Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

O VALOR DA DESCRIÇÃO, DA PRECISÃO E DA IMAGEM NA COMUNICAÇÃO

A trilogia representa o que é hoje a media, ou seja, a imprensa descritiva, a rádio exacta no uso da palavra certa e o peso da imagem televisiva.


Dizia, e com razão, um meu antigo editor que "os jornais descobrem os assuntos", pois, tradicionalmente, é para lá que iam/vão as cartas e os telefonemas sobre novos assuntos. Hoje o cenário pode ter mudado, mas os jornais ainda continuam a ser aqueles que com maior profundidade descrevem os factos. Até porque têm de dizer por palavras escritas até aquilo que apenas se sente. Dizer, por exemplo, que fazia frio, que as pessoas estavam exaltadas, que fazia poeira, que o ruído era ensurdecedor, ou que os actores mostravam inabilidade, etc.

As rádios, embora se tenham colado às funções tradicionais da imprensa, têm igualmente os seus campos próprios. Isso faz e fez com que o surgimento das rádios não acabasse com os jornais e a televisão não se arruinasse com a aparição das rádios, nem a multimedia conseguisse acabar com os primeiros. E dizia o meu editor, Zé Rodrigues, que se os jornais descobrem para depois descreverem, "a rádio aprofunda". Ela, a rádio, dá outras vozes aos assuntos. Explora outras dimensões do problema. Traz à ribalta novos actores. Complementa o jornal, usando palavras precisas e de significação inconfusa. Ela diz o máximo num mínimo de palavras e de tempo auxiliada pelo som. Mas não é tudo. Falta mostrar.

É aqui que surge a tv. Ela não precisa extender-se no texto, nem na palavra, ou no pormenor. O assunto já foi lido e ouvido. A curiosidade humana está agora aguçada para a visão. Falta mostrar e a tv cumpre o seu papel mostrando. Aqui se materializa também o velho, mas sempre sábio, ditado chinês: Uma boa imagem vale mais do que mil palavras.
As palavras escritas são para a imprensa, a voz para a rádio e a imagem para a Tv.

NB: Um texto conciso é aquele que consegue transmitir um máximo de informações com um mínimo de palavras. A clareza deve ser a qualidade básica de todo o texto. Para que ela exista concorrem: a impessoalidade, que evita a duplicidade de interpretações que poderia decorrer de um tratamento personalista dado ao texto; o uso do padrão culto de linguagem, em princípio, de entendimento geral e por definição avesso a vocábulos de circulação restrita, como a gíria e o jargão; a formalidade e a padronização, que possibilitam a imprescindível uniformidade dos textos e a concisão que faz desaparecer do texto os excessos linguísticos que nada lhe acrescentam.

Luciano Canhanga

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

O MELHOR DIA PARA UMA NOTA DE IMPRENSA

Quando o assunto é temporal, quando se torna inadiável levar o assunto institucional à esfera pública, não há escolha de tempo. O melhor dia seria “ontem”.

Porém, quando pode haver a escolha do melhor momento, quando se quer e pode dar maior amplitude e noticiabilidade ao facto, qual a melhor altura para “soltar” uma Nota de Imprensa/Press Release?

Da minha experiência jornalística notei que à segunda-feira, fruto da “improdutividade” do fim-de-semana, as redacções estão carentes de notícias. As redaçcões precisam de factos novos. Daí que o aproveitamento de uma press release é quase que generalizada e total. A adesão é maior e melhor.

Quanto à redacção da nota de impensa, é melhor aquela em que os jornalistas não só encontrem respostas aos clássicos elementos do lead, como também se ajuste ao estilo redactorial da casa, daí quem não será um exercício vazio rescrever a nota, indo de acordo ao estilo de redacção de cada receptor. Regra geral, os jornalistas gostam de ver facilitada a sua tarefa. É importante que os elementos que satisfaçam ao lead estejam no princípio da press release.

O título da press release deve ser atractivo aos jornalistas, pois "se o pregão for mal efectuado, por melhor que seja o produto, poucos ou ninguém a ele chegará". Se a nota de imprensa for enviada por e-mail, será importante ligar aos receptores, para confirmarem a recepção. Apesar da cultura, há jornalistas que ainda não abrem com regularidade ou à chegada à redacção os seus correios electrónicos.

Os conselhos acima aplicam-se às notas e pedidos de cobertura noticiosa.
Motivo, Local, Data e Hora, para além de outros elementos periféricos, são importantes.

Note que as Rádios precisam de som e, se alguém estiver habilitado a falar de véspera, o ideal seria colocar na Nota o contacto deste "porta-voz".

