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quinta-feira, fevereiro 14, 2019

PESCAS FLUVIAIS NO LUBOLU E KIBALA

Os ambundu do Kwanza-Sul, província angolana cercada por Luanda , Benguela, Huambo, Bié, Malanje, KWanza-Norte e Oceano Atlântico, são tanto agro-pecuários, quanto caçadores e pescadores, actividades que melhoram a dieta alimentar, de si já rica, visto serem povos há muito sedentarizados.
A pesca é feita, normalmente, em rios, visto inexistirem grandes chanas e lagoas na região. Rios como o Kwanza, Longa, Ñya, Phumbwiji, entre outros, oferecem variadíssimos peixes, alguns de grande porte. O ngwingui/phonde (bagre grande), olundu (bagre pequeno) ikusu/ikele (tilápia), otimpa, iriuriu, (tuqueia), phele (espécie de corvina), hala (caranguejo de água doce), entre outras espécies, abundam as águas destas paragens.
Os povos Lubolu e Kibala pescam durante todo o ano, independentemente da estação, embora os meses de Julho, Agosto Setembro e Outubro, devido à baixa dos caudais, sejam os de maior aproximação do homem aos cardumes e concomitantemente os de maior captura. Mudam os meios ou instrumentos, em função do caudal e da estação.
Os anzóis são usados em qualquer época do ano, quer como armadilha, quer como instrumentos de pesca imediata. A par dos anzóis os ambundu do Lubolu e Kibala também usam as nassas (munjya/muzwa), cestos (kwalu) e composições de determinadas ervas que depois de trituradas são jogadas à água (kwimba) para entorpecer os cardumes que seguidamente são apanhados com os cestos. Esse tipo de pescaria é usado somente em pequenos rios ou trechos do rio isolados pela seca. Usa-se ainda a "tarrafa" através de arremesso de redes (wanda) e armadilhas de redes.
Quanto à produção dos instrumentos de pesca, os anzóis são normalmente de produção industrial, mas na sua ausência improvisam-se os de produção artesanal. Um pedaço de arame ou fio metálico, desde que maleável, serve de matéria-prima. A cana é normalmente um caniço improvisado e a linha é normalmente de nylon. As comunidades rurais e tradicionalistas desconhecem o uso dos carretos na pesca, embora usem as chumbadas. A garotada aprecia acoplar à linha um objecto flutuante (casca seca de cabaça) que sinaliza sempre que o peixe pique à isca. Isso torna a pesca menos frustrante e sobretudo um exercício prazeroso e relaxante. Quanto à isca, esta é normalmente à base de minhoca, salalé (térmita), pedaços de carne, peixe miúdo e outros condimentos. As redes são feitas igualmente de nylon e de cordas silvestres (redes de arremesso) carregadas de esferas (matalhi/matadi) confeccionadas à base de argila cozida. As nassas e cestos são feitos à base de fibras de junco ou de palmeira.
Para o êxito da pescaria nocturna, os povos do Lubolu e Kibala jogam também com a posição da lua, pois acreditam que "enquanto mais luz houver, menor serão os resultado da fainas".
Ao contrário da caça, a pesca é normalmente individual ou familiar (pai e filhos ou sobrinhos). Há ocasiões em que é realizada de forma colectiva. A aldeia ou parte dela organiza a pescaria e os proventos são repartidos de forma equitativa entre as famílias participantes, compensando-se os menos afortunados.
A sociedade rural, embora tenda a evoluir para o modelo patrilinear, vive ainda fortes resquícios do matrilinearismo, daí que o sobrinho ainda exerce grande influência e goza de regalias do tio (irmão da mãe) em relação ao filho. É ao sobrinho que ainda se contam os segredos e este vê igualmente o tio como o guardião das suas confidências e projectos. Aos cinco anos os rapazes iniciam-se na pesca com instrumentos simples.
  

terça-feira, janeiro 15, 2019

A CAÇA ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

           
Nunca é demais explicar que o meu engodo pela descrição de factos vividos e presenciados no Lubolu e Kibala resultam da minha descendência Lubolista/Kibalista.
Nestas linhas tentarei trazer à memória episódios distanciados há mais de trinta e cinco , mas que se mantêm intactos fruto de idas constantes á região e recomposição dos traços e factos culturais dos povos em descrição.
Embora sedentários, a caça entre os povos que habitam o Lubolu (Libolo) e  Kibala é uma actividade de importância transcendental, na medida em que permite o enriquecimento da dieta alimentar. Serve igualmente de exercício para aptidões mentais e físicas. Pois só homens dotados de inteligência e robustez são capazes de conseguir presas e desfazer-se de iminentes predadores.

