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segunda-feira, dezembro 01, 2014

FÉ NA CULTURA E NAS LÍNGUAS NACIONAIS


A língua é um dos principais elementos identitários de um povo, estando por isso intrínseco à sua cultura.

Apesar disso, as línguas de origem africana (bantu) sofreram ao longo do último século um ostracismo que as remeteu ao fundo do quintal, ou seja, elas passaram a ser utilizadas apenas nas áreas rurais, e nos subúrbios das cidades ou em conversas privadas, redundando em perda de identidade.

Tal postura, também herdada pelas novas autoridades angolanas emanadas do processo de independência nacional teve alguns fundamentos:

1º Em 1921, Norton de Matos, Governador português de Angola, exarou o decreto nº 77, nº 5 primeira série, de nove de Dezembro, que estipulava, no seu ponto 3, a obrigatoriedade, em qualquer missão cristã, o ensino da Língua Portuguesa. Rezava ainda o decreto, nos pontos adiantes, a vedação do ensino em línguas estrangeiras bem como a proibição (artigos 2 e 3) do ensino das línguas locais. “Não é permitido ensinar nas escolas de qualquer missão, línguas indígenas, sendo as línguas indígenas permitidas apenas catequese”.

2º O “Estatuto dos indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique” adoptado pelas autoridades coloniais (Decreto-lei de 20 de Maio de 1954) que visava a "assimilação" dos nativos africanos na cultura lusitana, foi outra arma contra a locução e ensino das línguas nativas no território da então colónia de Angola, uma vez que para se chegar à categoria de “cidadão português de terceira” ou assimilado, o nativo teria de abdicar de práticas animistas, não se comunicar, em momento algum, em língua nativa e adoptar os hábitos e cultura lusitana. Isso levou, até há bem pouco tempo, que determinadas famílias abdicassem de usar as línguas nativas e, inclusive, proibir os filhos de as aprender.
3º A unidade do povo para a luta contra a presença colonial exigia uma identidade e uma língua comum entre todos os patriotas. Essa necessidade fez com que, naquelas circunstâncias, os Movimentos de Libertação Nacional adoptassem a língua herdada portuguesa (comum a todos) para mobilizar o povo para a luta e projecção de uma Nação que se revisse num instrumento de comunicação geral.
4º Alcançada a independência, embora se tenha reconhecido nas Lei Constitucional o respeito e valorização das Línguas Nacionais, foi a língua herdada da colonização que ganhou o estatuto de idioma principal, relegando para papel secundário as dezenas de outras línguas que se falam no país.
Entretanto, apesar de vilipendiadas ao longo do tempo, as línguas africanas faladas no espaço territorial de Angola não morreram. Elas persistem e vão cada vez mais, buscando o seu merecido lugar. É desta forma que um número, ainda reduzido, de “angolenses” se vai batendo pela valorização e ensino das mesmas, levando-as, inclusive, à literatura, não apenas na transcrição gráfica dos fonemas mas também obedecendo aos instrumentos reguladores das mesmas, como os alfabetos convencionados nacional e internacionalmente.
Olhando para o FENACULT (Festival Nacional de Cultura) decorrido de 31 de Agosto a 20 de Setembro de 2014, dois aspectos configuraram-se transcendentais e aumentaram a minha fé de que um dos elementos primordiais da nossa cultura, as línguas nativas de origem bantu, venham a ter o reconhecimento e valor que encerram para os povos que habitam Angola.

Reunidos na província do Kwandu-Kuvangu (Cuando Cubango, segundo a grafia ressuscitada pelo Ministério da Administração do Território e fornecida aos media públicos), cento e setenta delegados ao V encontro de Línguas Nacionais recomendaram “a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional)” e demais convenções do CICIBA (centro de Estudos da Civilização Bantu).
As direcções provinciais da Cultura, segundo os presentes, “devem aprofundar os estudos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científica com instituições nacionais e estrangeiras afins”.

