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sábado, junho 01, 2019

SONGO NA ESTRUTURA DA ALDEIA RURAL TRADICIONALISTA

(tentativa de descrição da divisão político-administrativa da aldeia rural tradicionalista)

A vertente "positiva" da divisão político-administrativa do Estado angolano, apresenta-nos o país subdividido em regiões (norte, sul, centro e leste e costeira/oeste), províncias, municípios, comunas/distritos urbanos, cidades, sectores/zonas, quarteirões, aldeias, etc.
Olhando para a organização do que foi/é o potentado de Kuteka, nas margens do Longa, abrangendo territórios adstritos à comuna de Munenga (Libolo) e comuna de Dala Cachibo (Ndala-ya-Xipo, município da Quibala), noto que o soberano (designado rei) exerce poder sobre as aldeias de Hombo, Mbango, Kabombo, Kipela(?) e Mbanze (a capital), podendo cada aldeia ter outras aldeolas (unidades dependentes e de menor aglomeração populacional), podendo ainda subdividir-se em sectores residenciais ou zonas, também designadas (no caso de Mbango) por "songo" (comunidade afectiva).
 
Sendo "songo" a menor unidade de organização territorial nas comunidades rurais tradicionais, pode equivaler, quando comparada com a comunidade urbana, a bloco ou quarteirão.
 
Na antiga aldeia de Mbangu-yo-'Teka (Mbangu-de-Kuteka), Kinhendu, Kitinu, Kabota e Zawlena Kilombo, todos parentes próximos eram do "songo/quarteirão" de Ketele, enquanto outros aldeões como Kyuma Albano eram do Nguya.
 
O "songo" é/era fundado na base de um parentesco mais intrínseco (consanguinidade e/ou amizade pura), credo (religioso ou animístico), origem migratória, ocupação socio-profissional (pescador, caçador, etc.), entre outros quesitos, não estando dissociado de um todo que é a aldeia, unidade administrativa do potentado (reino).
Nessa reflexão/busca, trago à colação um extracto do cancioneiro popular que cita:
"Bu songo yeto twoso twatata, kabwete otuxitila, so tulizek'ayo" (no nosso sector/comunidade todos somos homens, não há quem moa fuba, por isso passaremos noite com fome).
 
Um exemplo da ex(pers)istência de "songo" é encontrado na aldeia de Pedra Escrita, no Libolo, que cresce por via da migração de povos de aldeias afastadas da via asfaltada para essa, com destaque para os povos de Kuteka que, regra geral, erguem as suas habitações ao lado dos primeiros emigrantes da mesma procedência. Assim, quem se dirige à Pedra Escrita e procure por alguém que tenha nome redundante é questionado sobre a origem do procurado.
 
Explicando, por exemplo, que "procura pelo domingos do Mbangu" torna-se fácil ao "cicerone" percorrer mental e visualmente o "mapa da aldeia e suas sub-unidades/comunidades" e passar uma informação assertiva.
Voltando ao "Estado" tradicional de Kuteka, verifica-se que o soberano (Kañane ou Phela) exerce poder sobre a população das aldeias acima citadas, e estas possuem jurisdição sobre as terras (cultiváveis e não agricultáveis, montanhas, florestas/muxitu), rios, coutadas para caça, etc. Os limotes do potentado são físicos (acidentes naturais) mas conhecidos por toda a comunidade, sendo sua invasão por estranhos (sobretudo em termos de caça) passível de multas.
O povo desse potentado internaliza aspectos comuns como língua, credos e um sistema de jurídico-administrativo próprio.
Importa aos historiadores contemporâneos resgatarem esses relatos histórico-sociais e político-administrativos das nossas comunidades para que se possa compreender a genesis da estrutura e organização das comunidades rurais tradicionalistas do nosso país.

