segunda-feira, agosto 01, 2016

OS REFORÇOS E OS PESOS MORTOS NAS ORGANIZAÇÕES


Numa dada formação que frequentei sobre Gestão de Capital Humano nas Organizações, o mestre falava, a dado momento, sobre os "pesos mortos", suscitando grande interesse dos estudantes.

E dizia ele que “pesos mortos” eram as pessoas que sempre se faziam presentes ao local de prestação de serviço mas que nada moviam para dinamizar as rotinas de trabalho e o crescimento das organizações. Pessoas que se constituíam em “peso” porque têm honorários e outras regalias, mas “mortas” porque não acrescentam valor à equipa e à organização.

O “peso morto” é alguém excessivamente burocrático, que nunca traz algo de novo, não faz o que dele se espera e está sempre resistente a novas ideias. É aquele que está sempre a escudar-se no jargão "aqui sempre fizemos assim", porém, nunca faz nem como "sempre se procedeu no passado" nem como se pretende inovar.

E lembrava o mestre, uma célebre passagem de Einstein que atesta que para se ter resultados diferentes é preciso fazer de forma diferente ou inovadora. "Tolo é quele que faz as coisas do mesmo jeito augurando por resultados distintos".

O “peso morto”, segundo o professor que venho citando, apesar da sua inércia, almeja sempre posições de conforto ou de comodismo. Alcançar a chefia é o seu mais alto desiderato. Uma vez indicado para um posto de liderança, o “peso morto” confia tudo à equipa, inventa reuniões (quando realmente existem nunca contribui com inovações, entrando calado e saindo mudo dos encontros em que participa). Junto dos seus colegas de equipa, o “peso morto” apresenta frequentemente um semblante cansado e carregado, como se estivesse muito atarefado e sem tempo para mergulhar nos desafios da equipa e com ela encontrar soluções.

Na verdade, “o peso morto” não sabe executar tarefas, nunca foi bom técnico e evita que os seus liderados se apercebam de suas fraquezas profissionais. É por isso que, quando nomeado, o peso morto se "tranca na chefia".

O “peso morto” é pernicioso às organizações pois distribui energia negativa à equipa. Contribui para a desmotivação dos colegas de jornada. Depaupera a organização a que está vinculado. É um esforço e nunca um reforço para a equipa e a organização.

Aí onde haja esse tipo de colaboradores ou quem se reveja nessa triste condição, deve seguir apenas um de três caminhos possíveis:

ou se regenera, pois ainda vai a tempo de seguir a caravana dos que realmente se empenham e preocupam com o trabalho;

ou se aposenta, cumprido o tempo de serviço ou idade para a reforma;

ou procura por uma organização em que não se peça trabalho, inovação e lealdade aos princípios corporativos.

 Felizmente, vejo que "aqui não há pesos mortos"!

sexta-feira, julho 01, 2016

REVISITANDO A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO ORAL


Nkidyafuka: é o vocábulo bakongo que designa quem tem dívida há muito por pagar ou impagável. Essa condição em que se encontrava o meu primo Segunda João, a quem que ajudei a criar, levou-me a Mbanza Kongo, percurso de mais de 450 Km por terra, em estrada ainda bem cuidada.

Entre colinas que escoam abundante água pluvial para riachos e canais temporários, cresce o mosaico habitacional, destacando-se o tijolo (cor) do adobe queimado e que confere resistência e longevidade aos imóveis.

Para quem como eu não ia a Mbanza Kongo há dez ou mais anos, a cidade cresceu em tamanho e qualidade de vida dos seus habitantes: há mais casas e edifícios erguidos na vertical, há mais asfalto, largos e novos monumentos e, acima de tudo, mais sorrisos nos rostos das pessoas, longe do que um jornalista gozão tratou, em Abril de 2005, por "cidade de rua e meia".

