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domingo, janeiro 08, 2017

KIMBUNDU: AULAS 01 a 12

KIMBUNDU: É língua bantu falada por cerca de 10% de angolanos das províncias de Lwanda, Mbengu, Kwanza-Sul, Kwanza-Norte, Malanji, Wiji e Lundas (em algumas delas apenas partes, havendo outras línguas locais, a par do Português).

 

SUBSTANTIVOS INICIADOS POR "D".

Sing__Plur___Sig.Pt

 

Dibata=mabata (casa)

Dinyangwa=manyangwa (abóbora)

Dilonga=malonga (prato)

Dyala=mayala (homem)

Dikungu=makungu (buraco, abismo). Ver dyela.

Dikulusu=makulusu (cruz). Aqui trata-se de palavra emprestada do Português.

Ditenda=matenda (fábrica, alambique)

Dibata=mabata (casa)

Dyele=mele (seio/chucha)

Dyesu=mesu (olho)

Dikasa=makasa (casado/cônjuge)

Dikalu=makalu (carro). Outro empréstimo.

Diju=maju (dente)

Dinyanga=manyanga (caçador). Kanyanga é diminutivo de Dinyanga e diferente de nyanga (machadinho)

Dikota=makota (idoso/mais velho)

Dilonga=malonga (prato). Phoko (faca) faz plural com jiphoko.

Dibengu=mabengu (rato doméstico). Puku faz plural com jipuku (rato selvagem)

Dinongwena/nongwena=manongwena (camaleão)

Dizwi=mazwi (voz-língua)

Dibomo=mabomo (testa)

Dibala=mabala (calvície, careca)

Ditungi=matungi (músculo, nádega). Ver tb ditaku=mataku (nádegas)

Dyela=madyela (cova ou armadilha para apanha de animais. Escava-se um buraco e tapado com palha, onde os animais caem).

Dimatekenu (início, prinípio)

Dibito=mabito (porta, passagem)

Dikamba=makamba (amigo)

Dixita=maxita (lixeira). Porém, lixo ganha a designação metafórica de dixilo=sujidade ou isaswa=palha descartável.

Ditadi=matadi (pedra). Sinónimo de ndanji=jindanji. Veja ndanji-ya-menya (pedra-de-água ou cascata).

Dimá= madimá (limão). Empréstimo Português

Dyulu (céus)

Dilaji=malaji (maluco)

Dikwaku=mako (mão, braço)

Dikoxi=makoxi(?) Nuca, Occipital


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AULA 2

SUBSTANTIVOS INICIADOS POR "H"

 
SING>>PLUR>>SIGN Pt

 

Hima=jihima (macaco)

hoji=jihoji (leão)

henda=jihenda (saudade, amor, piedade)

hama (mil). Numeral cardinal

hadi=jihadi (sofrimento)

Hebo (Subst próprio) derivado de uma patologia (por concluir)

hita (funji), ...?

hako= jihako (alparcatas). Calculo ser um empréstimo do Umbundu

huma (aceleração cardíaca),

hala= jihala (caranguejo)

hoha=jihoha (gazela?)

hata=mahata (?) rodilha

 
 
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AULA 3

SUBSTANTIVOS INICIADOS PORK

 

SinG.       Plural      Signif. Em Pt

 

kitanda = itanda (praça, mercado)

kinjangu = injangu (catana)

kidingo = idingo (tubérculo/mandioca/nhame)

kididi = ididi (casa, lugar)

kibetu = ibeto (porrada)

kimbamba = imbamba (coisa, trocha)

kimbanda=imbanda (médico, adivinho, curandeiro)

kyama = yama (animal)

kyanda = yanda (sereia, balaio)

kilwezu = ilwezu (falha, percalço)

kilulu = ilulu (fantasma)

kinda = yinda (balaio)

kituxi = ituxi (culpa/pecado)

kilembu = ilembu (dote)

kambiji (peixinho)= jimbiji (peixes)

kinama=inama (pé, perna)

kyombo=yombo (javalí)

 

Não confundir com os adjectivos

Kutola=... pequenice

Kutolola=... reduzir/derrotar.