Luciano Canhanga

Domingo, Novembro 01, 2009

O ACTO MATRIMONIAL ENTRE OS LIBOLO E KIBALA

O CASAMENTO (Ú SOÑONA)
Os povos do Libolo e da Kibala (municípios da província angolana do Kuanza-Sul) consideram-se kisoko* por isso mesmo são pacíficos os actos matrimoniais entre estes dois povos do grupo ambundu.

O acto matrimonial tem início com o galanteio ou conquista (ú seka), sendo normalmente o homem quem toma a iniciativa ou os pais deste, podendo ainda a família contrária propor o mesmo à família do rapaz.

Normalmente, é na adolescência que começam os galanteios quando não se tratem de individuos já adultos e em segundas núpcias.  A idade biológica é irrelevante, falando mais a robustez física, atendendo a maturidade  precoce ou retardada dos individuos. O desenvolvimento físico na mulher é factor de relevância.

As adolescentes juntam-se, regra geral, em casa duma idosa, pretenciosamente para dela cuidarem e aprenderem lições de vida, com realce à vida conjugal futura. É nesta kandumba (caserna) onde os adolescentes e jovens do sexo masculino se sentem à vontade para o desfilar de rosários.

Ter um objecto de uso pessoal da jovem pretendida, um lenço, um pano, ou uma pulseira, é considerado meio camino andado para o passo seguinte. Porém, a sociedade/comunidade atenta deve aprovar ou reprovar esta relação nascente em que jogam preponderantemente os activos e passivos entre ambas as famílias. Se reprovação não houver, o passo seguinte será a oferta de uma porção de tabaco, um maço de cigarros ou um valor equivalente à tia paterna ou avó da pretendida.

A aceitação desta oferta será o selo de que nada obsta o namoro entre os jovens, pasando à categoria seguite de “a muibula” que siginifica estar ocupada ou pretendida.

KUIBULA (PRETENDER)
O acto tem o significado exacto de pretender a rapariga. Perguntar às famílias se nada obsta. A aceitação da bouquilha de tabaco ou outro produto correspondente equivalente à aceitação do namoro por parte de quem o recebe e que deverá comunicar aos pais da jovem.

A família da rapariga deve, em seguida, reunir e analisar os hábitos do rapaz e de sua descendência, jogando preponderantemente a amizade ou atritos que haja entre ambas, caso sejam de mesma aldeia ou de aldeias próximas.

Ultrapassado favoravelmente este passo, um emissário é enviado à parte do pretendente, comunicando-lhe a aceitação formal do namoro, passando o jovem a frequentar a casa dos sogros, idem a jovem que se deve prestar a alguns serviços domésticos em casa da futura sogra. É o ensaio.
São esses actos que ajudarão a determinar se a futura nora é ou não honesta e trabalhadora. Chegados a este patamar a sociedade jamais permitirá relacionamentos paralelos, sobretudo se praticados pala nubente, sendo qualquer acção desrespeitosa para com ela passivel de uma multa pecuniária e, às vezes, castigos físicos, ditados pelo soba da comunidade.

ÚLEMBA (Alembamento)
É o acto pelo qual a família do noivo formaliza o noivado através da entrega de bens à família da jovem. Não se trata de compra, como alguns podem pensar.

É apenas um acto que valoriza a noiva e que sub entende o costume e o respeito pelas tradições seculares. Não fazer o alembamento é que se torna anomalia e nunca o contrário.

Nas comunidades rurais mais recônditas a bebida mais usada é o kaporroto ( bebida destilada). O noivo, ajudado pela família, deve juntar garrafões de kaporroto em número variável, panos para a sogra, cobertor para a avós, o dinheiro do alembamento que acompanha a carta de pedido devidamente forrada em lenço branco e fechada com alfinetes dourados.

Nas comunidades mais iluminadas o Kaporroto é substituido por garrafões de vinho, wisky, caixas de refrigerantes e cerveja, cigarros, peças de panos para a sogra, fato para o sogro e outros bens. Há famílas que enviam uma lista de bens e outras que são liberais.

Geralmente a família do noivo é recebido em festa, abatendo-se um animal quadrúpede doméstico e outro que é oferecido vivo à família da noiva em forma de dote.

O ACTO FINAL: Ú-UANA (A BUSCA)
Levar a mulher da casa de seus pais é o acto consumatório da união matrimonial entre os nubentes. Preparada a casa em que viverá o novo casal, a família do noivo envia um emissário à casa da família da noiva com a missão de a ir buscar.

O emissário, um tio, uma tia, um kisoko ou outro individuo de confiança ou amigo comum dos nubentes leva um garrafão de kaporroto, ou algumas caixas de cerveja e refrigerantes, dependendo do lugar e das posses.