A receber quem chega de Luanda está um monumento que representa o topónimo do antigo reino: um caçador (nkongo), munido de kanyangulu, outros instrumentos menores de caça, um valente cão (também necessário ao caçador) e acompanhado por uma senhora que leva os víveres e que, com certeza, confecciona a jinginga servida ao jantar.

Mas estou ainda no Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis e aproveito prosear:

- Mana, boa tarde!

- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?

- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar, mas tem de estar quente e forte.

Enquanto a jovem ligava a máquina aproveito provocá-la:

- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?

A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos acumulados ao longo do tempo e da instrução e quase naufraga.

- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e o meu pai é que é de Mbanza (Kongo).

Mariana desviou a resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por um seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:

-  A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".

João Nevumba, como se apresentaria já na hora de despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:

- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece que está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.

Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e  Mbanza a Kongo.

Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido "nkongo" (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza (capital) a Congo, na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo,  o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore (tipo). Porém, o facto de ter acolhido vários "kuhu" (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de yala kuhu.

O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e  tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.

A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado ao nkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).

Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo. Sobre o desrespeito à mítica Yala Kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um elicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".

Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o Ntotila uma vez e para o entronizar", concluiu.

Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 450km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E, quiçá, recontar também?!

quarta-feira, junho 01, 2016

A VINDA DE KISASA


Kisasa kumbi otoka bukanga tuzeketu!
Será tanta a saudade que pernoitar no quintal a conversar e recordar o antigamente será um imperativo. Resta saber quem é o meu Kisasa (Folha Caída).
Você tem um(a) amigo(@) assim, de ficar a falar até altas horas? Kisasa kumbi otoka é letra de uma canção popular entoada nas festas de xirimina (guitarra). Fez muito sucesso em todo o Kwanza-Sul e proximidades, no tempo da guerra civil, quando a guitarra do artesão e o bujão (invólucro  de projéctil de BM-21 ou pedaço de tubo de PVC com uma das extermidades vedadas e que, tapada no topo com uma das mãos, quando projectado verticalmente ao solo másculo, fazia um som semelhante ao do batuque).
E, fazia-se música e poeira noite adentro!

domingo, maio 01, 2016

EM TEMPO DE CRISE: ANDAR JÁ É POUCO!

Dois casais amigos decidem ser inovadores nas célebres trocas de presentes que se verifica no dia dos namorados.

Luó e Mavoyo e Geny decidiram não cair nas extravagâncias doutros tempos e, vivendo um período de contenção, acordaram em fazer a troca de presentes na hora do pequeno-almoço. Na verdade, o presente seria um bem alimentar que normalmente se usa na refeição.

Maludi e Cácata, outro casal, sabendo do plano dos amigos pensaram numa maior ousadia: cada levaria ao local combinado para a troca de presentes uma ideia inovadora para gastar menos e arrecadar mais.

Chegados a 14 de Fevereiro, dia dos namorados, Luó, jovem funcionário público, levou à mesa um pão de leite forrado e decorado. Mavoyo, uma estudante de antropologia, abriu a gaveta da mesa e retirou, coincidentemente um pão que havia comprado e guardado de véspera. Era um casal recém-unido e que vivia ainda sem filhos. Ambos apreciaram a coincidência e a simplicidade dos presentes que, de tudo, foram inovadores na nova forma como abordavam a gestão da economia doméstica e a poupança  que se impunha.

Do outro lado da Avenida, Maludi que ainda não se juntara a Cácata combinaram um encontro no jardim da cidade, meio caminho das casas de ambos. Sem dinheiro, Maludi leu um livro “Ideias que valem milhões” e compilou uma com que se decidiu em presentear a namorada.

- Ela estuda economia e sei que mais do que coisas ela vai gostara da ideia que pode dar-lhe variadíssimas coisas no futuro. – Disse para si mesmo.

Cácata tinha participado de uma formação sobre Micro Finanças e Economia doméstica e não teria outro presente a dar ao namorado senão “Como gerir o pouco e fazê-lo crescer”.

