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domingo, fevereiro 17, 2008

ANGOLA ENTRE A POBREZA E A MISÉRIA


Começo esta reflexão com alguns elementos que nos podem levar a compreender o fenómeno pobreza.

A pobreza pode ser entendida em vários sentidos, principalmente como: Carência material; tipicamente envolvendo as necessidades da vida quotidiana como alimentação, vestuário, alojamento e cuidados de saúde. Pobreza neste sentido pode ser entendida como a carência de bens e serviços essenciais.

Falta de recursos económicos; nomeadamente a carência de rendimento ou riqueza (não necessariamente apenas em termos monetários). As medições do nível económico são baseadas em níveis de suficiência de recursos ou em "rendimento relativo"; Carência Social; como a exclusão social, a dependência e a incapacidade de participar na sociedade. Isto inclui a educação e a informação; Carência energética para mudar o que não pode ser mudado. Falta de auto-estima, baixa espiritualidade.

O Banco Mundial define a pobreza extrema como: viver com menos de 1 dólar por dia (PPP) e pobreza moderada como viver com entre 1 e 2 dólares por dia. Estima-se que 1 bilião e 100 milhões de pessoas a nível mundial tenham níveis de consumo inferiores a 1 dólar por dia e que 2 biliões e 700 milhões tenham um nível inferior a 2 dólares.

Outros indicadores relativos à pobreza estão também ligados à esperança de vida, o nível de literacia, e sobretudo das mulheres.

Factores causadores da pobreza: Corrupção, inexistência ou mau funcionamento de um sistema democrático, fraca igualdade de oportunidades; Factores económicos: sistema fiscal inadequado, representando um peso excessivo sobre a economia ou sendo socialmente injusto; a própria pobreza, que prejudica o investimento e o desenvolvimento, economia dependente de um único produto; Factores sócio-culturais: reduzida instrução, discriminação social relativamente ao género ou à raça, valores predominantes na sociedade, exclusão social, crescimento muito rápido da população; Factores naturais: desastres naturais, climas ou relevos extremos, doenças; Problemas de Saúde: drogas ou alcoolismo, doenças mentais, SIDA e a malária, deficiências físicas; Factores históricos: colonialismo, passado de autoritarismo político.

Consequências da Pobreza

Fome, Baixa esperança de vida, Doenças, Falta de oportunidades de emprego, Carência de água potável e de saneamento, Maiores riscos de instabilidade política e violência, Emigração, Existência de discriminação social contra grupos vulneráveis, Existência de pessoas sem-abrigo, Depressão.


ENTRE NÓS ANGOLA

Lá se foram seis anos de paz. Os economistas apregoam progressos económicos derivados do controle da taxa de inflação, numa altura em que os cofres do Estado são gracejados pela alta do preço do petróleo no mercado internacional.

Mas, Angola apesar de vender muito petróleo e a bom preço, também compra ainda muito bens e muito caro, fruto do reflexo da mesma carestia do ouro negro no mercado internacional.

Cá dentro, as estatísticas da ONU dizem que cerca de 70% dos 15 milhões de angolanos vive abaixo da linha da pobreza (misérias) enquanto o fosso entre os que muito têm e os que nada têm aumenta a olhos vistos. Basta olhar para ostentação de riqueza de uns e a “ostentação” de miséria da maioria. Os entendidos atribuem a causa à má distribuição de riqueza.

Mas não é só. Muitos campos deixaram de produzir e aqueles que retomaram não têm como maquino-facturar os produtos do campo ou levá-los aos principais centros de consumo. Basta olhar para a quantidade de citrinos que se estragam no Zaire e Uige, as maças e peras que se estragam na Huila e Bié, o tomate que no Bom Jesus se joga ao rio para engordar os cacussos e aos ananases que deixaram de abastecer as fábricas de licores do Dondo, Catumbela ntre outras. A produção dos “teimosos”camponeses tem como destino o lixo.

O Petróleo é a fonte primeira das receitas do Estado, com cerca de 80% do PIB, enquanto que os diamantes contribuem com 1/10 do Produto Interno Bruto, receitas que as autoridades dizem investir na reconstrução do país, juntamente com o “dinheiro da China”.

Que há obra, isso há. Mas que há ainda falcatruas na distribuição do rendimento, desafio quem tenha a coragem de me jogar a primeira pedra.

Para os economistas, a economia angolana evoluiu nos últimos cinco anos, tendo voltado a figurar entre as dez que mais cresceram em 2006 e 2007, segundo o relatório das Nações Unidas sobre as economias africanas. Na lista dos “números bonitos” retém-se ainda que a Taxa de Crescimento Real do PIB angolano aumentou 9% em 2003, 1,50 % em 2004, 11% em 2005, 19,90 % em 2006 e 15,00 % em 2007.





É. Eles é que entendem de macro e micro-economia. Eles é que têm as réguas e esquadros para fazer as medições no papel. Mas em casa, quem tem a "candimba" para medir o arroz somos nós, o povo. E a maioria ainda não tem arroz para os trinta dias de um mês. E é curioso que até os sindicatos de tanto pedirem e nunca receberem leite, este ano decidiram pedir pão e chá. Quem não ouviu as declarações no 1º de Maio?

Olhando para a capital, Luanda, encontramos uma cidade com mais de 4 ou 5 milhões de habitantes, número desproporcional, tendo em conta o efectivo demográfico do país que aponta para 14 a 15 milhões de habitantes. Luanda, por si só, detém mais de um terço da população angolana. Em Luanda o governo aloca grande parte dos recursos tentando dar um mínimo de dignidade de vida a uma cidade que cresceu e cresce de forma desordeira com um deficit entre a demanda da procura e a oferta de serviços sociais básicos.

Quanto ao “resto do país” (o interior), este continua a espera de bons tempos. Os teóricos dizem que Luanda é espelho de Angola e por isso deve estar à altura de uma cidade capital, esquecendo-se que enquanto mais se investir nela em desfavor das demais regiões e províncias, mais se proporcionará o êxodo do interior para a capital.

E o resto é Angola menos Luanda ou seria o contrário? Olhemos então para fora de Luanda. Quem trava a população a população rural ou das cidades interiores a ir para Luanda, quando não se fazem condomínios de Luxo como na capital, quando não se constroem universidades como em Luanda, quando não se oferecem empregos dignos como em Luanda e quando até o salário mínimo do camponês é diferente dos outros mínimos. Assim até eu irei a Luanda.

Em suma: Até um sego pode ver que a assimetria entre a capital e as províncias é enorme. E parece menor se comparada com as paralelas assimétricas que dividem os ricos inacreditavelmente ricos e os inacreditavelmente mais pobres, de Luanda e do país.

Que há obra, há. Crescem novos edifícios em todo o país, reconstroem-se e constroem-se estradas, surgem novas empresas, mas os efeitos não são sentidos ainda por todos ao nível do bolso.

O salário mínimo equivale ao que a rede comercial estatal "Nosso Super" designa de cesta básica mínima. O trabalhador com salário mínimo se come, não pode pagar a renda de casa e se o fizer não pode comer… E vêm os economistas angolanos a dizer que o salário mínimo subiu 100% em cinco anos, como se a vida estivesse já toda ela boa da silva.

Luciano Canhanga