Deve munir-se de alguma pecúnia de reserva para em caso de multas devidas a atrasos na chagada ou gravidez em casa dos pais. Recebido em festa, apresneta o mahezo (conta o motivo da visita) e é acompanhado com o bater de palmas à medida que discorre o discurso.

Uma tia, amiga ou outra representante acompanha a nova ao seu novo lar. A noiva vai normalmente de rosto coberto destapando o véu somente depois de apresentada pela acompanhante à sua nova família, os sogros. Manda a tradição que na primeira noite ambas tias da noiva e do noivo dvem confirmar a virgindade da rapariga através de lenções novos e brancos que ao raiar do sol são por elas recolhios devendo estar ensanguentados, sinónimo de que houve defloramento naquela noite nupcial.

Se se confirmar o defloramento, ambas tias rejubilam-se, sendo motivo de orgulho das famílias por se ter cumprido a norma tradicional. Há vezes, porém, em que tal acto não passa de uma simples montagem com a conivência de ambas tias. Pegam numa galinha e escondem-na no quarto dos nubentes. À noite, sacrificam-na e o sangue é usado para sujar os lençóis.


A festa de despedida entre o noivo e sua família e as acompanhantes da noiva é regada de muito kaporroto, vinho e/ou outras bebidas, dependente dos hábitos de consumo, do local e das posses. Há famílias que fazem acompanhar a sua filha de um dote (em retribuição ao recebido). Normalmente uma vaca ou outro animal de médio porte, cuja reprodução deverá ser seguida na mesma bitola pelo novo casal.  Este dote tem, porém, outros significados importantes a reter: 1- O apreço que os pais da noiva nutrem pelo genro; 2- Que não a maltratem, pois também têm posses.

A REPRODUÇÃO (ÚKITA)
É o passo seguinte. Ambas famílias permanecem atentas à primeira gravidez da jovem, sendo motivo de preocupação se tal não acontecer nos primeiros seis meses de casamento.


* Kisoko é termo em kimbundu que significa (pessoa ou povos com quem se tem) um pacto de amizade, amor, fraternidade, relações igualitárias e ou privilegiadas ou íntimas. Entre dois kisoko até a asneira passa despercebida.


Luciano Canhanga

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

A CAÇA AO INSÓLITO E SUAS CONSEQUÊNCIAS


O CASO
Uma fonte anónima liga para a estação televisiva anunciando um facto insólito. As imagens têm o poder de persuasão e um isólito, uma cacha, aumenta a audiência em tempo de concorrência mediática. Está-se na expectativa de se anunciar uma cacha no "prime time".

É importante chegar primeiro, mas também ser o primeiro a divulgar para que aos demais se torne apenas informação.

_“Para nós será matéria de primeira-mão”, terá pensado alguém naquela casa.

O repórter sai munido de equipamentos de reportagem. Dirige-se ao local indicado pela chamada anónima e encontra o cenário montado ou “parido”.

Encontra uma senhora que afirma ter dado fim a uma gravidez de 18 meses depois de ter frequentado vários hospitais (não os nomeou) que sempre lhe atestaram resultado negativo da gravidez, mesmo com o crescer, dias sim, dias não, da barriga. O obreiro do insólito é um homem que se proclama como um “grande curandeiro”, também ele surpreendido pelo resultado inaudível.

Ao lado de ambos, um cágado nadava numa bacia e foi apresentado como recém-nascido da “parturiente” que, entre alegria, espanto e também tristeza, atribuia alguma culpava ao curandeiro.

Narração da Sra: “meteu-me sentada na bacia e senti algo a tocar-me o ânus. Quando levantei notei que havia este cágado na bacia e a barriga esvaziou-se”.

Narração do Sr: “nunca vi isso na minha vida apesar de já ter tratado muita gente. É feitiço”.

Comportamento da televisão/ repórter: filmou o cágado na bacia, recolheu os depoimentos do Sr. e da Sra. e divulgou a estória, "nua e crua" (como se de verdade auténtica se tratasse).

E eu me pergunto:
1- terá, de facto, a Sra. parido a um cágado?
2- como foi tal possível?
3- terão o repórter e os editores se colocado estas questões?
4- por que razão não foi postergada a publicação da reportagem, dando lugar a recolha de outros elementos de prova material e científica?
5- e como ficamos, ”nós”, que acreditamos completamente naquilo que a Tv nos mostra?
6- terá a Tv cumprido cabalmente com o seu papel, enquanto órgão público de informação?
7- não terá a Tv sido traída por um factor qualquer?
8- qual?
a) imperícia do repórter?
b) desatenção dos editores?
c) gosto e tentação pela cacha e pelo insólito?
9- ou devemos ter o facto narrado pela Tv como verídico?

Para muitos, não é o meu caso, a senhora  pariu a um cágado e foi anunciado pala Tv em que muita confiança se debita.