A esse encontro seguiram-se declarações, não menos importantes, da titular da pasta da Cultura que afirmou, na cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, (19 Outubro) que “Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”.

As afirmações da Ministra Rosa Cruz e Silva surge quase que como resposta ao que um pequeno grupo de angolenses vem escrevendo desde que o MAT orientou a alteração da grafia, na media pública, de alguns topónimos angolanos. O discurso da Ministra vem, a meu ver, conferir uma abordagem mais responsável e equilibrada sobre um assunto que não foi encarado com a seriedade necessária, tratando-se de uma questão que mexe com um bom punhado de angolanos, alguns com e outros sem voz audível. É o “vamos conversar que chegaremos a meio termo sem ‘trunguguismos’ a que sempre fomos, eu incluído, apelando em vários escritos nas redes sociais”.

A 26 de Fevereiro de 2014, o Jornal de Angola estampava que “o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada”. Lia-se ainda na notícia que “Bornito de Sousa esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “K” e a introdução do “C”, algo que já se observa nas designações usadas pela media, sobretudo a pública, em cumprimento a uma orientação daquele Departamento Ministerial enviado às redacções e que se baseia em “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola”. Se tal exercício “visou a realização do censo”, é importante que o bom senso e o diálogo prevaleça e que os alfabetos convencionados pelo nosso Governo, através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República sejam aplicados nas designações das nossas circunscrições.

Os topónimos e antropónimos de origem bantu não são meras designações. Encerram sentidos e conotações semânticas que devem ser respeitados tanto na grafia quanto na articulação fonética para que designem aquilo que foi projectado. Não é certo, por exemplo que se diga “Canjala” (relativo à fome) quando se pretende dizer é “Kanjala” (pequena fome), ou Canhanga em vez de Kanhanga, que não são a mesma coisa.

É por essa e outras razões digo: “não há bota, por mais suja e pesada que seja, que vá aniquilar as nossas línguas e a nossa identidade cultural, secular”. É por isso que mantenho a minha Fé na Cultura!


Obs: Texto publicado no Semanário Angolense 

sábado, novembro 01, 2014

EMPRÉSTIMOS, ADOPÇÕES, REJEIÇÕES E DISPENSAS

Como locutor atento de kimbundu (Lubolu) vou notando que muitas palavras utilizadas hoje para designar ideias, coisas e sentimentos/estados não existiam há trinta anos, assim como algumas que ouvi pronunciar na infância estão hoje no armário.

Isso acontece com todas línguas vivas. Há gírias, calões e neologismos que quando popularizados são inseridos "naturalmente" no léxico e outras que, caindo em desuso, se tornam de uso restrito/erudito ou passam para o arquivo.

Palavras como mwangope (alusão à capital angolana Luanda), kangonha (lyamba), kimanda (carabina), ngongwenha (fadinha y'ukange nyi suka), sambwambwa (dilaji), kitata (ndumbu), etc. foram/são utilizadas em kimbundu para designar seres, coisas/objectos e ideias. Umas tornaram-se parte do léxico comum da língua kimbndu, outras não se puderam manter no léxico e algumas são usadas em círculos muito restritos ou por falantes de “fina expressão”.

Este pequeno exercício surge a propósito de uma jovem universitária que estuda "as intrusões de linguas bantu na L.P. em Angola" ter escolhido como obra para análise (o meu) "O Sonho de Kauia", livro rico em expressões kimbundu, umbundu e cokwe.

Perguntava-me se qual era a origem de uma lista de palavras retiradas do texto, mesmo aquelas que têm significado em rodapé.