No Lubolu e Kabala, tal como em toda Angola, o ano é composto de duas estações: a estação chuvosa (nvula) que é mais longa (9 meses) e a estação seca, também conhecida como (kixibo) cacimbo. É nessa última que mais se pratica a caça por meio de queimadas (uximika mwízo).
As grandes extensões de terras comunitárias, incluindo as de caça, são, em teoria, "pertença" do soba/rei. O direito consuetudinário impõe limites geográficos não muito tangíveis, mas invioláveis. Ninguém, sem autorização do soba/rei, deve atear fogo ao capim para a prática da caça.
É o soba ou são os mais velhos da comunidade, competentemente autorizados, a quem cabe delinear o programa de caças durante os três meses de tempo seco.
Antes de se fazerem ao mato para a caça colectiva, são preparados minuciosamente os instrumentos: la honji l'isongo (arcos e flechas), l'ombwa (cães), salamba (cesto de junco para transporte de animais de pequeno porte e carne limpa), tubia/tibia (lume), lambala,(archotes), lungwa (cone feito de malha metálica), mbwety/ñondo (cacetes), etc., bem como o roteiro. As instruções são passadas ao pormenor e o seu cumprimento é seguido à risca. Qualquer desvio pode, não só, perigar a vida dos caçadores, mas também fracassar a caçada.
Para a operação, grandes espaços de capim seco são cercados e é ateado o fogo. A operação é feita de tal forma que os animais que se encontrem no espaço a arder tenham apenas uma escapatória. Geralmente áreas já queimadas, pequenas florestas, encostas de rios com pouca vegetação, etc. Terminada a queima do capim e com a ajuda de cães, arcos e flechas e outras armadilhas e artefactos, passa-se à procura dos animais que tenham escapado ao cerco.
Enquanto os mais velhos da comunidade se responsabilizam por apanhar os animais, os mais novos têm por missão carregá-los até ao local combinado para a limpeza e divisão. Por cada animal carregado, qualquer que seja o seu porte, um pedaço de carne era/é destinado ao transportador. Uma parte (metade do animal) é/era para o caçador e outra para os integrantes da caçada que a repartem em pedaços mais ou menos iguais. Utona é o termo que se aplica ao acto de repartir os proventos da caça entre os caçadores.
Ao (mwen'axi) "dono da terra" (rei/soba) ficam igualmente salvaguardados os seus direitos. Importantes pedaços de carne vão ao "palácio real" (zemba) para o seu consumo e dos visitantes da aldeia, pois é para lá que se dirigem aqueles que estejam de passagem e que não tenham família na aldeia.
Existe entre os Lubolu e Kibala outras formas de caçar. No período chuvoso ou impróprio para queimadas, usam-se armadilhas metálicos (otwela), rudimentares como a pumba (obolo/indamba), laços (nzomba) e ainda armas de caça. Aqui, sendo actos individuais, o produto da caça isenta-se de obrigações sociais, salvo para com o mwen'axi e familiares directos.
As armadilhas são normalmente colocadas nos atalhos, por onde passam frequentemente os animais para os locais de alimentação e ou abebeiramento, ao passo que com as armas procuram-se igualmente por locais onde se possam encontrar animais que procuram por relva fresca ou água.
Lebres, pacas, seixas, veados, corças, nunces, palancas (castanhas), pacaças, raposas, cabras-de-leque, javalis, porcos-espinhos, canta-pedras mangustos e outras espécies são abundantes e, por isso, os mais caçados. Predadores como hienas, leões, leopardos, jacarés  e onças também habitam a região.
As carnes de moma (jibóia) e de nguvo (hipopótamo) são igualmente apreciadas pelos ambundu do Kwanza-Sul. A onça (ongo), enquanto animal "sagrado", deve ser presente ao rei/soba da aldeia e com ele fica a pele, símbolo de poder.
Soberano Kanyangta