Luciano Canhanga

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

A ANTROPONÍMIA DOS AMBUNDU DO KUANZA-SUL


ESTUDO CONTÍNUO
A antroponímia é o estudo dos nomes proprios referentes a pessoas. Quando nos referimos a lugares estaremos perante a toponímia.

Os ambundu do Kuanza-Sul são detentores de uma antroponíma extensa e rica de significados, pois os nomes de novos seres sociais nunca são atribuidos ao acaso. Normalmente referenem-se ao momento, circunstâncias de nascimento ou outro evento relevante na vida do casal, da família ou da comunidade.

Entre os ambundu do Kuanz-Sul, quando um nome não é silogístico (novo) pertence a alguém da família ou da comunidade a quem se designa por chará (cognome).

KAKULU= O primeiro dos gémios
KABASA= O segundo dos gémios
Kaxinda= que segue aos gémeos
Kalunga= relativo à morte, o inesperado
Kitumba= relativo ao feitiço
SABALU= Que nasceu num Sábado
Katumbila=
Kilombo=
Kikola= Sagrado, perigoso
Kamuenda=
Nzongo=
Kilulu= fantasma
Kitongo=
Lukamba= Relativo ao gato bravo
Kavindi=
Ebo= Nascido de uma gravidez acima dos nove meses de gestação
Kiteta= dorminhoco (relativo a quem dormia muito no periodo da gestação)
Kambondondo= curto, de baixa estatura
Kimbi= morto, nascido depois de um nado morto ou depois da morte de irmãos mais velhos
Kitoma= picador, o vacinador...
Kisongo=
Kaphuku= o mesmo que ratinho, muito magro
Kaiela= relativo a diala=homem,
Maluvu= relativo ao vinho de palma
Kapengo= o mesmo que ratinho de casa, feito
Mungongo=
Kajila= passarinho, voador, espevitado, lesto
Kikumbu=
Kakonda=
Nzumba=
Lemba=
Umba=
Kaphonde= relativo ao bagre, de cabeça desproporcional ao corpo
Kifunde=
Maluvu= relativo ao vinho de palma (maluvo)
Kioko=
Kapoko= relarivo à faca; phoko=faca
Vundi= relativo ao juramento, ou a um pedido especial
Kisanga=
Kihuhu=
Kasola=
Phande= que vem a seguir de...
Nzamba= Elefante, também gémeo
Kindala= relativo à cobra. Ndala espécie de cobra perigosa que abunda a região
Kibenda/Kipenda=
Kabiabia= andorinha
Kixibo= cacimbo/época seca
Kikele=
Henda= benevolente, saudoso, bom-doso/dade
Kambondondo= curto, baixo
Kamuenda=
Hongolo=
Kaxikiri=
Kinguenha=
Lemba=
Kabezo/kapezo=
Muthumbua=
Kime=
Kasola=
Kakiezu= vassourinha, magro
Kiole= apodrecido, tardio
Ngunza/Ñunza=
Kalola=
Kalulu= pequeno fantasma
Kambota=
Kabota=
Kindundango=
Sumbanguia= comprador de agulhas
Muhongo=
Kasaba=
Ndumbo= infiel
Katumbo=
Kamalenge= fabricador de argolas?
Pangila=
Kiteke= desenhador
Kupenda/Kubenda=
Kibenda/Kipenda=
Umba=
Kathuku=
Kaiela=
Mbondondo=
Manda=
Munzombe=
Kafanda=
Malebu= fama, afamado
Kioza=
Njilá=
Kajobiri=
Tembu=
Nzumba=
Mulunji
Katibiá= foguinho
Kimone=
Funji=
Nzundo= marreta, pesado
Sumbula=
Katimba= reguila,
Thandela=
Lombe= local santo onde se sepultam os reis
Mundombe=
Ngonga= Prato santo para adivinho
Nhañe=
Ndonga=
Muriangu= comelão, que come muito
Murianga=
Kixibá=
Ngaio=
Kaxikiri=
Kimbila= relativo à sepultura
Kixindo=
Kikaxa=
Kizoko=
Ndulú= amargo; fel
Ximinha=
Kambundu=
Musunga=

Luciano Canhanga (Phande a Umba)

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

NO JORNALISMO ANGOLANO: É PRECISO SEPARAR O TRIGO DO JOIO

Desde 2006 que despi a camisola de jornalista, mas como formado e profissional da área não posso assistir ao “ladrar dos cães e ao passar da caravana”. E é refugiado nesta pele de comentador de factos que assisto, participando do debate de ideias.