Depois de uma analise, a conclusão só podia ser esta: alguns lexemas constantes do referido livro e apontados pela estudante foram emprestados/tomados do kimbundu mas são gírias e calões daquela língua, podendo, por isso, ser desconhecidos por alguns falantes do kimbundu noutras regiões.

quarta-feira, outubro 15, 2014

O QUE ACHO DO JORNALISMO PRATICADO EM ANGOLA

Uma estudante do curso superior de Comunicação Social duma universidade privada angola perguntou-me, via face book, sobre o que eu achava do "ensino do jornalismo angolano". Disse que o meu nome tinha sido indicado por um professor que conhece e "reconhece" a minha trajectória de "jogador a comentador" no campo do jornalismo que se pratica em Angolano. A par destes questionamentos que servem para os estudantes fundamentarem os seus trabalhos escolares, tenho também recebido vários pedidos para "ajudar a fazer" isso ou aquilo. São frequentes pedidos do tipo: "Dr., ajude-me a fazer uma agenda, ajude-me a fazer uma notícia, ajude-me a fazer/estruturar uma entrevista, ajude-me a fazer uma crónica, etc.!
 
O que tenho solicitado é que "apliquem primeiro os conhecimentos teóricos aprendidos/explicados pelo docente e depois eu ajudo a dar forma".
 
O que acontece, a posteriori, é que, em muitos dos casos,  nem ortografia sai nem a teoria é aplicada.
 
Decidi, por isso, servir-me do método socrático (maiêutica e refutação) para fornecer a minha resposta à questão supra:

- Há laboratórios para aulas práticas nas universidades?
- Há professores de cadeiras práticas que são reconhecidos como bons praticantes de jornalismo naquela especialidade?

- Um professor de jornalismo que nunca exerceu jornalismo de facto, que nunca esteve numa redacção e que não saiba como se elabora uma agenda ou como se "vive" uma informação noticiosa, um insólito, estará em condições de instruir os da melhor forma alunos?
- Que tipo de jornalistas com curso superior as empresas de media recebem, sobretudo aqueles sem tarimba inicial (que nunca trabalharam antes no ofício)?
- Os neófitos jornalistas, saídos das escolas médias, técnico-profissionais e superiores dominam a(s) língua(s) em que se prestam a trabalhar?
- Temos excelentes jornalistas da nossa praça sem canudo, mas de reconhecida competência técnica e deontológica, como o autor do "Morro da Maianga". Esses têm sido convidados para formar novos jornalistas nas nossas universidades? São no mínimo professores conferencistas? 
 
Convido quem conheça bons exemplos que os partilhe comigo.

quarta-feira, outubro 01, 2014

KYA NGI BONZO

HOMENAGEM A NETO
"kya ngi bonzo" é uma expressão ambundu que significa aborrecível, cansativo, chato… é o que sinto ao ver uma media, abram-se alas à audiovisual, mais virada ao entretenimento do que à formação. Não escreverei neste texto sobre a forma questionável e, às vezes,  parcial, maculando a qualidade das notícias de que tenho sido brindado ao proceder o zapping/sintonização das Tv´s e rádios públicas.
Reporto-me simplesmente à forma parcial, amadora e desrespeitosa como é tratado na nossa media aquele que se convencionou/reconheceu como o Herói nacional.
Não sou adepto de celebrações do tipo da Coreano do Norte. Não peço que Agostinho Neto seja presença diária e obrigatória na media publica e privada, pois nem sempre haverá factos. Mas podem ser feitas rubricas que permitam os jovens e crianças conhecê-lo um pouco mais.
O que me aborrece é ver os dias do ano repartidos em onze meses e vinte e três dias para o Executivo e seus titulares, nos mais diversos graus hierárquicos e regiões, sobrando míseros sete dias de Setembro para se lembrarem de uma figura que já “dorme como pedra lançada ao poço”. Se “a pedra” foi lá parar por obra da natureza humana, não deixemos, pelo menos, que o lago do nosso conhecimento se seque, pois o mesmo Neto da nossa Independência também nos recomendou “a criar, criar amor, com os olhos secos”.
Não vejo em Agostinho Neto um ser que amedronte, que faça concorrência aos vivos, nem aos seus negócios políticos e económicos ou afins.
Lembremo-nos dele nem que seja pelo facto de ter hasteado a bandeira que carregamos orgulhosamente ao peito e nos ter ensinado a cantar um Novo Hino.
Lembremo-nos dele, nem que seja para contar a sua trajectória académica e missionária (filho de professora primária e de pastor Metodista) ou política, pelas cadeias que enfrentou devido à sua relutância em se opor à colonização, quando os seus proventos bem podiam dar-lhe uma vida folgada num território colonizado.
Falar sobre Agostinho Neto, mesmo que uma vez por semana, não seria um favor a ele e a pessoas saudosas como eu. Não peço a deificação dum homem mortal, embora declarado “Guia Imortal”. Entristece-me notar que crianças angolanas que frequentam o ensino primário português conhecem D. Afonso Henriques e as nossas do Ensino Médio, muitas pouco ou nada sabem sobre o Fundador da Nação. Não estará a faltar mais conteúdos nos programas escolares, radiofónicos, televisivos e nas conversas entre pais e filhos?
Que saudade sinto de ouvir Tabonta, os irmãos Kafala e outros “músicos da revolução” evocando e chorando neto nas suas criações artísticas. Que saudades das brigadas jovens de literatura com o “njila ya muxitu”de John Bella!
Para terminar essas súplicas vou me contentar com o “bombas que partem casas não metem medo ao povo unido” de Mwana-a-Kitoko e voltar aos prantos quando tivermos Neto não à dimensão poluidora do antigamente hodierno, mas à dimensão que merece.
 