sexta-feira, maio 03, 2019

A CATANA E O HOMEM DO CAMPO


Na cidade tornou-se raro ver um homem, mesmo idoso, sem o seu celular. Até a bíblia, inseparável dos homens de idade nos dias de culto e missa,  vai ficando para trás pois o pequeno e inteligente aparelho consegue incorporar o velho telefone de discagem, o rádio receptor, o leitor de música,  a bíblia, o hinário e a harpa, a máquina calculadora, o medidor de passos e da tensão ou ainda a bússola, o termómetro, a balança e o relógio. A máquina de escrever e as de fazer fotos e filmes também estão dentro do celular. E é isso que confere alegria ao homem da cidade que fica doente se, por distração alguma, se vir distante do seu brinquedo facilitador em quase tudo.

No campo é outra coisa. Os capinzais altos nos atalhos, as árvores derrubadas pelo vento e pela chuva, as cobras procurando sol nos descampados por onde o homem passa, as feras que procuram no homem o seu mata-fome,  o cultivo, a poda, a colheita, a auto-defesa e outras valias para a vida campestre remetem à catana a importância transcendental e inquestionável do dia-a-dia.

No campo, um homem sem catana não é Homem. É amador, desprevenido e vulnerável. Todo o perigo é com ele e de tudo quase se pavoneia.

Em mãos de homens do campo, encontramos catanas de diferentes figurinos: com extremidade dianteira curva (semelhante à usada no 4 de fevereiro/61 e por isso assim designada), a rectilíneas, umas mais largas do que outras diminuídas pelo afiar permanente da lima ou pedra, sendo transportadas na mão firme ou à cintura.

A catana para o homem campestre é como a tradicional caneta e bloco de notas no bolso do colete de um bom jornalista que, mesmo usando gravador de som, nunca põe de parte a memória cerebral (ouvir, interpretar e reter) e o seu bloco de notas, coisas que pouco se vão ensinando ou que a nova geração despreza, correndo, com isso, riscos desnecessários.


segunda-feira, abril 01, 2019

PUMBA: ARTEFACTO DE CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

É à volta da lavra, para impedir a invasão de pacas, coelhos e semelhantes, que se coloca(va) uma cerca, normalmente galhos de árvores. As pumbas eram (são) colocadas em aberturas deixadas a propósito como portas de entrada, transpondo a cerca. Essas armadilhas também pod(iam)em ser montadas em caminhos habituais dos animais. São construídos com pedaços de troncos de árvores dispostos paralelamente, suportando uma carga que é detonada pela piscadela dos animais num gatilho colocado à superfície. O kabolo entre os ambundu do Libolo e Kibala (pumba) não escolhe alvo. Basta exercer pressão sobre o gatilho. O cão pode ser vítima. A cobra também. O termo "unyuna" significa ir visitar as armadilhas, de manhã cedo. É uma tarefa diária percorre a fronteira sertaneja da lavra para visitar os artefactos. E havia dias excelentes em que a kizaka ficava aposentada.
Para além da pumba, existe outro artefacto maior, a "kindamba". É quadriculado, mais largo e com mais peso. Colocado onde normalmente os animais vão roer terra por alegadamente conter NaCl (sal). O artefacto quadriculado suportado por uma baliza (dois paus verticais e um transversal com duas varas que se estendem da "baliza" ao gatilho, na parte inferior traseira. Para que a frequência dos animais não cesse, normalmente os mais velhos costumam deitar água salgada ou mesmo sal nos locais onde os animais vão roer terra, alegadamente por conter sal. O engatilhamento é semelhante ao da pumba.

sexta-feira, março 01, 2019

QUATRO NOTAS SOBRE A LÍNGUA DOS KIBALA

Quando a 9 de junho de 2012 o político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à Ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para proceder a troca da designação erroneamente atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola Yetu, não o fez sem razão. Havia sido realizados, sob sua governação, dois encontros em que se discutiu a problemática linguística na província.
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu"(nosso Kimbundu) ou Kimbundu do Kwanza-sul, indo de encontro àquilo que a população autóctene responde quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala...(FALO KIMBUNDU, FALO O NOSSO KIMBUNDU, KIMBUNDU DA KIBALA).

