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quarta-feira, abril 15, 2015

MINIATURAS QUE FAZEM A DIFERENÇA


Nos meus tempos de infância era um ouvinte permanente da RNA e, principalmente, dos seus noticiários e do programa ANGOLA COMBATENTE. Nessa altura, era frequente ouvir-se os correspondentes da Rádio a usarem a expressão "desde Kalulu recebam os cumprimentos do Soberano Kajila". Felizmente, hoje já não se ouve em toda a antena a troca da preposição "de" pelo advérbio de tempo "desde". Calculo que tenha sido emitida uma portaria proibitiva: "não se diz desde XXXX. Diga-se da Maianga para o mundo ou do Huambo para Luanda".
E foi bom que assim tenha acontecido, devendo repetir-se a dose em relação a outros percalços linguísticos ainda reincidentes.
Mudando de assunto, há estudantes universitários que ainda não se consciencializaram que até nós, os jornalistas, também "lutamos com a Língua de Camões", não sendo ela o objecto de estudo específico do jornalista, embora a deva dominar para melhor comunicar. Muitos não deram conta ainda que o jornalista que "sabe tudo ou sabe muito" é um migo. Não existe. Não é o facto de o indivíduo ser jornalista que o torna muito culto ou dominador da Língua Portuguesa.

Oiço muitos estudantes, na academia, a justificarem que "no rodapé da TPA escreveram Lunda-Norte (com hífen) ou a palavra tal de forma Xis". Outros dizem que na minuta de requerimento que se encontra afixado na Administração "está escrito assim e não como o mestre ensina". Nunca os passou pela cabeça pensar que o funcionário da Administração ou o homem que escreve os oráculos na TPA podem ter menos conhecimentos linguísticos do que eles, podendo ser eles, os estudantes,  os agentes de mudança de quem se espera.
 
Furtam-se da dúvida e refugiam-se num argumento reducionista da sua própria capacidade intelectiva. René Descartes recomenda a dúvida metódica: "não ter tudo como verdade acabada". Desconfie. Duvide. Questione. Investigue. Compare. Aprofunde o conhecimento.

Lembro que os conhecimentos específicos (Geografia, História, Direito, etc.) são apenas o "camião carregado" que para chegarem ao destino (serem aplicados com coerência) precisam de uma estrada (uma língua que se domine razoavelmente).
E para terminar, meus amigos (estudantes de LP), quando mesmo é que devemos grafar as palavras com iniciais maiúsculas?
É que, nas pequenas redacções escritas à mão, vejo maiúsculas até no meio da palavra.

quarta-feira, abril 01, 2015

KALIEMATOGI MOUTAIN

 Situa-se a 1040m acima do nível médio do mar. É assim que a geografia o regista.
Falta conhecer quem atribuiu o topónimo e que razões estiveram na origem de tão "estranho nome" que muito se parece a uma expressão em Kimbundu, língua falada pelos povos de Kalulu (Libolo).
Vejamos: kalye/kadye matuji (coma fezes; vai comer fezes).
Para mim, são duas as hipóteses (a confirmar através do estudo da tradição oral) que terão levado à atribuição do topónimo:
 a) Existência (no início da edificação da vila de Kalulu) de fezes de canta-pedras no cimo da montanha pedregosa (quem quisesse lá chegar teria de "comer" muito matuji daqueles animais);
-b) Existência de fezes humanas, na base da montanha, junto à estrada Kalulu-Munenga-Ndondu (situa-se próximo de Musafu, primeiro bairro, e aqueles que não tinham/ têm WC se dirigem ao mato para as necessidades maiores).
Existirá outra causa para a atribuição do topónimo kaliematogi à montanha que é ex-libris de Kalulu?