É tanto esquecimento que me aborrece!

domingo, setembro 14, 2014

RECADO AOS "KANDENGES"

Variadíssimas vezes os universitários são criticados pela forma como "vilipendiam" a escrita da Língua Portuguesa.

Lê muito. Pratica a escrita normativa (fora dos clichés e abreviaturas do face book), faz cópias de livros bem escritos.

Só quem lê passa a conhecer as palavras e a escrevê-las correctamente.

Não será bom que o teu empregador se aperceba de lacunas graves em questões básicas de escrita, interpretação e expressão oral.

É a falar que se aprende a falar. Lê sempre em voz alta para aperfeiçoar esse lado.
Repassa o recado, meu jovem, a todos aqueles que conheces e que ainda não escrevem como deviam.
Um abraço.

segunda-feira, setembro 01, 2014

A ORALIDADE NO MEU PERCURSO COGNITIVO

O Processo cognitivo é um conjunto de factores sociais, que vão dos informais aos formais, a que alguns teóricos acrescentam outros de ordem biológica ou genética. A família (restrita e alargada) a comunidade e os grupos sociais são os primeiros intervenientes no processo cognitivo do ser humano, sendo que no caso da civilização bantu, a oralidade é a via mais expedita para a transmissão de conhecimentos e valores.
Uma das cadeiras da minha primeira instituição de ensino, o Jango, consistia na formulação de perguntas e respostas.
Para além dos mais velhos, os depositários do conhecimento, havia ainda os monitores, senhores e jovens já amancebados ou não, com alguma experiência de vida, conhecimentos comunitários, sociais, antropológicos e históricos que cobriam as ausências do mestre e o auxiliavam na missão de formar os novos seres (masculinos): cantando e ensinando novas canções, contando lendas, estórias e História, explicando aos jovens a ordem social, as árvores genealógicas (paterna e materna), etc. A oralidade era (e é onde a escola moderna convive com a tradicional) a via principal.
Adivinhas e respostas, anedotas, aforismos, adágios e seus sentidos lógicos (pedagógicos), interpretação do tempo (o senso comum também esboça explicações sobre a astrologia e meteorologia) faziam parte do conteúdo programático do Jango.
- Kandundulu bwo!
- Mu museke oxeyenamo?!
Vemos aqui um caso “curioso”(?) em que uma afirmação exclamativa é argumentada com uma pergunta/resposta. Ilógico no pensamento europeu mas lógico no raciocínio bantu (povos ambundu da variante Kibala, Lubolu), na medida em que a pergunta/resposta quer dizer somente que “depois da defecação, não se poder limpar o ânus arrastando as nádegas na areia”.
 Em “a yaya a yatoka!” (uns vão outros vêm), uma adivinha que na acepção do pensamento linear europeu pode ter vários significados, obtemos como resposta “ombundu” (as nuvens).
Fazendo uma adaptação aportuguesada dum aforismo ovimbundu, que me chegou por via do meu confrade Daniel Gociante Patissa, “só à arena é que não íamos, mas o som da música sempre nos chegou ao ouvido”. Embora as nossas línguas bantu não tivessem alfabetos estruturados e conhecidos, até há poucas décadas, conhecimentos sempre tivemos e sempre foram transmitimos por via da oralidade.