Como é próprio de namorados, o encontro, no jardim, foi regado de beijos e abraços. Falaram sobre o presente e sobre o seu futuro. Na hora da despedida que corresponderia a troca de ideias, Cácata, a jovem, pegou num envelope em que estava a sua sugestão para que Maludi gerisse melhor o seu ordenado e o fizesse crescer. Maludi fez o mesmo. Sugeriu que a sua amada “ressuscitasse as valências adormecidas e abrisse um centro de superação de dúvidas já que tinha o sonho de ser professora e já o fazia de graça”.

Luó e Mavoyo trocaram pães e cada ficou com um pão. Maludi e Cácata trocaram ideias e cada ficou com duas ideias. A que preparou para oferecer e a que recebeu de presente. Em tempo de crise é importante trocar ideias.

 Essa nota introdutória remete-me ao meu bloco de notas para rebuscar as principais ideias trocadas na palestra sobre Gestão de Economia Doméstica, realizada no Ministério da Geologia e Minas e que foram oradores os economistas António Kibonda e Lourenço Kibonda. Eis algumas ideias:

A)     CRISE:  para os japoneses e chineses significa PERIGO e OPORTUNIDADE. Logo deve ser aproveitada como oportunidade para fazem melhor.

B)      Fazer a coisa da mesma forma não produz resultados melhores. Hoje, a mesmice produz já resultados menores.   

C)      Ao gastar é preciso definir prioridades.

D)     Para definir prioridades é importante Planificar, Disciplina no cumprimento do planificado e Determinação que se pode traduzir em resiliência ante a tentações de adquirir o que não esteja no plano.

E)      É importante ir às compras com uma lista de necessidades e valores para cada item, resistindo à compra de produtos periféricos que podem desestruturar o plano de compras.

F)      O crédito e o parcelamento são as melhores formas de pagamento numa economia devidamente estruturada.

G)     Antes de comprar deve colocar-se as perguntas: (i) - preciso realmente disso? (ii) - posso comprar? (iii) - tem de ser agora? (iv) – a compra tem de ser agora? (v) – existe um produto alternativo mais barato?, (vi) – a despesa está planificada?

H)     Em tempo de crise, CRIE. Altere as prioridades e mantenha os valores (princípios). Priorize as aptidões adormecidas. Saia da área de conforto, pois,

I)        Quem não estabelece prioridades desperdiça oportunidades.

J)       Para medir o grau de prioridade, avalie o grau de Importância e de Urgência.

Faça como Maludi e Cácata. trocaram ideias e cada ficou com duas ideias em vez de um presente apenas. Cultive-se e circule informação.