segunda-feira, março 23, 2015

TODOS E TODAS SEM CRASE


Tenho lido em textos, alguns até jornalísticos, passagens como "que à todos diz respeito".
Crasear é ainda um dos "problemas que estamos com ele".
Frequentei, em 2002 ou 2003, um curso propedêutico de L. Portuguesa, facultado pelo SJA e ministrado na Universidade Católica de Angola no qual aprendi esse detalhe da Nossa Língua.
Só há crase quando estamos em presença de um nome (substantivo) antecedido por um determinante feminino e uma preposição "a". Logo, "a"(preposição)+ "a"(determinante/artigo)="à" (contração da preposição com artigo feminino).
Em "à todos" não há nem nome feminino, nem determinante. Existe apenas uma preposição (que nos dá a ideia de movimento para...).
Em suma, a redação deve ser: que a todos diz respeito.

domingo, março 01, 2015

NUANCES DA LÍNGUA


Num dos restaurantes da FIL, depois do almoço de despedida da equipa que esteve a trabalhar em uma exposição, pergunto à proprietária a quem havia pago valores adiantados:
- Nosso saldo é positivo ou negativo?
- Positivo, filho.
- Em quanto está nossa conta?
- Dezasseis mil.
- Então dê-nos mais sumos até "bater" Kz. 17700 que é meu saldo.
Na hora do fecho, a conta estava deficitária para mim em kz. 18 mil.
- Então, há pouco, a senhora disse que o meu saldo era positivo. Como é que um sumo e um café elevaram a conta para uma dívida de Kz. 18 mil?
- Não filho, eu disse (saldo) positivo do meu lado!

domingo, fevereiro 01, 2015

O JORNALISMO QUE VAMOS TENDO

Numa "conversa", comunicação virtual (teclagem), o meu amigo Tazuary Nkeita depois de uma estupenda entrevista que concedeu à ANGOP: (http://ads.portalangop.co.ao), 07 Dezembro de 2014 | 11h42 - Lazer e Cultura), que considerei "digna de ser levada aos estudantes e jornalistas juniores", colocou-me algumas perguntas/provocações que, no seu entender, deviam ser objecto de uma discussão profunda antes de as levar aos estudantes.


Reproduzo-as com as minhas respostas:

Jornalismo em Angola
- Que jornalismo temos?
            LC:      O possível. O que se deixa fazer.

- Somos jornalistas ou somos assessores deste e daquele?
            LC:      Mais assessores do que jornalistas (jornalistas contam-se.
Jornalismo também se conta aos dedos. A assessoria é mais presente).


- Somos equidistantes e podemos sê-lo no dia a dia? Porquê ?
            LC:      A equidistância está por ser conseguida.
Somente quando houver mais jornalistas do que assessores ou a clara distinção entre assessoria e jornalismo puro.
Não tem havido equidistância porque a propaganda e propagandear acções institucionais se confunde ainda com a informação objectiva e isenta de "maquilhagem" jornalística.


- Que diferenças existem entre imprensa estatal/pública e imprensa privada e porquê?
            LC:      Uma é, por via de norma, a tutelada pelo Estado.
É pública e patrocinada com o dinheiro de todos. Outra é fruto de iniciativa privada para diversificar a informação e, como empresas, lucrarem tratando informação que é acompanhada de propaganda publicitária (paga). Noutro prisma, uma publicita os órgãos do poder e outra (entre noticias) publicitam as empresas.
Há muito que se diga sobre esse tema.


- Há fosso? Como reduzir esse fosso?
LC:      O fosso se pode reduzir através de formação e acções de credibilização da media quer pública quer privada (com ou sem objectivo indirecto de alcançar ou manter os poderes instituídos). A autorregulação também pode contribuir para um jornalismo mais responsável (com cassação de carteira, caso houvesse, etc.). Ainda vamos longe e temos de labutar arduamente para que tenhamos um jornalismo ideal. Ou ficaremos apenas pelo "jornalismo angolano/à moda angolana".


- Devemos imitar ou assimilar e processar os conhecimentos?
LC:      Sou pela absorção e processamento de conhecimentos universais. Jornalismo puro será como a arquitectura, economia ou sociologia pura (ajusta-se aos aspectos particulares do país, mas não perde a essência).