sábado, agosto 16, 2014

OS “ENTRETANTO” NA TV

 
TENHO estado a ouvir, com ligeira preocupação, os “entretanto” de alguns locutores da "nossa" Televisão (sobretudo às manhãs), na ligação de notícias.

A definição mais simplista é: conjunções são palavras invariáveis que servem para ligar/articular orações ou ideias. Nesta ligação/articulação há que ter em conta o sentido que as mesmas encerram.
 
Adição (uma notícia com outra) ou adversidade (uma em relação a outra)?
“Entretanto” é conjunção adversativa, expressa a ideia de contraste ou compensação. Não tem (sempre) o mesmo valor que “e” (conjunção copulativa) que indica adição.
Ontem tivemos um mau dia, todavia/contudo/entretanto temos hoje um dia excelente.
No discurso escrito, antes da conjunção adversativa deve ser colocada uma vírgula.

Obs: Constatado e escrito em Junho 2014.
 

sexta-feira, agosto 01, 2014

A MELHOR FORMA DE ENSINAR HISTÓRIA

(Opinião baseada na experiência)

Todas as crianças têm elevada capacidade de absorver estórias e de as poder recontar. Fui bom aluno e estudante de História e pratiquei a docência desta cadeira. A experiência mostrou-me que os alunos/estudantes apreciam professores que ministram aulas de História como se estivessem a contar estórias… Professores quem lhes transmitam imagens e lhes façam viver os acontecimentos históricos.
 
Hoje, o  melhor é situar os eventos em períodos de tempo: último quartel do século XIX,  2ª metade do sec. XX, 1ª década do século XXI, etc, ajuda a concentrar-se nos factos em vez das datas (que não deixam de ser importantes). Porém, o elemento "o Quê=facto" é primordial.
 
Um professor que encarne os factos contando-os como se fosse estórias "vividas" despertará a atenção dos discípulos e mas facilmente estes transformarão a informação recebida em conhecimento acumulado.
 
Não há péssimos alunos de História (sobretudo quando crianças). Pode é haver professores que não encarnem os factos, transmitindo-os como se fossem estórias.

terça-feira, julho 15, 2014

O VALOR DO FEEDBACK NA COMUNICAÇÃO VERBAL

Mais do que um mecanismo que permite confirmar a fiabilidade do canal pelo qual trafega a informação entre o destinador e destinatário, o feedback é troca bi-direccional que elimina distorções ou falhas na comunicacão verbal. Quando essa é realizada de forma oral, o feedback permite assegurar que não houve ruído e que a reacção do destinatário será conforme espectado pelo emissor.
 
A repetição da mensagem pelo receptor ou o resumo da mesma é uma garantia de que houve eficiência na comunicação.
 


O que você faz quando recebe uma mensagem por e-mail, por carta, sms (short message servisse) ou comentário no facebook? 
Quem lhe manda uma mensagem, independentemente do canal e do código, praticou um acto comunicacional. Partilhou ideias, sentimentos ou estado de alma. Ao remeter a mensagem, está também testando o canal. Precisa de ter certeza de que o canal funciona, a mensagem chegou ou destinatário e foi ou não percebida. A percepção é aferida pela qualidade da reacção do recepor. Se esta for a esperada é porque não houve ruído.
 
