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quarta-feira, junho 06, 2018

LINGUA DO KWANZA-SUL: AUTONOMIZAÇÃO OU MANUTENÇÃO?

Canhanga, Vinte e Cinco, Felismino, C.Cerqueira (centro), JPedro
Um dos mais apaixonados debates a que me entrego é o que se faz sobre a problemática das línguas em Angola.
Ora vejamos: o mosaico etno-linguístico angolano é amplo. Qualquer abordagem deve sempre começar pelas duas grandes famílias que são Kongo cordofaniana de um lado e Koi-San de outro.
A primeira família dá origem às línguas bantu que possuem elementos lexicais muito parecidos.
No território angolano, entre os povos pré-bantu, temos apenas os San.
retornando aos Bantu, esses se estratificam por diversas outras línguas, cada qual com suas variantes. Assim surge o Kimbundu que possui perto de 30 variantes, sendo algumas delas faladas no Kwanza-Sul (norte e centro), destacando-se as variantes Lubolu, Sende, Kipala (Kibala), Kisama, Mbwi, Mpinda, Sumbe e Haku. Entre estes substratos podem ser encontradas outras derivações pois, a língua, enquanto elemento abstrato, tem uma variabilidade e inovação difícil de controlar
 
É essa variação na entoação e poucas vezes lexical (pois há aldeias que distam cinco quilómetros entre si mas com diferentes articulações no emprego oral da língua) que permite os povos de uma mesma família linguística identificarem-se geograficamente. A título de exemplo, os povos da Munenga e de Kuteka que, política e administrativamente, pertencem à mesma comuna, têm articulações orais distintas que os permite identificarem-se mutuamente quanto à origem geográfica (sobado). Porém falam a mesma variante de uma mesma língua, no caso Kimbundu.

A 9 de junho de 2012, o militar e político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à ministra da Comunicação social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para que fosse revista a designação errônea atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola YETU. O assunto não teve o provimento esperado, pois, ao que se sabe, ou o Ministério que tutela a Rádio não orientou que se reparasse o reclamado ou essa (a RNA) não acatou. Estávamos em vésperas de eleições gerais, as terceiras, depois de 1992, 2008.

Canhanga entre os septuagenários G.Vinte e Cinco e AFelismino
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu" (nosso Kimbundu) ou "Kimbundu do Kwanza-sul", indo de encontro àquilo que a população autóctone de maior idade responde (ainda) quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala... (falo Kimbundu/nosso Kimbundu/Kimbundu da Kibala...), cf. Canhanga 2007.

As sugestões de Serafim do Prado, embora tenha surgido na carta sem argumentos de razão, vão de encontro ao que recolhemos como resultado de inquérito oral nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul e em Luanda, aspectos que devem ser  deve ser valorizado e adicionado ao que escreveram Heli Chatelain, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, nas circunstâncias de Angola em que não abundam os trabalhos escritos, toda a ciência que envolva a etnografia, antropologia e história deve sempre ter o terreno e a oralidade como ponto de partida (laboratório) e o gabinete como fábrica (para multiplicação e difusão do conhecimento experimentado).
O dinamismo das línguas sempre levou à emancipação de algumas variantes ao passo que outras se mantêm- ligadas á matriz. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes de ngoia como  designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul.

NGOIA NÃO ATENDE AUTONOMIZAÇÃO NEM MANUTENÇÃO
 
Tendo surgido, de algum tempo a essa parte, alguns angolanos que, ao arrepio da ciência, atestam a existência de uma suposta língua ngoia em Angola e mais concretamente no Kwanza-Sul, sem que para tal exibam documentos (físicos ou orais), um grupo de três cidadãos da Kibala (Gabriel Vinte e Cinco e António Felismino) e Libolo (Luciano Canhanga), para além de vários estudos científicos que têm vindo a realizar e a publicar, deslocou-se à sede do Ministério da Cultura para informar a Ministra que "nós, do norte e centro, do Kwanza-Sul não falamos ngoia".
 