Na senda do debate que vimos provocando nas redes sociais e nos jornais convencionais (Cruzeiro do Sul, 3-10 Maio 2008, Jornal Cultura, 2016, www.olhoensaios.blogspot.com, etc),  o meu conterrâneo Tony Mora, avisado por um outro "conterra" e amigo comum, reagiu com hombridade aplausível, por me ter notificado, a que retiro e partilho 4 pontos para uma nova reflexão. Diz, o Tony Mora, no texto que me remeteu que:
1- O termo ngoya, como designativo da língua falada em grande de parte do KS, foi introduzido na rádio provincial em 1993.
2- As tentativas para gravar o programa com a designação Kimbundu não surtiram efeito.
3- Sob a governação de Serafim do Prado, realizaram-se dois encontros para analisar as línguas faladas no Kwanza-Sul.
4- ... Kanyanga (um intruso no debate?) surgiu apenas em 2018...
Perguntas:
1- a) Por que omite a primeira rádio a emitir um programa com esse nome que foi a VORGAN em finais dos anos 80 do século XX?
b) Que estudos fizeram na altura do lançamento do programa para concluir que a língua não era Kimbundu mas sim ngoya?
c) O Ministério que atende pelas questões linguísticas foi ouvido em 1993?
2- a) Por que não conseguiram, em 1993, lançar o programa com a designação Kimbundu?
b) É a rádio quem determina a autonomização das línguas em Angola?
3- a) Sabia que Serafim do Prado escreveu, a 9 de Junho de 2012, à Ministra da Comunicação Social (a mesma pessoa que atende hoje pelo pelouro da Cultura), pedindo a troca da designação do Programa, retirando a expressão ngoya, por considerara que ela não era aceite?
4-a) É a idade que determina o conhecimento?
b) A discussão sobre a designação da língua que se fala no Kwanza-Sul é matéria exclusiva dos que surgiram em 1993?
5- Não estaremos perante um caso de "investigar" para justificar o nome (ngoya) quando a investigação devia ser prévia à criação do programa?

Sem demérito àquilo que os signatários do “anguoia que significa vai por aqui”(?), publicam no Jornal de Angola e retomado pelo Portal de Angola a 15/07/2011, uma melhor compreensão do assunto passaria por fazer um levantamento com metodologia aplicável à ciência social nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul, como o fizeram Héli Chatelain, Maia, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.

O dinamismo das línguas pode levar algumas variantes à emancipação, aí onde as correntes forem mais heterodoxas do que ortodoxas. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes do ngoya para a designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul. Há, por isso, que separara as águas e definir o que se pretende: autonomização ou redesignação?

Como nota final, convido o (a) leitor (a) a colocar aos Kwanza-sulinos (norte e centro) maiores de quarenta anos as seguintes indagações:
1- Ouve rádio com frequência?
2- Ouve a rádio Kwanza-Sul e a rádio Ngola Yetu?
3- Quando começou a ouvir o termo ngoya como língua que se fala no Kwanza-Sul?
4- Antes disso que língua falava?
5- A língua que se fala no Kwanza-Sul (com excepção do Seles, Kassongue e Sumbe) é Kimbundu, Umbundu ou Ngoya?
 