sábado, dezembro 15, 2018

A CIRCUNCISÃO ENTRE OS LUBOLU E KIBALA

Tenho-me apoiado na coragem do Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que tenho como guia espiritual neste “reencontrar origens” e procuro dedicar-me à causa que é "trazer a verdade sobre os Ambundu do Kwanza Sul".
 Tento, nesta edição, abordar de forma vivencial a circuncisão entre os Ambundu do Kwanza-sul (Lubolu, Kipala, Kisama, Hako, Hepo, Kilenda e Sende).
Ao contrário dos Bakongo que, por norma, efectuam a circuncisão à nascença, os povos do Lubolu e circunvizinhos mandam os rapazes para a "casa de água" (onzo-y-mema) na adolescência ou na segunda infância, aí entre os seis ou sete aos catorze anos de idade.
 Ao acto de circuncidar (extração do prepúcio) designam "utina". Se nas sociedades modernas tal cirurgia é efectuada por um médico ou paramédico, nas comunidades tradicionalistas é chamado um "mestre" (mesene) para o fazer. Normalmente, o "mestre" fá-lo a sangue-frio (aconteceu comigo em 1982) e ainda se assiste em determinadas localidades onde faltam enfermeiros.
Aos olhos dos garotos, o "mestre" é tido como um "individuo de olhos ensanguentados", talvez devido à enorme quantidade de sangue que fez derramar e que seus olhos já viram. É um individuo muito temido pelos rapazes incircuncisos que se apavoram à sua passagem, sendo igualmente respeitado pelos pais. A enfrentá-lo ficam apenas aqueles que não possuam outra saída senão o "desafio de vida ou morte" e que lhes dará um novo estatuto social na comunidade.
A operação acontece, normalmente, junto a um ribeiro e  isolado da aldeia, para que estranhos não visitem os circuncidados, tão pouco haja contacto entre mulheres gestantes e os cadetes. O "kaporroto de primeira" serve de esterilizante da navalha do "mestre", depois de cada operação cirúrgica.
Um ajudante ou um parente próximo dos mancebos ajuda o mestre, agarrando as mãos e prendendo igualmente as pernas do “paciente”, imobilizando-o.
Terminada a operação, o cadete senta-se numa pedra ou num tronco onde deixa escorrer o sangue da cirurgia e lhe são ministrados alguns “milongos” à base de folhas medicinais. Durante os curativos são ainda usados medicamentos como o mercúrio-cromo, tintura de iodo e a penicilina previamente adquiridos pelos pais dos petizes.
O período que demora a cicatrização é também de aprendizagem de várias artes e ofícios, como: caçar e pescar e são também transmitidas aos noviços noções sobre a sexualidade, vida familiar e social, bem como a fabricação de armadilhas e utensílios diversos.
Njine é a designação atribuída ao pénis circuncidado, ao contrário de Kifutu (incircunciso). Um homem que tenha “passado pela faca” ganha na sociedade um novo estatuto. Torna-se um homem maduro. Por isso, a própria sociedade condena determinadas acções como: tomar banho desnudado e em público, pois o individuo circuncidado é tido como um homem que deve ser respeitado e diferente dos outros rapazes, ainda que da sua idade, mas que não tenham passado pela “casa de água”.
A alimentação dos cadetes é feita de forma cuidada e selectiva. Não se alimentam de ervas e só pessoas que não mantenham relações sexuais durante o “aquartelamento” podem cuidar quer da alimentação, quer da guarda, dos circuncidados. Ovos e sal (por excesso) estão fora da dieta. Dizia-se e ainda se diz que "não se come tão bem e do melhor do que no acampamento dos circuncidados".
Só depois de curado o último dos mancebos é que o grupo regressa à aldeia, mas antes, os "novos homens" da comunidade procuram encontrar uma bananeira, em cujo caule fazem uma perfuração em que enfiam a "pontinha" do membro (diz/ia-se que era para escurecer a cicatriz). Em zonas com existência de imbondeiros o orifício é/era feito no caule desta árvore (a lenda atesta que tal acto dá grandeza ao órgão reprodutor.)
No fim de tudo, quando cumpridos todos os passos e rituais, uma zagaia (arco) e uma flecha (honji li musongo) são entregues a cada um dos cadetes que perfilam e caminham até à aldeia... Cada mancebo exercita disparando a flecha contra a porta de casa (podem ser várias casas indicadas) e são-lhe dadas algumas oferendas.
É ponto assente que ao longo dos anos muitos cadetes não resistiram a hemorragias e sucumbiram, o que tem levado as comunidades a encontrar um meio-termo entre o moderno e o tradicional. Um enfermeiro, em vez de um artesão; lâminas individuais em vez de uma faca colectiva; anestesia em vez de a sangue-frio; entre outras inovações de que sou apologista, mas sem que desvirtue a vertente social e educativa da circuncisão.
Não há, nesta região, registos orais sobre a ocorrência, mesmo em períodos muito recuados, de incisão genital feminina, tão pouco de acampamentos de iniciação de raparigas que entretanto se casam muito cedo, comparativamente às meninas dos centros urbanos. A sociedade rural Libolense e aparentada é permissiva à poligamia, condenando, porém, veementemente o adultério feminino e a poliandria que são sancionados com avultadas multas pecuniárias ao homem infractor.
O Soba, entidade administrativa da aldeia, também administra a aplicação da justiça comunitária com base no direito consuetudinário.
Os tempos modernos são de busca de combinação entre o moderno e o tradicional, encontrando-se já os sobas a trabalhar lado a lado com os secretários de aldeias, os administradores comunais e os chefes das esquadras policiais mais próximas, buscando um equilíbrio entre o direito positivo e o costumeiro.

Suporte:
VINTE E CINCO, Gabriel: Jornal de Angola, 28/12/2008
 


quinta-feira, novembro 15, 2018

OS AMBUNDU DO K-SUL: DELITOS, TRANSGRESSÕES E PENALIZAÇÕES

Os Ambundo do Kwanza-Sul: delitos, transgressões e penalizações nas aldeias rurais
A autoridade tradicional é imposta por procedimentos considerados legítimos porque sempre teria existido, e é aceite em nome de uma tradição reconhecida como válida. O exercício da autoridade nos Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes são determinados, em primeiro lugar, por prescrições concretas da ordem tradicional e, em segundo lugar, pela autoridade de outras pessoas que estão acima de um status particular no sistema hierárquico estabelecido (Max Webber).
 