A Dra. Carolina Cerqueira orientou o Director do Instituto de Línguas, Dr. José Pedro, a  organizar, no terreno, um encontro e fazer uma súmula do "constatado" para que ela (Ministra) com os dados que lhe chegarem ao conhecimento, possa interceder (ou não) junto do seu homólogo da Comunicação Social, no sentido se colocarem nas rádios angolanas (Emissora do Kwanza-Sul e Rádio Ngola Yetu) "os pontos nos is e os traços nos tês", em relação à língua (mais) falada no Kwanza-Sul.
Quanto a mim, há dois vectores para centrar o debate. Um é o da manutenção do status quo e o outro é o da autonomização da variante falada no norte e centro do Kwanza-Sul, atribuindo-lhe um nome que seja "confortável" ao povo acima referido, tendo em conta a sua ancestralidade.
 
Se o vector for o da não emancipação, pouco há para se discutir. É Kimbundu, cuja variante mais audível é da Kibala. Aqui bastaria mudar a designação do programa inserto na grelha da Rádio Kwanza-Sul de Ngoia para Kimbundu. Porém, a Rádio Ngola Yetu não deverá ter dois "programas em Kimbundu".

Se a questão for a emancipação/autonomização da língua falada no norte e centro do Kwanza-Sul, à semelhança do Songo, Luc|h|azes, Bunda, Lunda-Ndembo, etc., que estão em processo de dissociação das línguas matrizes (Kimbundu, Ucokwe), pois as variantes passaram a ter uma nova designação, aqui deve-se focar em encontrar um nome que atenda à idiossincrasia, cultura e história deste povo. Qualquer nome deve representar fiel e cabalmente um povo. Aqui, as Rádios acima citadas deverão renomear os seus espaços com a designação que for achada.
Para terminar, lembro que em nenhum mapa etnolinguístico de Angola consta o suposto povo Ngoia.

sexta-feira, junho 01, 2018

A COETANEIDADE ENTRE OS POVOS KUTEKA

Entre Kisama, Ndala Kaxibo e Tumba Grande (Munenga) fica a região de Kuteka, uma regedoria que atende as aldeias de Mbango, Hombo, Kiphela, Hombo e Mbanze (capital). Cada povoado tem um soba (autoridade tradicional local), sendo o "ngana" ou kañane o título do soberano. Os povos do Kuteka, oriundos de Mukongo (região do Libolo) num tempo que não ficou registado, sempre se consideraram súbditos de ngola, monarquia de Ndongo e Matamba.
Entre os púberes kuteka e não só, o termo "kibhá", corruptela do português "epá", é o designativo de homólogos, coetâneos ou da "igualhagem". E ser Kibhá não é apenas questão de desempenhar papel social semelhante ou nascer ao mesmo tempo. Há "outros condimentos para ser-se kibhá".
Frequentar juntos a iniciação masculina (onzo imema), ter nascido no mesmo período, enfrentar juntos e com galhardia um desafio ou um perigo, frequentar junto as casernas, ter empatado uma disputa, (independente da idade), etc., são atributos para que dois ou mais indivíduos se sintam e se tratem como homólogos. Isso leva a que alguns de idade superior sejam considerados "kibhá" de indivíduos mais novos e vice-versa, dependendo do retardamento ou precocidade em termos de desenvolvimento psico-social e físico.
Mas, entre os povos ribeirinhos de Kuteka, nem tudo se resolve entre os "kibhá". Um mais velho o é em todas as circunstâncias. Os mais novos, por exemplo, não devem pronunciar dislates perante os mais velhos e se devem ausentar se esses estiverem em conversa que apenas diga respeito aos pares daquela faixa etária/social.
Os mais novos são (considerados) "serventes" dos mais velhos au passo que estes, os makota, são defensores automáticos dos mais novos, quando necessário.
O soba é ainda a autoridade máxima, sendo que ao kañane (ngana que governa a partir de Mbanze-yo Teka) são remetidos assuntos cuja solução transcenda as competências dos primeiros. Querelas que vão desde injúrias, ateamento de fogo em coutada colectiva, pagamento de dívidas, ofensas corporais e até homicídios são, geralmente, reportadas ao soba que os julgamentos segundo a tradição e o direito consuetudinário, resultando em pagamento de indemnizações por parte do ofensor ao lesado.
 
Os povos de Kuteka, comuna de Munenga, município do Libolo, são pescadores, agricultores, pequenos criadores de gado de médio porte (cabras, ovelhas, porcos), pequenos avicultores (galinhas, patos) e ainda praticam a recolecção em escala residual. A pesca é feita no rio Longa, o principal da região, e em outras ribeiras onde os cardumes abundam. Têm laços de parentesco com os Kipala (Kibala), com quem conservam proximidade geográfica e afinidades linguísticas, sendo muitas vezes confundidos mais com esses do que com os kalulenses. Têm igualmente laços com os Kisama, Kindongo, Kilenda e Karyangu.

