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terça-feira, maio 22, 2012

Anotações ao Jornalismo angolano

O que há e o que falta no interior

Nota Prévia:
Metajornalismo: é a tendência do jornalismo que visa analisar o desempenho, de forma crítica, da media, apontando o que, no interesse do público, seria de destacar/realçar como também as proprias valências /carências dos jornalistas.

Portanto, estes "apanhados" não visam apontar o dedo a este ou àquele jornalista, a este ou àquele media concreto. É somente a ideia geral do que se passa no interior de Angola, alí onde há vontade, cumpre-se com o mínimo, mas faltam ferramentas técnicas que propiciariam um desempenho ainda melhor. Pretende o autor desta prosa, com essa sua visão crítica, despertar os jornalistas e responsáveis dos Órgãos de Comunicação Social para a necessidade de uma formação e auto-superação constantes.

                1- Ausência de Profundidade e ousadia no trabalho jornalístico

É uma das pragas que assolam pela negativa o nosso jornalismo. Embora se defina o jornalismo como “Literatura com pressa”, esta actividade não deve ser exercida de forma tão apressada ao ponto de matar os acontecimentos.

Depois de um facto, os destinatários da informação querem sempre saber o que vem depois. É como num jogo; onde depois da finta o espectador quer saber qual será o passo seguinte. Os jornalistas têm ignorado este aspecto, não nos dando o antes e o depois.

Segundo a teoria social, é a enumeração de factos que faz os fenómenos. No jornalismo, é o seguimento detalhado de um assunto que faz Um Caso ou uma grande reportagem. Daí que uma boa reportagem deve ter sequência e profundidade.

O imediatismo ou o laxismo mutila o exercício do jornalismo sério, responsável e comprometido com a sociedade que reclama, cada vez mais, por um jornalismo virado ao cidadão. Por outro lado, é preciso que o jornalista tenha a ousadia de ir buscar outros elementos para além do óbvio. A isso se chama jornalismo de profundidade ou de investigação. É preciso seguir todos os desenvolvimentos e conexões possíveis de um caso e chegar ao fim da estória.

                    2- Uso/domínio da língua de trabalho (portuguesa)
Alguns jornalistas denotam conhecimentos bastante precários da língua com que trabalham. Muitos não dominam as mais elementares regras gramaticais como a concordância e a regência verbal. Desconhecem as formas de tratamento e de reverência, confundindo ou misturando os pronomes tu e você (2ª e 3ª pessoas) ou ainda confundindo excelentíssima com o reverendíssima. Outros, mesmo trabalhando em rádio, que requer elevada capacidade de improvisação, nem possuem no seu léxico habitual um universo de mil palavras. Isso faz deles redundates por demasia, sem uma pauta mental de sinónimos nem antónimos.
3- Domínio das técnicas de redacção Jornalística

Salvo contáveis excepções, o texto não passa de um punhado de adjectivos e adjectivos. São frases desencontradas, incoerentes, redundantes, confusas/sentido. Apenas agradáveis ao ouvido (na forma de discurso oral) mas sem conteúdo que se retenha. É como “comprar sem nada levar para casa”.

4- Recolha de informação e cruzamento de fontes

Uma boa notícia não reside na maneira como o facto é protagonizado ou na natureza dos seus protagonistas. A "boa notícia" reside na boa recolha, cruzamento e tratamento da informação. Os jornalistas limitam-se a anunciar o óbvio. Limitam-se a ligar o microfone e reproduzir “ipis verbis” o discurso da fonte primária, esquecendo-se que o assunto pode ser vivificado com outros elementos. Numa reportagem, por exemplo, sobre a inauguração de uma escola, o jornalista esquece-se de fazer o antes da escola, a inauguração e a pós-inauguração. Esquece-se de ler e interpretar o mundo que circunda o acontecimento, o que acaba por limitar a informação veiculada. Numa reclamação de trabalhadores sobre salários, os jornalistas limitam-se a ouvir os queixosos, não dando voz ao empregador visado nem as entidades reguladora e sindical. Outros limitam-se por exemplo a recolher os custos da escola e nunca os beneficios/beneficiários... 
5- Exercício da profissão e necessidade de formação

Os níveis de conhecimento, quer técnico quer geral são deficientes. Não há escolas especializadas no interior , nem frequência constante de cursos de superação. Não existem “cafés de ideias” nem outros instrumentos informais que permitam a troca e/ou passagem de experiências entre os jornalistas. As valências internas (os santos de casa) nunca são exploradas.
Os jornalistas de referências da praça são “tarimbeiros” que aprenderam a exercitar o ofício (na oficina) vendo os seus mestres a fazer. Poucos possuem fundamentos teóricos e pouquíssimos ainda exercitam “estudos de casos”, como acontece nas universidades e escolas especializadas. Embora alguns se afirmem como os grandes “papões” muitos estão desprovidos de conhecimentos adequados e sólidos sobre o jornalismo moderno, quando comparados com a "praça luandense". Torna-se necessária uma formação contínua dos escribas para melhorar o desempenho técnico-profissional dos jornalistas.

terça-feira, abril 03, 2012

O papel dos media: como estar nos e com os media estando longe?

2ª edição da Conferência sobre "Marketing e Best Pratices de Vendas”
Data: 28 de Março de 2012, Hotel de Convenções Talatona, Sala Mayombe
Organizador: IIR-Angola
Tema: Qual o papel e contributo do s media: como estar nos media estando longe?
Orador: Dr. Luciano Canhanga
Notas Introdutórias
Não há acções de marketing, seja ela virada às vendas, a promoção da imagem institucional outra, que não tenha como foco as pessoas enquanto destinatárias da nossa comunicação.

E é falando em comunicação que é para este fórum trazidos os veículos de difusão da informação, ou seja, os media nas suas distintas formas ou categorias (imprensa, audiovisual, outdoors, virtual, etc.).

