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quarta-feira, setembro 16, 2009

NO JORNALISMO ANGOLANO: É PRECISO SEPARAR O TRIGO DO JOIO

Desde 2006 que despi a camisola de jornalista, mas como formado e profissional da área não posso assistir ao “ladrar dos cães e ao passar da caravana”. E é refugiado nesta pele de comentador de factos que assisto, participando do debate de ideias.

Há muito tempo temos vindo a ser brindados pela media com a intragável arte de transformar navios em bragres. Acontece na imaginação. A propaganda o tenta, mas as consciências sempre despertam. A minha abordagem de hoje tem a ver com o que assisto na classe jornalística. Quando o debate é sobre “se devem ou não ser considerados jornalistas apenas aqueles que têm graduação e equivalência em ciências da comunicação”, dia após dia vimos fabricados outros jornaleiros vindo de outras “artes”.

O jornalismo áudio-visual em Angola é aos olhos do povo a profissão mais fácil de se exercer. Pensa-se que não se estuda, não se aprende, nem se faz carreira. Todos os dias há transformação, à escala industrial, de novos homens e mulheres de microfone na mão. Qualquer músico, actor de teatro, taxista, animador de eventos ou mesmo “roboteiro” aparece perante as câmaras televisivas ou em qualquer programa radiofónico a intitular-se de jornalista e todos, passivamente, acenamos a cabeça, aprovando-o no silêncio. É triste que assim aconteça.

O caso mais recente e ainda em voga tem a ver com um animador de festas que surge na televisão pública num programa que incita a rixas entre grupos de kú duro. O outro é um “adolescente" do Bié que a máquina propagandística da Orion quer que o tratemos como jornalista, forçando-o a pseudo-reportagens que são despejadas a bruto pela televisão pública. É que o jovem nem sequer consegue (nas suas pseudo-reportagens) pronunciar nomes como Deolinda Rodrigues e já "é jornalista”!

Se o tempo que trazemos às costas é carregado de muita tarimba, mas com debilidades em termos de formação que, felizmente, muitos decanos vão anulando com formações específicas e treinamentos, disseminar outros pára-quedistas seria o mesmo que matar o jornalismo angolano.
Que país teremos com profissionais da media que não sabem sequer escrever uma frase com sujeito e predicado ou pronunciar correctamente palavra e meia?

É mister que, sobretudo, a nossa televisão diferencie os seus programas comerciais ou propagandísticos dos noticiosos/informativos, fazendo com que o conteúdo e apresentadores destas atordoadas se apartem do compromisso noticioso, deixando assim de nos confundirem a todos.

Também é míster que o governo regulamente a lei de imprensa, há mais de dois anos aprovada pelo parlamento, e que se criem outros mecanismos reguladores da classe, como uma ordem ou uma comissão para a atribuição e cassação da carteirade profissional.
Julgo que para se ser jornalista não basta abrir a boca nem exibir dotes e poses corporais. É preciso sim, cérebro, escola e muito trabalho, daí que,

É preciso separar o trigo do joio no nosso jornalismo e deve ser para já!
Luciano Canhanga

sábado, setembro 05, 2009

ACERTOS FULCRAIS NA ASSESSORIA DE IMPRENSA

Há no jornalismo erros capitais como faltar à verdade ou não compulsar dados, manipular, entre outros* . Na assessoria de imprensa há "acertos capitais", dos quais falarei sobre 4, radicando a minha pequena análise num facto concreto.

A.C. é oficial superior da polícia angolana com cargo de direcção. Chamado à TPA para uma entrevista, A.C. apareceu fardado com galões e, enquanto formado em direito, não defraudou, recorrendo diversas vezes à lei e seus articulados para argumentar determinadas medidas e procedimentos da polícia. Até aqui tudo bem.

Notei, porém, que sendo a entrevistadora uma jurista, há muito na profissão e A.C. também um jurista mas há pouco tempo formado, houve uma "temeridade" por parte deste em relação à entrevistadora a quem trataou por diversas vezes por Dra. Nada de errado, mas fez transparecer alguma "subordinação moral" como que de um ex-aluno se tratasse.

Notei também em A.C. que embora usasse um discurso vertical e nada titubiente nas respostas, o que é próprio de um comandante, serviu-se vezes sem conta dos papéis, ou pelo menos desviou o olhar das câmaras, fixando-o no acervo de que era portador.

Para este exemplo concreto, e como a permissão que o meu kota me daria para a análise situacional, sou a enumerar alguns "acertos fulcrais".

1- O Jornalista não "é Dr." (entrevistado ainda que o saiba deve evitar essa referência).

2-O entrevistado (Dr.) não leva livros à entrevista, nem olha para papéis na hora da resposta.

3-O entrevistado (que é o Dr.) solta-se no discurso, olha para a câmara que personifica os telespectadores e "ignora" o entrevistador (não olha para ele).

4- O entrevistado veste-se segundo as circunstâncias da entrevista, o facto motivador da mesma ou a posição que ocupa no ofício.

*-. Heródoto BARBEIRO (www.fae.br/Noticias/n426.html) enumera sete erros capitais do jornalismo que a seu ver se resumem em: 1-invasão da privacidade, 2-manipulação da notícia, 3-assassinato do personagem (denúncia e condenação antes de apurar os fatos), 4-abuso de poder (jornalismo não é o quarto poder na constituição), 5- envenenamento da mente (tentativa de manipular, de fazer a cabeça das pessoas, de alinhá-las a esta ou aquela doutrina), 6-culto de falsas imagens (visando o sensacionalismo) e 7- colaboração para uma sociedade que explora o sexo.


Luciano Canhanga