NOTA: dentre os régulos (kañane) de Kuteka, conta-se Kanyanga Masaka ou Ñana Ñunji (meu homónimo avô)

Texto publicado (parcialmente) no Nova Gazeta de 12.04.2018 e Jornal Cultura de 22 de Maio/18

terça-feira, maio 01, 2018

KAXOMBA: O QUE É?


O ambiente rural de Angola, entre os ambundu, regista o vocábulo "Kaxomba" que se reporta a uma patologia que afecta crianças ainda de tenra idade. O registo é de que o infante fica debilitado e com aspecto pálido. Casos dessa natureza, quando levados aos serviços médicos, são, geralmente reportados como anemia.
lançada a questão a parentes e amigos kwanza-sulinos e malanjinos sobre o que é "Kaxomba", como se manifesta, como era tratada e quais eram7são as consequências, recebemos as seguintes respostas:
"Kaxomba é uma doença (que se manifesta) em tenra idade,1 a 2 anos, e que os velhos diziam que (ser) sangue a mais, enquanto, no fundo, era anemia severa. Tratamento: lâmina ou outro objecto cortante na mão da avó ou tia, fazendo alguns tracejados (no rosto da criança), seguido de banhos de água morna e folhas cheirosas", respondeu Matias P, também ele vítima de tal "tratamento" que o deixou com "tatuagens em baixo relevo" no rosto.
Jaime CC, licenciado em enfermagem, acrescenta que a dita é "doença amigdalítica que impede a criança de se alimentar, causando anemia".

Para Judite L, licenciada e mestrada em enfermagem e com conhecimento da realidade brasileira, o que se designa por "cachumba" no Brasil é a nossa famosa papeira, quando a criança fica com a região da mandíbula abaixo das orelhas inflamadas, situação que ocasiona febres e dores ao mastigar ou engolir alimentos. Os mais velhos nas aldeias, persegue,  tratavam com óleo de palma e fricções no local.
Francisco C. diz que "...foi uma prática que assolou parte dessa Angola. A região de Songo, Kunda dya Baze, Kaombo e Marimba, em Malanje, não foram poupadas".
O. Pedro L diz que "em finais dos anos 80 do século XX ainda assistiu a essas acções, mesmo em Luanda, no bairro Sambizanga, praticadas por gentes oriundas de Malanje e Kwanza-Sul"...
A "kaxomba" foi responsável, até finais do século XX, por muitas mortes infantis. Crianças com a dita doença eram submetidas à extracção de suposto "sangue mau" para que "a doença abandonasse o corpo e com o novo sangue (que muitas vezes acabava não tendo) ganhasse saúde". Quando vemos adultos e jovens com tracinhos (faquinhas) no rosto, nos devemos lembrar que não foi (apenas) por uma questão de "kidimbu" (de que origina a palavra portuguesa carimbo), tradicional entre os súbditos (emissários) do rei Ngola. Trata-se de uma tentativa (crença mitológica) de salvar a criança adoentada e acossada por anemia que podia até derivar de má nutrição. Por isso, um crasso erro de gente com essas crenças e falta de informação médica.
A dita "kaxomba" é anemia, debilidade do sistema imunológico. 
Empenhemo-nos na formação e informação e haja menos discriminação de quem foi vítima de ignorância, falta de meios de atendimento médico e medicamentoso e até mesmo de cuidados alimentares para com infantes.
Se persistir ainda essa crença por algum lado do nosso país, devemos formar e informar e evitar mortes e ou ostracismo e bullying no futuro.
A kaxomba cura-se no hospital. No Brasil uma patologia descrita com os mesmos sintomas que "a nossa kaxomba" é designada cachumba, inexistindo naquelas paragens a cura por meios mitológicos como acontecia até há bem pouco tempo em Angola.