Kutoba=... burro/burrice

 

Nota: Kitadi (dinheiro), que calculo provir de ditadi (pedra/moeda metálica), não tem plural. É o que os ingleses chamam de "nomes incontáveis".

 

 

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KIMBUNDU

AULA 4

 

SUBSTANTIVOS INICIADOS POR "M"

 

SING___PLUR___SIG. PT

 

Mulele=milele (pano)

mundele=mindele (homem branco)

muloji=maloji, miloji, aloji (bruxo, feiticeiro. Varia de e acordo a região)mwenge=myenge (cana)

mukondo=mikondo (estar entristecido=kudikwata mukondo)

mukaji=makaji (esposa)

menya (água)

mukombe=akombe;makombe (visita)

muxi=mixi (árvore)

muzangala=mizangala (jovem)

mona=mana (filho)

mulawla=malawla (neto)

mwuyngi=mawingi; awingi (estrahos)

muxitu=mixitu (mata; floresta)

mulundu=milundu (monte; montanha)

mumbundu=mambundu (negro)

mukasu=mikasu (sobrancelha)

mukongo=makongo; akongo (caçador). Diferente de dikongo|makongo=dívida|pendência|problema

Muthu=athu (pessoa)

Mwixi= ...(assobio)

Nota: aberto a contribuições e correcções, não sendo eu um especialista, mas apenas um curioso investigador.

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KIMBUNDU

AULA 5

SUSTANTIVOS INICIADOS PELOS DÍGRAFOS iniciados pelos dígrafos "ng/nj/nh":

Sing>>>>>>>plur>>>>> sig pt

nganga= jinganga (feiticeiro/malfeitor)

ngombe=jingombe (boi)

ngulu=jingulu (porco)

ngimbu=jingimbu (nuca, occipital). Dikoxi é o sustantivo mais consensual.

njimbu= jinjimbu (anúncio)

ngwingi=jingwingi (bagre)

ngadyama=jingadyama (desgraçado, pobre)

ngeleja=jingeleja (igreja). Emprestado do Português

njinda=jijinda (nervo, raiva)

ngondo=jingondo (porrinho)

ngandu=jingandu (jacaré)

nhoka/nyoka=cobra

 

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KIMBUNDU

AULA 6

MATU (PESSOAS|Pronomes pessoais)

 
Eme (eu)

eye (tu)

mwene (ele|ela)

etu (nós)

enu (vós)

ene (eles|elas)

 

KUDYA (comer): Presente

 

Eme ngidya (eu como)

eye udya (tu comes)

mwene udya (ele|ela come)

etu tudya (nós comkemos)

enu nudya (vós comeis)

ene adya (eles|elas comem)

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AULA 7

KIMBUNDU KYETU

(Nosso Kimbundu)

 
Depois de termos apresentado os pronomes pessoais e conjugado o verbo "kudya" (comer) no indicativo presente, vamos ao pretérito perfeito (passado) do mesmo verbo.

 
Eme ngadi (comi)

eye wadi (comeste)

mwene wadi (comeu)

etu twadi (comemos)

enu nwadi (comestes)

ene adi (comeram)

 

Note que o Kimbundu faz o infinitivo com prefixo "ku" (Kuditemexa, Kudixaxata, kudilowa, etc.), tal como no inglês os verbos no infinitivo são antecedidos da partícula "to" (to love, to go, ...).

 

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AULA 8

KUYE'KO, DIKANGA

(Não vá para lá, é distante)

 
Vamos tentar conjugar o mesmo verbo "kudya" (comer) no futuro.

Antes, comecemos pelo imperativo ou "ordenativo" que é:

 
Idya/idyenu (come/comam).

 

Futuro:

Ngandodya (comerei/vou comer)

wandodya

wandodya

twandodya

nwandodya

andodya

 

O modo conjuntivo: forma-se antepondo a partícula "mba" antes do verbo fleccionado no presente do indicativo. O kimbundu também foi ao Português emprestar a partícula “se”, algumas vezes usadas em lugar de “mba”.