Há muito tempo temos vindo a ser brindados pela media com a intragável arte de transformar navios em bragres. Acontece na imaginação. A propaganda o tenta, mas as consciências sempre despertam. A minha abordagem de hoje tem a ver com o que assisto na classe jornalística. Quando o debate é sobre “se devem ou não ser considerados jornalistas apenas aqueles que têm graduação e equivalência em ciências da comunicação”, dia após dia vimos fabricados outros jornaleiros vindo de outras “artes”.

O jornalismo áudio-visual em Angola é aos olhos do povo a profissão mais fácil de se exercer. Pensa-se que não se estuda, não se aprende, nem se faz carreira. Todos os dias há transformação, à escala industrial, de novos homens e mulheres de microfone na mão. Qualquer músico, actor de teatro, taxista, animador de eventos ou mesmo “roboteiro” aparece perante as câmaras televisivas ou em qualquer programa radiofónico a intitular-se de jornalista e todos, passivamente, acenamos a cabeça, aprovando-o no silêncio. É triste que assim aconteça.

O caso mais recente e ainda em voga tem a ver com um animador de festas que surge na televisão pública num programa que incita a rixas entre grupos de kú duro. O outro é um “adolescente" do Bié que a máquina propagandística da Orion quer que o tratemos como jornalista, forçando-o a pseudo-reportagens que são despejadas a bruto pela televisão pública. É que o jovem nem sequer consegue (nas suas pseudo-reportagens) pronunciar nomes como Deolinda Rodrigues e já "é jornalista”!

Se o tempo que trazemos às costas é carregado de muita tarimba, mas com debilidades em termos de formação que, felizmente, muitos decanos vão anulando com formações específicas e treinamentos, disseminar outros pára-quedistas seria o mesmo que matar o jornalismo angolano.
Que país teremos com profissionais da media que não sabem sequer escrever uma frase com sujeito e predicado ou pronunciar correctamente palavra e meia?

É mister que, sobretudo, a nossa televisão diferencie os seus programas comerciais ou propagandísticos dos noticiosos/informativos, fazendo com que o conteúdo e apresentadores destas atordoadas se apartem do compromisso noticioso, deixando assim de nos confundirem a todos.

Também é míster que o governo regulamente a lei de imprensa, há mais de dois anos aprovada pelo parlamento, e que se criem outros mecanismos reguladores da classe, como uma ordem ou uma comissão para a atribuição e cassação da carteirade profissional.
Julgo que para se ser jornalista não basta abrir a boca nem exibir dotes e poses corporais. É preciso sim, cérebro, escola e muito trabalho, daí que,

É preciso separar o trigo do joio no nosso jornalismo e deve ser para já!
Luciano Canhanga

Sábado, Setembro 05, 2009

ACERTOS FULCRAIS NA ASSESSORIA DE IMPRENSA

Há no jornalismo erros capitais como faltar à verdade ou não compulsar dados, manipular, entre outros* . Na assessoria de imprensa há "acertos capitais", dos quais falarei sobre 4, radicando a minha pequena análise num facto concreto.

A.C. é oficial superior da polícia angolana com cargo de direcção. Chamado à TPA para uma entrevista, A.C. apareceu fardado com galões e, enquanto formado em direito, não defraudou, recorrendo diversas vezes à lei e seus articulados para argumentar determinadas medidas e procedimentos da polícia. Até aqui tudo bem.

Notei, porém, que sendo a entrevistadora uma jurista, há muito na profissão e A.C. também um jurista mas há pouco tempo formado, houve uma "temeridade" por parte deste em relação à entrevistadora a quem trataou por diversas vezes por Dra. Nada de errado, mas fez transparecer alguma "subordinação moral" como que de um ex-aluno se tratasse.

Notei também em A.C. que embora usasse um discurso vertical e nada titubiente nas respostas, o que é próprio de um comandante, serviu-se vezes sem conta dos papéis, ou pelo menos desviou o olhar das câmaras, fixando-o no acervo de que era portador.

Para este exemplo concreto, e como a permissão que o meu kota me daria para a análise situacional, sou a enumerar alguns "acertos fulcrais".

1- O Jornalista não "é Dr." (entrevistado ainda que o saiba deve evitar essa referência).

2-O entrevistado (Dr.) não leva livros à entrevista, nem olha para papéis na hora da resposta.

3-O entrevistado (que é o Dr.) solta-se no discurso, olha para a câmara que personifica os telespectadores e "ignora" o entrevistador (não olha para ele).

4- O entrevistado veste-se segundo as circunstâncias da entrevista, o facto motivador da mesma ou a posição que ocupa no ofício.

