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sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A "GUERRA" DOS TOPÓNIMOS: FINALMENTE FOI DADO UM PASSO

O aeroporto do Namibe deixou de se chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a  planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo sido cadastrada pelo botânico Fredrich Welwitch com a designação de Tumboa. Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome actual  (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).

Apesar de se ter apenas mudado o nome de um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no pensamento político-cultural dos governantes angolano. Chego à conclusão de que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso,  pelos portugueses. Para os povos  bantu, cada substantivo/nome encerra um significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo os topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.

Continuo a considerar que os topónimos angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou seja rebaptizados.
O estudo da Direcção Nacional de Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados, dada a ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos topónimos de origem bantu, obedecendo-se, neste caso, às designações da administração colonial.
Com todo o respeito que me reservam os responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o “documento em construção”  tivesse força de lei.
Haverá incapacidade, de nossa parte, para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia? Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza, seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin, que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que a capital da Lunda Sul seja Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango e a sua capital Vunonge.
Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja Cikala Co Lohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…
Pode ser que o tempo me derrote, mas não custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e futuro, a todos diz respeito.

sábado, fevereiro 01, 2014

KWANZA-SUL OU CUANZA-SUL?

Em conversa no chat do face book, o meu amigo Isidoro Natalício colocou-me a questão da grafia dos nomes de origem bantu (topónimos e antropónimos). Referia-se o amigo Isidoro que a TPA tem-nos escrito de forma diferente àquela que eu uso na grafia dos "nossos" nomes.

Tendo em conta a importância do assunto, ainda que o debate e as conclusões sejam superficiais, julguei oportuno partilhar as ideias que defendi nesta página que é menos volátil ao tempo.
 
1º - Os topónimos obedecem, para além da atribuição da designação, a um registo. Esse registo é válido até que o topónimo mude de designação ou se corrija a grafia. Para exemplificar, devo dizer que nos cadastros, a província angolana a sul do rio Kwanza está registada "erroneamente" como "Cuanza-Sul" em vez do que seria expectável, Kwanza-Sul. O mesmo se pode aplicar ao meu nome, Canhanga, que devia grafar-se Kanhanga para obedecer ao alfabeto convencionado pelo CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), combinado com a Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da Revolução. 
 
2º - As regras do CICIBA para a ortografia das línguas bantu diz que a letra C tem o fonema equivalente ao dígrafo Tx e ainda pelos grupos consonânticos TCH e TSH. Exemplos: Cikala-Cyolohanga, Cindjendje, Citembu, Civingiru, Citende Cya Zango, Cipalavela, etc.

Sempre que as vogais I e U estejam  junto de outras, as primeiras devem mudar para Y e W. Exemplo: "muanha" (sol) deve grafar-se correctamente "mwanha); "diniangua" (abóbora) deve grafar-se "dinyangwa"; "kizua"=kizwa, etc. 

Para obtermos o fonema equivalente em Português a "C" devemos grafar "K". Kanhanga, Kambundi-Katembu, Kalulu, Kahála.
 
Não sou telespectador atento da TPA e não sei dizer se grafam de acordo aos registos portugueses ou se de acordo ao alfabeto das língua bantu. De uma coisa, porém, tenho certeza: É preciso corrigir urgentemente os registos dos nossos topónimos (calculo que o MAT- Ministério da Administração do Território-  tenha já um projecto nesse sentido) e passar-se a exigir que haja uma grafia correcta dos topónimos de origem bantu.

Não se pode aceitar que a nossa moeda seja Kwanza e o rio que lhe dá o nome ainda se designe Cuanza. O que se passa hoje é que não há rigor. Cada escreve como bem entende. Eu que sou adepto da grafia segundo a originalidade dos nomes, tenho grafado como será no futuro. Para o presente, pode ser que alguém considere o meu procedimento errado.

Obs: 
A 30.01.2014 tive acesso ao documento "Divisão Política Administrativa e Topínímia de Angola", elaborado pela Direcção Nacional de Organização do Território. O mesmo retoma apenas os "baptismos" coloniais e não propõe alterações à redação dos topónimos de origem bantu.

Vim ainda a saber, de um amigo internauta (comentários ao artigo publicado no Club-K), que o MAT remeteu essa lista aos Órgãos de Comunicação Social, públicos e privados que, de imediato, passaram a grafar os topónimos angolanos segundo os cadastros coloniais.
A título de exemplo, a minha circunscrição natal, Munenga, é condificada como: MUNENGA, COMUNA DO LIBOLO, CUANZA SUL (AOCS70 60 02).
      AOCS070602
-Munenga