 
Veja que no indicativo presente a conjugação é: ngidya, udya, udya, tudya, nudya, adya.

Para conjuntivo será:

mba ngidya {se ngidya} (se comer)

mba udya

mba udya...

...

Kifikidilo (exemplo):
mba ngidya ngandotona (se comer vou crescer).

...

Gerúndio (presente contínuo):

ngalodya/ngamudya (estou comendo)

walodya

walodia

twamudya/twaludya

nwaludya

aludya

 

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KUDILONGA KIMBUNDU UHETE WAMBOTE

(aprender kimbundu é bom exercício)

AULA 9

 

Verbo Kudya (comer), pretérito imperf. do modo conjuntivo:

mba eme ngadile (se eu comesse)

mba eye wadile,

mba mwene wadile,

mba etu twadile

mba enu nwadile

mba ene adile

 

Fufuro do conjuntivo:

se/mba eme ngidya (quando eu comer)

se/mba eye udya,

se/mba mwene udya,

se/mba etu tudya,

se/mba enu nudya,

se/mba ene adya

Obs: Aguardo contribuições.

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KIMBUNDU



AULA 10

PRONOMES DEMONSTRATIVOS

(Breve tentativa)

 

dikalu didi (este carro)

muhatu wu (esta mulher)

dyala didi (este homem)

muhatu uná (aquela mulher)

dikalu diná (aquele carro)

njila yi (este caminho)

njila iná (aquele caminho)

dyeso didi (este olho)

dyeso diná (aquele olho)

Kilumba iki (essa jovem)

kitumba kiná (aquele amuleto)

mulundu wu (essa montanha)

mulundu uná (equela montanha)

iki kima kyãe? (o que é isso/isto? ou que coisa é essa?)

mayala enyâ (estes homens)

makalu aná (aqueles carros)

mahatu aná (aquelas mulher)

mayala aná (aqueles homens)

meso awa (esses olhos)

meso aná (aqueles olhos)

milundu iná (aquelas montanhas)

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KIMBUNDU

AULA 11

PRON. POSSESSIVOS

(Breve tentativa)

Wami=meu ou minha: mona wami/mon'ami (meu filho)

dyami=minha: dyele dyami (minha mama)

yami= minha: mbinza yami (minha camisa)

dyaeye/dyê=tua: dibata dyaeye/dyê (tua casa)

dyetu= nosso/nossa: dilonga dyetu (nosso prato); dikaza dyetu (nossa casada)

dyene = vosso/deles: dikulusu dyene/dya ene (cruz deles/vossa cruz)

metu=nosso: maka metu (nosso problema)

menu =vosso: maka menu (vosso assunto)

 

Outras frases com pron. possessivos

 

dibomo dyami=minha testa

mukutu wami=meu corpo

diyala dyaeye (dyê)=teu marido

dikalu dya mwene (dyene)= carro dele

dikamba dya etu (dyetu)= nosso amigo

makamba ma etu (metu)= nossos amigos

mabesa mâ=bençãos deles

ngalasa yê =graça dele/sua graça

mukaji wê=mulher dele

mulume wê=esposo dela

mon'etu (mona wetu)=nosso filha

man'etu (mana a etu)= nossos filhos

 

OBS: VENHAM CONTRIBUIÇÕES

sábado, dezembro 31, 2016

PARA QUÊ AVALIAR O COLABORADOR?


Entre Dezembro e Janeiro é o momento em que alguns organismos realizam a Avaliação de Desempenho dos seus integrantes, também conhecida na Administração Pública como Notação.
A avaliação é a aferição do desempenho (técnico e comportamental) do funcionário ou colaborador em função dos objectivos e das metas traçadas pela organização, devidamente notificados a quem será avaliado. Ela visa, Entre outros aspectos:

» Favorecer a adaptação e familiarização dos indivíduos aos cargos e à organização;
» Identificar o estágio actual e as potencialidades de desenvolvimento profissional de cada empregado dentro de suas atribuições;
» Gerar recursos para a estruturação de projectos de treinamento e desenvolvimento de pessoal;
» Facilitar o levantamento de indicadores de promoção e meritocracia individual de cada colaborador ou funcionário, etc.