sexta-feira, abril 01, 2016

KULUNDULA: LEVIRATO E SORORATO EM ANGOLA

LUNDULAR: é um vocábulo Kimbundu que significa: trespassar, substituir por, passar para, etc. É o acto de amancebar-se com a irmã, sobrinha ou prima da finada esposa ou, no caso feminino, juntar-se ao cunhado, sobrinho ou primo (sempre mais novo do finado, pois o irmão mais velho está na categoria de sogro/a).
O termo latino é levirato ou levirado (para o caso masculino) e sororato (caso feminino): o costume, observado entre alguns povos, que obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando este não deixa descendência masculina, sendo que o filho deste casamento é considerado descendente do morto.
Este costume é mencionado no Antigo Testamento como uma das leis de Moisés. O vocábulo deriva da palavra "levir", que em latim significa "cunhado". A lei do levirato (em hebraico: yibum) é ordenado em Deuteronômio 25:5-6 na Bíblia hebraica e obriga o irmão a se casar com a viúva de seu irmão falecido sem filhos, com o filho primogênito sendo tratado como do irmão falecido, (ver também Gênesis 38:8), que torna a criança seu herdeiro e não herdeiro do pai genético.
Há uma outra cláusula conhecida como chalitsá (Deuteronômio 25:9-10), que explica que se um homem se recusa a realizar este "dever", a mulher deve cuspir em seu rosto e tomar um de seus sapatos, sendo que os outros na cidade devem sempre chamar-lhe de "o sem um sapato". Embora esta disposição implique que um irmão pode optar por sair do casamento levirato, não há nenhuma disposição nos Livros de Moisés para a viúva a fazê-lo.
Autoridades judaicas, (período talmúdico) desencorajavam fortemente o yibum a favor da chalitsá. Defendiam que devia haver uma proibição geral de um homem se casar com a mulher de seu irmão e que nem em todas as situações um yibum não fosse necessário (por exemplo, o falecido tinha um filho) ele seria proibido.
Em Angola há registo da prática de levirato e sororato entre os ambundu e outros povos bantu. Ainda existem exemplos vivos de pessoas que se tenham amancebado com cunhadas ou cunhados, não sendo, entretanto, tal prática executada como determina Moisés, em Deuteronômio 25:5-6, pois os casos angolanos que me chegaram ao conhecimento foram observados devido à necessidade de se dar uma educação no seio de uma mesma família, para não dividir e dispersar uma herança comum, assistência à viúva, etc.
Não tenho conhecimentos de que haja registos/estudos aprofundados sobre o caso, nem informação que aponte que a prática tenha deixado completamente de existir nas comunidades mais distantes dos centros urbanos, onde ainda escasseia a formação, informação e absorção massiva da cultura ocidental.
Num relatório datado de 2005, a AJPD - Associação Justiça, Paz e Democracia- referindo-se ao levirato e sororato informa que "embora reduzida, ainda existe (em Angola) em diversas regiões do país, sendo que a adopção não se dá apenas na forma de assistência financeira à viúva mas também sexual". O relatório avança ainda que "o desconhecimento das causas de morte do 'de cujus' e o estado de saúde dos que vão praticar o acto é uma preocupação, porquanto pode ser vector de transmissão de DTS´s". Em 1997, num pronunciamento na Assembleia Nacional, a então Ministra da Família e Promoção da Mulher, Cândida Celeste da Silva, afirmou a existência de tais práticas em algumas regiões do país (não as citou), ao mesmo tempo que desmentia a existência de mutilação genital feminina (http://servicosocialportugues.blogspot.com/2007/05/servio-social-inexistncia-de-prticasde.html, 05.09,2014.
Apoio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Levirato (05.09.2014, 09h50).

terça-feira, março 01, 2016

FUBA DE BOMBOM OU DE BOMBÓ?


Questionou-me alguém conhecido em mensagem escrita ao telefone.
Tendo tomado como pertinentes a pergunta colocada e a resposta que me veio repentinamente, sou a partilhar com os demais interessados.
Ora bem, o que designamos por fuba (termo derivado do Kimbundu suba) é farinha, em Português. Pode ser farinha de milho, de mandioca, de trigo, de peixe, de batata, de banana, etc.
Bombó provém do Kimbundu mbomba (mandioca demolhada).
Fuba de bombó é uma expressão (nome) angolana que, em Português, equivale a farinha de mandioca.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

UM GRITO PELA FORTALEZA DE KALULU


Construída sobre o Monte Lukulu, que estará na origem da designação da vila de Kalulu, vila sede do Libolo, no Kwanza-Sul, a Fortaleza de Kalulu (ou Calulo nome oficializado nos registos topográficos) foi um dos maiores bastiões da resistência nativa à fixação dos europeus nas terras de Ngola até ao século XX.

Nos tempos da minha infância e adolescência, na década de noventa do século XX, ela cumpria ainda o seu papel militar, sendo o local onde se concentravam as melhores peças de artilharia do exército governamental que fazia face a uma rebelião armada e, por isso, seu último reduto. O entrar e sair de militares era sempre tido como sinal de algum alerta de que o cheio a pólvora podia estar próximo ou sinónimo de novas aquisições em termos de tecnologia militar. Basta ver que o Palácio do Administrador está erguido à entrada do forte.