- Os jovens (jornalistas ou não) têm futuro em Angola?
LC:      Os jovens terão o futuro que nós os mais velhos lhes permitirem ter. Têm as oportunidades (não tantas) que também lhes permitimos ter. Ontem fui jovem e hoje adulto, um pai de jovem, mas vou ainda reclamando as oportunidades que não tive. Se isso vai melhorar ou piorar, não sei. Houve um tempo que as lojas não tinham nada mas todos tinham emprego na função pública e na tropa. Hoje para se ir à tropa já se diz que é preciso cunha. Os empregos dependem ainda do desenvolvimento da indústria, da agricultura e dos serviços (isso abrirá oportunidades aos jovens). A função pública vai "desengordando", o que é bom mas há ainda instalações e instituições sem quadros qualificados. E que tal reflectir tb sobre o tipo de educação e ensino que temos? Isso fará nos próximos anos a diferença.


- Têm oportunidades?
LC:      Muitos terão diplomas sem conhecimentos. Outros (poucos) terão conhecimentos sólidos e esses disputarão as poucas oportunidades que surgirem. Os demais ficarão a lamentar-se com os diplomas vazios de conhecimentos na mão.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

A RAZÃO E O CAMINHO


- Hoje atrasei ao serviço através da chuva. - Disse Metuliana quando questionada pelo chefe Kafuringa.
- Através? Como assim? A chuva foi o caminho ou a causa? - Kafuringa tem 4ª classe do "tempo colonial" e não deixa passar descompassos linguísticos daqueles que se dizem técnicos superiores.
- Foi mesmo a causa. O bairro ficou alegado e que na qual não deu para sair. - Respondeu ela ignorante e convicta como se fosse a dona do conhecimento.
- Sim, chefe. Atrasei através das quedas pluviométricas que caíram no Lususu. - Reforçou.
- Metuliana, pluviometria é medição da chuva. O melhor seria dizer quedas pluviais. E mais: o teu bairro terá ficado alagado e não alegado que não soa bem. Também não soa bem a expressão "que na qual". Tens de estudar regência para usar as preposições e conjunções correctas.  – Corrigiu Kafuringa.
- Chefe, eu ando a ouvir a falarem assim na rádio. Será que o chefe sabe mais do que os jornalistas Fulano e Beltrano?
- Nas rádios imperam hoje pessoas que misturam o "tu e você" que, em órgãos sérios, seria inadmissível. Vai à Livraria, compra um dicionário e uma gramática para passarmos a estudar juntos. – Recomendou Kafuringa que continuou com as suas diligências.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

FÉ NA CULTURA E NAS LÍNGUAS NACIONAIS


A língua é um dos principais elementos identitários de um povo, estando por isso intrínseco à sua cultura.

Apesar disso, as línguas de origem africana (bantu) sofreram ao longo do último século um ostracismo que as remeteu ao fundo do quintal, ou seja, elas passaram a ser utilizadas apenas nas áreas rurais, e nos subúrbios das cidades ou em conversas privadas, redundando em perda de identidade.

Tal postura, também herdada pelas novas autoridades angolanas emanadas do processo de independência nacional teve alguns fundamentos:

1º Em 1921, Norton de Matos, Governador português de Angola, exarou o decreto nº 77, nº 5 primeira série, de nove de Dezembro, que estipulava, no seu ponto 3, a obrigatoriedade, em qualquer missão cristã, o ensino da Língua Portuguesa. Rezava ainda o decreto, nos pontos adiantes, a vedação do ensino em línguas estrangeiras bem como a proibição (artigos 2 e 3) do ensino das línguas locais. “Não é permitido ensinar nas escolas de qualquer missão, línguas indígenas, sendo as línguas indígenas permitidas apenas catequese”.