Imagine agora que a sua empresa ou organização seja produtora de bens e serviços destinados exclusivamente ao mercado externo e que esteja situada longe da cidade e isolada do grande público…

Comecemos por considerar que:
- BRANDING é o conjunto de acções ligadas à gestão de marcas ou processo de gestão de marcas.
-Todos gerimos uma marca, a começar pelo nosso eu, nossa casa, nossa empresa, etc.
- Não adianta comunicar bem no veículo errado. É preciso estudar o público-alvo da comunicação/campanha, o veículo a utilizar, seus leitores/telespectadores/ouvintes, a audiência, etc. É preciso ter a ideia de quantos destinatários prováveis se vai atingir ao fazer uma campanha num veículo/programa.
- Preocupe-se também com o endomarketing, pensando sempre que os seus colegas são os mais fieis difusores da marca da sua empresa e ou produto. Mas é preciso que estejam motivados.

Localização e Relação de proximidade com os media (O Caso Catoca)
Falo-vos de uma empresa (CATOCA) que, pelas características do seu produto, do mercado em que é comercializado e legislação ainda em vigor, não desenvolve marketing comercial mas sim marketing Institucional ou seja, que apenas trabalha a identidade, forma e consolida imagem, forja a reputação e reconhecimento público da Empresa no mercado.

- Mil km de Luanda e 35 km de Saurimo a cidade mais próxima.
- Apenas ANGOP, RNA e Edições Novembro têm representações na região.
- Emissões da TPA, J.A. e ANGOP estão centralizadas em Luanda.
- Sistema privativo de utilidade pública (concessão) com acessos restritos a não convidados.

Estando próximo: a relação com os media nem sempre é o que as instituições desejam devido a interesses nem sempre convergentes.
Estando distante: a tarefa de estar próximo dos e nos media fica mais dificultada devido ao factores físicos e Geográficos, sociais, etc.
Papel dos media
Media: ponto intermédio entre os extremos (governo-governados; servidores-servidos; emissores-receptores; Prestadores de bens e serviços-clientes/utilizadores, etc.).
Pela sua vocação comunicacional é pelos Media que passa a informação dos fornecedores de bens e serviços aos clientes e utentes. São os Canais por onde passa a informação.
Relacionamento com os media
 Para quem trabalha em Comunicação Institucional e Relações Públicas, como é o nosso caso, o contacto pessoal com os jornalistas dos diferentes meios que actuam no espaço mediático é importante: muitas vezes um telefonema informal resolve um problema que a burocracia institucional (hierarquias) não resolveria em tempo record.

Institucionalmente obedece-se a uma hierarquia, enquanto as amizades pessoais evitam a este quesito.
Ferramentas que facilitam relacionamento
Mail List: Permite encaminhar a mesma msg a muitos receptores/jornalistas em simultâneo. O melhor é fazer cópias ocultas para que cada destinatário receba como se fosse o único.
Mensagens públicas são muitas vezes ignoradas!
É bom escrever de acordo ao estilo redactorial da casa que recebe a msg. Há jornalistas que não gostam de trabalhar textos com ausência de elementos informativos ou muito trabalhosos.
Phone List: É importante para mandar SM´S simultâneos ou ligações individuais aos receptores da msg enviada por e-mail (para confirmar e-mail anterior).
Há jornalistas que ainda não têm o hábito de ter o e-mail permanentemente aberto.
Para além da falível memória electrónica é bom sempre redundar os contactos ou ter uma cábula em papel para recurso em casos extremos.

"Alimentar os pombos": Por mais fechadas que sejam as nossas instituições, há necessidade de passar aos nossos amigos dos media algumas informações institucionais ou fait divers para manter os canais abertos e uma certa proximidade.
Caso contrário, ter-nos-ão como “amigos ingratos” que só os contactamos quando estamos necessitados.

"Abrir Clareiras no Escuro": A melhor forma de esconder é mostrar um pouco do muito que está oculto para evitar especulações.
"É a casa com muros altos que mais desperta a curiosidade”
Mostre apenas o necessário, ainda que para entreter. Mas, cuidado com os furos...

Convívio com Jornalistas: São mecanismos (informais) que permitem aos media/jornalistas conhecer as nossas organizações, factor bastante relevante para uma relação de proximidade e para a veiculação futura ou presente de informações assertivas e correctas.
- Promover cafés de ideias e eventos similares ajuda no fortalecimento da reputação da Instituição junto dos media e destes para com os públicos.

Press Release/Pedidos de Cobertura: Press release e pedidos de cobertura são meios que permitem as organizações levar aos media as suas realizações ou convidá-los para testemunharem realizações.

Facilitação de entrevistas e visitas às instalações: Aumentam empatia da media/jornalistas em relação a nossa organização.

Medias Virtuais: Devido ao seu poder e alcance, tornaram-se grandes aliados dos fazedores de Imagem/opinião e destrutores de Imagem/opinião.
Se o lado positivo nos interessa, ainda não há antídotos para contrapor a desinformação.
É importante conhecer ferramentas como: Twiter, Orkut, Facebook, Hi5, etc., e sobretudo, frequentá-los.

Web Site Corporativo: É importante actualizar as páginas institucionais, mas também é de todo útil que se avisem os jornalistas sobre a colocação de assuntos importantes, como relatórios gerenciais e outras grandes realizações das organizações, de modo a criar nos jornalistas o hábito pela frequência das páginas oficiais das organizações.