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

PESCAS FLUVIAIS NO LUBOLU E KIBALA

Os ambundu do Kwanza-Sul, província angolana cercada por Luanda , Benguela, Huambo, Bié, Malanje, KWanza-Norte e Oceano Atlântico, são tanto agro-pecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta alimentar, de si já rica, visto serem povos há muito sedentarizados.
A pesca é feita, normalmente, em rios, visto inexistirem grandes chanas e lagoas na região. Rios como o Kwanza, Longa, Ñya, Phumbwiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O ngwingui/phonde (bagre grande), olundu (bagre pequeno) ikusu/ikele (tilápia), otimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hala (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.
Os povos Lubolu e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior captura. Mudam os meios ou instrumentos, em função do caudal e da estação.
Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha, quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolu e Kibala também usam as nassas (munjya/muzwa), cestos (kwalu) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas à água (kwimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos do rio isolados pela seca. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (wanda) e armadilhas de redes.
Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas. A garotada aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo um exercício prazeroso e relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas (matalhi/matadi) confeccionadas à base de argila cozida. As nassas e cestos são feitos à base de fibras de junco ou de palmeira.
Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolu e Kibala jogam também com a posição da lua, pois acreditam que "enquanto mais luz houver, menor serão os resultado da fainas".
Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma equitativa entre as famílias participantes, compensando-se os menos afortunados.
A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.
  

terça-feira, janeiro 15, 2019

A CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

           
Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolu e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de trinta e cinco , mas que se mantêm intactos fruto de idas constantes á região e recomposição dos traços e factos culturais dos povos em descrição.
Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolu (Libolo) e  Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

No Lubolu e Kabala, tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (nvula) que é mais longa (9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) cacimbo. É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (uximika mwízo).
As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, em teoria, "pertença" do soba/rei. O direito consuetudinário impõe limites geográficos não muito tangíveis, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do soba/rei, deve atear fogo ao capim para a prática da caça.
É o soba ou são os mais velhos da comunidade, competentemente autorizados, a quem cabe delinear o programa de caças durante os três meses de tempo seco.
Antes de se fazerem ao mato para a caça colectiva, são preparados minuciosamente os instrumentos: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombwa (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais de pequeno porte e carne limpa), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungwa (cone feito de malha metálica), mbwety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só, perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.
Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço a arder tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas e outras armadilhas e artefactos, passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.
Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a limpeza e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que seja o seu porte, um pedaço de carne era/é destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Utona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.
Ao (mwen'axi) "dono da terra" (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.
Existe entre os Lubolu e Kibala outras formas de caçar. No período chuvoso ou impróprio para queimadas, usam-se armadilhas metálicos (otwela), rudimentares como a pumba (obolo/indamba), laços (nzomba) e ainda armas de caça. Aqui, sendo actos individuais, o produto da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o mwen'axi e familiares directos.
As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.
Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras-de-leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras mangustos e outras espécies são abundantes e, por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos, jacarés  e onças também habitam a região.
As carnes de moma (jibóia) e de nguvo (hipopótamo) são igualmente apreciadas pelos ambundu do Kwanza-Sul. A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.
Soberano Kanyangta