Como é que o emissor terá essa percepção caso não receba feedback?

 1- Recebeu telefonema e não pôde tender no momento? Dê retorno tão logo seja possível.
2- Recebeu e-mail? Tenha ou não percebido, dê feedback para que se confirme a recepção e percepção da mensagem  ou se melhore a comunicação.
3- Faça o mesmo em relação ao facebook e outros canais ou meios de comunicação verbais (oral e ou escrita), reagindo em função da recepção e da descodificação que fizer da mensagem.
4- Responda sempre com mensagens verbais ou acções esperadas. Dê feedback a cada mensagem que receba, ignorando, como é obvio, o spam viral.
5- Saiba que a comunicação oral (por voz) é mais quente e afectiva do que a escrita, embora a segunda seja mais segura em termos de conservação da mensagem, sobretudo em caso de repasse.
 
 

terça-feira, julho 01, 2014

OS CAMINHOS ÍNVIOS DO NOSSO PORTUGUÊS

Nota Prévia: A presente reflexão foi solicitada pelo Semanário Angolense, a propósito dos 800 anos da L.P., assinalados a 27.06.2014.

Os desvios à norma (uso popular ou vulgar da língua) coabitarão com o uso normativo, sem que para tal surja uma nova língua ou essa desarticulação da norma pode levar a nova forma de comunicar (por oralidade e escrita)?  Os excessivos desvios, os empréstimos/importações de outras línguas africanas (angolanas) e o génio criador/inventivo de novos vocábulos (neologismos) levarão ao surgimento do "Angolês"? Poderá ou não surgir em Angola, dentro de séculos, uma língua distinta do Português Europeu e da miríade de idiomas expressos no universo angolano?
Partindo de estudos sincrónicos e diacrónicos (evolução histórica) das línguas, atentos às tendências, autores como Carlos Figueiredo, Francisco Edmundo,  G. Bender, Amélia Mingas, entre outros, apontam os desvios visíveis na utilização da Língua Portuguesa em Angola como propiciadores do surgimento de uma "nova" língua a que designam por "Angolês, Português Angolano", etc.

Atendendo que as línguas têm sempre diferentes níveis de utilização (vulgar/popular, padrão/norma e erudito/científico), evolução transformação e gestação de novas identidades linguísticas, urge tecer algumas considerações a propósito da Língua de Camões falada em Angola.

