma e erudito/científico), evolução transformação e gestação de novas identidades linguísticas, urge tecer algumas considerações a propósito da Língua de Camões falada em Angola.

O idioma Português não é mais do que a evolução de um conjunto de idiomas ibéricos que parte dos Celta, do Latim, do Castelhano, etc. que em contacto com realidades linguísticas (morfológicas e fonológicas ) africanas, americanas e asiáticas delas tomou empréstimos e ganhou amplitude. O caminho trilhado pelas línguas ibéricas, até se chegar aos idiomas actuais, será, com o tempo, replicado nos países em que o Português chegou por via da colonização/imposição. Essa tendência pode ser observada em Cabo Verde onde do Português e as Línguas africanas da África Ocidental levaram ao surgimento do crioulo cabo-verdiano que já é língua nacional daquele país, coabitando com o Português, língua oficial. Por mais que defendamos a pureza da língua de Camões, teremos de nos vergar, um dia, à evidência e reconhecer facto semelhante em Angola.
O "Angolês" ou outra designação que lhe for atribuída, será apenas uma questão de tempo, de maior criatividade dos falantes, uniformidade semântica dos vocábulos em todo o território e criação de um instrumento morfológico e sintáctico distinto das línguas que lhe dão origem (Português Europeu e línguas bantu e não bantu do território angolano).
Há hoje um novo paradigma linguístico que emerge nos nossos bairros, nas nossas sanzalas, nas aldeias, nas falas do povo que sente “ser mais importante comunicar do que as críticas dos gramáticos”. Há uma nova língua que se vai distanciando cada vez mais da norma, que se expande através música e da literatura, uma língua que é falada e que facilita a comunicação, que já é lida e muito cantada.
Vejamos o caso da expressão “Ontem levei uma torra de katrungugu e fiquei malayke”. Será isso Português, uma gíria ou emergência de uma nova forma de comunicar que se populariza cada vez mais?
Autores como Carlos Figueiredo (em “Projeto Libolo/Português de Angola”) acentuam nos seus estudos que o “Angolese” ou Português de Angola “é  já um facto. Ele já existe e só os conservadores, que continuam presos à norma europeia, é que não querem admitir isso”. Figueiredo atesta ainda que “a confirmação científica do uso de desvios fixa definitivamente a mudança na língua (paradigma dominante), o que constatam já os estudos existentes em sociolinguística quantitativa”. Em Angola, sustenta, o desvio sistemático à norma padrão faz com que se passe de facto social a fenómeno (abrangente) ou seja de algo pontual para algo sistemático.
Angola como Nação que já temos à mão precisa de uma nova identidade, distinta daquela desenhada pela potência colonial. Tal passará também, a meu ver, pela tangibilidade da comunicação. A função primeira da língua é comunicar ou passar a mensagem. Durante largos anos os portugueses incutiram aos angolanos a ideia de que as línguas bantu eram sinónimo de desprestígio social. A nossa identidade milenar que não se perdeu ao longo dos 500 anos de presença europeia refundar-se numa nova forma de articulação oral que passa para a escrita e daí para uma nova norma.
É a consciencialização do “homo angolensis” que se reflecte nos verdadeiros usos de fala de milhões de pessoas. O “Angolense” é e será tão somente o “resgate da  a heranças dos nossos antepassados africanos que foi maltratada, vilipendiada e subvertida durante séculos”. Essa é a homenagem que todos nós lhes devemos.
Posto isso, as questão que coloco são: temos razões para continuar a alinharmos com a norma internacional da Língua Portuguesa? Aqui a resposta é SIM.
Vamos a tempo de escolarizar todos os angolanos ao ponto de falarem o Português "camoniano"? A minha resposta é NÃO.
Teremos cada vez mais angolanos (escolarizados ou não) a falarem a LP com laivos de africanismo? A resposta é SIM.
Que discurso deve levar hoje à escola/universidade um professor de Língua Portuguesa? Do meu ponto de vista,  dizer que já temos uma nova língua (ainda não pautada/normatizada) pode parecer um pouco arriscado. O melhor caminho é ir alertando (gradualismo) que há uma eminência que se vai clarificando com os estudos  que se realizam neste domínio. Os estudantes de hoje serão os cientistas de amanhã. Quando tivermos estudos suficientes e um quórum que permita a apresentação do paradigma, ai sim sairemos (sairão) a público os anunciantes da nova língua que espero caminhe em paralelo com aquela herdada da imposição colonial e que, felizmente, nos permite nesses dias, construir uma Nuno Alberto Nacao num diverso mosaico cultural e etnolinguístico.
Em remate: vão coexistir os que tenderão para o "Português Europeu" e tantos outros (maioria) a marcarem a sua identidade milenar na língua oficial que falam, imposta pelo antigo colonizador, resultando num crioulo. A preocupação de alguns escritores angolanos de levarem, de forma explícita, essa identidade (antes representada apenas nas falas dos personagens) para o discurso escrito, marca já um ponto de ruptura ou anunciação de uma nova realidade tangível e inexpurgável. Há hoje a preocupação de os escritores não só escreverem as pronúncias (redacção difusa), mas atentos à grafia correcta, de acordo aos idiomas bantu e à semântica que encerra.

Quando os estudiosos definirem uma pauta sobre: como se deverão escrever as palavras (léxico próprio), quais as construções sintácticas, como se vocaliza e quais os significados (semântica) aí teremos uma nova língua, distinta daquelas que lhe deram origem, e não levará milénios para acontecer.
Nota: Essa reflexão contou com subsídios de vários amigos do face book e podem ser lidos em www.mesumajikuka.blogspot.com