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sábado, fevereiro 20, 2010

UM OLHAR AO CARNAVAL DA LUNDA SUL

Informações históricas apontam para a existência de três períodos distintos do Carnaval na região nordeste de Angola que abaixo se seguem:


1- Até 1975: O Carnaval estava circunscrito aos bailes urbanos organizados por elites de origem europeia, seus descendentes e alguns assimilados (negros letrados e com hábitos culturais europeus)

2- De 1977 a 1990: O Carnaval passou a realizar-se a 27 de Março ao invés de Fevereiro, conforme dita a tradição desta festa de origem pagã. A festa ganhou uma carga política e ideológica, popularizou-se e se tornou de carácter quase “obrigatória” em todo o país. Note-se que 27 de Março de 1976 foi a data em que fora expulso do solo angolano o último dos invasores sul-africanos e mercenários que tentaram impossibilitar a proclamação da independência do país pelo MPLA e Agostinho Neto, a 11 de Novembro de 1975, daí que o Presidente Neto propôs a data para a festa da vitória, ganhando a assim a designação de “Carnaval da Vitória”.

3- CARNAVAL “DO EMPATE”: de 1991 à data presente, a festa popular perdeu a carga ideológica, voltou à espontaneidade com maior realce à criatividade na indumentária, dança, canto, alegoria e outros adereços. Ganhou corpo a participação da classe empresarial pública e privada como patrocinadores, o que tende a diminuir gradualmente a responsabilidade do Governo na organização dos grupos. O Carnaval actual evolui, em todo o país e em todos os sentidos, para uma indústria, à semelhança do que se passa noutras cidades e países.

No que se refere ao nordeste de Angola, dois aspectos ressaltam à vista do visitante e do habitante local: a evolução cultural, fruto das vivências e empréstimos culturais com outros povos e a preservação da matriz cultural do povo Cokwe.

Quem assiste ao Carnaval dançado em Saurimo vê duas formas (muitas vezes combinadas) de execução das danças típicas do nordeste, a Cianda e a Cisela. Os grupos carnavalescos da cidade mostram cada vez mais inovações, fruto de influências de outras danças e ritmos, ao passo que os das aldeias periféricas e outros idos de municípios do interior exibem ainda uma dança “mais conservadora”, ao som rítmico do ngoma , executado por menores e adolescentes que são, ao fim e ao cabo, os continuadores da pureza da cultura deste povo.

Assistindo, de forma crítica e interessada, ao Carnaval da Lunda wa kuthu fica-se com a impressão de que qualquer júri nomeado para julgar a festa popular sente dificuldade em eleger o grupo vencedor de qualquer edição e tal acontecerá em 2011. Concorreram para tal dificuldade a evolução cultural e a manutenção da matriz cultural deste povo Cokwe no seu aspecto mais tradicionalista.

O Grupo AMA (vencedor da edição 2010) apresenta-se como o rosto visível de um Carnaval moderno, com todos os adereços que se esperam duma festa que reúna o tradicional e o moderno. Os grupos representantes dos municípios de Mukonda Dala e Kakolo mostram por sua vez que lá está o viveiro da cultura autóctone dos tucôkwe.

É também importante notar que no nordeste de Angola “o Carnaval não tem tradição , sendo os momentos de festa mais marcantes as cerimónias de mukanda , daí que estes povos podem, e a curto trecho, desenvolver uma festa híbrida que englobe o moderno e o tradicional que se pode converter num grande atractivo turístico.


REFERÊNCIAS

1- MANAÇAS, Abreu: entrevista à RNA Lunda Sul, 15/02/10
2- O carnaval que se segue ao da vitória resulta da instauração do multi-partidarismo e perdeu a feição partdária pró MPLA, voltando à espontaneidade popular. Designo-o por carnaval do empate, pois o Presidente Eduardo dos Santos dizia que para a VERDADEIRA reconciliação nacional entre os angolanos era importante que não houvesse nem vencedores nem perdedores.
3- Cianda é dança típica do nordeste de Angola. Outras danças típicas dos tucôkwe são a cisela e a makopo.
3- ngoma é batuque
4- Mukanda é  cerimónia de iniciação: masculina = mukanda ua kandanji e feminina = mukanda ua mwana pwo).

Luciano Canhanga

(Comunicólogo)



quinta-feira, fevereiro 04, 2010

FORMAÇÃO E MOBILIDADE JORNALÍSTICA NAS FM DE LUANDA

= é um fenómeno normal de mercados concorrenciais =
A LAC, criada em Setembro de 1992 antes das primeiras eleições multipartidárias; a Eclésia, ressurgida em 1997; a Despertar, substituta da VORGAN e a Rádio Mais, criada em 2009 constituem as rádios comerciais de Luanda e que emitem em Frequência Modulada. Todas elas subsistem, teoricamente, da comercialização de espaços, campanhas publicitárias e anúncios.

A Rádio Luanda, Rádio Cinco, Rádio FM Stéreo e a Rádio Escola (vinculada ao Ministério da Comunicação Social) estão ligadas umbilicalmente à Emissora Pública Nacional, a RNA.