 A experiência que vamos ganhando diz que há instituições em que os líderes imediatos ainda não têm a preocupação de fazer anotações, ao longo do ano, dos pontos fortes e fracos dos integrantes da sua equipa, deixando tudo para o último mês. Essa falta de acompanhamento permanente pode, em muitos casos, levar a um “julgamento” errado, centrado apenas no desempenho técnico e comportamental do anotado (avaliado) nos dias que se antecedem ao acto. Daí a importância do feedback permanente do líder (chefe) aos integrantes da equipa, realçando os aspectos positivos, sempre os haja, e assinalando os ascpectos que devem merecer a correção e ou melhoria.
Podemos transportar para essa reflexão (leiga)  o que se passa com o docente. O bom professor tem sempre uma caderneta onde tomas as anotações sobre a assertividade e os “deslizes” dos seus alunos em todas as aulas. Chegados ao fim do ano, o estudante pode ter um exame escrito mal conseguido, mas se a sua prestação nas aulas, devidamente seguinte pelo mestre, foi positiva, ele transita para a classe seguinte.

A notação ou avaliação de desempenho deve (devia) também ser clara e coerente.  Deve se fundar em quesitos objectivos sobre as Competências Transversais à Organização e outros objectivos específicos, para cada função, sendo quantificáveis e mensuráveis. É importante assinalar o que  se espera, por exemplo, de uma funcionária da área de atendimento aos utentes do serviço e que se espera de um técnico de software. É obvio, que ambos têm competências comuns ou transversais da organização (pontualidade, assiduidade, asseio, equidade, etc.), mas a diferença das tarefas que executam fá-los possuir outras competências distintas ou inerentes à função. Essas devem ser medidas, com base no rácio entre o que se propõe no descritivo de funções e o que cada consegue realizar, atribuindo-se notas para cada um dos itens.

Ao abordarmos a questão da notação (Avaliação de Desempenho), devemos também nos ater ao facto de ela se ter de realizar de forma transparente. Há organizações que validam a avaliação do líder imediato e a auto-avaliação do colaborador, tendo cada uma delas o seu peso no resultado final. As leituras e experiências nos dizem que seja unilateral ou bilateral, a Avaliação  de Desempenho deve ser feita de forma presencial (líder e liderado) e transcorrer num ambiente de troca de pontos de vista sobre os quesitos em aferição. Vejamos, por exemplo. Se estivermos a avaliar a pontualidade e a assiduidade do funcionário ou colaborador, temos de recordar ao nosso avaliado a quantidade de ausências e atrasos ou saídas antecipadas do serviço, para que, de forma coerente, ele esteja ciente da nota que se lhe vai ser atribuída e, às vezes, opinar sobre a nota que se lhe ajusta ao comportamento ou à performance na execução de tarefas.
As avaliações unilaterais, com resultados em que o avaliado não concorde, têm sido contestadas e fazem com que, vezes tantas, o notado (avaliado) não assine a ficha. Tal situação cria embaraços entre o líder (notador) e o liderado, bem como constrangimentos ao órgão responsável pela Gestão de Pessoas (RH) na conclusão do Processo. Daí, mais uma vez, a importância do diálogo franco e cordial entre o notador e o notado, que devem olhar mais para a causa que são os objectivos corporativos, do que para o Ego pessoal.

Aqui chegados, importa também referir que A Avaliação de desempenho não visa apenas medir a performance para despoletar promoção ou ausência desta na carreira do funcionário ou colaborador. Ela visa, sobretudo, corrigir as Inconformidades do colaborador e do empregador. Visa, por exemplo identificar que causas do não alcance dos objectivos corporativos são da responsabilidade do empregador (meios de trabalho, capacitação, etc.) e quais são da responsabilidade do colaborador ou funcionário (auto-superação conforme a pauta deontológica da Função Pública, falta de empenho profissional na realização de tarefas, falta de zelo, ausências e atrasos, desleixo para com a coisa pública, etc.).