domingo, abril 01, 2018

A "RENDA" NA VOZ DE KILOMBO KITINU


A abolição internacional da escravatura aconteceu no séc. XIX (1883) mas a sua materialização efectiva levou décadas, para não dizer século. Porém, os detentores de escravos e aqueles que faziam da captura/compra, utilização doméstica e venda de "peças humanas" o seu negócio procuraram diversas artimanhas para fazer dos homens nessa condição meros objectos.
Ou se mudavam as rotas do Atlântico para o Indico ou se praticava a escravatura (depois com outras faces) no território nativo.
Kilombo Kitinu, filha de regedor e neta de ex-proprietários de "mabika" conta, aos setenta anos, que "meus bisavós Mungongo e Kaphote Kasenda, todos da região de Kindongo/Kisama, eram detentores de mabika que depois de alforriados, 'quando chegou a ordem', tornaram-se parentes".
Quando comecei a trabalhar na "renda" ainda adolescente, às vezes não percebia o tratamento que me era dado, explica. Recebiam-me como rainha (embora o fosse) e estendiam panos onde me sentava. Só mais tarde me fui apercebendo que era a forma grata como os ex-mabika tratavam os antigos proprietários ou seus descendentes conhecidos que os haviam tratado com dignidade.
Mas de descendente de "esclavagistas", Kilombo Kitinu também experimentaria o fel da escravidão camuflada em pseudo-contratos rendeiros, onde crianças e adolescentes não eram poupadas na abertura de vias rodoviárias, apanha de café, processamento de tabaco, limpeza de capoeiras, entre outros trabalhos.
Como a máquina funcionava?
Os colonos recém-chegados, fossem portugueses ou alemães, iam ao posto administrativo requisitar "pretos para trabalhar", não se seleccionando a idade. O posto administrativo obrigava o soba a mandar ao "contrato" os seus aldeões e, nessa difícil tarefa, não podia excluir seus filhos e sobrinhos. Foi assim que ela, filha de regedor de Kuteka, também frequentou as fazendas do Prata, Kabumbulu, Ngana Mbundu, Senhora Kasenda, Conde, entre outras como "trabalhadora rendeira".
Terminado o período de um ou mais meses, outros eram "recrutados" para render os primeiros. Por isso, a oralidade conserva o termo "renda" para designar esse tipo de trabalho semi-escravo que se desenvolveu até à segunda metade do Sec. XX, antes da independência em Angola.
Kilombo Kitinu recua no tempo e estabelece um marco:
- Quando se abriu manualmente a picada de Kawayawasa, para o alemão Ngana Mbundu (Walter Kruk), foi quando nascemos. Aí chegou a ordem para o fim da escravatura. As pessoas que trabalhavam na abertura manual da picada  tinham as mãos rebentadas (calejadas e feridas). Entrou depois a renda. As nossas chinelas eram de pele de cabra. A todas as pessoas, os brancos chamavam apenas por ó preto! E os negros respondiam patrão! Nesses trabalhos, as meninas ficavam, às vezes, duas semanas que eram remuneradas com pouco dinheiro. Só chegava para comprar um par de brincos ou missangas para mãe, pano e sabão para a trabalhadora.
Narrou ainda que entre os seus parentes directos, duas pessoas se destacaram na fazenda da alemã conhecida por Senhora Kasenda (os nativos atribuíam outros nomes mais familiares aos europeus). Eram o mano Doce (cozinheiro) e o papá Kabota (capataz). Esses viviam lá no acampamento com suas famílias e só iam à aldeia de Mbangu-Kuteka visitar os parentes. Falavam a língua dos alemães e as suas mulheres e filhos vestiam-se bem. 
Do outro lado do rio Longa, território de Dala Kaxibo, também havia alemães. Kilombo Kitinu citou Kabumbulu e Kilenge (nomes atribuídos pelos nativos). 
De recordação em recordação, "viajou" por Kixinje, território da Kisama onde, ainda garota, trabalhou na abertura da picada que termina em Kandanji (margem do rio Kwanza, junto ao Dondo). 
- As mulheres também abriam picadas com enxadas...

Obs: Publicado nas pgs 12 e 13 do Jornal Cultura de 19Dez/17 a 02 Jan/18.