No tempo da guerra civis entre angolanos a Fortaleza de Kalulu era um local inacessivel a civis comuns, sendo quase místico para a miudagem do meu tempo o que havia e ou acontecia no seu interior, para além das "armas pesadas" e dos "tropas mais cacimbados" que entravam e saíam. Das raras vezes que vi o seu controlo a mudar de mãos, mesmo que fosse por curtos minutos, senti parte da derrota, assim como sentia dor ao ver pedaços de pedra a ela arrancados à força de canhões e morteiros. Mas, dia depois, retornados duma fuga forçada, lá estávamos de novo, a curar as feridas, apagar as cinzas e a contemplar a dureza da nossa Fortaleza contra a qual, infelizmente, a acção voraz do tempo tem sido implacável.

A abertura da Fortaleza de Kalulu ao público aconteceu nos anos de paz efectiva, isto é, depois de 2002. Com a desmilitarização da vila de Kalulu a fortaleza passou a acolher as antenas reprodutoras dos sinais da Televisão Pública de Angola e da Rádio Nacional de Angola.

Embora seja considerada pelos nativos do Kwanza-Sul e por muitos historiadores, que leram sobre ela ou a visitaram, como um "local de memória colectiva", desconheço a existência de um diploma legal que a eleva a património Histórico Nacional, como acontece com outros edifícios classificados, pois não vi nenhuma placa com tal indicação, nem à entrada nem no seu interior.

De uma coisa, porém, tenho plena certeza: a Fortaleza de Kalulu é memória colectiva dos angolanos sobre a resistência oferecida pelos nativos à presença europeia, levando os invasores portugueses a erguer na elevação que se acha no interior da vila um forte em pedra bruta para melhor se defenderem e desferir fogo de artilharia contra os nativos que se revoltavam de tempo em tempo. No seu silêncio, ela conta também o estoicismo dos povos do Lubolu (Libolo) e arredores contra a usurpação de suas terras, subalternização da sua cultura e mutilação de seus usos e costumes. Um povo fraco e submisso que tivesse renunciado a sua organização política, social e cultural não teria merecido tamanha honra dos conterrâneos de Paulo de Navais.

Sobre os anos das refregas entre movimentos desavindos ao sair de Alvor e, depois, entre o Governo instituído no país e a rebelião armada, a Fortaleza de Kalulu guarda outra História e estórias. Vai daí também a necessidade de se redigir tudo quanto ela registou, formar-se jovens guias que recontem estes episódios aos visitantes da sede administrativa do Lubolu que vai conhecendo um crescimento do número de visitantes, sobretudo nos dias de Futebol que é animado em semanas intercaladas pela equipa do Clube Recreativo do Libolo que está na 1ª divisão, ostentando já quatro títulos de campeão nacional.

Depois de ter sido reduzida a depositária das antenas que reproduzem os sinas da Rádio e Televisão Públicas, que caso fossem colocados na elevação maior, Kaliematuji, até dariam maior serventia em termos de alcance dos referidos sinais, a Fortaleza de Kalulu cai aos bocados, como facilmente observará quem para lá se desloca, não se observando movimentação no sentido do seu restauro e ou uma mera reposição dos blocos que se desprenderam do muro, fruto de continuada acção humana ao tempo das refregas e da acção do tempo.

Sabendo que o Palácio do Administrador municipal, que fica à sombra da escadaria da centenária fortaleza, beneficia de restauro, aproveito lançar um SNF (Salvem a Nossa Fortaleza) , procurando que seja lido e alguma alma com poder e apego à memória colectiva se lembre de exercitar a magistratura de influência positiva junto dos poderes político e económico ou mesmo leve mão ao bolso para que se  preserve a Fortaleza de Kalulu.

