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sexta-feira, março 14, 2014

O CARNAVAL DO RANGEL E A HOMENAGEM QUE FALTA A MAM-BRÁS

"Mamá, atuzemba. Atuzemba, atuzembel´anhi?! (Mamã, não gostam de nós. Por que não gostam de nós?!) Quando vai aí, Atuzemba está com o povo. Quando vem aqui, Atuzemba está com todos"
O refrão que já leva muitas décadas pertence ao grupo carnavalesco ATUZEMBA, do distrito urbano do Rangel, em Luanda. Não venceu o desfile central enem sei se desceu à nova marginal para dançar sob os olhar silencioso (sob olhos secos) do Camarada Manguxi que repousa ali no seu mausoléu...

A coroa do carnaval de Luanda voltou, em 2014, ao Rangel, mercê da soberba actuação do União Sagrada Esperança, do bairro (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, Rua da Mão e do Povo, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “carnaval da vitória” que se realizava em Março, para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, a 27 de Março de 1976, depois da invasão estrangeira que visava inviabilizar a proclamação da independência de Angla pelo MPLA.


No Rangel, dançávamos ao carnaval da vitória com o Grupo Atu Zemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), União Mãe Ya Ndengue, Andorinhas, União Povo do Rangel, União Juventude, e tantos outros que animavam o município inteiro, antes e nos dias do desfile. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, puíta, chocalho, etc. O rei e sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso e da espontaneidade. A criatividade também morava connosco e já se dizia que corria no sangue.

Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos, em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina”, era o Mam-Brás, exímio vocalista de carnaval, dançarino e tocador de ngoma e puita. Mam-Brás sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir e alimentava-se frequentemente de carne que lhe era ofertada pelas quintandeiras que apreciavam os seus toques e retoques de dança carnavalesca.

Depois da exibição, perguntava sempre:


- Há uma gordurinha? - O homem referia-se a miudezas que voluntariamente lhe eram ofertadas.

 Seguindo o som do seu batuque, muitas crianças chegavam a se perder, dando lugar a outro tocar de lata, desta vez, por parte das famílias cujos petizes se perdiam no rasto da ngoma do Mam-Braz que continua o seu percurso.
- Nanhi wa ngi bongela kamona ka dyal'ê?! (Quem terá encontrado  uma criança de sexo masculino?!)

Fruto disso, muitas mães preferiam mandar parar o Mam-Brás e tocar por alguns minutos à porta de casa, oferecendo-lhe depois aquilo que houvesse. Assim, as crianças deixavam de o acompanhar. Mas não era a mesma coisa ver o Mam-Braz tocar à porta de nossa casa e vê-lo exibir-se em rua livre ou na Praça das Corridas.
Mam-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Mam-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.
O Mam-Brás vivia na Rua Pernanbuco, também conhecida nos últimos tempos por rua do “ti Avelino dos Santos”. Pernambuco, a Joana, era uma exímia dançarina cuja história não me atrevo relatar por falta e precisão de dados. Mas que foi tão boa a dançar ao ponto de ganhar o nome de uma das ruas do Rangel, isso ela foi.
Apesar de sofrer de distúrbio mental, Mam-Brás tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.
 
Mam-Brás, que ainda faz ecoar no meu ouvido a nossa alegria de criança esboçada com o refrão: Mam-Bragéé-é, Mam-Bragéé-é!,  e o meu homenageado neste carnaval de 2014, cujo vencedor, em Luanda foi o União Sagrada Esperança do Rangel que homenageou a Rainha Njinga Mbandi.
Que o próximo homenageado seja o Mam-Bragéé-é, Mam-Bragéé-é!
 

sábado, março 01, 2014

ALÔ, SENHOR DEPUTADO, GRAFIA DAS CIDADES VAI AO PARLAMENTO

Acabei de ler no jornal de Angola (edição de 26 de Fev. 2014) que o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada.

Lê-se na notícia que Bornito de Sousa, o Ministro, falava durante um encontro com jornalistas e esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra k e a introdução do c.

O Ministro informou ainda, cito o Jornal de Angola, que os topónimos para as comunas, municípios e localidades “têm como base a grafia em português, a língua oficial”.
Uma fonte conhecedora do assunto escreveu (F.B., 26.02.2014) que o que o MAT orientou aos media para aplicação rigorosa é “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola, a fim de buscar uma harmonização da grafia”, sendo que, segundo ainda a mesma fonte, “o MAT está a querer ser apenas rigoroso e agir em conformidade com o que está legislado”.
Na busca de uma Lei nova que esteja adequada com a nossa realidade actual, com a nossa cultura, segue a fonte, o MAT está a preparar o projecto de Lei sobre a Toponímia que será trazida a debate público para as contribuições de todos e, desta forma, em conjunto, encontrar-se a melhor solução para este problema.
Três  perguntas:
- Por que foi “impingida” aos órgãos da comunicação social a aplicação rigorosa de uma lei de 1971 que corrige para pior determinados topónimos surgidos ou já rectificados no pós-independência? Coloco aqui o exemplo do Kuando Kubango e Kwanzas Norte e Sul.
- Afinal de contas, que documento o MAT pretende levar ao poder legislativo? O projecto de lei ainda desconhecido ou a Portaria de 1971 que não admite a utilização das letras K, W e Y (constantes dos alfabetos convencionados pelo nosso Governo através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República)?
- Na eventualidade de se pretender levar ao Parlamento ou a uma consulta mais alargada uma nova proposta de lei, com que contribuições, dos mais distintos círculos da sociedade angolana, conta o MAT na fase de elaboração do documento?
Pedido aos ilustres representantes do povo à Assembleia Nacional
 Senhor Deputado, a grafia das cidades vai ao parlamento. A decisão está no seu voto.
Kumbi lyu tunga zemba lyu xika mwixi! (O dia de construir o palácio é o de assobiar!). Não se pode perder uma oportunidade singular.
 Se você é um deputado defensor dos valores africanos de origem bantu, defensor das nossas origens, da grafia dos nossos nomes de acordo aos significados que encerram e a nossa identidade cultural, sei que vai votar CERTO.
 Basta reflectir no seguinte: o nosso maior rio de Angola que dá nome à nossa moeda deve escrever-se com CU ou com KW?
·      Espero que até à chegada da proposta de lei ao poder legislativo, os representantes do povo consultem sociólogos, linguistas, antropólogos e historiadores, para que o trabalho de casa esteja feito. Que os deputados da maioria e da minoria não cumpram apenas a "disciplina Partidária”. Estudem o assunto, busquem consultoria, façam o “dever de casa” e votem em consciência representando os vossos eleitores.
Até lá, até que se esclareça se o que vai ao Parlamento é a Portaria de 1971 ou uma Nova Lei, espero que consigamos (opinion makers) influenciar os Governantes e Legisladores, discutindo e opinando de forma aberta, alargada e desapaixonada. Vamos buscar consensos. Vamos buscar posições que não nos levem a mudar de leis quando um dia vierem outros homens a governar Angola. O Partido pode ser o mesmo mas os homens e as mentalidades, tenho certeza,  serão diferentes.
Seja o que for e venha o que vier. É preciso investigar, idoneamente!