2º O “Estatuto dos indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique” adoptado pelas autoridades coloniais (Decreto-lei de 20 de Maio de 1954) que visava a "assimilação" dos nativos africanos na cultura lusitana, foi outra arma contra a locução e ensino das línguas nativas no território da então colónia de Angola, uma vez que para se chegar à categoria de “cidadão português de terceira” ou assimilado, o nativo teria de abdicar de práticas animistas, não se comunicar, em momento algum, em língua nativa e adoptar os hábitos e cultura lusitana. Isso levou, até há bem pouco tempo, que determinadas famílias abdicassem de usar as línguas nativas e, inclusive, proibir os filhos de as aprender.
3º A unidade do povo para a luta contra a presença colonial exigia uma identidade e uma língua comum entre todos os patriotas. Essa necessidade fez com que, naquelas circunstâncias, os Movimentos de Libertação Nacional adoptassem a língua herdada portuguesa (comum a todos) para mobilizar o povo para a luta e projecção de uma Nação que se revisse num instrumento de comunicação geral.
4º Alcançada a independência, embora se tenha reconhecido nas Lei Constitucional o respeito e valorização das Línguas Nacionais, foi a língua herdada da colonização que ganhou o estatuto de idioma principal, relegando para papel secundário as dezenas de outras línguas que se falam no país.
Entretanto, apesar de vilipendiadas ao longo do tempo, as línguas africanas faladas no espaço territorial de Angola não morreram. Elas persistem e vão cada vez mais, buscando o seu merecido lugar. É desta forma que um número, ainda reduzido, de “angolenses” se vai batendo pela valorização e ensino das mesmas, levando-as, inclusive, à literatura, não apenas na transcrição gráfica dos fonemas mas também obedecendo aos instrumentos reguladores das mesmas, como os alfabetos convencionados nacional e internacionalmente.
Olhando para o FENACULT (Festival Nacional de Cultura) decorrido de 31 de Agosto a 20 de Setembro de 2014, dois aspectos configuraram-se transcendentais e aumentaram a minha fé de que um dos elementos primordiais da nossa cultura, as línguas nativas de origem bantu, venham a ter o reconhecimento e valor que encerram para os povos que habitam Angola.

Reunidos na província do Kwandu-Kuvangu (Cuando Cubango, segundo a grafia ressuscitada pelo Ministério da Administração do Território e fornecida aos media públicos), cento e setenta delegados ao V encontro de Línguas Nacionais recomendaram “a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional)” e demais convenções do CICIBA (centro de Estudos da Civilização Bantu).
As direcções provinciais da Cultura, segundo os presentes, “devem aprofundar os estudos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científica com instituições nacionais e estrangeiras afins”.

A esse encontro seguiram-se declarações, não menos importantes, da titular da pasta da Cultura que afirmou, na cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, (19 Outubro) que “Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”.

As afirmações da Ministra Rosa Cruz e Silva surge quase que como resposta ao que um pequeno grupo de angolenses vem escrevendo desde que o MAT orientou a alteração da grafia, na media pública, de alguns topónimos angolanos. O discurso da Ministra vem, a meu ver, conferir uma abordagem mais responsável e equilibrada sobre um assunto que não foi encarado com a seriedade necessária, tratando-se de uma questão que mexe com um bom punhado de angolanos, alguns com e outros sem voz audível. É o “vamos conversar que chegaremos a meio termo sem ‘trunguguismos’ a que sempre fomos, eu incluído, apelando em vários escritos nas redes sociais”.

A 26 de Fevereiro de 2014, o Jornal de Angola estampava que “o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada”. Lia-se ainda na notícia que “Bornito de Sousa esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “K” e a introdução do “C”, algo que já se observa nas designações usadas pela media, sobretudo a pública, em cumprimento a uma orientação daquele Departamento Ministerial enviado às redacções e que se baseia em “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola”. Se tal exercício “visou a realização do censo”, é importante que o bom senso e o diálogo prevaleça e que os alfabetos convencionados pelo nosso Governo, através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República sejam aplicados nas designações das nossas circunscrições.