*-. Heródoto BARBEIRO (www.fae.br/Noticias/n426.html) enumera sete erros capitais do jornalismo que a seu ver se resumem em: 1-invasão da privacidade, 2-manipulação da notícia, 3-assassinato do personagem (denúncia e condenação antes de apurar os fatos), 4-abuso de poder (jornalismo não é o quarto poder na constituição), 5- envenenamento da mente (tentativa de manipular, de fazer a cabeça das pessoas, de alinhá-las a esta ou aquela doutrina), 6-culto de falsas imagens (visando o sensacionalismo) e 7- colaboração para uma sociedade que explora o sexo.


Luciano Canhanga

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

NASCE OUSADIA NO JORNAL DE ANGOLA

Habituado a ler títulos no diária nacional de orientação oficial que sempre nos convidaram a guardar o jornal ou saltar para a página dos anúncios, leio hoje, e com satisfação, na página online uma entrada curiosa: Japoneses no Ministério da Saúde*.

Dentro de mim perguntei-me: Será que o governo optou agora por contratar especialistas japoneses para a nossa saúde? Uma curiosidade que, com certeza, quis matar, e como?


Folheando a página correspondente ao que lí na chamada de capa:
“O ministro da Saúde, José Van-Dúnem, recebeu, em Luanda, a delegação japonesa chefiada pelo embaixador encarregado do Sector da Saúde para África e o conselheiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, Yasuhiro Yamamoto, com quem trocou impressões sobre os desafios na área médica em Angola.
Yamamoto é a figura mais importante na área de medicina de emergência no Japão.
Durante a audiência, o embaixador Yamamoto referiu que o Japão considera a área da Saúde como um dos pilares mais importantes na sua cooperação com Angola, por ser o -factor fundamental para a vida do povo-“.


Realmente, uma feliz ousadia e que só perde por tardia no nosso único diário. O apelo é para que: sem sensacionalismo os títulos despertem curiosidade para a compra do Jornal de Angola que nada custa aos seus fazedores, já que o custeamos todos nó (contribuintes).
Se assim for, em todas as matérias, e se todos os jornalistas intitularem com mestria, sem pintar em demasia, mas sem serem bastante redundantes, o Jornal de Angola só terá a sua cotação em alta, podendo ombrear, quem sabe, com os semanários que há muito aprenderam a lição, que até é da kabunga.

E na primeira página, como destaque do jornal, intitulava-se:


AGENDA ATÉ 2012
“Governo aprova projectos de grande impacto social”

Até aqui nada de anormal. A frustração do leitor só acontece quando lido o lead não encontra nem a designação/localização dos projectos, nem a benfeitoria dos mesmos.
Por dentro:
“O Conselho de Ministros aprovou, ontem, a carteira de projectos de grande impacto econômico e social, a desenvolver até 2012. A carteira de projectos tem o custo estimado de 1,2 mil milhões de dólares**, a serem financiados através da linha de crédito do banco de Desenvolvimento da China, investimento provado e outras linhas de crédito disponíveis. Um comunicado emitido no final da reunião refere que a carteira de projectos foi aprovado considerando o -potencial dos recursos naturais e a competitividade do sector, tendo em vista uma maior geração de emprego e renda-" >POLÍTICA/3

O que terá faltado ao articulista para não dar os elementos essenciais neste lead. Guardou a designação dos "importantíssimos projectos" na página interior onde geralmente poucos vão? E o título não é redundante? Ou é bastante assertivo para um jornal que queira endereçar o convite ao leitor?

*Texto de Fonseca Bengui, edição de Quinta, 16 de Julho 2009 Jornal de Angola.
** Por que não uma estimativa em Kuanzas, a nossa moeda?



Luciano Canhanga

Sábado, Agosto 01, 2009

JORNALISMO EM ANGOLA: COM OU SEM DIPLOMA?

Para mim é um debate oportuno e incentivo a sua extensão a todos os níveis da esfera pública, daí que tomo a liberdade (peço perdão aos colegas cujas ideias reproduzo sem anuência) de aqui expor o pouco do muito que ainda há por se dizer.

I
Cai exigência do diploma de jornalismo no Brasil
Por: Sérgio Matsuura e Izabela Vasconcelos
O diploma para o exercício da profissão de jornalista já não é mais uma obrigatoriedade no Brasil. Por oito votos a um, o Supremo Tribunal Federal considerou incompatível com a Constituição a exigência da graduação em jornalismo para o exercício da profissão, em votação do Recurso Extraordinário 511961, nesta quarta-feira (17/06). Os ministros Gilmar Mendes, Carmen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso de Mello votaram contra a exigência. Apenas Marco Aurélio Mello votou a favor da obrigatoriedade do diploma.No início da sessão plenária, as teses se dividiram entre a posição defendida pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo e o Ministério Público Federal (MPF), contra a obrigatoriedade do diploma, e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), com o apoio da Advocacia Geral da União, sustentando a exigência.
Gilmar Mendes, relator do recurso, defendeu a autorregulação da imprensa. “São os próprios meios de comunicação que devem definir os seus controles”, afirmou.
Mesmo sem a exigência de diploma, os cursos de jornalismo devem continuar existindo, argumentou Mendes. “É inegável que a frequência a um curso superior pode dar uma formação sólida para o exercício cotidiano do jornalismo. Isso afasta a hipótese de que os cursos de jornalismo serão desnecessários”, avaliou.