domingo, março 18, 2018

O CAMINHO DO METODISMO À CAXICANE

O festejo do 95º aniversário natalício do primeiro Presidente de Angola, também consagrado Herói Nacional, Dr. António Agostinho Neto, levou-me à vila de Catete para actividade lúdica e cultural, adentrando depois a estrada que nos conduz à Muxima e mais ainda a picada que vai a Caxicane, local que conserva o cordão umbilical do fundador da nação angolana nascido a 17 de Setembro de 1922. Não sendo a primeira vez que para lá me desloquei, não deixei de “descobrir” algumas curiosidades não visualizadas com minúcia nas primeiras visitas ao local. Repare bem a foto. Estou apoiado sobre o púlpito do que foi o segundo templo metodista erguido em CAXICANE. Procurei pela data da sua construção e, embora houvesse no local cidadãos sexagenários, não obtive resposta. Resta-me a impressão de que a edificação terá sido a que existia nos dias de mocidade de Agostinho Neto, sendo feita de pau-a-pique e rebocada com areia e cimento nos dois lados das paredes. O chão foi também cimentado, sendo que os púlpitos haviam sido construídos em tijolos e rebocados. O tampo também é de betão.
A primeira igreja no local terá sido em material ainda mais precário: ramos de palmeiras, paus, barro simples para fechar as paredes e coberta de capim, conforme nos mostram as fotos de seu pai, Reverendo Pedro Neto, com o filho, Kilamba, pousando no colo de D. Maria da Silva Neto. 
A terceira igreja, em alvenaria e pintada de branco, é maior e tem altos alicerces, devido às inundações que vezes sem conta acontecem em CAXICANE, quando o Kwanza faz suas águas transbordarem, é mais próxima no tempo.
Repare agora na proximidade entre o rio e a Igreja em cujas ruínas concebi esse texto: apenas escassos metros a separam do leito. Não será, por isso, difícil concluir que os implantadores do metodismo em CAXICANE terão navegado sobre o manso Kwanza.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

DE EX-LIBRIS A "LIXEIRA"

Contam os mais velhos que "até 1975 o Edifício que suportava a antiga açucareira do Bom Jesus já foi o ex-libris da localidade", ou seja o seu cartão postal.
- Aqui, todos os que vinham para a agricultura e trabalho nas plantações, fossem brancos, patrícios ou contratados do sul, todos, a primeira coisa que pediam para ver era a fábrica da açucareira", conta o septuagenário Domingos Bandeira cuja família aí aportou para trabalhos na construção civil e depois nas plantações de cana-de-açúcar e outras que foram existindo, depois da paralisação da açucareira.
Erguido cuidadosamente com pedra e cal e com alguma variação de tijolo maciço e cimento, a edificação de dois pisos e um sopé de madeira fora projectado para resistir ao vento e à água, contando também com prováveis inundações. A rua, principal, é a da marginal do Bom Jesus, uma barreira de terra criteriosamente seleccionada e compactada, misturada com rochas neolíticas de maior resistência. A parte traseira conservava as máquinas e os fornos, hoje votados ao abandono. Nem só um contador de história no local para animar turistas que muito perguntam sem respostas sábias e prontas.
Verdade ou não, também se conta que, "antes de se edificar o edifício naquele espaço, a natureza oferecia uma nascente de águas termais que foi, entretanto, extinta por acção humana".
Hoje, as ruínas clamam por alguma atenção "museológica" ou similar para manter a memória da serventia que tiveram num passado de glória não muito distante. No espaço contíguo à fábrica foi erguida uma processadora de água, uma assinalável mais valia, tendo em conta a criação de postos de trabalho e o relançamento da industria na região.
O edifício de paredes "fortes e robustas" é hoje um "fraco" a desabar aos poucos, transformado em depósito de lixo e com as mulembas a cuidarem das suas paredes.
E como quem se previne evita males piores, demolição é o que mais se sugere, antes que haja azar para quem por aí passa regular ou sazonalmente instalado na sua viatura ou os tundenge que brincam inocentemente na ternura da sombra do imóvel abandonado.
Algum'alma atenta para ver o que se passa e sugerir alguma serventia? É que mais a baixo, uma já bem conhecida firma agropecuária transformou "terra parada" em verdejantes campos de bananal, videiras e outras culturas, enquanto que na zona norte florescem pujantes indústrias de bebidas.

Texto publicado no Jornal de Angola, Caderno Fim-de-Semana, Nov. 2017

ENTRE PROMOVER O CONSUMO E POUPAR PARA O ESTÓMAGO

Acordei tropeçando em sapatos que raras vezes uso. Abri o roupeiro e deparei-me com muito vestuário que uso de vez em quando ou quase nunca.
 
Vivemos comprando coisas que não precisamos; Com o dinheiro que não é nosso (créditos bancários); Para parecer que somos o que não somos (financeiramente folgados). É óbvio que não precisamos de viver no limite das possibilidades, tendo apenas o estritamente necessário. Porém, também não precisamos de ter “a máquina consumista” no limite de potência, entrando em descompasso caso o “equipamento” entre inesperadamente em actividade. Tal se formos mais comedidos nas compras?
 