Os topónimos e antropónimos de origem bantu não são meras designações. Encerram sentidos e conotações semânticas que devem ser respeitados tanto na grafia quanto na articulação fonética para que designem aquilo que foi projectado. Não é certo, por exemplo que se diga “Canjala” (relativo à fome) quando se pretende dizer é “Kanjala” (pequena fome), ou Canhanga em vez de Kanhanga, que não são a mesma coisa.

É por essa e outras razões digo: “não há bota, por mais suja e pesada que seja, que vá aniquilar as nossas línguas e a nossa identidade cultural, secular”. É por isso que mantenho a minha Fé na Cultura!


Obs: Texto publicado no Semanário Angolense 

sábado, novembro 01, 2014

EMPRÉSTIMOS, ADOPÇÕES, REJEIÇÕES E DISPENSAS

Como locutor atento de kimbundu (Lubolu) vou notando que muitas palavras utilizadas hoje para designar ideias, coisas e sentimentos/estados não existiam há trinta anos, assim como algumas que ouvi pronunciar na infância estão hoje no armário.

Isso acontece com todas línguas vivas. Há gírias, calões e neologismos que quando popularizados são inseridos "naturalmente" no léxico e outras que, caindo em desuso, se tornam de uso restrito/erudito ou passam para o arquivo.

Palavras como mwangope (alusão à capital angolana Luanda), kangonha (lyamba), kimanda (carabina), ngongwenha (fadinha y'ukange nyi suka), sambwambwa (dilaji), kitata (ndumbu), etc. foram/são utilizadas em kimbundu para designar seres, coisas/objectos e ideias. Umas tornaram-se parte do léxico comum da língua kimbndu, outras não se puderam manter no léxico e algumas são usadas em círculos muito restritos ou por falantes de “fina expressão”.

Este pequeno exercício surge a propósito de uma jovem universitária que estuda "as intrusões de linguas bantu na L.P. em Angola" ter escolhido como obra para análise (o meu) "O Sonho de Kauia", livro rico em expressões kimbundu, umbundu e cokwe.

Perguntava-me se qual era a origem de uma lista de palavras retiradas do texto, mesmo aquelas que têm significado em rodapé.

Depois de uma analise, a conclusão só podia ser esta: alguns lexemas constantes do referido livro e apontados pela estudante foram emprestados/tomados do kimbundu mas são gírias e calões daquela língua, podendo, por isso, ser desconhecidos por alguns falantes do kimbundu noutras regiões.

quarta-feira, outubro 15, 2014

O QUE ACHO DO JORNALISMO PRATICADO EM ANGOLA

Uma estudante do curso superior de Comunicação Social duma universidade privada angola perguntou-me, via face book, sobre o que eu achava do "ensino do jornalismo angolano". Disse que o meu nome tinha sido indicado por um professor que conhece e "reconhece" a minha trajectória de "jogador a comentador" no campo do jornalismo que se pratica em Angolano. A par destes questionamentos que servem para os estudantes fundamentarem os seus trabalhos escolares, tenho também recebido vários pedidos para "ajudar a fazer" isso ou aquilo. São frequentes pedidos do tipo: "Dr., ajude-me a fazer uma agenda, ajude-me a fazer uma notícia, ajude-me a fazer/estruturar uma entrevista, ajude-me a fazer uma crónica, etc.!
 
O que tenho solicitado é que "apliquem primeiro os conhecimentos teóricos aprendidos/explicados pelo docente e depois eu ajudo a dar forma".
 
O que acontece, a posteriori, é que, em muitos dos casos,  nem ortografia sai nem a teoria é aplicada.
 
Decidi, por isso, servir-me do método socrático (maiêutica e refutação) para fornecer a minha resposta à questão supra:

- Há laboratórios para aulas práticas nas universidades?
- Há professores de cadeiras práticas que são reconhecidos como bons praticantes de jornalismo naquela especialidade?

