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segunda-feira, agosto 01, 2011

DESMISTIFICAR MITOS SOBRE A LUNDA

- QUANDO E POR QUE DEIXARAM OS LUNDAS DE EMPREENDER?

Tornaram-se comuns vozes pouco avisadas proferirem impropérios contra os povos da Lunda como sendo “improdutivos e, sobretudo, pouco dados à agricultura, ao comércio e aos estudos”. Para desmistificar tais argumentos precisamos de recuar cerca de cem anos de história deste território até ao início da exploração de diamantes.

Antes da descoberta do minério, a Luanda era constituída por povos agricultores, caçadores, apicultores e recolectores. A mandioca e leguminosas como a katapi (amendoim) despontavam entre a produção agrícola para a subsistência. A caça sempre foi um hobbiy e principal actividade masculina de suporte à alimentação (os tucokwe são grandes comedores de carne e possuem florestas onde abundam animais). A caça do elefante (extracção do marfim) e a produção da cera para o comércio com Kasanje (Malanje) foram outra das principais actividades dos tucokwe nos sec. XVIII e XIX. Por outro lado, sempre houve e há ainda nos dias de hoje uma grande entrega destes povos à pesca nos rios e nas chanas alagadas. A olaria, a escultura e outras artes também eram notórias e os europeus fizeram grandes descrições sobre as riquezas artísticas, culturais e agrícolas dos tucokwe à sua chegada ao território de Mwata Yanvua.

O mel e o fel dos diamantes
Se, por um lado, a existência de diamantes em abundância nas terras de Mwacisenge deve ser sinal de regozijo, por se constituir em riqueza mineral e de grande valor comercial, as medidas tomadas para propiciar a sua exploração (semi-artesanal controlada) e outras para evitar a sua extracção e comércio irregulares levaram a Lunda a um adormecimento sem precedentes.

Com a criação DIAMANG em Outubro de 1917 e com direitos exclusivos sobre o território e povos do nordeste de Angola, a região foi governada pela empresa diamantífera como se de um “outro Estado se Tratasse dentro de Angola”. Todas as actividades como educação, saúde, construção de edifícios e estradas, desenvolvimento agrícola e comércio, abastecimento e segurança, etc., passaram sob tutela exclusiva da DIAMANG que apesar dos enormes benefícios económicos que obteve da exploração diamantífera não teve a noção de Estado e de desenvolvimento dos povos e da região.

A título de exemplo, nos territórios mais a norte (Lunda Norte) o ensino estava circunscrito à 4ª classe. Os autóctones não podiam ser muito instruídos para não se aperceberem dos males que estavam a ser praticados e que comprometiam o seu futuro. Não havia movimentação de pessoas nem trocas comerciais com outros territórios, a iniciativa privada estava proibida. Os efectivos economicamente activos eram todos empregues na exploração diamantífera (semi-artesanal e com bastante absorção de mão-de-obra barata), ou nas monoculturas da baixa de Kasanje, etc.

Com este tipo de gestão territorial e humana seria difícil o desenvolvimento de actividades que não fossem aquelas ligadas à mineração e às roças de algodão e sisal em Kasanje.

A Lunda dos tempos da DIAMANG tinha duas capitais: uma era a administrativa (Henrique de Carvalho), por se situar a sul e com menor potencial diamantífero, e outra, a capital produtiva ou técnica, (Dundo) onde se concentrava toda a indústria suplementar à extracção, os técnicos expatriados, o museu, a administração da actividade diamantífera, etc.

Como se não bastasse, já alcançada a independência, embora se pretendesse governar o território em moles diferentes, a existência de potencial diamantífero ainda ditou a gestão diferenciada do território.

O Decreto presidencial 84/78 de 4 de Julho separava a província da Lunda em duas províncias conforme a sua vocação económica. A Lunda ao sul com a sua capital Saurimo que passou a ter uma gestão normal, e a Lunda ao Norte, com a Capital fixada em Lukapa, com uma gestão política e administrativa atípica. E o presidente Agostinho Neto justificava: “esta área, segundo discussões que tivemos no Comité Central do nosso partido MPLA, é uma área especial e, por isso, não poderá viver como nas outras áreas, como nas outras províncias. Esta é uma área de produção de diamantes. E, dado que tem existido o comércio ilícito, a kamanga, nós passamos a tomar algumas medidas… para poder suster esta actividade desonesta que prejudica todo o povo. Uma dessas medidas será a restrição das entradas de cidadãos, de compatriotas nesta província… vamos fazer com que não seja fácil vir a Luanda Norte e chegar ao rio Kwango…"

À semelhança das leis da antiga DIAMANG, um estatuto especial foi definido para a Lunda Norte, Lei C/80 de 25 de Junho, impondo uma restrição rigorosa de entrada e circulação de pessoas e bens (e do conhecimento), proibindo-se, deste modo, o exercício de qualquer actividade económica na província. A Lei 16/88 de 17 de Setembro tornava extensivas as restrições à província da Lunda Sul.

Foi neste quadro que os povos da Lunda perderam os antigos hábitos de agricultura, desleixaram-se um pouco das suas artes, abandonaram o empreendedorismo e o comércio, votados a uma escolaridade que não passava do ensino de base e com uma gama de serviços públicos deficiente. No período de guerra, em que inexistiram as empresas de exploração mecânica de diamantíferas, todo o povo foi à kamanga que por ser de rendimento imediato, embora perigosa, acabou por retirar da agricultura e do exercício de outras actividades socialmente úteis as populações rurais, remetendo-as a um atraso ainda mais profundo.

O hoje e o amanhã
Sendo a vida dinâmica, crescendo com ela os desafios, urge, alterado que está o quadro histórico, político e económico, regressar às boas práticas, ao passado que transcenda os dias negros da DIAMANG e olhar com optimismo para os dias vindouros. É preciso arregaçar as mangas e caminhar porque o futuro de Angola e da Lunda é agora.

É preciso fazer os campos florirem para que rapidamente alcancemos a auto-suficiência alimentar; fazer renascer a pequena e a média industria transformadora e, quiçá mesmo, uma industria pesada que concorra, em termos de absorção de mão-de-obra e tecnologia, com a industria diamantífera; fazer ressurgir o comércio de proximidade e em grande escala; as artes e ofícios devem ocupar o seu merecido lugar na escala social; os filhos devem ser levados à escola e os doentes aos hospitais; aproveitar as potencialidades turísticas e não olharmos apenas para as riquezas do subsolo que são finitas... Se assim procedermos, queimaremos etapas. O executivo e os cidadãos devem fazer, cada qual a sua parte, para a reconstrução e crescimento deste grande edifício territorial e social que é a Lunda.

BIBLIOGRAFIA

KI-ZERBO, Joseph: História da África Negra II, Pub América- África, Paris 1982.
MANASSA, João Baptista: Lunda, História e Sociedade, Mayamba, 2011.
REDINHA, José: Etnossociologia do nordeste de Angola, Lisboa 1949,
SANTOS, Eduardo: A questão da Lunda, Lisboa 1966.

1 comentário:

Bento José dos Santos disse...

...óptimo. Após a leitura deste texto, confesso que fiquei mais esclarecido, quanto a questão de senso comum "o povo Lunda é preguiçoso"; São sempre as questões políticas a se imporem sob o povo!