Em 1992, quando da abertura da LAC, o que o mercado assistiu foi uma fuga dos melhores quadros da RNA para a novel emissora, fruto do factor novidade da sua programação, mais condizente com a realidade política-democrática do momento, e dos atractivos salários que praticava. O país entrava para a concorrência e sopravam ventos de mudança em todos os sentidos. “A camisola tinha sido colocada no roupeiro e o estômago já tomava decisões laborais”.

Assim, vimos jornalistas como Ismael Mateus, Paula Simons, Pedro Correia, José Rodrigues, Mateus Gonçalves, Amélia Pombo (de Aguiar), entre outros, juntarem-se à directora Maria Luisa, na LAC.

A RNA mais se parecia a “uma senhora que perdera os melhores filhos”. A retomada das emissões da Eclésia só viria a complicar ainda mais a situação da RNA que mal se refez do “tufão LAC” viu outros dos seus melhores filhos partirem. Destacam-se nesta “emigração” nomes como os de Mário Vaz (hoje na TPA), Laurinda Tavares, entre outros, que faziam o núcleo áureo das manhãs informativas da Nacional. Até a LAC ganhou concorrência e não deixou de ver jornalistas e sonoplastas “rezarem” na Emissora Católica.

O cenário de Luanda era também vivido nas províncias de Cabinda Benguela e Huila onde as FM Comercial, Morena e 2000 faziam concorrência às apêndices da RNA, as emissoras locais.

Havia esperança de que a abertura democrática do país à economia de mercado de livre concorrência viesse a potenciar a produção e concomitantemente o mercado publicitário que é a grande alavanca financeira da média privada.

O retomar da guerra, porém, e a estagnação da produção nacional veram a criar sérias dificuldades financeiras às emissoras comerciais, o que levou também à estagnação dos investimentos e dos salários, para além de uma tenaz máquina intimidatória contra a média privada e jornalistas mais espevitados que partia do “Edifício da Avenida dos Combatentes”.

Os profissionais do grupo RNA, por sua vez, viram os seus ordenados melhorados, protegidos pelo poder político instituído, graças à informação paternalistas que veiculavam, e ainda bafejados com ofertas de casas, viaturas e postos de chefias. Para este ultimo aspecto, bastará olhar para a estrutura orgânica dos OCS púbicos, havendo nalguns casos chefes sem subordinados.

Estes factores pesaram bastante para o retorno de muitos profissionais que tinham emigrado, levando consigo jovens recém-formados pelas FM privadas.

A melhoria dos salários, as viagens ao exterior, a estabilidade do emprego, entre outras regalias, foram “armas decisivas” para a inversão do fenómeno migratório a favor da média pública.

As comerciais passaram à condição de simples formadores de mão-de-obra que uma vez experiente viam partir, fruto do assédio da media pública que tinha igualmente interesse em esvazia as FM e diminuir o seu poder de influenciar a opinião pública. A TPA, RNA e o Jornal de Angola estão hoje repletos destes jovens (do meu tempo e de tempos mais próximos).

Hoje, o tempo médio de permanência de um jovem numa comercial vai até um ano, o que corresponde exactamente ao período de um estágio bem sucedido. Esse factor levou também à depreciação da qualidade do serviço jornalístico destas emissoras que, embora conservem alguns “mais velhos” que definem as políticas editoriais e os conteúdos programáticos, se vêem forçados a trabalhar com executores inexperientes e com fraco domínio da língua e das técnicas.

Se as comerciais precisam hoje de jovens inexperientes, por serem pouco exigentes quanto ao salário, estes jovens também precisam das comerciais como trampolim para outros vôos. É nelas que rapidamente se afirmam e encontram, o mais cedo possível, quem para eles acene. Essa é a realidade nas redacções jornalísticas da media privada, em geral, onde a mobilidade é tão grande, chegando a haver renovação completa em apenas 24 meses ou menos, sendo destino a comunicação social pública, a Nova Media (de capitais híbridos), a assessoria de imprensa e afins.

Outro factor que propicia a constante mobilidade dos jovens jornalistas tem sido a elevação da formação académica em áreas não relacionadas com o jornalismo e as ciências da comunicação. Uma vez terminadas as licenciaturas, os jovens partem para a aplicação prática dos seus conhecimentos académicos. Assim, o jornalismo radiofónico, em particular, tornou-se numa porta de passagem para outros destinos bem mais remunerados e valorizados, deixando de ser, a arte de informar, um ofício atrativo para muitos jovens com reforçado apego ao dinheiro e estabilidade material.

Fruto desta situação, assistimos também à carência, no mercado angolano, de jornalistas de grande gabarito e performances para as mais díspares necessidades. Os grandes gurus vêem-se sem discípulos sérios para legar conhecimentos, devido à efêmera estadia dos jovens nas redacções, e o mercado externo começa a ser a solução para o preenchimento de vagas nas redações. Estes expatriados, nem todos de boa qualidade, acabam por inflacionar o mercado, “colonizar” o nosso espaço mediático com vícios de outras paragens e jargões que não se adaptam nem ao nosso “linguajar”, nem ao nosso ser e estar.

Que solução?

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