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quarta-feira, março 10, 2010

A ADAPTABILIDADE DO METODISMO UNIDO ANGOLANO

O Metodismo Unido, ramo da religião cristã evangélica, nascido nos EUA, chegou a Angola em Março de 1885 com o Bispo William Taylor à cabeça, tendo percorrido, na sua expansão a partir de Luanda, as regiões de Dondo, Nhanga-a-Pepe, Quiôngua, Quessua e Quela, expandindo-se destes pontos para grande parte do país. Tal como afirma o bispo Emílio de Carvalho, no prefácio do Hinário Povo Cantai: (Núcleo, Queluz, 1982), "o metodismo nasceu a cantar...".

Apesar da sua chama sempre activa e acesa, a guerra e as suas consequências demográficas e sociais que o país viveu condicionaram o Metodismo à região Litoral e um pouco pelo Centro, atingindo dificilmente as regiões Leste, Nordeste e Sudeste de Angola, onde os Metodistas Unidos apenas nos últimos decénios marcam os seus primeiros passos. É exemplo desta comnstatação a Lunda Sul. Fruto deste tardio enraizamento pela região Cokwe e Nganguela assistimos à escassa ou mesmo inexistência da tradução da literatura metodista (hinário, bíblias e códigos litúrgicos) do portugês para essas línguas à semelhança do Kimbundu, Kikongo e Umbundu que possuem secções musicais no Hinário Povo Cantai.

O Metodismo Unido é, porém,  uma organização cristã que se adapta e que procura os melhores métodos de fazer chegar o evangelho aos confins da terra. No nordeste de Angola, onde não há tradição religiosa (1) cristã, os metodistas associam à música e dança, captados da cultura religiosa dos evangélicos congoleses, aos hinos e cânticos tradicionais do metodismo. Assim, ele cresce e se adapta às características socio-culturais das ovelhas que arregimenta para o seu rebanho. É, em suma, um diálogo entre a matriz básica e as novas tendências ou as exigências do presente para uma evangelização mais humanizante e ao serviço dos homens.

Outra nota dominante no nordeste é o uso do bi-linguismo na pregação do evangelho e outros serviços da Igreja, motivado pela inexistência de bibliografia na língua nativa, o cokwe, e existência de membros leigos que não dominam a língua portuguesa, principal veículo de comunicação em Angola.

A tradução das mensagens (bíblica e anúncios) torna os cultos mais demorados, porém mais inclusivos, abrangentes e educativos, já que as línguas de serviço se tornam em elementos de aprendizagem comum e meditação (português/cokwe e vice-versa). Por outra, é sabido que a mensagem se torna mais incisiva e menos ambígua se transmitida na língua do receptor o que valoriza ainda mais esta experiência.
A inexistência de uma secção em cokwe no hinário metodista unido é motivo para se fazer um convite aos linguistas e teólogos de várias denominações religiosas evangélicas do nordeste a assumirem tal desafio, superando-o, já que o protestantismo, nas suas numerosas manifestações, tem mais elementos comuns dos que díspares, incluindo a hinologia. Tal tarefa começaria pela tradução dos hinos conhecidos e cantados em português, kimbundu, umbundo e kikongo, bem como a introdução de novos hinos que não figuram no hinário metodista.

Tal como pregava o finado pastor metodista Teixeira Samuel, "Cantar também é evangelizar". Com esta nova forma de evangelizar, "juntemo-nos e levemos o envangelho do Senhor a todos os moradores da terra"!
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NOTA: O autor é membro da Igreja Metodista Unida desde 1984, com passagem e convivência com pessoas de outras denominações religiosas cristãs.
1- Grande parte dos habitantes rurais do nordeste acreditam em práticas animistas politeístas, crença metafísica e feiticista, bem como veneram os antepassados