sábado, dezembro 15, 2018

A CIRCUNCISÃO ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

Tenho-me apoiado na coragem do Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que tenho como guia espiritual neste “reencontrar origens” e procuro dedicar-me à causa que é "trazer a verdade sobre os Ambundu do Kwanza Sul".
 Tento, nesta edição, abordar de forma vivencial a circuncisão entre os Ambundu do Kwanza-sul (Lubolu, Kipala, Kisama, Hako, Hepo, Kilenda e Sende).
Ao contrário dos Bakongo que, por norma, efectuam a circuncisão à nascença, os povos do Lubolu e circunvizinhos mandam os rapazes para a "casa de água" (onzo-y-mema) na adolescência ou na segunda infância, aí entre os seis ou sete aos catorze anos de idade.
 Ao acto de circuncidar (extração do prepúcio) designam "utina". Se nas sociedades modernas tal cirurgia é efectuada por um médico ou paramédico, nas comunidades tradicionalistas é chamado um "mestre" (mesene) para o fazer. Normalmente, o "mestre" fá-lo a sangue-frio (aconteceu comigo em 1982) e ainda se assiste em determinadas localidades onde faltam enfermeiros.
Aos olhos dos garotos, o "mestre" é tido como um "individuo de olhos ensanguentados", talvez devido à enorme quantidade de sangue que fez derramar e que seus olhos já viram. É um individuo muito temido pelos rapazes incircuncisos que se apavoram à sua passagem, sendo igualmente respeitado pelos pais. A enfrentá-lo ficam apenas aqueles que não possuam outra saída senão o "desafio de vida ou morte" e que lhes dará um novo estatuto social na comunidade.
A operação acontece, normalmente, junto a um ribeiro e  isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os circuncidados, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e os cadetes. O "kaporroto de primeira" serve de esterilizante da navalha do "mestre", depois de cada operação cirúrgica.
Um ajudante ou um parente próximo dos mancebos ajuda o mestre, agarrando as mãos e prendendo igualmente as pernas do “paciente”, imobilizando-o.
Terminada a operação, o cadete senta-se numa pedra ou num tronco onde deixa escorrer o sangue da cirurgia e lhe são ministrados alguns “milongos” à base de folhas medicinais. Durante os curativos são ainda usados medicamentos como o mercúrio-cromo, tintura de iodo e a penicilina previamente adquiridos pelos pais dos petizes.
O período que demora a cicatrização é também de aprendizagem de várias artes e ofícios, como: caçar e pescar e são também transmitidas aos noviços noções sobre a sexualidade, vida familiar e social, bem como a fabricação de armadilhas e utensílios diversos.
Njine é a designação atribuída ao pénis circuncidado, ao contrário de Kifutu (incircunciso). Um homem que tenha “passado pela faca” ganha na sociedade um novo estatuto. Torna-se um homem maduro. Por isso, a própria sociedade condena determinadas acções como: tomar banho desnudado e em público, pois o individuo circuncidado é tido como um homem que deve ser respeitado e diferente dos outros rapazes, ainda que da sua idade, mas que não tenham passado pela “casa de água”.
A alimentação dos cadetes é feita de forma cuidada e selectiva. Não se alimentam de ervas e só pessoas que não mantenham relações sexuais durante o “aquartelamento” podem cuidar quer da alimentação, quer da guarda, dos circuncidados. Ovos e sal (por excesso) estão fora da dieta. Dizia-se e ainda se diz que "não se come tão bem e do melhor do que no acampamento dos circuncidados".
Só depois de curado o último dos mancebos é que o grupo regressa à aldeia, mas antes, os "novos homens" da comunidade procuram encontrar uma bananeira, em cujo caule fazem uma perfuração em que enfiam a "pontinha" do membro (diz/ia-se que era para escurecer a cicatriz). Em zonas com existência de imbondeiros o orifício é/era feito no caule desta árvore (a lenda atesta que tal acto dá grandeza ao órgão reprodutor.)
No fim de tudo, quando cumpridos todos os passos e rituais, uma zagaia (arco) e uma flecha (honji li musongo) são entregues a cada um dos cadetes que perfilam e caminham até à aldeia... Cada mancebo exercita disparando a flecha contra a porta de casa (podem ser várias casas indicadas) e são-lhe dadas algumas oferendas.
É ponto assente que ao longo dos anos muitos cadetes não resistiram a hemorragias e sucumbiram, o que tem levado as comunidades a encontrar um meio-termo entre o moderno e o tradicional. Um enfermeiro, em vez de um artesão; lâminas individuais em vez de uma faca colectiva; anestesia em vez de a sangue-frio; entre outras inovações de que sou apologista, mas sem que desvirtue a vertente social e educativa da circuncisão.
Não há, nesta região, registos orais sobre a ocorrência, mesmo em períodos muito recuados, de incisão genital feminina, tão pouco de acampamentos de iniciação de raparigas que entretanto se casam muito cedo, comparativamente às meninas dos centros urbanos. A sociedade rural Libolense e aparentada é permissiva à poligamia, condenando, porém, veementemente o adultério feminino e a poliandria que são sancionados com avultadas multas pecuniárias ao homem infractor.
O Soba, entidade administrativa da aldeia, também administra a aplicação da justiça comunitária com base no direito consuetudinário.
Os tempos modernos são de busca de combinação entre o moderno e o tradicional, encontrando-se já os sobas a trabalhar lado a lado com os secretários de aldeias, os administradores comunais e os chefes das esquadras policiais mais próximas, buscando um equilíbrio entre o direito positivo e o costumeiro.