A Avaliação de Desempenho deve, no fim, indicar os gaps (lacunas) a ser superadas e despoletar ou servir de base para o Programa de Formação do ano seguinte. Se se identificar que um determinado coIaborador ou funcionário não pôde cumprir as suas tarefas por falta de treinamento e ou capacitação, dado a avanço da tecnologia no campo em que actua, o empregador, em principio, deverá promover a capacitação necessária. Se a Avaliação de Desempenho identificar que, apesar de o funcionário e ou técnico possuir competências para a função mas não a executou convenientemente por ausências de meios técnicos e ou recursos para a sua materialização, o empregador deverá suprir tal lacuna. Se a notação (avaliação) detectar que aquela função exige upgrade na formação académica do avaliado (exemplo, para chefes de Departamento preferencialmente licenciados) será obrigação do Notado ou Avaliado obter a habilitação literária requerida. Aliás, a Legislação da Administração Pública já se vai ajustando nesse caminho e as empresas angolanas de médio e grande porte já fazem esse percurso.

Para aprofundamento e melhor compreensão do tema: https://pt.wikipedia.org/wiki/Avalia%C3%A7%C3%A3o_de_desempenho

quinta-feira, dezembro 01, 2016

USOÑONA: O ACTO MATRIMONIAL ENTRE OS LUBOLU, KIBALA E OUTROS AMBUNDU DO K-SUL

(Breve descrição)

Os povos do Lubolu e da Kibala, municípios da província angolana do Kwanza-Sul, consideram-se kisoko* por isso mesmo são pacíficos os actos matrimoniais entre estes dois povos do grupo ambundu.

O acto matrimonial tem início com o galanteio ou conquista (useka), sendo normalmente o homem quem toma a iniciativa ou os pais deste, podendo ainda a família contrária propor o mesmo à família do rapaz.

Normalmente, é na transição entre a adolescência e juventude que começam os galanteios quando não se tratem de indivíduos já adultos e em segundas núpcias. A idade biológica é irrelevante, falando mais a robustez física, atendendo a maturidade precoce ou retardada dos indivíduos. O desenvolvimento físico na mulher é factor de relevância.

Regra geral, quando chega a puberdade, as raparigas juntam-se em casa duma idosa para dormitar, pretenciosamente para dela cuidarem e retirarem lições, com realce à vida sexual e conjugal futura. É nesta kandumba (caserna) onde os adolescentes e jovens do sexo masculino se sentem mais à vontade para o desfilar de rosários.

 

Ter um objecto de uso pessoal da jovem pretendida, um lenço, um pano, ou uma pulseira é considerado meio caminho andado para o passo seguinte. Porém, a sociedade/comunidade, que está sempre atenta, é quem aprova ou reprova esta relação nascente em que jogam preponderantemente os activos e passivos entre ambas as famílias. Se reprovação não houver, o passo seguinte será a oferta à tia ou avó (paterna) da pretendida de uma porção de tabaco, um maço de cigarros ou um valor equivalente.

 

A aceitação desta oferta será o selo de que nada obsta o namoro entre os jovens, passando à categoria seguinte de “a mwibula” que significa estar ocupada ou pretendida.

 

KWIBULA (pretender ou buscar consentimento)

O acto tem o significado exacto de pretender a rapariga. Perguntar às famílias se nada obsta. A aceitação da bouquilha de tabaco ou outro produto correspondente equivale à aceitação do namoro por parte de quem o recebe e que deverá comunicar aos pais da jovem.

A família da rapariga deve, em seguida, reunir e analisar os hábitos do rapaz e de sua ascendência, jogando preponderantemente a amizade ou atritos que haja ou tenha havido entre ambas, caso sejam de mesma aldeia ou de aldeias próximas.

Ultrapassado favoravelmente este passo, um emissário é enviado à parte do pretendente, comunicando-lhe a aceitação formal do namoro, passando o jovem a frequentar a casa dos sogros, idem a jovem que se deve prestar a alguns serviços domésticos em casa da futura sogra. É o ensaio.