Para além dos meus primeiros dez anos de vida passados em aldeias rurais do Lubolu (Libolo) e arredores, tenho-me servido de idas constantes à região que descrevo para "in situ" reviver o "modus vivendi e operandi" destes povos.
As comunidades rurais do Lubolu, Kibala e doutros povos ambundu que habitam o território da província angolana do Kwanza-Sul, apesar de não possuírem uma pauta que tipifique o que são delitos e o que são transgressões, nem tão pouco as penalizações para cada desvio de conduta social, têm um sistema jurídico baseado em mores e hábitos aceites universalmente pela comunidade e que têm o peso de lei.
 Ukambula é o termo que, traduzido para português, equivale a cometer delito ou desviar-se socialmente. A autoridade administrativa e a sua corte, no caso o rei/soba é também o garante da legalidade na sua jurisdição, sendo auxiliado na administração da justiça pelo Ñgana Thandela (espécie de ministro da justiça) que é perante a corte o responsável pela aplicação da lei.
O delito maior é o assassinato ou seja a morte de alguém, de forma voluntária, o que pressupõe dizer que o direito à vida é o principal que a sociedade atribui ao homem.
Roubos, furtos, violações, falsos testemunhos, agressões físicas e verbais, incêndios contra propriedades privadas e ou colectivas (como as coutadas) são frequentes, sendo igualmente os desvios às normas sociais mais conhecidos e punidos de acordo ao direito consuetudinário.
Fruto da sua crença no poder dos defuntos e antepassados e sua irreligiosidade (muitos são ainda animistas embora proliferem as novas seitas de orientação cristã) os povos em referência têm uma grande crença no feitiço. Daí que acusações de feiticismo preenchem o dia-a-dia do soberano e das comunidades.
Entre as penalizações constam a simples censura, restituição de bens de terceiros (roubados ou danificados), indemnizações (pecuniárias e em espécie), castigos físicos consentidos, entre outros.
A autoridade do rei/soba é reforçada pelo animismo e pela ideia de feitiço. O rei/soba é tido como o detentor do mais forte feitiço, daí que para além de respeitado é igualmente temido, sendo as suas convocatórias, normalmente de comparência obrigatória. Os povos destas comunidades apesar de professarem algumas crenças religiosas (católica e protestantes) têm uma ligação muito forte a seus ancestrais e retornos a práticas animistas.
No esforço de conciliação entre o moderno e o tradicional, muitas vezes os reis/sobas encaminham determinados "casos" às autoridades políticas e judiciais, sobretudo casos de homicídios voluntários, evitando-se assim que seja executada a justiça por mãos próprias. As autoridades policiais locais (as mais próximas) têm sido igualmente várias vezes chamadas para dirimir querelas que os soberanos julgam poder fugir do seu controlo. Outras vezes, são os próprios cidadãos que recorrem ao direito positivo, sempre que julguem ineficazes os julgamentos comunitários.



Suporte:
1-http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber, consulta 05.02.09
2- VINTE E CINCO, Gabriel: Os Kibalas, Núcleo-Publicações Cristãs, Lda. Queluz, 1992

Texto publicado no Jornal Cultura ed. 11-24 set/18
 

segunda-feira, outubro 01, 2018

NAMBI KO EKOVONGO

- Mano André, "nó" serve "ansim". Todas as partes boas da galinha é p'ra ti e os outros, que até contribuíram no óbito, vão se lamber só nos dedos e partir ossos? Na hora da contribuição ainda o mano estava a se esconder entre as mulheres, a fingir lágrimas que não vimos. - Desabafou audível a prima Miquilina que fora avisada por uma sobrinha sobre o comportamento incivilizado de um tio.
Ekovongo é a aldeia mãe do Kwitu, capital do Vye (olongombe vye). Dizem que "o branco, quando veio do Putu, com Silva (do) Porto à cabeça, primeiro ficou no Ekovongo e depois é que foi para a urbanidade criada pelo Silva".
A embala estava em óbito. Pessoa grande, de respeito na aldeia, na "kacidade" de Kwitu e na "kicidade" de Loanda, onde quem lá brilha, na embala é tipo sol.


O finado Ekofika fez-se homem entre Ekovongo, missão de Kamundongo onde estudou bem, Kwitu onde trabalhou e Loanda onde se reformou a constituiu bens. Mas o óbito foi levado mesmo (pela menos na imaginação) à aldeia natal.
Partiu numa terça-feira de sol envergonhado, depois de muito bregar para adiar a morte. Filhos, sobrinhos, primos, amigos de todos os tempos, todos procuraram tê-lo mais tempo em vida e, por isso, ajudaram nas contribuições. Ekofika foi buscar saúde ao estrangeiro, à faca se submeteu, mas, em vão. Pariu mesmo.