Suporte:
VINTE E CINCO, Gabriel: Jornal de Angola, 28/12/2008
 


quinta-feira, novembro 15, 2018

OS AMBUNDU DO K-SUL: DELITOS, TRANSGRESSÕES E PENALIZAÇÕES

Os Ambundo do Kwanza-Sul: delitos, transgressões e penalizações nas aldeias rurais
A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceite em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que estão acima de um status particular no sistema hierárquico estabelecido (Max Webber).
 
Para além dos meus primeiros dez anos de vida passados em aldeias rurais do Lubolu (Libolo) e arredores, tenho-me servido de idas constantes à região que descrevo para "in situ" reviver o "modus vivendi e operandi" destes povos.
As comunidades rurais do Lubolu, Kibala e doutros povos ambundu que habitam o território da província angolana do Kwanza-Sul, apesar de não possuírem uma pauta que tipifique o que são delitos e o que são transgressões, nem tão pouco as penalizações para cada desvio de conduta social, têm um sistema jurídico baseado em mores e hábitos aceites universalmente pela comunidade e que têm o peso de lei.
 Ukambula é o termo que, traduzido para português, equivale a cometer delito ou desviar-se socialmente. A autoridade administrativa e a sua corte, no caso o rei/soba é também o garante da legalidade na sua jurisdição, sendo auxiliado na administração da justiça pelo Ñgana Thandela (espécie de ministro da justiça) que é perante a corte o responsável pela aplicação da lei.
O delito maior é o assassinato ou seja a morte de alguém, de forma voluntária, o que pressupõe dizer que o direito à vida é o principal que a sociedade atribui ao homem.
Roubos, furtos, violações, falsos testemunhos, agressões físicas e verbais, incêndios contra propriedades privadas e ou colectivas (como as coutadas) são frequentes, sendo igualmente os desvios às normas sociais mais conhecidos e punidos de acordo ao direito consuetudinário.
Fruto da sua crença no poder dos defuntos e antepassados e sua irreligiosidade (muitos são ainda animistas embora proliferem as novas seitas de orientação cristã) os povos em referência têm uma grande crença no feitiço. Daí que acusações de feiticismo preenchem o dia-a-dia do soberano e das comunidades.
Entre as penalizações constam a simples censura, restituição de bens de terceiros (roubados ou danificados), indemnizações (pecuniárias e em espécie), castigos físicos consentidos, entre outros.
A autoridade do rei/soba é reforçada pelo animismo e pela ideia de feitiço. O rei/soba é tido como o detentor do mais forte feitiço, daí que para além de respeitado é igualmente temido, sendo as suas convocatórias, normalmente de comparência obrigatória. Os povos destas comunidades apesar de professarem algumas crenças religiosas (católica e protestantes) têm uma ligação muito forte a seus ancestrais e retornos a práticas animistas.
No esforço de conciliação entre o moderno e o tradicional, muitas vezes os reis/sobas encaminham determinados "casos" às autoridades políticas e judiciais, sobretudo casos de homicídios voluntários, evitando-se assim que seja executada a justiça por mãos próprias. As autoridades policiais locais (as mais próximas) têm sido igualmente várias vezes chamadas para dirimir querelas que os soberanos julgam poder fugir do seu controlo. Outras vezes, são os próprios cidadãos que recorrem ao direito positivo, sempre que julguem ineficazes os julgamentos comunitários.