O idioma Português não é mais do que a evolução de um conjunto de idiomas ibéricos que parte dos Celta, do Latim, do Castelhano, etc. que em contacto com realidades linguísticas (morfológicas e fonológicas ) africanas, americanas e asiáticas delas tomou empréstimos e ganhou amplitude. O caminho trilhado pelas línguas ibéricas, até se chegar aos idiomas actuais, será, com o tempo, replicado nos países em que o Português chegou por via da colonização/imposição. Essa tendência pode ser observada em Cabo Verde onde do Português e as Línguas africanas da África Ocidental levaram ao surgimento do crioulo cabo-verdiano que já é língua nacional daquele país, coabitando com o Português, língua oficial. Por mais que defendamos a pureza da língua de Camões, teremos de nos vergar, um dia, à evidência e reconhecer facto semelhante em Angola.
O "Angolês" ou outra designação que lhe for atribuída, será apenas uma questão de tempo, de maior criatividade dos falantes, uniformidade semântica dos vocábulos em todo o território e criação de um instrumento morfológico e sintáctico distinto das línguas que lhe dão origem (Português Europeu e línguas bantu e não bantu do território angolano).
Há hoje um novo paradigma linguístico que emerge nos nossos bairros, nas nossas sanzalas, nas aldeias, nas falas do povo que sente “ser mais importante comunicar do que as críticas dos gramáticos”. Há uma nova língua que se vai distanciando cada vez mais da norma, que se expande através música e da literatura, uma língua que é falada e que facilita a comunicação, que já é lida e muito cantada.
Vejamos o caso da expressão “Ontem levei uma torra de katrungugu e fiquei malayke”. Será isso Português, uma gíria ou emergência de uma nova forma de comunicar que se populariza cada vez mais?
Autores como Carlos Figueiredo (em “Projeto Libolo/Português de Angola”) acentuam nos seus estudos que o “Angolese” ou Português de Angola “é  já um facto. Ele já existe e só os conservadores, que continuam presos à norma europeia, é que não querem admitir isso”. Figueiredo atesta ainda que “a confirmação científica do uso de desvios fixa definitivamente a mudança na língua (paradigma dominante), o que constatam já os estudos existentes em sociolinguística quantitativa”. Em Angola, sustenta, o desvio sistemático à norma padrão faz com que se passe de facto social a fenómeno (abrangente) ou seja de algo pontual para algo sistemático.
Angola como Nação que já temos à mão precisa de uma nova identidade, distinta daquela desenhada pela potência colonial. Tal passará também, a meu ver, pela tangibilidade da comunicação. A função primeira da língua é comunicar ou passar a mensagem. Durante largos anos os portugueses incutiram aos angolanos a ideia de que as línguas bantu eram sinónimo de desprestígio social. A nossa identidade milenar que não se perdeu ao longo dos 500 anos de presença europeia refundar-se numa nova forma de articulação oral que passa para a escrita e daí para uma nova norma.
É a consciencialização do “homo angolensis” que se reflecte nos verdadeiros usos de fala de milhões de pessoas. O “Angolense” é e será tão somente o “resgate da  a heranças dos nossos antepassados africanos que foi maltratada, vilipendiada e subvertida durante séculos”. Essa é a homenagem que todos nós lhes devemos.
Posto isso, as questão que coloco são: temos razões para continuar a alinharmos com a norma internacional da Língua Portuguesa? Aqui a resposta é SIM.
Vamos a tempo de escolarizar todos os angolanos ao ponto de falarem o Português "camoniano"? A minha resposta é NÃO.
Teremos cada vez mais angolanos (escolarizados ou não) a falarem a LP com laivos de africanismo? A resposta é SIM.
Que discurso deve levar hoje à escola/universidade um professor de Língua Portuguesa? Do meu ponto de vista,  dizer que já temos uma nova língua (ainda não pautada/normatizada) pode parecer um pouco arriscado. O melhor caminho é ir alertando (gradualismo) que há uma eminência que se vai clarificando com os estudos  que se realizam neste domínio. Os estudantes de hoje serão os cientistas de amanhã. Quando tivermos estudos suficientes e um quórum que permita a apresentação do paradigma, ai sim sairemos (sairão) a público os anunciantes da nova língua que espero caminhe em paralelo com aquela herdada da imposição colonial e que, felizmente, nos permite nesses dias, construir uma Nuno Alberto Nacao num diverso mosaico cultural e etnolinguístico.
Em remate: vão coexistir os que tenderão para o "Português Europeu" e tantos outros (maioria) a marcarem a sua identidade milenar na língua oficial que falam, imposta pelo antigo colonizador, resultando num crioulo. A preocupação de alguns escritores angolanos de levarem, de forma explícita, essa identidade (antes representada apenas nas falas dos personagens) para o discurso escrito, marca já um ponto de ruptura ou anunciação de uma nova realidade tangível e inexpurgável. Há hoje a preocupação de os escritores não só escreverem as pronúncias (redacção difusa), mas atentos à grafia correcta, de acordo aos idiomas bantu e à semântica que encerra.

Quando os estudiosos definirem uma pauta sobre: como se deverão escrever as palavras (léxico próprio), quais as construções sintácticas, como se vocaliza e quais os significados (semântica) aí teremos uma nova língua, distinta daquelas que lhe deram origem, e não levará milénios para acontecer.
Nota: Essa reflexão contou com subsídios de vários amigos do face book e podem ser lidos em www.mesumajikuka.blogspot.com