São esses actos que ajudarão a determinar se a futura nora é ou não honesta e trabalhadora. Chegados a este patamar a sociedade jamais permitirá relacionamentos paralelos, sobretudo se praticados pala nubente, sendo qualquer acção desrespeitosa para com ela passivel de uma multa pecuniária e, às vezes, castigos físicos, ditados pelo soba da comunidade. Aqui, a traição feminina é considerada e punida mesmo na sua forma intencional. Sendo porém ao intruso, aquele que cobiçou a mulher/noiva alheia, a quem se imputa parte considerável da culpa. Ao lesado é dada a oportunidade de continuar ou abortar a relação, depois de recebida a multa.

 

ULEMBA (alembamento)

É o acto pelo qual a família do jovem formaliza o noivado através da entrega de bens à família da jovem. Não se trata de compra, como alguns podem pensar.

É apenas um acto que valoriza a noiva e que sub entende o costume e o respeito pelas tradições seculares. Imitir-se de realizar o alembamento é o que se considera anomalia e nunca o contrário.

Nas comunidades rurais mais recônditas a bebida mais usada é o kaporroto ( bebida destilada). O noivo, ajudado pela família, deve juntar garrafões de kaporroto em número variável, panos para a sogra, cobertor para a avós, o dinheiro do alembamento que acompanha a carta de pedido devidamente forrada em lenço branco e fechada com alfinetes dourados.

Nas comunidades mais iluminadas o Kaporroto é substituído por garrafões de vinho, whisky, caixas de refrigerantes e cerveja, cigarros, peças de panos para a sogra, fato para o sogro e outros bens. Há famílias que enviam uma lista de bens e outras que são liberais.

Geralmente a família do noivo é recebida em festa, abatendo-se um animal quadrúpede doméstico e outro que é oferecido vivo à família da noiva em forma de dote.

 

UWANA (a busca ou o casamento propriamente dito)

A saída da mulher da casa de seus pais é o acto consumatório da união matrimonial entre os nubentes. Preparada a casa em que viverá o novo casal, a família do noivo envia um emissário à casa da família da noiva com a missão de a ir buscar.

O emissário, um tio, uma tia, um kisoko ou outro individuo de confiança ou amigo comum dos nubentes leva um garrafão de kaporroto, ou algumas caixas de cerveja e refrigerantes, dependendo do lugar e das posses.

Deve munir-se de alguma pecúnia de reserva para em caso de multas devidas a atrasos na chagada ou gravidez em casa dos pais. Recebido em festa, apresenta o mahezo (conta o motivo da visita) e é acompanhado com o bater de palmas à medida que discorre o discurso.

Uma tia, amiga ou sua representante acompanha a noiva ao seu novo lar. Esta vai normalmente de rosto encoberto destapando o "véu" somente depois de apresentada pela acompanhante à sua nova família, os sogros.

Manda a tradição que na primeira noite ambas tias da noiva e do noivo devem confirmar a virgindade da rapariga através de lençóis novos e brancos que ao raiar do sol são por elas recolhidos devendo estar ensanguentados, sinónimo de que houve defloramento naquela noite nupcial.

Se se confirmar o defloramento, ambas tias ou suas representantes rejubilam-se, sendo motivo de orgulho das famílias por se ter cumprido a norma tradicional da conservação da virgindade até ao casamento. Há vezes, porém, em que tal acto não passa de uma simples "montagem" com a conivência de ambas tias. Pegam em uma galinha e escondem-na no quarto dos nubentes. À noite, sacrificam-na e o sangue é usado para sujar os lençóis.

A festa de despedida entre a família e as acompanhantes da noiva é regada de muito kaporroto, vinho e/ou outras bebidas, dependente dos hábitos de consumo, do local e das posses. Há famílias que fazem acompanhar a sua filha de um dote (em retribuição ao recebido). Normalmente uma vaca ou outro animal de médio porte, cuja reprodução deverá ser seguida na mesma bitola pelo novo casal. Este dote tem, porém, outros significados importantes a reter: 1- O apreço que os pais da noiva nutrem pelo genro; 2- Que não maltratem sua filha, pois também têm posses, etc.