Conclusão: Pelo seu papel mediador entre os actores, os media são parceiros importantes na efectivação do marketing, quer comercial, quer apenas institucional.
Para estar nos media é preciso desenvolver uma relação de parceria e de reciprocidade (informação).
Quem está longe deve servir-se, dentre outros meios, dos recursos acima descritos para estar próximo dos media.

quinta-feira, março 01, 2012

A MORTE, A CABEÇA E O FUNERAL DO REI

Entre os ambundu e ovimbundu, povos de Angola (centro e centro-norte), a morte de um rei é uma questão gerida com sigilo pelo ciclo restrito da corte e seguida de procedimentos rígidos.
Essa reflexão e busca da história surge a propósito da morte física do REI EKUKUI IV do Mbalundu, a 14 de Janeiro de 2012, tendo sido levantadas questões como:
- Anúncio da morte do rei
- Questão protocolar, uma vez que o mesmo era deputado a Assembleia Nacional
- Cumprimento dos ritos tradicionais, etc.

Sobre a primeira questão (anúncio da morte), tudo quanto é tradição e debatido no facebook entre os leitores do Soberano Canhanga e do Nguvulo Makatuka, ficou esclarecido que em condições normais a morte dum rei só é anunciada após a separação natural do crânio do resto do esqueleto.

Na tradição ovimbundu o Rei apenas é considerado morto depois de a cabeça estar separada do corpo”. O corpo do rei finado é pendurado a uma árvore tradicional e pela acção da gravidade a cabeça separa-se do resto do esqueleto/corpo. A cabeça é depois depositada no sarcófago real (Ekokoto) e o corpo é finalmente sepultado em local que pode ser o cemitério público para que possa ser visitado.

A tradição diz ainda que se tal rito não for observado, várias pragas podem assolar o reino.

Quanto à questão protocolar, a morte do rei Augusto Kaciopololo do Mbalundu colocou-nos um novo problema, nunca antes observado. Na sua qualidade de Deputado, o finado teve direito a honras protocolares de Estado que colidiram com a tradição. A sua morte foi prematuramente anunciada já que a tradição diz que enquanto a cabeça não estiver separada do resto do corpo o rei deve ser considerado para os seus súbditos apenas doente.
Nguvulo Makatuka escreve na sua página do facebook que Houve uma falha protocolar no caso do designado EKUIKUI IV, cujo processo de morte está em curso. Tendo o coração deixado de bater, diz-se apenas que o Rei está muito doente”.
O que se passou foi que o rei foi de imediato anunciado morto e com direito à presença física do Presidente da República no velório. Seguidamente, sem que o cadáver fosse levado à tumba, deu-se cumprimento do pressuposto tradicional acima evocado quanto à separação “natural” do corpo e depósito do crânio no santuário do reino. Através dessa prática que se contabilizam os soberanos que já passaram pelo trono, bastando contar o número de crânios expostos numa fenda ou floresta (secreta) frequentada apenas por restritos membros da corte.
Mas há outros ritos:   
A tradição também reza que o rei não deve “ir sozinho”. O cadáver do finado rei deve ser sepultado com outros que o acompanham, geralmente uma ou duas "pessoas".

Sobre a questão o já citado Nguvulo Makatuca (António Kassoma de nome próprio) diz no seu escrito que No dia m que o seu corpo for sepultado, não será aconselhável as pessoas andarem pelas ruas, sobretudo sozinhas, há os KATOKÕLA que poderão sacrificar algumas pessoas para que essas façam companhia ao SOBERANO”.

Porém, informações quase concordantes atestam que a prática do sacrifício de “acompanhantes do rei” já não se pratica. “As pessoas apenas não saem de casa por reverência”, atesta ainda NM, também ele procedente do Planalto central angolano, descendente de família real e investigador.

Há ainda quem afirme, (faltou comprovar) que para além desse último rito há ainda outro que atesta que em situação de enfermidade irreversível, os notáveis da corte dão fim à vida do rei no último momento, quando se nota que a partida é eminente. Desta forma "leva-se o rei" em vez de ir sozinho.
São questões e práticas discutíveis por um lado, tendo em conta a ocidentalização da cultura universal, mas também de respeitar, tendo em conta as nossas origens.

Nota: o autor deste blog é neto do Rei  Ñana Ñunji (Pilar), do potentado de Kuteka, no Libolo.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

QUO VADIS DIDACTICA DA LINGUA PORTUGUESA NO ENSINO PRIMARIO?

Já desde os meus tempos de aluno primário que, no meu canto, reflectia sobre a qualidade do ensino da língua portuguesa em Angola, país com várias línguas de origem Bantu e  cujas dicções, influenciam a locução do português.
Imagine que tive um professor que em vez de pronunciar divide emitia "divinde"; em vez de combustível, pronunciava "combustíve", em vez de mel dizia "meee", etc.

E eu, influenciado pelo pai e pelo avô de que tinha que ser "um preto-fino" que devesse andar de camisa de mangas compridas e sempre bem-passada... portanto, um negro com polimento europeu, coisas que no passariam somente pela forma de estar mas também pelo que sairia de minha boca. E fiu reflectindo como atingir tais patamares com os professores que fui encontrando.

Antes mesmo de dedcobrir que tais exigências emanavam da Concordata entre o Estado Novo e a Igreja Católica, rubricada nos anos quarenta do século passado (XX), sobre o Ensino e a Cultura Lusitana nas Províncias Ultramarinas e os critérios para a obtenção do Estatuto de Assimilado que meu pais e avô cumpriam sem saber como tinham sido impostos (aprendi isso no curso superior de Ensino da História), optei por aprender a gramática (Sintaxe, Morfologia e Ortografia) com os professores que fui tendo e o Prosódia ou Dicção com aqueles que me pareciam ser "bons falantes" da língua de Camões.

Esta realidade acompanhou-me até aos dias da juventude. Já eu como professor primário fui assistindo, todos os dias, os meus colegas "mutilando" criançaas que, apesar de algumas serem filhos de gente bem instruída,confiava mais nos professores (mesmo mediocres) do que nos próprios pais. Razão: Ficam mais tempo com eles do que com os pais e o professor no ensino primário ainda é tido como o detentor do saber "absoluto".