Já perdemos, com esse andar despreocupado, o Fortim da Kibala cujas pedras foram emprestar força aos alicerces das casas de adobe, não faltando muito para que o mesmo destino seja dado aos blocos que compões a Fortaleza de Kalulu.

Segundo o investigador Carlos Figueiredo, também ele um libolense a prestar docência em Universidades de Macau e Brasil,​ que se juntou a esse apelo, "...com a perda do Fortim da Kibala, infelizmente, apagou-se também uma página importante da História do Libolo. Na altura em que o fortim foi construído, a Kibala era parte integrante do Município do Libolo. No final do séc. XIX e princípio do séc. XX, a localização estratégica de Calulo foi importantíssima. Na Fortaleza de Calulo estava instalado o Posto Militar que funcionava como centro de todas as operações expedicionárias tanto na área do Libolo como nas circunscrições vizinhas da KisSama, do Seles e do Bailundo. O fortim da Kibala foi construído para dar apoio a essas expedições e servir como testa de ferro aos ataques dos nativos da região do Seles e do vale do Longa. O Município da Kibala só foi desanexado do Libolo em 1921, depois de concluída a pacificação da região".

Tornam-se, por isso, imperiosos a responsabilidade moral e o dever histórico-patriótico de todas as mulheres e homens conscientes de toda Angolas que devem unir esforços para a preservação do nosso passado comum, em Kalulu e em outros cantos do nosso país.

NB: texto publicado na última edição do Semanário Angolense em Janeiro de 2016.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

FAZER DA CRISE UMA OPORTUNIDADE DE MELHORIA

(MAHEZU 1)
A vida das pessoas e das organizações é caracterizada por um trajecto curvilíneo, com altos e baixos. Nos momentos altos dos nossos rendimentos e usufruto tendemos a atingir o ponto de acomodação e elaboramos a nossa estrutura de custos em função dos rendimentos, sendo, às vezes, menos atentos à poupança e a investimentos para suprir as dificuldades dos tempos de crise. Até as ideias inovadoras nem sempre surgem PORQUE ATINGIMOS A ZONA DE CONFORTO. Mas, porque a vida é um ciclo com subidas e quedas, é no momento da pressão financeira, da falta de meios e de fontes de arrecadação e da crise que surgem os "ais" e os grandes homens, aqueles que fazem do mar de dificuldades oportunidades de melhoria e de exploração de novas soluções e uso de meios e técnicas legais até à data inimagináveis ou relegados a planos secundários.
Fruto da diminuição dos encaixes em moeda estrangeira pelo país, derivada pela baixa do preço do petróleo, uma commodity cujo valor é regulado  pelo mercado internacional, o Estado e as organizações empresariais vivem uma pressão financeira com origem externa. O equilíbrio da nossa balança de pagamentos externos para a aquisição de alimentos, medicamentos, máquinas, vestuários, produtos e serviços diversos não proporcionados pelo mercado interno demandam moeda estrangeira. Não sendo muito diversificada a nossa carteira de exportações, há toda uma necessidade de se pouparem os poucos dólares que entram e diminuir os consumos. É isso que faz até o Kwanza escassear. Perante o quadro, é importante racionalizar ao máximo, evitar também ao máximo todos os desperdícios, aumentar a produção e a eficácia e eficiência dos métodos. Os meios de trabalho e os materiais devem ser rentabilizados ao máximo, evitando-se a ociosidade. Para quê ter, por exemplo, em uso privado uma viatura que durante a jornada laboral fica mais de 50% do tempo parada quando uma outra pertencente ao Departamento vizinho fica o mesmo tempo ociosa? Se os dois Departamentos usarem uma só viatura, de forma coordenada, estarão a rentabilizar melhor o meio de trabalho e o tempo.
Vários outros exemplos podem ser elencados. Na era da digitalização, a tramitação de documentos, a redundância de cópias em papel precisa ser revista. Diminuir a impressão e optar pela digitalização pode ser outra oportunidade de capturas financeiras em termos de custos (papel e tonel).
E que tal da rentabilização das pessoas e do seu desempenho? Mais do que estar no local de serviço, o fundamental é trabalhar, evitar o absentismo, a lassidão e a ociosidade. Porém, é preciso cuidar da presença das pessoas cuja prestação e resultados não possam ser executados à distância. O controlo rigoroso das frequências torna-se fundamental para incutir uma cultura de disciplina,  responsabilidade e de meritocracia. O controlo de frequências centralizado ou biométrico é apontado como caminho. É preciso premiar os presentes e produtivos com o salário completo e outras regalias ou incentivos que possam existir. E se é legal e moralmente aceitável que quem mais trabalhe melhor seja recompensado, não será injusto isentar os faltosos e improdutivos com a inadiplência a alguns incentivos que as organizações tenham ou venham a ter.
É preciso que líderes e liderados encaremos a crise como um desafio a vencer e uma oportunidade de melhoria dos nossos processos, retirando dela as melhores lições para o aperfeiçoamento dos nossos métodos de gestão (caseira e  institucional).
Dita a tradição bantu que "é na pobreza e nas desgraças que as pessoas mais se unem". Façamos desta crise financeira um motivo de união, na busca das melhores ideias que nos levem às melhores soluções, busca de um maior comprometimento  com a organização e com o  trabalho para que, enquanto menos se espera, possamos cantar bem alto: fui parte da solução!
É que "os desafios e os problemas nos são impostos" mas as soluções dependem de nós.