- Quando Jesus te chama, você pode mesmo ir "no" melhor professor dos médicos, os anjos não te largam. - Dizia-se eufemisticamente para aliviar a dor dos filhos e da família próxima.
- Mas o mano Ekofika combateu um bom combate. Assim, a oração "venha agora o teu reino e seja feita a tua vontade", que temos orando na IECA, foi mesmo cumprida. - Desabafou outro presente também condoído.
Mano André, do prato cheio, estava ainda calado, quando essas cenas todas começaram a ser narradas. Para ele, trabalho no óbito era apenas controlar a logística e encher a pança de boa cabidela e bom vinho.
- Comigo, é médico mesmo que me disse, vinho só tinto de garrafa. Pacote "nó" entra, nem "ngalinha" da loja. - Dizia, a mostrar os dentes todos na boca.

 Se cá fora eram tertúlias, contribuições para alimentar e dar de beber às visitas, lá dentro, com a coitada da viúva, também havia trabalho. As civendji (tchivendji), senhoras que fazem companhia à viúva, tinham a missão de a distrair e com ela chorarem à chegada de um familiar próximo ou amigo importante do de cujus. Imaginavam momentos passados com o falecido Ekofika, para puxar compaixão e lágrimas, e atiravam uma expressão de todos conhecida.
- E agora, mano fulano, o Ekofika nos deixou. Twasala ulika!

Outras civendji que não tinham convivido o suficiente com o finado recordavam seus entes partidos há muito e soltavam, à memória, choros acompanhados, às vezes, de lágrimas fartas. Ser civendji não é "fácii", diria a minha sogra Buenos Aires.
Ao sétimo dia, as civendji são libertadas, em parte. Confinadas ao quarto da viúva, durante aquele período, são finalmente alimentadas abundantemente. Servem-lhes, por isso, bebidas e carne (aquela que sobra dos comensais, não restos, não senhor!), dão-se-lhes passagem e se dispersam, ficando apenas duas ou três, as mais chegadas à viúva, para fazer-lhe companhia nos dias vindouros, até se colocar perante facto consumado e se reerguer para a nova vida sem o companheiro.
Segue-se a reunião familiar. Filhos de todas as "cavalarias" são chamados a participar. Quem não estiver, "ngongo yaye". Descreve-se aos participantes o ambiente que circunscreveu e levou à morte o finado, no caso o mano Ekofika. Contam-se os bens materiais e imateriais produzidos (com sua ndona) e deixados pelo de cujus. Enumeram-se as dívidas contraídas e por saldar. Os credores são chamados para se pronunciarem e reclamarem dos haveres. Uns preferem perdoar os valores ou bens por receber. Às vezes, até mesmo o adversário inveterado faz-se amigo. Acabou o campeonato! Apresentam-se as contribuições recebidas para os gastos durante o nojo, sobras, etc. É assim no Ekovongo. É assim entre os ovimbundu.

Texto publicado no Jornal Cultura, ed.11-24 Set/18

sábado, setembro 01, 2018

NGOYA: A CANOA QUE SE QUER BAGRE

Reza a tradição oral entre os Ambundu do Kwanza-sul, sobretudo os do "desfiladeiro Kibala" que, no tempo das caravanas do centro ao norte, os mbalundu costumavam ir ao Libolo permutar óleo por feijão e outros produtos, como também iam a Kambambi (Dondo) permutar cera. Era na Kibala, ponto de passagem e de paragem para descanso, onde trocavam mimos com os locais a quem "improperiavam" por ló ngoya (avarentos, glutões, bárbaros), dado que os Kibala não se prestavam a alimenta-los. A expressão ngoya, para quem fala Umbundu tem esse sentido pejorativo e os Kibala com juízo não perdoam esse dislate.
Porém, nos anos 80 do século passado surgiu na rádio VORGAN um programa designado "em língua ngoya" cujo orador glosava a variante Kibala do Kimbundu. Mais tarde, 1993 foi a vez da rádio Kwanza-Sul que ignorou o instituto nacional de línguas e criou o tal "programa em ngoya". A rádio Ngola Yeto seguiu o mesmo caminho, uma década depois. Daí em diante, só ngoya em todo o lado, mesmo ao arrepio da ciência e da oralidade. Sendo que quem tenha menos de quarenta anos, pode cogitar a existência no mapa etno-linguístico de Angola de um povo ngoya. É aqui que surge a "canoa que quer ser bagre".
Vinte e cinco anos. É exactamente esse o tempo em que se tenta "transformar a canoa naufragada em bagre". Ou seja, que se propaga que os povos do Kwanza-sul, com excepção dos do Seles, Kassongue e Sumbe (Ovimbundu, segundo um mapa) falam uma língua distinta do Kimbundu a que atribuem o pejorativo designativo de ngoya.
Se a existência de um programa cuja mensagem é passada no idioma que se fala na parte esverdeada do mapa foi um bom exercício, o mesmo não digo em relação à designação inventada para a língua de matriz ambundu (Kimbundu). 
Peço argumentos técnicos e científicos dos reclamantes da suposta "língua ngoya" e não os vejo/leio/oiço, com abundância e profundidade, para além de desculpas de que "...pretendem destruir um trabalho que leva duas décadas e meia..."
O programa estará aí para a "eternidade". Só a suposta "língua ngoya" é que (ainda) não existe, pois não tem nem agrement da maioria dos falantes, nem dos órgãos que tutelam as questões que têm a ver com as línguas em Angola.
É inegável o poder de persuasão da rádio, sobretudo num meio onde ela não tem a concorrência da TV e de jornais e numa sociedade que crê na rádio como se de uma fé se tratasse, sendo os radialistas "semi-deuses da verdade". A rádio e sua propaganda podem  minar mentes e levar muitas pessoas a negar a verdade em detrimento do que é muito apregoado. Pergunte-se, pois, os idosos que língua falavam antes de surgir a rádio (programa na rádio). Antes de se popularizar o termo ngoya, via rádio, que nome atribuíam à língua que sempre falaram. A resposta simples e corajosa, será, com certeza, distinta do "bagre sem vida" que se acha no fundo das águas do Longa, nyiha e Keve.