Havia aqueles que nada entendiam da gramática, conjugação verbal, regência, classe de palavras, substantivos, etc. Pior ainda sobre a dicção correcta das palavras. E o "comboio" seguia (está a seguir até hoje) o seu curso, como se nada de anormalidade houvesse em tudo isso.

Pior ainda nos tempos hodiernos, me parece que nas escolas primárias de Angola desapareceu o rigor  na elabora�o das aulas de língua portuguesa.
- Primeiro porque sabendo ou não os alunos da iniciação à quarta classe já não reprovam.
- Segundo porque os professores primários têm cada vez menos conhecimentos para partilhar com seus alunos, havendo mesmo aqueles que nada têm em relação a meninos e meninas que aos sete anos já dominam as ferramentas de pesquisa e auto-ajuda.
- Terceiro porque temos ainda a mono-docência que abrange a 5ª e 6ª classes que sempre tiveram professores diferencviados para cada disciplina. E assim, aquele que sempre foi professor de matemática, porque era o seu forte, também dá aulas de língua portuguesa que nunca soube, às vezes, nem falar.

Um professor portador de deficiência, como eu, também se tornou em professor de Educação Física (?!). A Monodocência dá nisso...
Toda essa insatisfação pelo ensino que o Estado dá aos nossos filhos leva-me somente a relenmbrar os tempos (não tão bons quanto aos dos que me são mais-velhos) em que para ministrar uma aula de língua portuguesa no ensino primário o mestre teria de obedecer a critérios básicos na elaboração da aula:
- Leitura e interpretação do texto
- Gramática (podiam ser questões sobre sintaxe ou morfologia)
- Ortografia/ditado
- Redacção

Será que os professores de língua portuguesa, no ensino primário público, ainda obedecem a esta elaboração?
É so ver como alguns maltratam (na escrita, conjugação verbal e dicção) a língua veicular...

Nota: uma amiga minha que é professora no ensino primário público em Luanda, a propósito dum debate que suscitei no fb (27.01.2012), dizia que as "amnistias escolares (acto de aprovar todos os alunos, mesmo aqueles que deviam "xumbar") se devem ao facto de existirem poucas escolas e muitos alunos fora do sistema de ensino". Isso, segundo MG, "permite a abertura de vagas e a entrada de outros alunos no sistema". Acrescenta ainda que "se o aluno não aprende a ler na 1ª aprende na 2ª e se tal não acontecer na 2ª será na 3ª ou na 4ª classe".

E, assm se vai deteriorando o nosso ensino público com a cumplicidade/ordem do "Quem-de-Direito".  

domingo, janeiro 01, 2012

QUE FINS PERSEGUEM OS FUNDADORES E COMPRADORES DE JORNAIS?

Há dois séculos, Napoleão Bonaparte (imperador francês) dizia que "Dez jornais eram mais perigos do que um exército de cem mil homens". E, Napoleão disse-o e com razão. Uma razão que a moderna sociedade de informação apenas foi multiplicando aos milhares o poder dos jornais (in stritu sensus) e da media em geral.
A corrida desenfreada que se assiste em Angola na criação de jornais e, últimamente, a aquisição hostil (OPA) de jornais já existentes não terá outra motivação senão o poder.
- Poder no sentido de que quem controla a informação tem poder.
- Poder no sentido de através da mediatização se pode chegar ao Poder
- Poder porque toda a media feita única e exclusivamente para controlar, ascender e ou inverter o Poder é usada de forma atípica para: Adjectivar, Incitar, Persuadir, Criticar, Opinar e às vezes, Condenar (fora dos tribunais).

Numa rádio desportiva que narrava um jogo amistoso entre as seleção angolana de futebol e uma congénere, quando o objectivo do treinador era ensaiar as rotinas (disse-o antes da partida e no final) e ver que jogadores se adaptavam melhor aos esquemas tácticos em ensaio, o narrador disparava: "todo o mundo já viu e sabe, menos esse treiandor, que a equipa joga melhor com o fulano no ataque. Por que o substitui? Ele, e somente ele será o responsável por uma derrota da nossa selecção..." 

Vejamos alguns extratos de texto pretensamente noticioso mas que é, na verdade, opinativo (f8: de 10 Dez.2011, pg 41).
- "Deixem lá de truques! ... O empresariado nacional precisa de ser estimulado a fim de suportar a concorrência dos investidores estrangeiros, por incrível que pareça são mais protegidos dos endinheirados angolanos, pançudos de dólares!
- "Caloteiros! Abram cordões á bolsa..."

Acções como as que o "A Capital" conheceu durante o ano findo, como a substituição de textos já editados e paginados ou a sua simples subtração do produto final, não têm outra configuração que não seja a do Poder. No caso vertente, a acção se enquadra na "defesa do Poder" ou na procura da "conquista do Poder".

E sobre a media audiovisual também há muito que se lhe diga sobre a adjectivação, a supressão de notícias referentes a "agentes incómodos", a parcialidade na abordagem, a paixão, e outros pecados que a praxis da profissão jornalística repudiam.

Até no jornalismo especializado já vamos assistindo a tendência para reportar sobre a empresa do sicrano ou entre a equipa xis e ipsilon, deixando de fora a do beltrano (por razões nunca explicadas mas facilmente decifraveis).

É preciso que os jornalistas estejam comprometidos única e exclusivamente com averdade, abrindo-se excepções, obvias, para aqueles casos verídicos cuja veiculação pode atentar contra a estabilidade colectiva. De resto, deve imperar a verdade e nada mais do que a verdade!

segunda-feira, dezembro 12, 2011

UMA AULA DE JORNALISMO ESCONDIDA N "OS 5 DEDOS" DE ISMAEL MATEUS

Relendo bem o livro "Os 5 Dedos de Vida", nota-se que o papel pedagógico de Ismael Mateus, o autor, para que tenhamos um jornalismo melhor, virado e comprometido com a verdade, não se resume aos reparos que faz aos seus "putos mais chegados" nem às críticas mais activas nos seminários e outras formações em que disserta.