domingo, dezembro 20, 2015

UMA PARAGEM NA PEDRA ESCRITA DO LIBOLO

Reza a história (recurso à combinação entre oralidade e vestígios de escrita) que um mestiço cabo-verdiano entendeu construir uma pousada na rota entre Dondo e Kibala, estrada nacional 120. E fê-lo exactamente a quatro quilómetros do rio Longa que separa os municípios do Libolo e Kibala. O ano da construção está perdido na memória, mas ainda por aí estão os que participaram da construção do imóvel, cuja parte frontal foi poupada pela guerra. Dizem ter sido nos anos sessenta do século XX.

Olímpio de seu nome, assim também se chama(va) o seu herdeiro que dirigiu a pousada nos anos oitenta e noventa do século passado, entendeu publicitar o seu investimento e escolheu a maior pedra daquele troço.

A dez quilómetros de Lususu, onde ergueu a pousada, encontrou uma grande pedra, do lado esquerdo de quem trafega no sentido Dondo-Kibala. Com audácia e engenho, os homens pegaram em tinta e pincéis e gravaram a meio do pedregulho que deve medir uns trinta ou mais metros de altura:
“Lussusso
Estalagem Boa Viagem”

De lá para cá, quer a pedra quer a aldeia que emergiu nas redondezas do já quase monumento, nos anos oitenta, são tratados por “Pedra Escrita”.

A estalagem de que só resta a parte do restaurante, pois os aposentos traseiros não foram poupados pela acção devastadora do tempo e sabotagem casada com a guerra civil, é conhecida por “Bar do Olímpio”.
O bar do Olímpio é o único ainda intacto e em funcionamento em Lussusso, dos três que existiam nos anos 80 do século XX, nomeadamente: Bar do Falção e Bar do Miguel Neto.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

LUCIANO CANHANGA (C.V.)