II
Por: Luísa Rogério
Saudações a todos.
Devo confessar que essa notícia foi um balde de água fria para mim. O SJA subscreve a obrigatoriedade do diploma (alargado a outras áreas de formação) na nova proposta do Estatuto do Jornalista.
A nossa principal referência era o Brasil, uma vez que Portugal também derrogou essa exigência legal. Essa questão suscita alguma controvérsia no seio da própria classe, mas acho que sairemos todos a ganhar. Estaremos melhor preparados e os futuros jornalistas abraçarão a profissão com uma bagagem que muitos de nós, os produtos da tarimba, levaram longos anos a acumular.
A questionada postura ética e deontógica da media angolana durante o periodo eleitoral, mas não apenas nesse caso, constitui apenas um exemplo da necessidade de se elevar a fasquia em termos de formação.
Apesar de a lei não ter efeitos retroactivos, há ainda a vantagem de a obrigatoriedade do canudo incentivar muita gente a voltar para os bancos da escola, vencendo o receio de expor-se ao ridículo diante de colegas mais jovens, muitas vezes subordinados. Ressalvando as excepções que confirmam a regra, convém ao patronato ter a possibilidade de recrutar, ao menor custo, novos jornalistas. Já imaginaram que redacções teremos quando todos os jornalistas tiverem um canudo e puderem, a nível das redacções, sustentar e defender teses que contrariam práticas que atentam contra as chamadas regras de ouro? Evidentemente, não tenho a ilusão de que o diploma resolva todas as falhas nossas. Até porque, em países como o Brasil, discute-se diariamente a postura da media. E a discussão já é um começo. O meu receio, repito, é que se evoque o exemplo recente do Brasil para se chumbar o projecto de Estatuto.
Coloco a questão sem qualquer pretesão porque não ostento nenhum diploma universitário e digo isso sem problemas. Em síntese, além de fazer a apologia do diploma, socorro-me desta ladaínha para sensibilizar os colegas a participarem num encontro que o SJA promoverá brevemente para discutir-mos, uma vez mais, o ante-projecto de ESTATUTO DOS JORNALISTAS.

III
Por: Ismael Mateus
Quero felicitar o SJA por promover este debate. Oxalá eu possa participar.
É preciso ver a questao do Brasil com tranquilidade. Se agora foi alterado é porque antes havia essa condição. Como sabe quem acompanhou, a luta foi renhida e muitas vozes criticaram e criticam a alteraçao. O principal argumento é o mercado e o desemprego. Ao nivel da discussão etica estavamos exactamente como o Brasil estava há 30 anos quando isso foi imposto. Graças a isso a qualidade melhor, a respeitabilidade também e não há nenhuma crise de identidade da classe jornalista (o que é o nosso caso - vejam-se as discussoes sobre quem é jornalista ou os auto-proclamados jornalistas).

Em Portugal nãio há formalmente ujma obrigatoriedade de contrataçao de jornalistas com diploma. O que se passa é que é quase impensavel aparecer quem nao tenha. O proprio mercado assim o exige. Na hora de confrontar os cvs, a experiencia de trabalho ou o perfil tecnico do candidato, quem nao tem formaçao superior sai a perder.
Nos anos 90, houve uma ampla superaçao de profissionais com anos de trabalho no Cenjor e a maior parte deles foi elevada a equiparados a tecnicos superiores.
Portanto vamos ao debate, tranquilo, sereno e tendo em conta que o nosso caminho é aquele que decidirmos.
E parabéns novamente ao SJA

IV
Por: Luciano Canhanga
Prezados,
Felicito-os a todos por esta abordagem oportuna e anadiável para o ordenamento da nossa classe.
Óbvio que todos os argumentos de razão, quer dos prós, quer dos contra uma obrigatoriedade do género na nossa praça, já foram aqui esmiuçados.Quero apenas chamar-vos para que olhem para a nossa formação básica e média. Pensem na carga de conhecimentos que tínheis e na carga que têm agora aqueles que completam a oitava ou décima segunda classes e reflitamos todos se vale a pena fazer jornalismo com gente que nem o seu próprio nome sabe escrever em condições. Falo, não apenas como jornalista mas, como um pedagogo (sou tb. formado em Ciências da Educação pelo ISCED).