Os especialistas em marketing sempre nos impingirão a comprar cada vez mais e satisfazerem, desta forma o desejo dos vendedores e prestadores de serviços para quem trabalham. Os fabricantes e prestadores de serviços (combinados ou desagregados) vivem da produção e venda. É o consumo que gera crescimento. É estimulando o consumo que a moeda circula. Mais consumo resulta em mais dinheiro e mais investimentos. Teorias conhecidas mas que, a meu ver, e para quem junta cêntimos para ter o que levar à boca, deve ter a noção de que hoje, os produtos e até os serviços que se prestam são dimensionados no tempo. Desvalorizam-se à velocidade da criatividade e da moda, tornando-se muito efémera a sua duração. Você compra um veículo cujo design é atraente. Seis meses depois sai um novo modelo com um design “irresistível”. Você precisa de veículo em bom estado técnico para se locomover ou precisa de andar naquele com novo design?
 
Quem segue perdidamente a moda ou os apelos dos "marqueteiros" apenas vai dançando a música dos PRODUTORES amplificada pelos homens da PROMOÇÃO. Você será o homem ou a mulher que sempre estará na PRAÇA, comprando a qualquer PREÇO, com o dinheiro que (ainda) não é seu. E vai trabalhar cada vez mais para pagar o que você deve ao banco que também lucra com os juros. Ou você descarta a moda que o leva a usar produtos perecíveis e supérfluos ou sentir-se-á como eu que, mesmo estando desalinhado com a moda, sinto-me ainda cheio de coisas que me parecem estar a mais.
Pense nisso antes de se fazer á praça! 

segunda-feira, janeiro 15, 2018

A MISSÃO CIVILIZADORA METODISTA EM CAXICANE

Ruínas da casa pastoral
Frequentado o espaço e recuando no tempo, as conclusões, depois de visitas à memória, não são demoradas.
Quem vai a CAXICANE vê o delta do rio Kwanza, todo ele comprido, curvilíneo, majestoso e preguiçoso, e casotas que se escondem sobre o arvoredo ribeirinho. Encara ainda uma picada tangencial ao rio, inacessível no tempo chuvoso e que terá sido pior no início  do século XX, quando Agostinho Neto nasceu (Setembro de 1922) e seu pai Rev° Pedro Neto  pastoreava a igreja metodista local. Encontramos povos agricultores e pescadores espalhados pela planície longa e húmida que podiam "professar", para além do Nzambi, outras divindades ligadas à fertilidade do solo, à chuva e às enchentes que, anos sim, anos não,  visitam furiosas os campos e as habitações de pau-a-pique daquelas região.

Novo templo
E foi nesse cenário que a caravana metodista, procedente dos Estados Unidos da América, Marco de 1985, que trafegava sobre o Kwanza implantou a Igreja Metodista de CAXICANE, no Icolo e Bengo. Era preciso destapar as vendas, fazer daqueles povos cidadãos do mundo, conhecendo a sua cultura e geografia e descodificando o alfabeto para descobrirem que "havia mais muindo do que o horizonte de seus olhos" e tomarem conhecimento do que os outros povos haviam já inventado e comunicarem eficazmente com o passado e o futuro. E Pedro Neto, pastor ainda jovem, foi mandado ao local para dirigir a Igreja de Cristo imbuída da sua missão CIVILIZADORA, ensinando as crianças a ler e escrever e os adultos a conhecer a Deus único, verdadeiro e poderoso, sobre o qual gravita todo o ser, pensar e estar. Os bons costumes como a poupança, a monogamia, o desapego às práticas místicas e inibição da bebedice foram e ainda são outras das lições que os metodistas ensinam e conservam.
Quem vai a CAXICANE logo conclui que não podia ser outro o caminho. Apenas o Kwanza. Tal é a proximidade entre a igreja (a primeira já sem sinais, a segunda em ruínas e a terceira feita de blocos de cimento) e o rio, separada apenas por parcos quinze metros do leito, sendo que "quando as pessoas não falam é o Kwanza que conta estórias". E o mesmo Kwanza, bi-lateral, teria no seu silêncio milenar, apadrinhando o surgimento de outras "missões protestantes" no seu outro lado, o direito: Kisama, Lubolu, e terras além mar...

terça-feira, dezembro 26, 2017

INFLUÊNCIA DA MEDIA NA FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COLECTIVA