CURRICULUM VITAE (2014)
Luciano António Canhanga, jornalista, professor e escritor,  é filho de Maria Canhanga. Nasceu a 25 de Maio de 1976 no Libolo, província do K-Sul. É de Nacionalidade angolana, portador do B.I. nº 131850KS19.
Formação académica:
* Mestrando em Ciências Empresariais pela FAAG/UFP,
* Licenciado em Comunicação Social pela UPRA/Luanda, 2011.
*Finalista (4º ano) Curso Superior de Ensino da História pelo ISCED/Luanda.
*Curso  Médio de Jornalismo, IMEL, 1996.
*Estudos primários no Libolo e Luanda, 1981-1992.
Experiência laboral:
- Director do Gabinete de Recursos Humanos do Ministério da Geologia e Minas desde Junho de 2015.
- Responsável do Sector de Comunicação e Imagem da Sociedade Mineira de Catoca Lda, de Março 2006-Dez 2015.
- Professor de LP (colaborador) na Universidade Lweji A N´konde (Escola Superior Politécnica da Lunda Sul), 2012-2015.
Professor de LP no Instituto Superior Politécnico Lusíada da Lunda Sul, 2013-2015. 
 - Prática jornalística na LAC, como editor, repórter e apresentador de espaços noticiosos, 1996-2026.
- Dois anos de docência no ensino geral público, 1997-1999, Luanda.
- Cronista no Semanário Angolense com o pseudónimo de Soberano Canhanga
*Colaboração radiofónica:
- RDP/África (correspondência).
- ORION (programa “Nação Coragem” emitido na RNA)
- Rádio Lunda Sul (Grupo RNA)
*Já publicou nos seguintes medias impressos:
- "Semanário Económico", Angola,
- "Novo Jornal",  Semanário angolano,
- Jornal "O País", semanário angolano,
- "Cruzeiro do Sul", semanário generalista angolano, com pseudónimo Soberano Canhanga,
- "Expansão", semanário angolano de economia, com o pseudónimo Mona-a-Chico,
"Jornal dos Desportos", diário desportivo angolano,
- Jornal de Angola
- "Jornal de Cultura e Artes", quinzenário angolano,
- "Revista "Azulula", Lunda Sul,
- Revista "Sango", Lunda Sul,
- "Jornal Popular", Luanda,
- "Nova Gazetta", Luanda,
- "Correio da Manhã", jornal diário lisboeta,
- "Jornal Digital" http://www.angoladesporto.com/,

Outras formações:
* Introdução à Administração Pública
* Mini MBA sobre Administração e Gestão de Empresas, Catoca & Vantagem Mais, 2010.
*Curso de Relações Públicas Empresariais e de Estado, GESTINFOR, 2007
*Curso de Gestão de Crises, Catoca, 2006
* Curso sobre Gestão de Projectos, Catoca, 2007
* Curso de Gestão Moderna, Catoca & C4E, 2009
*Curso de jornalismo de investigação, Bamako-Mali, 1998.
*Curso Avançado de língua portuguesa para jornalistas, Univ. Catol. Angola, 2003.
*Curso de Jornalismo eleitoral, RTP e CEFOJOR, Luanda, 2005.
*Curso de Jornalismo digital e novas tecnologias de informação, Fund Gulbenkian & Univ. Cat. Lisboa, 2005.
*Seminário sobre Relações Económicas ACP-UE, Bruxelas, Bélgica, 2003.
*Curso de Condução defensiva, Catoca, 2007.
*Conferencia sobre Motivação, liderança e Gestão de Empresa, FACIDE, 2007
*Oficina de Jornalismo, Saurimo, 2007
* Curso de Avaliação de Desempenho, Accenture/Catoca, 2010.

Enquanto escritor, assina com o pseudónimo "Soberano Canhanga" e é autor dos livros: "O Sonho de Kaúia" (romance), Mayamba, 2010;  "Manongo-Nongo" (Contos), TamodaEditora, 2012; "10Encantos" (poesia) edição de autor, 2013; "O Relógio do Velho Trinta" (romance), Odracir/G.P.Bié-2014) e "O Coleccionador de Pirilampos" (contos), LeyAngola-2014, 
Tem no Prelo: "As Travessuras do Jacinto" (contos) e "Amor sem Pudor" (poesia), "Canções ao vento" (poesia) e "Bem-vindo 7inho" (crónicas).

Línguas: Português e Inglês (falado e escrito) e noções de Francês.
Contactos: Tlm 923 55 86 51/995 558651, e-mail lcanhanga@hotmail.com