- Um professor de jornalismo que nunca exerceu jornalismo de facto, que nunca esteve numa redacção e que não saiba como se elabora uma agenda ou como se "vive" uma informação noticiosa, um insólito, estará em condições de instruir os da melhor forma alunos?
- Que tipo de jornalistas com curso superior as empresas de media recebem, sobretudo aqueles sem tarimba inicial (que nunca trabalharam antes no ofício)?
- Os neófitos jornalistas, saídos das escolas médias, técnico-profissionais e superiores dominam a(s) língua(s) em que se prestam a trabalhar?
- Temos excelentes jornalistas da nossa praça sem canudo, mas de reconhecida competência técnica e deontológica, como o autor do "Morro da Maianga". Esses têm sido convidados para formar novos jornalistas nas nossas universidades? São no mínimo professores conferencistas? 
 
Convido quem conheça bons exemplos que os partilhe comigo.

quarta-feira, outubro 01, 2014

KYA NGI BONZO

HOMENAGEM A NETO
"kya ngi bonzo" é uma expressão ambundu que significa aborrecível, cansativo, chato… é o que sinto ao ver uma media, abram-se alas à audiovisual, mais virada ao entretenimento do que à formação. Não escreverei neste texto sobre a forma questionável e, às vezes,  parcial, maculando a qualidade das notícias de que tenho sido brindado ao proceder o zapping/sintonização das Tv´s e rádios públicas.
Reporto-me simplesmente à forma parcial, amadora e desrespeitosa como é tratado na nossa media aquele que se convencionou/reconheceu como o Herói nacional.
Não sou adepto de celebrações do tipo da Coreano do Norte. Não peço que Agostinho Neto seja presença diária e obrigatória na media publica e privada, pois nem sempre haverá factos. Mas podem ser feitas rubricas que permitam os jovens e crianças conhecê-lo um pouco mais.
O que me aborrece é ver os dias do ano repartidos em onze meses e vinte e três dias para o Executivo e seus titulares, nos mais diversos graus hierárquicos e regiões, sobrando míseros sete dias de Setembro para se lembrarem de uma figura que já “dorme como pedra lançada ao poço”. Se “a pedra” foi lá parar por obra da natureza humana, não deixemos, pelo menos, que o lago do nosso conhecimento se seque, pois o mesmo Neto da nossa Independência também nos recomendou “a criar, criar amor, com os olhos secos”.
Não vejo em Agostinho Neto um ser que amedronte, que faça concorrência aos vivos, nem aos seus negócios políticos e económicos ou afins.
Lembremo-nos dele nem que seja pelo facto de ter hasteado a bandeira que carregamos orgulhosamente ao peito e nos ter ensinado a cantar um Novo Hino.
Lembremo-nos dele, nem que seja para contar a sua trajectória académica e missionária (filho de professora primária e de pastor Metodista) ou política, pelas cadeias que enfrentou devido à sua relutância em se opor à colonização, quando os seus proventos bem podiam dar-lhe uma vida folgada num território colonizado.
Falar sobre Agostinho Neto, mesmo que uma vez por semana, não seria um favor a ele e a pessoas saudosas como eu. Não peço a deificação dum homem mortal, embora declarado “Guia Imortal”. Entristece-me notar que crianças angolanas que frequentam o ensino primário português conhecem D. Afonso Henriques e as nossas do Ensino Médio, muitas pouco ou nada sabem sobre o Fundador da Nação. Não estará a faltar mais conteúdos nos programas escolares, radiofónicos, televisivos e nas conversas entre pais e filhos?
Que saudade sinto de ouvir Tabonta, os irmãos Kafala e outros “músicos da revolução” evocando e chorando neto nas suas criações artísticas. Que saudades das brigadas jovens de literatura com o “njila ya muxitu”de John Bella!
Para terminar essas súplicas vou me contentar com o “bombas que partem casas não metem medo ao povo unido” de Mwana-a-Kitoko e voltar aos prantos quando tivermos Neto não à dimensão poluidora do antigamente hodierno, mas à dimensão que merece.
 
É tanto esquecimento que me aborrece!