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quinta-feira, março 01, 2012

A MORTE, A CABEÇA E O FUNERAL DO REI

Entre os ambundu e ovimbundu, povos de Angola (centro e centro-norte), a morte de um rei é uma questão gerida com sigilo pelo ciclo restrito da corte e seguida de procedimentos rígidos.
Essa reflexão e busca da história surge a propósito da morte física do REI EKUKUI IV do Mbalundu, a 14 de Janeiro de 2012, tendo sido levantadas questões como:
- Anúncio da morte do rei
- Questão protocolar, uma vez que o mesmo era deputado a Assembleia Nacional
- Cumprimento dos ritos tradicionais, etc.

Sobre a primeira questão (anúncio da morte), tudo quanto é tradição e debatido no facebook entre os leitores do Soberano Canhanga e do Nguvulo Makatuka, ficou esclarecido que em condições normais a morte dum rei só é anunciada após a separação natural do crânio do resto do esqueleto.

Na tradição ovimbundu o Rei apenas é considerado morto depois de a cabeça estar separada do corpo”. O corpo do rei finado é pendurado a uma árvore tradicional e pela acção da gravidade a cabeça separa-se do resto do esqueleto/corpo. A cabeça é depois depositada no sarcófago real (Ekokoto) e o corpo é finalmente sepultado em local que pode ser o cemitério público para que possa ser visitado.

A tradição diz ainda que se tal rito não for observado, várias pragas podem assolar o reino.

Quanto à questão protocolar, a morte do rei Augusto Kaciopololo do Mbalundu colocou-nos um novo problema, nunca antes observado. Na sua qualidade de Deputado, o finado teve direito a honras protocolares de Estado que colidiram com a tradição. A sua morte foi prematuramente anunciada já que a tradição diz que enquanto a cabeça não estiver separada do resto do corpo o rei deve ser considerado para os seus súbditos apenas doente.
Nguvulo Makatuka escreve na sua página do facebook que Houve uma falha protocolar no caso do designado EKUIKUI IV, cujo processo de morte está em curso. Tendo o coração deixado de bater, diz-se apenas que o Rei está muito doente”.
O que se passou foi que o rei foi de imediato anunciado morto e com direito à presença física do Presidente da República no velório. Seguidamente, sem que o cadáver fosse levado à tumba, deu-se cumprimento do pressuposto tradicional acima evocado quanto à separação “natural” do corpo e depósito do crânio no santuário do reino. Através dessa prática que se contabilizam os soberanos que já passaram pelo trono, bastando contar o número de crânios expostos numa fenda ou floresta (secreta) frequentada apenas por restritos membros da corte.
Mas há outros ritos:   
A tradição também reza que o rei não deve “ir sozinho”. O cadáver do finado rei deve ser sepultado com outros que o acompanham, geralmente uma ou duas "pessoas".

Sobre a questão o já citado Nguvulo Makatuca (António Kassoma de nome próprio) diz no seu escrito que No dia m que o seu corpo for sepultado, não será aconselhável as pessoas andarem pelas ruas, sobretudo sozinhas, há os KATOKÕLA que poderão sacrificar algumas pessoas para que essas façam companhia ao SOBERANO”.

Porém, informações quase concordantes atestam que a prática do sacrifício de “acompanhantes do rei” já não se pratica. “As pessoas apenas não saem de casa por reverência”, atesta ainda NM, também ele procedente do Planalto central angolano, descendente de família real e investigador.

Há ainda quem afirme, (faltou comprovar) que para além desse último rito há ainda outro que atesta que em situação de enfermidade irreversível, os notáveis da corte dão fim à vida do rei no último momento, quando se nota que a partida é eminente. Desta forma "leva-se o rei" em vez de ir sozinho.
São questões e práticas discutíveis por um lado, tendo em conta a ocidentalização da cultura universal, mas também de respeitar, tendo em conta as nossas origens.

Nota: o autor deste blog é neto do Rei  Ñana Ñunji (Pilar), do potentado de Kuteka, no Libolo.