Suporte:
1-http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber, consulta 05.02.09
2- VINTE E CINCO, Gabriel: Os Kibalas, Núcleo-Publicações Cristãs, Lda. Queluz, 1992

Texto publicado no Jornal Cultura ed. 11-24 set/18
 

segunda-feira, outubro 01, 2018

NAMBI KO EKOVONGO

- Mano André, "nó" serve "ansim". Todas as partes boas da galinha é p'ra ti e os outros, que até contribuíram no óbito, vão se lamber só nos dedos e partir ossos? Na hora da contribuição ainda o mano estava a se esconder entre as mulheres, a fingir lágrimas que não vimos. - Desabafou audível a prima Miquilina que fora avisada por uma sobrinha sobre o comportamento incivilizado de um tio.
Ekovongo é a aldeia mãe do Kwitu, capital do Vye (olongombe vye). Dizem que "o branco, quando veio do Putu, com Silva (do) Porto à cabeça, primeiro ficou no Ekovongo e depois é que foi para a urbanidade criada pelo Silva".
A embala estava em óbito. Pessoa grande, de respeito na aldeia, na "kacidade" de Kwitu e na "kicidade" de Loanda, onde quem lá brilha, na embala é tipo sol.


O finado Ekofika fez-se homem entre Ekovongo, missão de Kamundongo onde estudou bem, Kwitu onde trabalhou e Loanda onde se reformou a constituiu bens. Mas o óbito foi levado mesmo (pela menos na imaginação) à aldeia natal.
Partiu numa terça-feira de sol envergonhado, depois de muito bregar para adiar a morte. Filhos, sobrinhos, primos, amigos de todos os tempos, todos procuraram tê-lo mais tempo em vida e, por isso, ajudaram nas contribuições. Ekofika foi buscar saúde ao estrangeiro, à faca se submeteu, mas, em vão. Pariu mesmo.

- Quando Jesus te chama, você pode mesmo ir "no" melhor professor dos médicos, os anjos não te largam. - Dizia-se eufemisticamente para aliviar a dor dos filhos e da família próxima.
- Mas o mano Ekofika combateu um bom combate. Assim, a oração "venha agora o teu reino e seja feita a tua vontade", que temos orando na IECA, foi mesmo cumprida. - Desabafou outro presente também condoído.
Mano André, do prato cheio, estava ainda calado, quando essas cenas todas começaram a ser narradas. Para ele, trabalho no óbito era apenas controlar a logística e encher a pança de boa cabidela e bom vinho.
- Comigo, é médico mesmo que me disse, vinho só tinto de garrafa. Pacote "nó" entra, nem "ngalinha" da loja. - Dizia, a mostrar os dentes todos na boca.

 Se cá fora eram tertúlias, contribuições para alimentar e dar de beber às visitas, lá dentro, com a coitada da viúva, também havia trabalho. As civendji (tchivendji), senhoras que fazem companhia à viúva, tinham a missão de a distrair e com ela chorarem à chegada de um familiar próximo ou amigo importante do de cujus. Imaginavam momentos passados com o falecido Ekofika, para puxar compaixão e lágrimas, e atiravam uma expressão de todos conhecida.
- E agora, mano fulano, o Ekofika nos deixou. Twasala ulika!

Outras civendji que não tinham convivido o suficiente com o finado recordavam seus entes partidos há muito e soltavam, à memória, choros acompanhados, às vezes, de lágrimas fartas. Ser civendji não é "fácii", diria a minha sogra Buenos Aires.
Ao sétimo dia, as civendji são libertadas, em parte. Confinadas ao quarto da viúva, durante aquele período, são finalmente alimentadas abundantemente. Servem-lhes, por isso, bebidas e carne (aquela que sobra dos comensais, não restos, não senhor!), dão-se-lhes passagem e se dispersam, ficando apenas duas ou três, as mais chegadas à viúva, para fazer-lhe companhia nos dias vindouros, até se colocar perante facto consumado e se reerguer para a nova vida sem o companheiro.
Segue-se a reunião familiar. Filhos de todas as "cavalarias" são chamados a participar. Quem não estiver, "ngongo yaye". Descreve-se aos participantes o ambiente que circunscreveu e levou à morte o finado, no caso o mano Ekofika. Contam-se os bens materiais e imateriais produzidos (com sua ndona) e deixados pelo de cujus. Enumeram-se as dívidas contraídas e por saldar. Os credores são chamados para se pronunciarem e reclamarem dos haveres. Uns preferem perdoar os valores ou bens por receber. Às vezes, até mesmo o adversário inveterado faz-se amigo. Acabou o campeonato! Apresentam-se as contribuições recebidas para os gastos durante o nojo, sobras, etc. É assim no Ekovongo. É assim entre os ovimbundu.