quarta-feira, agosto 01, 2018

ÑANA KAKUNGU e ÑANA ÑUNJI

REZA A ORATURA QUE...
Existiu em terras de Kuteka, Lubolu (Libolo), entre os anos 1870 - 1930, um cidadão de nome Kabanga "Soba Ñana Kakungu", originário de Banza de Mukongu, de onde fora enviado para a região de Ndala-ya-Xipo (Dala-Caxibo), Kibala, onde desencadeou lutas expansivas do "reino" e contra a presença europeia. Esse, sempre que voltasse vitorioso, trazia como trofeu uma esposa. Era, por isso, senhor de muitas mulheres e muitos filhos.

Quando se dá a sua morte, por traição, na comunidade de Mbanze-yó-Teka (Banza ou capital de Kuteka), Munenga, as suas várias esposas foram distribuídas pelos sobrinhos (kulundula ou levirato), para que dessem continuidade à criação dos irmãos (primos) e à sua campanha expansionista e defensiva em relação ao branco. A tradição oral narra que a sua cabeça foi decapitada e levada por militares portugueses à Fortaleza de Luanda. Soba Ñana Kakungu ou Kabanga tem muitos homónimos (consanguíneos ou não) sendo alguns de sua descendência António José Cabanga (ex-árbitro de futebol em Luanda) Jacinto Abreu "Cabanga", o Cabanga que é soba da aldeia de Muxinda, em Malanje, entre outros homónimos de ascendência libolense.



Kilombo Kye'Tinu, filha de Ñana Ñunji
Antes da sua aventura militar, pelo Kuteka (comuna de Munenga), Ñana Kakungu trabalhou como contratado na fábrica de pólvora, em Luanda, cuja experiência permitiu-lhe fabricar armas rudimentares (kanyangulu) com que procurou contrapor a ocupação colonial e estender a sua influência (dos Lubolu) na região de Ndala-ya Xipo.

Enquanto pertencente ao grupo de ascendência Ngola, a história de Ñana Kakungu assemelha-se à dos Reis Nzinga e Ngola Mbandi. Portanto, não se trata de um soba qualquer.

Kitinu Kanyanga ou Ñana Ñunji (o Senhor Suporte/Guardião), seu sobrinho, substituiu-o no trono em Mbaze-yó-Teka (capital de Kuteka), vindo a dirigir aquele povo até vésperas da Independência de Angola.
Inicialmente, era uma espécie de substituto imediato na "gestão administrativa" do território quando o tio se ausentava. "Provou do poder e não mais o quis perder. Inaugurou o sobado em Mbangu-yó Teka (Mbangu de Kuteka), aldeia que era dependente de Kuteka, onde o tio era Senhor. Por essa façanha, conta-se, inicialmente mal interpretada, tio e sobrinho estiveram temporariamente de relações azedas, normalizando-as com o passar do tempo e verificação da fidelidade de um para com o outro. A morte do tio elevou Ñana Ñunji à cadeira de Kañane |uyala uñana| (rei) da região de Kuteka". Morreu em 1974 (seu neto Soberano Kanyanga nasceu enquanto decorria o óbito).

Sobas de Mbangu-Kuteka

» Ñana Phutangongo (originário de Mbangu-ya Koma)
» Ñana Kisabo Mungohuta (rainha gigante e destemida)
» Ñana Ndombo
» Ñana Luxande (Alexandre) Kingonde: pai de Januário Raúl e Makongo Kambundu)
» Ñana Ndemba
» Ñana kyombe: pai de Karyiongo ka Kyombe, Fernando Kwanza e Raúl Kita
» Ñana Kimbombo: pai de Alberto Matabicho
» Soba Kiñendu (Quinhentos): avô materno de Gilson Bondondo
» Soba Xika Yango/Manuel Carlos da Silva ou ainda Raimundo: pai de Arnaldo Carlos
» Soba Tumingu (Domingos) Mungongo: Pai de Rodrigues Mungongo
» Soba Manuel Nganga

