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segunda-feira, setembro 01, 2014

A ORALIDADE NO MEU PERCURSO COGNITIVO

O Processo cognitivo é um conjunto de factores sociais, que vão dos informais aos formais, a que alguns teóricos acrescentam outros de ordem biológica ou genética. A família (restrita e alargada) a comunidade e os grupos sociais são os primeiros intervenientes no processo cognitivo do ser humano, sendo que no caso da civilização bantu, a oralidade é a via mais expedita para a transmissão de conhecimentos e valores.
Uma das cadeiras da minha primeira instituição de ensino, o Jango, consistia na formulação de perguntas e respostas.
Para além dos mais velhos, os depositários do conhecimento, havia ainda os monitores, senhores e jovens já amancebados ou não, com alguma experiência de vida, conhecimentos comunitários, sociais, antropológicos e históricos que cobriam as ausências do mestre e o auxiliavam na missão de formar os novos seres (masculinos): cantando e ensinando novas canções, contando lendas, estórias e História, explicando aos jovens a ordem social, as árvores genealógicas (paterna e materna), etc. A oralidade era (e é onde a escola moderna convive com a tradicional) a via principal.
Adivinhas e respostas, anedotas, aforismos, adágios e seus sentidos lógicos (pedagógicos), interpretação do tempo (o senso comum também esboça explicações sobre a astrologia e meteorologia) faziam parte do conteúdo programático do Jango.
- Kandundulu bwo!
- Mu museke oxeyenamo?!
Vemos aqui um caso “curioso”(?) em que uma afirmação exclamativa é argumentada com uma pergunta/resposta. Ilógico no pensamento europeu mas lógico no raciocínio bantu (povos ambundu da variante Kibala, Lubolu), na medida em que a pergunta/resposta quer dizer somente que “depois da defecação, não se poder limpar o ânus arrastando as nádegas na areia”.
 Em “a yaya a yatoka!” (uns vão outros vêm), uma adivinha que na acepção do pensamento linear europeu pode ter vários significados, obtemos como resposta “ombundu” (as nuvens).
Fazendo uma adaptação aportuguesada dum aforismo ovimbundu, que me chegou por via do meu confrade Daniel Gociante Patissa, “só à arena é que não íamos, mas o som da música sempre nos chegou ao ouvido”. Embora as nossas línguas bantu não tivessem alfabetos estruturados e conhecidos, até há poucas décadas, conhecimentos sempre tivemos e sempre foram transmitimos por via da oralidade.

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