Texto publicado no Jornal Cultura, ed.11-24 Set/18

sábado, setembro 01, 2018

NGOYA: A CANOA QUE SE QUER BAGRE

Reza a tradição oral entre os Ambundu do Kwanza-sul, sobretudo os do "desfiladeiro Kibala" que, no tempo das caravanas do centro ao norte, os mbalundu costumavam ir ao Libolo permutar óleo por feijão e outros produtos, como também iam a Kambambi (Dondo) permutar cera. Era na Kibala, ponto de passagem e de paragem para descanso, onde trocavam mimos com os locais a quem "improperiavam" por ló ngoya (avarentos, glutões, bárbaros), dado que os Kibala não se prestavam a alimenta-los. A expressão ngoya, para quem fala Umbundu tem esse sentido pejorativo e os Kibala com juízo não perdoam esse dislate.
Porém, nos anos 80 do século passado surgiu na rádio VORGAN um programa designado "em língua ngoya" cujo orador glosava a variante Kibala do Kimbundu. Mais tarde, 1993 foi a vez da rádio Kwanza-Sul que ignorou o instituto nacional de línguas e criou o tal "programa em ngoya". A rádio Ngola Yeto seguiu o mesmo caminho, uma década depois. Daí em diante, só ngoya em todo o lado, mesmo ao arrepio da ciência e da oralidade. Sendo que quem tenha menos de quarenta anos, pode cogitar a existência no mapa etno-linguístico de Angola de um povo ngoya. É aqui que surge a "canoa que quer ser bagre".
Vinte e cinco anos. É exactamente esse o tempo em que se tenta "transformar a canoa naufragada em bagre". Ou seja, que se propaga que os povos do Kwanza-sul, com excepção dos do Seles, Kassongue e Sumbe (Ovimbundu, segundo um mapa) falam uma língua distinta do Kimbundu a que atribuem o pejorativo designativo de ngoya.
Se a existência de um programa cuja mensagem é passada no idioma que se fala na parte esverdeada do mapa foi um bom exercício, o mesmo não digo em relação à designação inventada para a língua de matriz ambundu (Kimbundu). 
Peço argumentos técnicos e científicos dos reclamantes da suposta "língua ngoya" e não os vejo/leio/oiço, com abundância e profundidade, para além de desculpas de que "...pretendem destruir um trabalho que leva duas décadas e meia..."
O programa estará aí para a "eternidade". Só a suposta "língua ngoya" é que (ainda) não existe, pois não tem nem agrement da maioria dos falantes, nem dos órgãos que tutelam as questões que têm a ver com as línguas em Angola.
É inegável o poder de persuasão da rádio, sobretudo num meio onde ela não tem a concorrência da TV e de jornais e numa sociedade que crê na rádio como se de uma fé se tratasse, sendo os radialistas "semi-deuses da verdade". A rádio e sua propaganda podem  minar mentes e levar muitas pessoas a negar a verdade em detrimento do que é muito apregoado. Pergunte-se, pois, os idosos que língua falavam antes de surgir a rádio (programa na rádio). Antes de se popularizar o termo ngoya, via rádio, que nome atribuíam à língua que sempre falaram. A resposta simples e corajosa, será, com certeza, distinta do "bagre sem vida" que se acha no fundo das águas do Longa, nyiha e Keve.