Para quem tem "olhos de ver", o texto "Os 3M" é mais uma lição de puro jornalismo, onde o autor nos diz claramente o que pode esta ferramenta/profissão (jornalismo) fazer quando mal utilizada: entrona, destrona e pode matar o próprio artista como aconteceu com Gabriel Coimbra.

Obrigado, Ismael Mateus, por me teres escolhido para o teu governo (dos putos que ensinaste e ensinas jornalismo). Sinto-me bastante honrado!

sábado, novembro 05, 2011

PREGAÇÃO CENSURADA (RENÚNCIA POSSÍVEL)

Amado e respeitado Pastor,

Remeto-lhe, em anexo, o meu sermão do dia 18 de Setembro para merecer a sua apreciação e chamar-me à atenção sobre determinados desvios que terei cometido.

Faço isso porque durante o referido culto fui notando uma inquietude do Sr. guia leigo que não se poupou em fazer comentários desabonatórios, ouvidos por membros do Coro Central. Acto contínuo, socorrendo-se do livro de S. Marcos 14:48-52 ("A forma como seguimos Cristo"), o Sr. guia leigo da Igreja, na sua pregação de 25 de Setembro, fez uma réplica ao referido sermão, tendo afirmado, entre várias passagens, os seguintes trechos:

“… muitos são imprudentes nos actos e palavras que dizem durante o culto. Tornam-se no centro da atenção de todos… Auto intitulam-se por cultos por chamarem a si responsabilidades e problemas alheios… Estão mal vestidos como o homem coberto por apenas um lençol… Denotam falta de cuidado, agitam mas desconhecem os problemas… São imprudentes por assumirem situações alheias e acabam por ser figura principal…. Até para seguir Cristo há que estarmos suficientemente preparados, para evitarmos comportamentos que rotulem imprudência… Acabam por atrair a atenção dos fiéis que os julga com comentários desagradáveis... A igreja não está preocupada com o que vestimos ou falámos. Cada um deve estar preparado para evitar que a igreja lhe ponha a mão e fuja nu, por estar mal vestido… Não sejas o centro do culto... Assuntos de casa ou motivações pessoais nada têm a ver com o culto…”...

Sr. Pastor,
A meu ver, a IMUA é eminentemente uma Igreja Moralista. Daí que apelar à solidez das famílias através do casamento e cumprimento dos deveres dos pais, mães e filhos nunca será, em Igreja Séria, um “crime de lesa pátria”, assim interpretado por alguém que até foi escolhido para guiar os leigos.

Mui agradeço os recados que me têm chegado, através de irmãos coerentes da Igreja e pelo púlpito, como foi a pregação do dia 25.09.2011.

Ao juntar as peças do puzzle, deu-me até vontade de dizer: “Encontrei a Igreja de (...) cheia e deixá-la-ei cheia. Sou apenas um grão de areia que não aquece nem arrefece os cultos dominicais”, mas a minha fé é, de momento, tão grande que não o farei.

Tenho buscado a Deus, para o perdão pelos meus pecados que são enormes. Não procuro cargos em organismos leigos. Tive oportunidade de ser pastor e a recusei...

Sintam-se calmos, todos os incomodados com a minha presença, que nunca mais falarei para um público que, no entender de alguns irmãos, deve apenas ouvir “pequenas verdades”.

Entendo que a coesão das ovelhas da "Central" é um exercício que requer bastante ponderação sob o risco de a despovoarmos. Somos uma Igreja em construção em todos os sentidos. Mas, se apelar ao baptismo e casamento (o que alegraria a qualquer pastor e leigos sérios) é tido como blasfémia, então fico no meu canto.

A terminar, quero pedir ao Reverendo (...) que nunca mais me convide para falar ao seu povo.

Muito obrigado pela atenção que me dispensou ao ler este desabafo.

quarta-feira, outubro 05, 2011

O PAPEL DO CASAMENTO NA SOLIDIFICAÇÃO DAS FAMÍLIAS (SERMÃO)

Data: 18 de Setembro de 2011
Lugar: Igreja Metodista Unida em Angola (central de Saurimo)


… Base do sermão: Salmos 127:1…

Prezados irmãos, muitos de nós estamos na igreja e ouvimos determinadas palavras que não sabemos o significado. Temos um pastor que é bastante pedagógico e de quem devemos seguir exemplos.

Leigos, prezados irmãos, é uma palavra que provém do grego "Laos theon" e significa o "Povo de Deus". São os membros da Igreja que não são ordenados, isto é, que não são pastores. Esta distinção tem a ver com a separação bíblica entre pastor e ovelhas (At 20:28-31. Na igreja metodista os leigos escolhem entre eles um guia, que é o guia leigo, coadjutor do pastor (ordenado). Os leigos compõem a maior parte da Igreja e têm a missão de testemunhar e difundir o Evangelho, bem procurar o Reino de Deus, iluminando e ordenando as realidades temporais segundo Deus.

...
Depois desta introdução que era importante, porque hoje é o nosso dia, quero agradecer ao pastor, por me ter cedido o púlpito que é próprio para os consagrados e não para os leigos.

Da última vez em que fui usado como instrumento de Deus para falar ao seu povo dissertei sobre a missão evangelizadora a que fomos todos incumbidos.

Hoje, dia do leigo metodista, orienta-me Deus que fale ao seu povo sobre o lar, sobre o matrimónio e sobre a família coesa na igreja e na sociedade, enfim, falar sobre a missão dum leigo na igreja de Cristo e na sociedade.