Foto de Luciano Canhanga.
A convite dos organizadores, no dia 26.12.17, falei sobre "A influência da media na formação de consciência colectiva".
Referi que os media têm de ser responsáveis e se comprometerem com a verdade, equidistância e isenção.
Atestei que os jornalistas devem saber: de quem é o órgão, que objectivos pressegue e qual a linha editorial.
Acrescentei que devem saber ainda identificar e diferenciar medias generalistas, de especialidade e doutrinários. Só assim saberão qual o seu pape...l no media e se estarão a fazer jornalismo ou alguma espécie de propaganda...
Exemplifiquei que aqueles menos formados e menos informados acreditam piamente no que se veicula nos media e no que dizem os jornalistas como se fossem verdades acabadas. Até nossas crianças, em casa, as vezes relutam em corrigir aspectos linguísticos e científicos que lhe tenham captado dos media com o argumento de que "disseram na rádio, li no jornal ou vi na tv".
Recordei as três missões básicas da media: informar (com verdade), formar (com bases científicas) e entreter (com responsabilidade), sendo que maus conteúdos ou conteúdos manipultórios podem influenciar negativamente a sociedade, assim como a "boa árvore produz frutos excelentes".
 
|Orlando e Luciano são líderes carismáticos de duas formações políticas antagónicas de maior expressão. Em véspera de eleições com o tom de voz em alta e com algumas confrontações entre simpatizantes, um deles profere palavras hostis, podendo acender a pólvora e afectar a estabilidade política e social do país. A media emite ou Omite os dislates?|

Foto de Luciano Canhanga.
Como recomendação final, pedi aos jornalistas e candidatos a jornalistas que lessem as dez teorias da manilulação através dos mass media de Avran Chomsky, pois a heterogeneidade da assistência não me recomendava fazer recensões sobre o respeitivo conteúdo. Tb procedi alterações significativas ao que havia preparado para "uma conversa entre jornalistas", porque fui confrontado com mais de quinhentas pessoas na sala, não sendo jornalistas, ou seja, pessoal não especialista.
 
Imagens "roubadas" do mural do Emanuel Bianco

 

sexta-feira, dezembro 15, 2017

ORALIDADE EM KISONGO

A MAYOWA DE CAMBAU
Em Cambau (Kambaw) 53 Km de Calulo (Kalulu), conta-se:
Há muito tempo, quando os homens se sedentarizaram, um régulo havia orientado o máximo empenho no trabalho que consistia na agricultura de sobrevivência, pesca, caça e a recolecção que persistiu até há bem pouco tempo. As doenças que afectaram a região durante alguns anos, sem explicação, produziram muitos portadores de deficiências e "inválidos" para os trabalhos árduos de uma vida rural sem maquinarias.
Inicialmente, a população construiu um centro onde ficavam todos os deficientes que eram alimentados mediante a contribuição alimentar de todas as mulheres e homens activos. Como os males se repetem, uma seca afectou a região que se vê cercada por cordilheira montanhosa em todos os lados. Os homens intensificaram a pesca e os jacarés que habitavam preferencialmente o estuário de Mayowa, ficaram sem o que comer. Começaram a rondar a aldeia e a atacar os meninos incautos e os portadores de deficiências.
Sem caça, sem sorgo e sem peixe os "inválidos" passaram a ser um peso para a comunidade. Mayowa passou a ser solução: cegos, mayowa. Coxos, mayowa. Mudos, mayowa. Tetraplégicos e crianças com dentes sobrepostos, mayowa!
A mayowa passou a ser o local de sacrifício humano de todos os indesejados.
O régulo tirano, só daria conta da sua má opção quando contraiu uma hérnia escrotal, obrigando o povo a cumprir o que ele mesmo ordenara: mayowa para alimentar os jacarés e sobrar peixe para os "válidos!".
Em Cambau, com um ou outro retoque, todos contam a lenda. A única coisa que não conseguem determinar é quando tal prática começou e quando terminou. Há quem arrisque que apenas com a chegada dos missionários metodistas e católicos à região tal pratica se extinguiu. Porém, a mayowa ainda está lá, num riacho que vai ter um dique este ano, obra do fazendeiro Oka, podendo aumentar a quantidade e qualidade de peixe para os aldeões e os jacarés que nunca se distanciaram da região de Cambau.

Publicado no jornal Nova Gazeta de 02 de Novembro/17