 

UKITA (a procriação)

É o passo seguinte. Ambas famílias permanecem atentas à primeira gravidez da jovem, sendo motivo de preocupação se tal não acontecer nos primeiros seis meses de casamento. São mais a vez as tias e avós que questionam pelo neto ao mesmo tempo que indagam "quem tem diferença" que deve ser rapidamente resolvida por via da medicina convencional e ou alternativa.

Há familias que permitem o casamento entre primos até ao segundo grau, porém, o requerente tem de interpor com um cabrito ou vaca, sendo hábito as famílias discorrerem sobre as respectivas árvores genealógicas até enésima geração para encontrarem possíveis cruzamentos ou tronco comum.

 

* Kisoko é termo em kimbundu que significa pessoa ou povos que mantêm um pacto secular de amizade, amor, fraternidade, relações igualitária, privilegiadas ou íntimas. Entre dois kisoko até a asneira passa despercebida ou sem agravo.

 

Texto escrito em Novembro de 2009 e revisto a 23.03.2016. Publicado pelo Jornal de Cultura e Artes em Maio de 2016.

terça-feira, novembro 01, 2016

A LÍNGUA DOS KIBALA: KIMBUNDU OU NGOYA?


Designo (por uma mera questão de compreensão geográfica) por "povo Kibala" aquele que habita a região norte e central da província do Kwanza-Sul, não tendo tal designação conotação ou sustentação político-administrativa.
 
Debruço-me sobre o nome da língua dos Kibala, ou seja a língua que se fala na região norte e central  do Kwanza-Sul, cujo fundo lexical mais se aproxima ao grupo etnolinguístico Ambundu.
 
 
A presente apresentação tem como objectivo suscitar debate e tentar comprovar a pertença ao tronco Kimbundu da variante linguística que se fala na Kibala, Hebo, Kilenda, Lubolu, Mbwim (Amboim), Waku e outras parcelas. Visa ainda buscar os contra-argumentos dos adeptos de uma suposta língua ngoya atribuída aos povos dos territórios acima enumerados.
 