Em tempos ouvimos, aqui mesmo, a grande lição que nos deram as crianças, os nossos filhos, quando do seu dia. É chegada a hora, para nós, pais e mães metodistas de Saurimo, olharmos para nós mesmos e dizermos se somos dignos ou não de sermos pais dos filhos que temos, em casa, na igreja e na sociedade. Por isso, trago uma réplica aos meninos e um desafio a todos os papás e mamã.

Os meninos pregaram sobre a obediência que devem a seus pais, apelando-nos para que não levantemos a ira de nossos filhos. E para que façamos das nossas famílias coesas, felizes, fieis e tementes a Deus.

- Será que estamos preparados para cumprirmos com o que nos pediram os nossos filhos?

- Somos em casa, na igreja e na sociedade uma família unida e que luta para a felicidade de todos?

O Propósito de Deus para a Família

Diz a bíblia em Salmos 127:1 que "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" Significa isso que a família tem de se fundar em Cristo.

Deus nos criou e designou o casamento e a família como a mais fundamental das relações humanas.

Vemos hoje famílias atormentadas por conflitos e arrasadas pela negligência e abusos. O divórcio e as separações entre casais tornaram-se comuns, significando miséria e dureza para as vítimas que são em grande medida as crianças.

Muitos homens nunca aprenderam a ser esposos e pais devotados. Muitas mulheres fogem dos seus papéis dados por Deus.

Há pais que não têm nenhuma ideia de como preparar os seus filhos e vão assistindo os filhos a rebelarem-se contra a autoridade paternal e do Estado.

Outros pais simplesmente abandonam o seu dever, deixando filhos sem qualquer preparação ou provisão.

Haverá uma solução um dia para os problemas que afectam os nossos lares?

Se formos ao livro de (Génesis 2:24) veremos que a família começa com o casamento. Quando Deus criou Adão e Eva revelou o seu plano básico para o casamento: "Por isso, deixa o homem o seu pai e sua mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne". Este plano é tão claro que, milhares de anos mais tarde, Jesus reafirmou que ainda é o plano de Deus. Jesus citou o versículo 24 de génesis 2 e acrescentou, segundo (Mateus 19:6), que" o que Deus ajuntou não o separe o homem".

Prezadas irmãs e irmão em Cristo,

Casais unidos diante de Deus através do casamento gozam o privilégio de terem filhos, e é um propósito básico de Deus que os filhos nasçam dentro de famílias completas com pai e mãe. É isso que nos diz o livro de 1 Timóteo 5:14.

A paternidade e maternidade solteira, que se estão a tornar moda nas nossas sociedades é um afastamento do plano de Deus que terá sérias consequências para as gerações vindouras.

Vejamos então, caros irmãos, os Papéis Dados por Deus Dentro da Família:

A responsabilidade dos esposos é bem resumida em Efésios 5:25: "Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela". O esposo tem que colocar as necessidades de sua esposa acima das suas próprias, mostrando devoção desprendida aos melhores interesses da "parte mais frágil" que necessita da sua protecção. Ele, o marido, tem de trabalhar honestamente para prover as necessidades da família (2 Tessalonicenses 3:10-11; 1 Timóteo 5:8).

Os maridos devem tratar as suas esposas com respeito e honra. A Bíblia diz em 1 Pedro 3:7 “Igualmente vós, maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações.”

Mas não é tudo. Em Colossenses 3:19, a bíblia diz ainda aos homens que “Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não as trateis asperamente.”

Enquanto os pais são especialmente instruídos por Deus para preparar os seus filhos na instrução e na disciplina do Senhor (Efésios 6:4). A maior meta de um pai para seus filhos deveria sempre ser para além da formação, a salvação eterna. E esta é a missão do leigo metodista, buscar a salvação para si e sua família.

Guiar os filhos no caminho do senhor. Trazê-los à igreja aprenderem os caminhos de Cristo, o catecismo, serem baptizados e tornarem-se nos continuadores desta obra.

Mulheres: Esposas e Mães

Uma esposa tem um papel muito desafiador no plano de Deus. Ela tem que complementar o seu esposo como uma auxiliar submissa, que partilha com ele as experiências da vida.

Como devem as mulheres tratar os seus maridos? A Bíblia diz em Efésios 5:22-24 “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos.”

Deus instrui as mulheres para mostrarem uma terna afeição aos seus esposos e filhos, e a ser honestas e fiéis donas de casa. É isso qo que podemos ler em (Tito 2:4-5). Deus pede que se tenha uma elevada estima à mulher que é uma boa dona de casa e uma amorosa esposa e mãe, porque é isso que lhes faz valer o respeito e apreciação do marido e dos filhos (Provérbios 31:11-12,28).

E os Filhos, devem ser seguidores obedientes a seus pais e devem honra-los.

Desta feita, o único caminho pelo qual podemos esperar ter boas famílias construídas nos princípios divinos é voltar ao plano que Deus tem revelado. Temos que estudar a Bíblia, aprender estes princípios, aplicá-los em nossas vidas, e ensiná-los aos nossos filhos e aos outros.

Para ter um bom casamento, o ideal é resolver imediatamente as diferenças. A Bíblia diz em Efésios 4:26 “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.”

Para que uma família seja eternamente feliz dependerá da vigência do casamento… Que a bíblia recomenda para que seja eterno. (Romanos 7:2)

Amados em Cristo,

Muitos estarão já a olhar para o relógio. Não me alongarei.

Cada um de nós deve olhar, não para o irmão ao lado, mas para as suas próprias obras e ver se estão em conformidade com o que nos manda a bíblia.

- O Papá ou a mamã que faz uso excessivo de bebidas alcoólicas que exemplo dá aos seus filhos?

- O papá ou a mamã que no sábado está no Kimbanda e no domingo na igreja acha que está a ser exemplo de bom cristão para a família metodista e para as crianças em casa?

- O jovem ou a jovem metodista que tem mais de um parceiro acha que está a ser um bom exemplo para o irmão ou a irmã mais nova?