MBANZE DE KUTEKA (KAÑANE)
 » Ñana Kakungu
» Ñana Ñunji: avô materno de Luciano Canhanga
» Ñana Ngolombole Kakulu:
» Ñana Kibele : pai de José Gabriel
 
Fonte: Recolha oral na região de Kuteka com José Kilombo Albano/2018
Obs:
1- Texto em permanente actualização
2- Ñana=Ngana: título nobilístico entre os ambundu, atribuído aos reis e ou equiparados, abaixo destes está o soba.3- Uyala uñana= entronizar-se rei
 
 
 

segunda-feira, julho 09, 2018

REESTRUTURAÇÃO DOS GCII

Dentre várias coisas, quando chamados à Conferência sobre Comunicação Institucional, no Moxico, a 6 de Julho de 2018, em que, especificamente, dissertamos sobre "Reestruturação dos Gabinetes de Comunicação Institucional e Imprensa", atestamos que:
*DP nº 3/18 de 11 de Janeiro aprova a estrutura do GCII e Revoga o Decreto Presidencial nº 230/15 de 29 de dezembro e demais legislação contrária (art.13º).
*Atendendo à ordem temporal dos DP e os efeitos de um sobre outros, já não nos podemos basear no DP 230/15 de 29 Dezembro (revogado), nem no ponto 3 do art. 27º do DP 208/17 de 22 de Setembro (estabelecia 2 Dptos para GCII) que regulamenta os princípios e normas  de organização e funcionamento dos órgãos da Administração Local do Estado.
Obs: palestra disponível por e-mail

domingo, julho 01, 2018

AS DOMÉSTICAS DELA E A IMPORTANCIA DA BUROCRACIA WEBERIANA

Ponto prévio: assunto de empregadas domésticas sempre deixei com a dona de casa, sendo a ela que recorro para reclamar sobre serviços e produtos prestados de forma deficiente.

Todas as formações, por menos coesas ou prolongadas que sejam, têm sempre algo de novo e de bom. A frequência, em 2014, de um MBA e Mestrado em Administração de Empresas, com Foco em Pessoas, tem me levado a ter a administração da casa como o meu pequeno laboratório de reflexão e ensaio.
Noto, agora mais atento aos modelos de administração moderna, que, volta e meia, a senhora está a reclamar das empregadas que voltaram a errar ou a incumprir um procedimento já corrigido ou deixaram de fazer uma rotina já habitual. E lá surge ela, dona de casa, com os bilhetinhos às suas contratadas.
Tive de recitar para ela a teoria clássica de Taylor: "mulher+tarefa+máquina (equipamentos de trabalho)", a que se deve juntar uma gestora (ela ou nomear uma das duas para coordenar a actividade, atendendo assim a teoria de Henry Fayol) e organizar uma burocracia (regras e procedimentos claros para a execução das tarefas). 
Sendo que as empregadas em nossa casa vão e vêm, escusar-se-á de passar bilhetinhos todos os dias ou ter de reexplicar tudo àquelas que venham a ser contratadas no futuro.
Para ensaiar a teoria de M. Weber, eu mesmo comecei por redigir uma burocracia: "Antes de ligar a electro-bomba verifique se todas as torneiras estão fechadas". Até os filhos acataram.
Para dar sequência, vou anotando as rotinas e descrevendo os passos da sua execução. O próximo passo será pauta-las e instituir um "caderno de ocorrências" onde serão registadas todas as anomalias e recomendações entre a contratante e as contratadas.
Sendo o exercício da autoridade formal e seu cumprimento diário, uma das características da administração moderna, torna-se também necessária a gestão da pontualidade, a tipificação (em burocracia) dos deveres e direitos entre as partes, bem como as penalizações e compensações.
Basta um olhar atento para se chegar à conclusão de que a tomada de decisões sobre "Planear, Organizar, Executar e Controlar" começa em casa.

Publicado pelo jornal Nova gazeta a 5 de Abril de 2018

quarta-feira, junho 06, 2018

LINGUA DO KWANZA-SUL: AUTONOMIZAÇÃO OU MANUTENÇÃO?

Canhanga, Vinte e Cinco, Felismino, C.Cerqueira (centro), JPedro
Um dos mais apaixonados debates a que me entrego é o que se faz sobre a problemática das línguas em Angola.
Ora vejamos: o mosaico etno-linguístico angolano é amplo. Qualquer abordagem deve sempre começar pelas duas grandes famílias que são Kongo cordofaniana de um lado e Koi-San de outro.
A primeira família dá origem às línguas bantu que possuem elementos lexicais muito parecidos.
No território angolano, entre os povos pré-bantu, temos apenas os San.
retornando aos Bantu, esses se estratificam por diversas outras línguas, cada qual com suas variantes. Assim surge o Kimbundu que possui perto de 30 variantes, sendo algumas delas faladas no Kwanza-Sul (norte e centro), destacando-se as variantes Lubolu, Sende, Kipala (Kibala), Kisama, Mbwi, Mpinda, Sumbe e Haku. Entre estes substratos podem ser encontradas outras derivações pois, a língua, enquanto elemento abstrato, tem uma variabilidade e inovação difícil de controlar
 
