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quarta-feira, novembro 14, 2007

NGOYA OU KIBALA EIS A QUESTÃO


ECHE NI? QUEM SOMOS NÓS (os Kibala)

Debruço-me hoje sobre o nome da língua dos Kibala ou seja a língua que se fala na Kibala e arredores. (Incluo aqui todos os povos do Kuanza-Sul que não se considerem Ambundu ou Ovimbundu, povos e línguas com as quais os Kibala mantêm empréstimos).

Enquanto garoto ouvi sempre de minha mãe, meus avós e demais membros da comunidade (Nasci na fronteira entre Libolo e Kibala) que a expressão Ngoya se referia a indivíduos sem educação, sem maneiras, sem asseio, ou seja, uma expressão que caracteriza o individuo fora do padrão de convivência comunitária.

Ouvi também por parte de aldeões oriundos do planalto e que trabalhavam nas fazendas de café, lá no Libolo, a mesma expressão Ngoya caracterizando-nos sempre que fosse em termos depreciativos. Quando alguém fizesse algo incomum era tido como Ngoya. Mesmo nas brincadeiras "estúpidas",na escola, era assim que os filhos dos oriundos do planalto (ovimbundu) nos tratavam.

Akua nano (equivalente à expressão "os de cima" ou os do Norte) é outra expressão com que os povos planálticos se referem aos seus vizinhos e ascendentes Kibala.

Fruto destas experiências, soube sempre que ser Ngoya era estar “fora da lei” e que a expressão em si estava carregada de sentido pejorativo.

Já nos dias da minha mocidade, e em Luanda, comecei a ouvir a nova versão do termo. Designando a língua que se fala na região Central do Kuanza-Sul, ou seja na Kibala.

Daí que carrego comigo a dúvida e pretensão de esclarecer se na verdade Ngoya é a designação da língua dos Kibala.

Partindo do princípio de que os Ambundu falam Kimbundu: os Ovimbundu; Umbundu, os Portugueses; Português e etc. etc., conservando-se a palavra matriz nas duas expressões que caracterizam os povos e as respectivas línguas, por que razão haveria tanta diferença entre a designação do povo Kibala e a sua língua (no caso povo Kibala, língua Ngoya)?

A meu ver, é mais razoável que Kibala seja a língua dos povos da Kibala tal qual Nganguela é língua desse mesmo povo, no caso corrente não havendo diferença na designação do povo falante e da língua falada.

Gabriel Vinte e Cinco na sua obra “Os Kibala” faz uma abordagem sobre a origem Ambundu dos Kibala através das migrações seculares do norte/nordeste para Centro/Sul, e diz ainda não ter encontrado ao longo das suas pesquisas no terreno (motherland) nenhuma relação entre a expressão Ngoya e a língua dos povos Kibala.

Falam ainda, Vinte e Cinco e Moisés Malumbu, este último na sua obra “Os Ovimbundu do Planalto Central de Angola” sobre a descendência Kibala dos povos Mbalundu e Ndulu (Bailundo e Andulo) importantes reinos planálticos.

A ausência de referência a um suposto povo Ngoya ou uma suposta língua Ngoya leva à terra qualquer argumento que associe a expressão depreciativa Ngoya à designação da língua dos povos Kibala.

Ngoya é um termo difundido e de forma profusa pela Rádio VORGAN, primeira estação a criar um programa na língua Kibala, erradamente designada por língua Ngoya.

A partir de 2007 o canal Ngola Yeto da RNA criou igualmente um programa na língua dos povos da Kibala a que também designou por “Programa em Ngoya”.

Creio que nenhum estudo aprofundado terá sido feito no terreno para se certificar da verdadeira designação deste instrumento de comunicação, levando-nos quase a tomar tal expressão como real e comummente aceite.

Se as iniciativas das Rádios citadas tiveram e têm o seu mérito pela revalorização da língua, permitindo assim a multiplicação de falantes e uma maior reflexão e estudos sobre a mesma, urge também necessário definir, e de forma acabada, a verdadeira designação da língua que se fala na região Central do Kuanza-Sul, uma missão a que somos todos chamados.

Ngoya ou Kibala eis a questão…

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Luciano Canhanga