E que tal dos pais que se entregam apaixonadamente aos deleites carnais?

São temas, para reflectirmos, todos nós, no nosso dia-a-dia.

Irmãs e irmãos em Cristo,

Estamos aqui porque temos consciência da nossa impureza, mas temos que procurar atingir a perfeição ou estarmos próximo dela. Essa tem de ser a nossa luta, mesmo sabendo que tal meta é difícil de atingir. Um aluno tem de procurar ser o melhor entre os colegas. Um cristão metodista tem de procurar, igualmente ser recto.

Por outro lado, e já a terminar… Caros irmãos, é só mais um minuto.

Somos leigos e temos de pregar sobre aquilo que preocupa o leigo. O pastor tem de saber quais são as nossas dificuldades enquanto ovelhas do seu rebanho para que nos possa ajudar…

Temos nos esforçado no sentido de honrarmos a grande obra do nosso pastor fazendo com que quando o reverendo Isaias Sozinho partir para outra missão evangelizadora deixe infra-estruturas erguidas em Saurimo.

É bom que tenhamos um templo que dignifique a Central de Saurimo, mas a igreja física precisará de um rebanho humano espiritualmente ciente e coeso.

Entre as obras que devem honrar e orgulhar um pastor consta o número de baptismos e casamentos celebrados. Será que nós, os membros da Igreja Metodista Central de Saurimo temos ajudado o pastor a atingir estes marcos?

 Se o pastor estivesse presente eu perguntar-lhe-ia: Sr. Pastor, a sua caderneta pastoral está bem recheada?

 Mamãs e papás, tragam as crianças ao pastor e façam-nas baptizar.

 Jovens namorados, casem-se e formem famílias coesas e protegidas pelo nosso grande Sentinela que é o Cristo.

 Papás e mamãs que viveis ainda no pecado, ou seja maritalmente, casem-se!

Em três frases:

- É importante que nos convertamos e nos façamos baptizar para que sejamos homens transformados e cristãos metodistas convictos.

- É importante que as nossas famílias sejam fundadas em Cristo, com base no que a bíblia nos recomenda.

- É importante que ao lado da fé estejam as nossas obras. Que pratiquemos a caridade e que ergamos os nossos templos enquanto lugar de adoração do nosso Deus verdadeiro, que há-de vir.

---Oração---

Óh Deus, tu que imperas nos Céus e na terra, tu que conheces as nossas limitações humanas, se me permitiste abrir a boca perante o teu povo, faz com que caia chuva e se fertilize a terra. Faz com que esta semente lançada ao teu povo germine e dê frutos. Amém!


sexta-feira, setembro 02, 2011

O "GARIMPO" DA MEDIA ANGOLANA: REFLEXÃO

O JORNALISMO, no sentido restrito, e a comunicação, no sentido lato, são ciências sociais que se pautam pela exactidão.

Já é consabido que a retransmissão, de uma mesma informação, perde, ao longo do processo de emissão/ recepção, cerca de 20% do seu conteúdo. Daí que usar os termos certos, ou seja, ser conciso e preciso é mais do que uma necessidade que passa à obrigação do informante.

Esta abordagem surge em função de alguma desinformação que tem havido nos nossos medias (angolanos) quanto ao uso da palavra GARIMPO.

Já ouvi, em quase todos medias angolanos (impressos, broadcasting, digitais, etc.), notícias sobre pretensos garimpos de água, de luz (electricidade) e finalmente (RNA) um garimpo de terrenos ao Benfica.

Ora, vejamos o que diz o dicionário a cerca da palavra garimpo e acção de garimpar.

O garimpo é a forma mais rudimentar de mineração, pois são localizados em áreas remotas e não contam com apoio de qualquer empresa ou órgão público, sendo muitas vezes considerado ilegal.

Garimpos podem ainda ser definidos como: explorações manuais ou no máximo semi-mecanizadas de substâncias minerais valiosas, como ouro, diamantes, cassiterita, tantalita-columbita, quartzo, ametista, etc.etc.etc. (Amaral, 2010)

Esta exploração de minérios, geralmente valiosos, por meios mecânicos, pneumáticos, manuais e/ou animais, é muitas vezes feita sem nenhum planeamento e com a utilização de técnicas predatórias ao meio ambiente. A actividade do garimpo pode ser desenvolvida a céu aberto nos aluviões ou rochas mineralizadas aflorantes, ou ainda em galerias escavadas na rocha. Pode ser uma actividade altamente predatória ao meio ambiente se não for realizada com o devido cuidado ambiental.

Portanto, caro comunicador, evite dizer garimpo de água, garimpo de luz (energia), garimpo de terrenos, etc. garimpo é somente para minerais.

segunda-feira, agosto 01, 2011

DESMISTIFICAR MITOS SOBRE A LUNDA

- QUANDO E POR QUE DEIXARAM OS LUNDAS DE EMPREENDER?

Tornaram-se comuns vozes pouco avisadas proferirem impropérios contra os povos da Lunda como sendo “improdutivos e, sobretudo, pouco dados à agricultura, ao comércio e aos estudos”. Para desmistificar tais argumentos precisamos de recuar cerca de cem anos de história deste território até ao início da exploração de diamantes.

Antes da descoberta do minério, a Luanda era constituída por povos agricultores, caçadores, apicultores e recolectores. A mandioca e leguminosas como a katapi (amendoim) despontavam entre a produção agrícola para a subsistência. A caça sempre foi um hobbiy e principal actividade masculina de suporte à alimentação (os tucokwe são grandes comedores de carne e possuem florestas onde abundam animais). A caça do elefante (extracção do marfim) e a produção da cera para o comércio com Kasanje (Malanje) foram outra das principais actividades dos tucokwe nos sec. XVIII e XIX. Por outro lado, sempre houve e há ainda nos dias de hoje uma grande entrega destes povos à pesca nos rios e nas chanas alagadas. A olaria, a escultura e outras artes também eram notórias e os europeus fizeram grandes descrições sobre as riquezas artísticas, culturais e agrícolas dos tucokwe à sua chegada ao território de Mwata Yanvua.