Nasci na fronteira entre Libolo e Kibala, nas margens do rio Longa. Enquanto garoto, ouvi sempre de minha mãe, meus avós e demais membros da comunidade que a expressão ngoya se referia a indivíduos sem educação, sem maneiras, sem asseio, ou seja, uma expressão que caracteriza o individuo fora do padrão de convivência comunitária.
Ouvi também por parte de aldeões oriundos do planalto e que trabalhavam nas fazendas de café, lá no Libolo, a mesma expressão ngoya caracterizando-nos sempre que fosse em termos depreciativos. Quando alguém fizesse algo incomum era tido como ngoya. Mesmo nas brincadeiras "estúpidas", na escola, era assim que os filhos dos oriundos do planalto (ovimbundu) nos tratavam.
Vakwa nano (equivalente à expressão "os de cima" ou os do norte) é outra expressão com que os povos planálticos se referem aos seus vizinhos e ascendentes Kibala.
Fruto destas experiências, soube sempre que ser ngoya era estar “fora da lei” e que a expressão em si estava carregada de sentido pejorativo. Já nos dias da minha mocidade, e em Luanda, comecei a ouvir a nova versão do termo designando a língua que se fala na região central do Kwanza-Sul, ou seja na Kibala.
Daí que carrego comigo a dúvida e pretensão de debater e esclarecer se, na verdade, ngoya é a designação da língua dos povos centrais do Kwanza-Sul.
Partindo do princípio de que os Ambundu falam Kimbundu (sendo evidente a origem ambundo dos povos que habitam a região supra citada); os Ovimbundu falam Umbundu, os Portugueses glosam Português e assim adiante, conservando-se (na maioria dos casos) a semelhança entre o toponímico e o gentílico, por que razão haveria tanta diferença entre a designação do povo Kibala e a sua língua (no caso povo Kibala, língua ngoya)?
A meu ver, seria mais razoável que, na tentativa de atribuir uma língua distinta do Kimbundu, Kibala ou termo parecido fosse a língua dos povos da Kibala tal qual Ngangela é língua desse mesmo povo. 
Gabriel Vinte e Cinco na sua obra “Os Kibala” faz uma abordagem sobre a origem Ambundu dos Kibala através das migrações seculares do norte/nordeste para Centro/Sul, e diz ainda não ter encontrado ao longo das suas pesquisas no terreno (motherland) nenhuma relação entre a expressão ngoya e a língua dos povos Kibala.
Falam ainda, Vinte e Cinco e Moisés Malumbu (2005), este último na sua obra “Os Ovimbundu do Planalto Central de Angola”, sobre a descendência Kibala dos povos Mbalundu e Ndulu (Bailundo e Andulo) importantes reinos planálticos, sem que haja na sua narrativa alguma referência a um suposto povo ngoya como também refuta, inclusive, a existência de povos Jaga na história de Angola (Malumbo 2005, p.123).
A ausência de referência a um suposto povo ngoya ou uma suposta língua assim designada leva à terra argumentos simplórios que associem a expressão depreciativa ngoya à designação da língua dos povos Kibala (região sul e central do Kwanza-Sul).
Tudo quanto pude investigar, ngoya é um termo difundido, e de forma profusa, pela Rádio VORGAN, primeira estação a criar um programa na língua que se fala na região a que temos vindo a fazer menção, designando-o, a meu ver erradamente por “Programa em língua ngoya”.
A partir de 2007, o canal Ngola Yeto da RNA criou igualmente um programa verbalizado no mesmo idioma a que também designou por “Programa em ngoya”.
Creio que nenhum estudo aprofundado terá sido feito no terreno por essas duas estações radiofónicas para se certificar da verdadeira designação deste instrumento de comunicação, levando-nos quase a tomar tal expressão como se de real se tratasse e comummente aceite.
Se as iniciativas das Rádios citadas tiveram e têm o seu mérito, pela revalorização da língua, permitindo a multiplicação de falantes e uma maior reflexão e estudos sobre a mesma, urge também necessário definir, e de forma acabada, a verdadeira designação da língua que se fala na região Central do Kwanza-Sul, uma missão a que somos todos chamados.
 
Para procurar elucidar essa questão, servi-me da pergunta: Eye oji lyahi wondola? (que língua falas)? Questão colocada a 60 inquiridos, em Luanda, Kibala e Libolo (margem do rio Longa).
A minha amostra foi repartida em dois grupos de 30 (mais de 50 anos e menos de 40 anos), tendo resultado nas seguintes respostas:
(i) os maiores de 50 anos, 28 responderam: - Eme Kimbundu ngondola; kimbundu kyepala ngondola (eu falo Kimbundu; falo kimbundu da Kibala). Uma manteve a dúvida se era Kimbundu da Kibala ou ngoya (“umba kimbundu o ngoya”e outro disse respondeu “ngoya”.
(ii) dos inquiridos em Luanda e Kwanza-Sul, com menos de 40 anos (14-40), 16 responderam: “Kimbundu ngondola; Kimbundu kyetu kyepala” (falo kimbundu, o nosso kimbundu de Kibala);
(iii) outros 09 responderam: “Eme ngoya ngondola” (falo ngoya).
(iv) cinco disseram: “Eme umbá. Umbá ngoya ó kipala!” (eu não sei se é ngoya ou kibala).
 
Notei que as respostas ambíguas/duvidosas resultaram, a meu ver, do facto de nos últimos tempos se ter “publicitado”, sobretudo, pelas rádios VORGAN e NGOLA YETO, que “a língua falada pelos ambundu do Kwanza-sul é ngoya”, o que contraria os factos históricos e vivenciais.
Kimbundu ou ngoya? Eis a questão!

 Luciano Canhanga, 14 Nov. 2007. Texto publicado no jornal de Cultura e Artes em Junho de 2016.