Portugal e Brasil antes de declararem a derrogação da obrigatoriedade do ensino superior (não se obriga que seja em ciências da comunicação) tiveram de arrumar a casa, profissiinalizando a classe. E nós? Se calhar valerá irmos discutindo o assunto em cada fórum possivel. Um braço a todos e boa reflexão.
V
Por:Elias André
Caros,
É bom e saudável falarmos de nós. Trata-se de uma questão que deve ser objecto de uma séria reflexão de todos os profissionais de comunicação social. O nosso passado recente não nos possibilitou termos Jornalistas formados. Talvez se tenha pensado que para se ser jornalista não é necessário ter formação superior. Aliás, diga-se que até aqui a profissão é exercida por pessoas sem essa formação superior, mas que têm garantido o jornalismo que o nosso mercado apresenta. Mas importa também destacar que esses "velhos" herdaram uma boa "escola" de jornalismo. Hoje, o cenário é totalmente diferente. Os colegas saidos do ensino médio, talvez por debilidades do próprio ensino sabemos que nível apresentam. A formação superior poderá não ser o factor determinante para o exercício de um óptimo jornalismo, mas, dá outra visão da profissão. Eu próprio sempre pensei que a minha formação média era suficiente, mas depois da Licenciatura conclui que é importante e melhor para o jornalista ter formação superior. Francamente, formação média para Jornalismo já não é nível aceitável hoje.

Não temos condições de exigir essa formação nesta fase porque a agressividade do mercado não permite, mas é bom e aconselhável discutir-se esta questão.Há aspectos científicos da profissão que a "Tarimba" não ensina. Discussões científicas sobre o Jornalismo em Congressos Internacionais por exemplo devem ser feitas por profissionais com formação superior porque a "Tarimba" é muito limitativa. Se alguém criou a Universidade de Comunicação Social ou Jornalismo foi por alguma razão. O desenvolvimento da própria tecnologia na comunicação social, designadamente à Televisão requer outros conhecimentos.Não vamos certamente chegar a nenhuma concliusão já, mas é bom irmos pensando nesta questão. Todas as profissões têm Ordens ou Associações e nós estamos reduzidos ao Sindicato. Algum órgão tem de regular o exercício do jornalismo em Angola. "Mentimos Mais Alto Quando Mentimos Para Nós Mesmos".

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L.C.

Sábado, Julho 18, 2009

O NÚMERO, O GÉNERO E O GRAU DOS SUBSTANTIVOS NA LÍNGUA DOS KIBALA

Tal qual na língua portuguesa que nos serve de elemento comparativo nestes ensaios experimentais, na língua dos Kibala/Lubolo, os substantivos ou nomes, também flectem quanto ao género, número e grau.

1-A formação do plural dos substantivos é regido do prefixo ma ou m'.
Muthu; mathu (pessoa;pessoas)
Zundú; mazundú (sapo; sapos)
Luiji; maluiji (rio; rios)
Lieso; meso (olho; olhos)
Temo; matemo (enxada; enxadas)

2- Excepções
Mulu; iulu (monte; montes)
Ombua; lombua (cão; cães)
Ndandi; landandi (pedra;pedras)
Mbiji; lambiji (peixe; peixes)
Mbinza; lambinza (camisa; camisas)
Hombo; lahombo (cabra; cabras)
Ngulu; langulu (porco; porcos)
Inzo; lonzo(casa; casas)
Ongo; longo (onça; onças)
Ohandangala; uhandangala (hiena;hienas)
Muñambo; añambo (mulher; mulheres)
Mundata; andata (homem; homens)

Grau dos substantivos
1-Forma-se o grau diminutivo com o prefixo ka.
Muñambo; kañambo (mulher; mulherzinha)
Luiji; kaluiji (rio; riacho)
Excepções com o prefixo o
Ndandi; ondandi (pedra, pedrinha
Luiji; oluiji (rio, riacho)
etc.
3-Forma-se o grau aumentativo com o prefixo ki.
Muezo; kimuezo (barba barbicha/juba)
Kañambo; muñambo; kiñambo (mulherzinha; mulher mulherona)
Kaphonde, phonde. Kiphonde (bagre, bragrito, bagrão)

O gênero dos substantivos
Forma-se acrescentando o equivalente à palavra fêmea (kota) ou macho (ndumbe) ao substantivo.
Hombo i kota; hombo i ndumbe (cabra, bode)
Ombua i kota; ombua i ndumbe (cadela; cão)

Excepções:
Sanji; kolombolo (galinha; galo)
Mundata; muñambo (homem; mulher) = diala; muhatu (homem; mulher em Kimbundu ambakista)

Obs: Sinta-se à vontade em contribuir.
Luciano Canhanga