O mel e o fel dos diamantes
Se, por um lado, a existência de diamantes em abundância nas terras de Mwacisenge deve ser sinal de regozijo, por se constituir em riqueza mineral e de grande valor comercial, as medidas tomadas para propiciar a sua exploração (semi-artesanal controlada) e outras para evitar a sua extracção e comércio irregulares levaram a Lunda a um adormecimento sem precedentes.

Com a criação DIAMANG em Outubro de 1917 e com direitos exclusivos sobre o território e povos do nordeste de Angola, a região foi governada pela empresa diamantífera como se de um “outro Estado se Tratasse dentro de Angola”. Todas as actividades como educação, saúde, construção de edifícios e estradas, desenvolvimento agrícola e comércio, abastecimento e segurança, etc., passaram sob tutela exclusiva da DIAMANG que apesar dos enormes benefícios económicos que obteve da exploração diamantífera não teve a noção de Estado e de desenvolvimento dos povos e da região.

A título de exemplo, nos territórios mais a norte (Lunda Norte) o ensino estava circunscrito à 4ª classe. Os autóctones não podiam ser muito instruídos para não se aperceberem dos males que estavam a ser praticados e que comprometiam o seu futuro. Não havia movimentação de pessoas nem trocas comerciais com outros territórios, a iniciativa privada estava proibida. Os efectivos economicamente activos eram todos empregues na exploração diamantífera (semi-artesanal e com bastante absorção de mão-de-obra barata), ou nas monoculturas da baixa de Kasanje, etc.

Com este tipo de gestão territorial e humana seria difícil o desenvolvimento de actividades que não fossem aquelas ligadas à mineração e às roças de algodão e sisal em Kasanje.

A Lunda dos tempos da DIAMANG tinha duas capitais: uma era a administrativa (Henrique de Carvalho), por se situar a sul e com menor potencial diamantífero, e outra, a capital produtiva ou técnica, (Dundo) onde se concentrava toda a indústria suplementar à extracção, os técnicos expatriados, o museu, a administração da actividade diamantífera, etc.

Como se não bastasse, já alcançada a independência, embora se pretendesse governar o território em moles diferentes, a existência de potencial diamantífero ainda ditou a gestão diferenciada do território.

O Decreto presidencial 84/78 de 4 de Julho separava a província da Lunda em duas províncias conforme a sua vocação económica. A Lunda ao sul com a sua capital Saurimo que passou a ter uma gestão normal, e a Lunda ao Norte, com a Capital fixada em Lukapa, com uma gestão política e administrativa atípica. E o presidente Agostinho Neto justificava: “esta área, segundo discussões que tivemos no Comité Central do nosso partido MPLA, é uma área especial e, por isso, não poderá viver como nas outras áreas, como nas outras províncias. Esta é uma área de produção de diamantes. E, dado que tem existido o comércio ilícito, a kamanga, nós passamos a tomar algumas medidas… para poder suster esta actividade desonesta que prejudica todo o povo. Uma dessas medidas será a restrição das entradas de cidadãos, de compatriotas nesta província… vamos fazer com que não seja fácil vir a Luanda Norte e chegar ao rio Kwango…"

À semelhança das leis da antiga DIAMANG, um estatuto especial foi definido para a Lunda Norte, Lei C/80 de 25 de Junho, impondo uma restrição rigorosa de entrada e circulação de pessoas e bens (e do conhecimento), proibindo-se, deste modo, o exercício de qualquer actividade económica na província. A Lei 16/88 de 17 de Setembro tornava extensivas as restrições à província da Lunda Sul.

Foi neste quadro que os povos da Lunda perderam os antigos hábitos de agricultura, desleixaram-se um pouco das suas artes, abandonaram o empreendedorismo e o comércio, votados a uma escolaridade que não passava do ensino de base e com uma gama de serviços públicos deficiente. No período de guerra, em que inexistiram as empresas de exploração mecânica de diamantíferas, todo o povo foi à kamanga que por ser de rendimento imediato, embora perigosa, acabou por retirar da agricultura e do exercício de outras actividades socialmente úteis as populações rurais, remetendo-as a um atraso ainda mais profundo.

O hoje e o amanhã
Sendo a vida dinâmica, crescendo com ela os desafios, urge, alterado que está o quadro histórico, político e económico, regressar às boas práticas, ao passado que transcenda os dias negros da DIAMANG e olhar com optimismo para os dias vindouros. É preciso arregaçar as mangas e caminhar porque o futuro de Angola e da Lunda é agora.

É preciso fazer os campos florirem para que rapidamente alcancemos a auto-suficiência alimentar; fazer renascer a pequena e a média industria transformadora e, quiçá mesmo, uma industria pesada que concorra, em termos de absorção de mão-de-obra e tecnologia, com a industria diamantífera; fazer ressurgir o comércio de proximidade e em grande escala; as artes e ofícios devem ocupar o seu merecido lugar na escala social; os filhos devem ser levados à escola e os doentes aos hospitais; aproveitar as potencialidades turísticas e não olharmos apenas para as riquezas do subsolo que são finitas... Se assim procedermos, queimaremos etapas. O executivo e os cidadãos devem fazer, cada qual a sua parte, para a reconstrução e crescimento deste grande edifício territorial e social que é a Lunda.

BIBLIOGRAFIA

KI-ZERBO, Joseph: História da África Negra II, Pub América- África, Paris 1982.
MANASSA, João Baptista: Lunda, História e Sociedade, Mayamba, 2011.
REDINHA, José: Etnossociologia do nordeste de Angola, Lisboa 1949,
SANTOS, Eduardo: A questão da Lunda, Lisboa 1966.