É essa variação na entoação e poucas vezes lexical (pois há aldeias que distam cinco quilómetros entre si mas com diferentes articulações no emprego oral da língua) que permite os povos de uma mesma família linguística identificarem-se geograficamente. A título de exemplo, os povos da Munenga e de Kuteka que, política e administrativamente, pertencem à mesma comuna, têm articulações orais distintas que os permite identificarem-se mutuamente quanto à origem geográfica (sobado). Porém falam a mesma variante de uma mesma língua, no caso Kimbundu.

A 9 de junho de 2012, o militar e político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à ministra da Comunicação social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para que fosse revista a designação errônea atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola YETU. O assunto não teve o provimento esperado, pois, ao que se sabe, ou o Ministério que tutela a Rádio não orientou que se reparasse o reclamado ou essa (a RNA) não acatou. Estávamos em vésperas de eleições gerais, as terceiras, depois de 1992, 2008.

Canhanga entre os septuagenários G.Vinte e Cinco e AFelismino
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu" (nosso Kimbundu) ou "Kimbundu do Kwanza-sul", indo de encontro àquilo que a população autóctone de maior idade responde (ainda) quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala... (falo Kimbundu/nosso Kimbundu/Kimbundu da Kibala...), cf. Canhanga 2007.

As sugestões de Serafim do Prado, embora tenha surgido na carta sem argumentos de razão, vão de encontro ao que recolhemos como resultado de inquérito oral nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul e em Luanda, aspectos que devem ser  deve ser valorizado e adicionado ao que escreveram Heli Chatelain, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, nas circunstâncias de Angola em que não abundam os trabalhos escritos, toda a ciência que envolva a etnografia, antropologia e história deve sempre ter o terreno e a oralidade como ponto de partida (laboratório) e o gabinete como fábrica (para multiplicação e difusão do conhecimento experimentado).
O dinamismo das línguas sempre levou à emancipação de algumas variantes ao passo que outras se mantêm- ligadas á matriz. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes de ngoia como  designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul.

NGOIA NÃO ATENDE AUTONOMIZAÇÃO NEM MANUTENÇÃO
 
Tendo surgido, de algum tempo a essa parte, alguns angolanos que, ao arrepio da ciência, atestam a existência de uma suposta língua ngoia em Angola e mais concretamente no Kwanza-Sul, sem que para tal exibam documentos (físicos ou orais), um grupo de três cidadãos da Kibala (Gabriel Vinte e Cinco e António Felismino) e Libolo (Luciano Canhanga), para além de vários estudos científicos que têm vindo a realizar e a publicar, deslocou-se à sede do Ministério da Cultura para informar a Ministra que "nós, do norte e centro, do Kwanza-Sul não falamos ngoia".
 
A Dra. Carolina Cerqueira orientou o Director do Instituto de Línguas, Dr. José Pedro, a  organizar, no terreno, um encontro e fazer uma súmula do "constatado" para que ela (Ministra) com os dados que lhe chegarem ao conhecimento, possa interceder (ou não) junto do seu homólogo da Comunicação Social, no sentido se colocarem nas rádios angolanas (Emissora do Kwanza-Sul e Rádio Ngola Yetu) "os pontos nos is e os traços nos tês", em relação à língua (mais) falada no Kwanza-Sul.
Quanto a mim, há dois vectores para centrar o debate. Um é o da manutenção do status quo e o outro é o da autonomização da variante falada no norte e centro do Kwanza-Sul, atribuindo-lhe um nome que seja "confortável" ao povo acima referido, tendo em conta a sua ancestralidade.
 
Se o vector for o da não emancipação, pouco há para se discutir. É Kimbundu, cuja variante mais audível é da Kibala. Aqui bastaria mudar a designação do programa inserto na grelha da Rádio Kwanza-Sul de Ngoia para Kimbundu. Porém, a Rádio Ngola Yetu não deverá ter dois "programas em Kimbundu".

Se a questão for a emancipação/autonomização da língua falada no norte e centro do Kwanza-Sul, à semelhança do Songo, Luc|h|azes, Bunda, Lunda-Ndembo, etc., que estão em processo de dissociação das línguas matrizes (Kimbundu, Ucokwe), pois as variantes passaram a ter uma nova designação, aqui deve-se focar em encontrar um nome que atenda à idiossincrasia, cultura e história deste povo. Qualquer nome deve representar fiel e cabalmente um povo. Aqui, as Rádios acima citadas deverão renomear os seus espaços com a designação que for achada.
Para terminar, lembro que em nenhum mapa etnolinguístico de Angola consta o suposto povo Ngoia.

Texto publicado pelo JORNAL CULTURA